domingo, 20 de maio de 2018

Senhor de Matosinhos


No interior do santuário barroco o que mais se destaca é o brilho ofuscante da talha dourada e uma Nossa Senhora de Fátima na ala lateral. Cá fora, no coreto, estão colocadas as cadeiras e os atris para a banda de música que vai atuar – A Banda Filarmónica de Santiago de Piães, Cinfães.  No edifício, por detrás da igreja, as janelas estão engalanadas com tecidos vermelho Bordeaux. Depois, as várias diversões: carrosséis, mini montanhas russas, barraquinhas de comes-e-bebes e vendedores de quase tudo, onde não falta a cigana Romena a assediar casais idosos para lhes vender pensos.
 No anfiteatro está a acabar de atuar o Rancho Folclórico Dom Nuno Álvares Pereira, de Leça do Balio. Gostaria de identificar o nome de todos os instrumentos, conheço os mais fáceis: a concertina, os ferrinhos, o reco-reco, o cavaquinho. E as peças de roupa, os tecidos com que eram confecionados:  os lenços para a cabeça, as faixas a apertar as calças dos homens, os chapéus de palha, tamancas, coletes, saias e meias.  
 Segue-se o Grupo Etnográfico do Ferrol, Galiza. Tem os tradicionais gaiteiros, as pandereteiras e os bailarinos que batem as castanholas nas palmas das mãos marcando o ritmo da dança e as mudanças de passo. Dois casais dançam agora no palco -  imagino que seria uma dança de namoro, uma forma de sedução - os homens fazem posses para as mulheres e estas com uma broa de milho na cabeça vão dançando e se deslocando de um lado para outro, sempre muito empinadas, para que a broa não caia ao chão - enterneço-me com esta demonstração de talento feminino.   




Outros Olhares…

 Apanho o metro para a estação do Bolhão. Entram três jovens Polacos: duas mulheres – uma delas com um piercing na língua - e um homem. julgo que são polacos pelo som da língua  e identifiquei algures um Dzien dobry: “Bom Dia”. A do piercing  olha para mim, desvio o olhar, mas volto a cruzar-me com o dela. A amiga sai na estação de Sete Bicas. A carruagem vai cheia, estou de pé, de costas apoiadas contra o vidro da porta, virado para ela. Voltamos a trocar os olhares. O amigo despede-se dela com um beijo na cara e sai na estação de Carolina Michaelis. Ela continua de pé - agora está sozinha. Coloca os auscultadores e move muito discretamente o corpo ao som da música que está a ouvir. Olha mais uma vez para mim antes de sair na Trindade. Eu saio intrigado na estação do Bolhão a pensar no significado destes olhares ou se não terá sido tudo impressão minha.   

Cheguei à paragem de autocarro na rua Alexandre Herculano. Uma fulana vestida com um casaco branco de lã, os botões bem apertados - como se estivesse muito frio, apesar do calor que fazia – e calças de inverno, veio ter comigo. Olhou-me nos olhos, eu olhei para ela. Houve uns breves segundos em que estivemos a olhar um para outro em silêncio. Depois ela perguntou:
- Podia-me dar 40 cêntimos para eu tomar um café?
Apenas fiz o gesto que não com a cabeça. Ela afastou-se docilmente, sem insistir.  Não parecia drogada, tinha um rosto suave e elegante, sem o desgaste causado pela toxicodependência. 
Por que não lhe dei os quarenta cêntimos? Não me teria custado nada, eu tinha trocos suficientes.
Ela continuou a deambular pela paragem, parecendo insinuar-se discretamente para mim. Não havia mais ninguém, além de nós os dois, entre o muro da garagem, os cafés adjacentes e os autocarros parados a fazer horas para arrancar. 



sexta-feira, 30 de março de 2018

Caminho Português da Costa: Vila Praia de Âncora - Caminha





Vila Praia de Âncora – Caminha  (cerca de 9 Km)            

Vila Praia de Âncora – Moledo – Caminha

O Albergue D`Avenida, em Vila Praia de Âncora, tem uma excelente decoração retro. Alinhadas num dos bancos estão várias revistas “Crónica Feminina”, dos anos 60. A revista número 173 é de 1960. Custa 1,50 escudos e no ultramar 2 escudos. Tem a fotonovela a preto-e-branco “Sublime Renúncia”, conselhos de beleza, moda, contos, notícias das socialités contemporâneas: a princesa Malika, filha do sultão de Marrocos, colocou-se à frente de um grupo de enfermeiras para ajudar os órfãos do terramoto de Agadir; Lúcia Bosé na praia de Cannes com os filhos Miguelito e Paola Dominguín. Noticias acompanhadas pelas respetivas fotografias a preto-e-branco.
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branco ou em cores


Varanda do Albergue D`Avenida

O edifício do albergue visto do areal


Apanho uma saraivada tremenda e abrigo-me debaixo da pala do centro desportivo de VPÂncora. O céu está de um cinzento muito escuro no cume das serras, o vento uiva. Espero alguns minutos. O mar está agitado, é impossível ir à água, contudo passa por mim uma mulher em fato de mergulho. O guarda-chuva não serve de nada com este tempo terrível, só mesmo o fato de mergulho resulta. 
Para piorar, começou a trovejar. Tenho a tentação de desistir e apanhar o comboio para o Porto. Não me agrada ter que caminhar nestas condições até Vila Nova de Cerveira, a meta de hoje. O tempo melhora e sigo pelo caminho das Gamboas - ecovia do Atlântico - até Caminha.
Entro na mata do Camarido e assusto-me com a inclinação de alguns pinheiros, apresso o passo e corro  sempre que tenho que passar debaixo de um deles. 
Mata do Camarido
Volta a chover copiosamente. Procuro um restaurante para almoçar e ao mesmo tempo me resguardar da chuva. Encontro o Restaurante Paladar, na rua Conselheiro Miguel Dantas - prato do Dia 6, 5€:  Incluí pão, sopa, bebida, prato e café. As duas senhoras que me atendem são muito simpáticas. De repente falha a luz e acontece um momento surpreendente: elas distribuem velas pelas mesas e fico a almoçar literalmente à luz da vela. Há poucos clientes, a maioria são espanhóis. O ambiente fica mais íntimo.

 É  quando decido voltar para casa, o tempo continua sem melhorar - até a eletricidade falhou  - para quê estar a mortificar-me? Ainda poderia apanhar trovoada até Cerveira, não valia a pena o risco e não estava preparado para condições tão adversas.
Entrei na pastelaria Petinga Doce, a mais antiga de Caminha. Criou o doce tradicional “Moca” há mais de 70 anos. Compro uma caixa de 6 unidades para provar nesta Páscoa. 

As mocas de Caminha

Regresso no comboio regional da linha do Minho das 14:47 - Caminha – Porto.
 Preço do bilhete em 2º classe:  9,80 €.

Paragem do autocarro no regresso a casa:
Converso com 2 indivíduos. O mais velho  deve ter quase 80 anos e o mais novo 60 e muitos.
Diz o mais velho: Hoje já vim a pé desde a Areosa até Campanhã.
O mais novo: Hoje também tive que caminhar bastante, apanhei o comboio em Pombal e não imagina o que corri e andei para chegar à plataforma.
Nenhum deles me perguntou por que motivo eu estava com a mochila às costas, eu também não expliquei.
O mais velho viveu na África do Sul, no período do Apartheid. Teve um patrão Holandês que queria casar a filha com ele.
O mais novo: A filha era boa?
O mais velho: Era.
O mais novo: Isso é que foi pena você não ter casado com ela.
O mais velho: Eu já estava noivo.
O mais novo: Não faz mal, f*****com as duas!
Palavra puxa palavra, começaram a falar da porcaria que é este país. O mais velho estava muito arrependido de ter deixado África; o mais novo vivia em França e só vinha cá de vez em quando – não queria viver em Portugal: “Uma cambada de corruptos!”. Começaram a ficar exaltados, a dizer cada vez pior do país, um de cada lado, muito próximos de mim. Por momentos pensei que fosse um ardil para me assaltar, mas não, eram apenas homens rudes e espontâneos à espera do autocarro.

No autocarro encontro o Chico, um amigo de infância. Lembramos as nossas brincadeiras na rua, a liberdade que tínhamos – eramos felizes com tão pouco. Íamos para a rua jogar futebol. Saiamos da escola, brincávamos e inventávamos jogos.  Os nossos pais não se preocupavam muito connosco, sabiam que estávamos perto - na casa de um amigo, vizinho ou familiar. Aparecíamos ao fim da tarde para o jantar.  Hoje os miúdos têm a vida mais condicionada: saem da escola e vão para o centro de explicações contactar com mais livros, chegam a casa sem terem libertado toda a energia e depois andam mais agitados. Hoje seria impossível jogar futebol na rua porque está cheia de carros e não há crianças como nesse tempo.


A barra de Vila Praia de Âncora. O mar muito agitado

Muito vento, chuva e frio ao longo da ecovia do Atlântico, Caminho das Gamboas

Moledo. O monte de Santa Tecla, já em território Espanhol,  visível ao fundo

Muito vento

Caminha. A foz do rio Minho

Centro de Caminha

Caminha. Rua Ricardo Joaquim de Sousa

Igreja matriz de Caminha



quinta-feira, 29 de março de 2018

Caminho Português da Costa:Viana do Castelo - Vila Praia de Âncora


Estou a ler o livro “Rio de Sangue”, de Tim Butcher, Bertrand Editora. Relata a viagem do autor pela República Democrática do Congo. Cruza-se com homens miseráveis que percorrem a pé centenas de quilómetros para vender petróleo contrabandeado, levado dentro de bidões, carregados em cima de bicicletas num equilíbrio muito instável.   Não levam mochila, apenas a roupa esfarrapada do corpo. Dormem próximo dos trilhos esburacados e enlameados, invadidos pela floresta densa – usam-na para se esconderem dos encontros prováveis com assaltantes, assassinos, polícias corruptos e outros extorsionários. Vão-se alimentando do que a floresta lhes oferece. Arriscam a vida para ganhar alguns Francos ao fim do mês, longe da família e da segurança oferecida pela aldeia e tribo.
É difícil imaginar uma realidade tão diferente da minha. Contudo, é suficiente para entender como sou afortunado em poder caminhar por lazer e não por necessidade de sobrevivência, de ter sítios e estradas seguras, alojamentos frequentes onde ficar, de voltar a casa ao fim de alguns dias apenas, sem ter que fazer o trilho inverso novamente a pé, de ter transportes públicos eficientes e confortáveis.
Retomo o Caminho Português de Santiago da Costa. Não gosto de ir pesado: “quanto menos levarmos maior a liberdade”, li algures e concordo. Uma mochila discreta às costas – podia ser a de um simples passeio pelo Porto - com o mínimo possível e adaptado às condições climatéricas que vou encontrar: chuva e frio. É isso que pretendo, alguma liberdade, conforto, e escapar da rotina diária. Não sou um peregrino tradicional, que se mortifica e sofre para chegar ao destino, no cumprimento de uma promessa. Sigo observando, caminhando, tirando fotos, fazendo anotações para o blog, vendo lugares e pessoas.  Deixo para trás e ignoro temporariamente as questões profissionais e outras, tento libertar-me das diversas grilhetas que se impõem quotidianamente.
Talvez um antropólogo possa explicar melhor do que eu:  o sedentarismo não é o estado natural do Homo Sapiens, daí a necessidade permanente de evasão, de “sair do sítio do costume”. De uma forma ou de outra é isso que o ser humano está sempre a fazer, quer através do consumo de substâncias alucinogénias - criando as suas próprias realidades e mundos, fugindo do quotidiano -, quer através de formas socialmente mais aceitáveis: observar outras realidades fictícias ou reais através de leituras, programas de televisão, viagens. 

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Viana do Castelo – Vila Praia de Âncora (cerca de 19 Km)   

Viana do Castelo – Areosa – Carreço – Afife – Vila Praia de Âncora

Estou sentado confortavelmente no sofá do Hostel. São 23.00h. Vejo o mar através dos vidros da varanda e ouço o vento muito forte. Não se consegue estar na rua, o vento frio empurra-nos para trás. Foi um dia cansativo e fiquei algo encharcado, mas cumpri a etapa.
Segue-se a descrição do dia e as respetivas fotos.


Viana do Castelo
 Não faz parte do trilho a subida ao monte de Santa Luzia. O funicular, ida-e-volta, custa 3 €. Lá em cima a paisagem é deslumbrante. Gostei do granito polido do santuário e do painel no interior da cúpula, que me lembrou a arte Bizantina.   
Não vi o núcleo que para mim seria o mais interessante no monte: o Castro de Santa Luzia. Contornei a rede, estava completamente vedado o acesso.
No centro histórico de Viana de Castelo os sinais do percurso estão no chão, temos que estar mais atentos para seguir o caminho. Um bom ponto de referência é este, a partir do qual as setas amarelas voltam a estar bem visíveis nas paredes.
 
Igreja do Seminário do Espírito Santo, Rua Dom Moisés Alves de Pinho

O que mais me surpreendeu ao longo do percurso foi a profusão de casas típicas-rústicas-antigas. Não sendo menosprezável as muitas ruas estreitas bem calcetadas em granito, rodeadas por muros, quintais, quintas e as vivendas rústicas, algumas transformadas em turismo rural. A juntar a isto o tempo húmido e chuvoso que tingiu os prados de um verde intenso, os regatos, pequenas cachoeiras e moinhos. Trajeto muito bonito numas das mais belas e originais regiões de Portugal.
 
Rua da Pedreira da Areosa

Rua Estreita

Casa do Nato, turismo rural. Uma das casas bonitas, rústicas tradicionais que vi ao longo do caminho



Linha do Comboio em Carreço

Mais outra

E outra (um antigo convento)


Albergue Casa do Sardão (Carreço)
Encontrei o dono, o Sr. Hugo, a empilhar lenha. Interrompeu o trabalho para me mostrar o albergue - uma quinta com eira, o interior aconchegado e rústico. Tem uma esplanada com uma vista espetacular para os prados floridos e o mar. Incrível! 

Esplanada do Albergue do Sardão


Os contactos são estes:
AV. de Paço, 769 Carreço
T: 00351 961 790 759
O Sr. Hugo queixou-se da má divulgação feita pelo site oficial   do Caminho Português da Costa (este: http://www.caminhoportuguesdacosta.com/pt), que refere apenas alguns albergues - faltam outros, o da Casa do Sardão é um deles. Em compensação mostrou-me uma lista atualizada com os albergues do caminho Português e a distância entre eles.
Esta  aqui:




Vila Praia de Âncora

A D. Madalena, proprietária do Hostel d`Avenida, deixou-me especado na receção enquanto atendia outra cliente. Pareceu-me muito apressada e que respondia contrariada às minhas perguntas. Esqueceu-se de registar a chave eletrónica que me entregou. O que me valeu foi o carpinteiro que estava a fazer pequenos reparos no albergue, que trocou a chave dele pela minha.
12 € a noite, sem pequeno almoço.
Estão no albergue apenas mais dois hóspedes - peregrinos. Partilho a camarata masculina com Ian, Alemão de Dortmund. Está a beber cerveja Tagus, mini, deitado no beliche, com a manta a cobrir as pernas. Parece simpático, vai-me fazendo perguntas sobre o caminho. Chegou ao Porto vindo de Berlim, onde vive a irmã. Apanhou o metro para Vila do Conde e começou o caminho da costa. Amanhã vai apanhar o Ferribote em Caminha e seguir pela costa da Galiza até Vigo. Foi voluntário numa favela de Buenos Aires durante um ano, por isso “arranha” o Espanhol. Visitou o Rio de Janeiro.
“Os Portugueses são muito diferentes dos Brasileiros, apesar da língua comum”. Concordamos os dois.
 Traduzi para Inglês aquela frase do Eça de Queirós, de forma a que ele entendesse bem o seu significado, que diz mais ou menos isto:
“O Brasil é onde o Português anda à solta” para: “In Brazil Portuguese go crazy”. Riu-se.
O Albergue tem  balneário misto,  lotação para 22 pessoas e decoração muito Retro.
Jantei no restaurante Oceano. Um bom local para petiscar francesinhas, sandes variadas, saladas, pizzas, combinados, sopa. Funciona como restaurante, café e bar. Muito animado e frequentado.


Próximo de Vila Praia de Âncora




terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Caminho Português da Costa: Viana do Castelo

Estátua de Viana

 Viana do Castelo – Porto (regresso no comboio regional)

O  bilhete de 2 € é válido nos Museus do Traje e das Artes Decorativas.
O traje de Vianesa ou de lavradeira surgiu em meados do século XIX e foi usado até ao início do séc. XX. Está associado à economia de autossuficiência agrícola – a rapariga que geralmente cultivava o linho e criava ovelhas que davam a lã, era quem fiava, tecia e tingia o seu próprio fato, decorando-o mais tarde com bordados.
O traje de noiva era preto por ser uma cor mais cerimoniosa. Decorado com lantejoulas, missangas em ouro, que iam sendo acrescentadas ao longo dos anos, e vidrilhos - ficava resplandecente. O ouro transportado pelas jovens refletia a hierarquia social e   traduzia a prosperidade económica da família, tornando o dote da noiva mais apetecível.  
Traje de Vianesa do início do Séc. XX. A imagem foi retirada daqui (Clicar)

A história e as tradições de Viana estão muito ligadas ao ouro, contudo as peças são fabricadas mais a sul, em Gondomar. As populações locais tinham tradições e superstições: uma delas era mergulhar o bebé com uma libra na mão, se a deixasse cair seria desafortunado, segurando-a a prosperidade estaria assegurada.  
No cofre estão expostas várias peças em ouro: custódias de pendurar no pescoço que lembram relicários das igrejas, anéis, “borboletas”.
As freguesias do concelho têm cores ou rendilhados que as identificam nos trajes de festa: a Areosa tem saia vermelha, Afife Azul, o Cabeço e Santa Marta têm aventais com motivos florais. A mais famosa romaria de Viana do Castelo é a Senhora D`Agonia que este ano vai decorrer entre os dias 17 e 20 de Agosto. A programação dos eventos está aqui.
Escrevi no livro de visitas: “Viana do Castelo não seria a mesma coisa sem os seus coloridos e elegantes trajes tradicionais.”
No museu municipal está exposto um quadro em aguarela sobre papel, de autor anónimo do séc. XIX, que representa um local de Viana junto ao rio, com barcos à vela, provavelmente um cais, e um jardim com damas e cavalheiros a passear elegantemente. Nas proximidades, um carro de bois e crianças a brincar descalças. O chapéu de coco dos cavalheiros e a coluna no passeio a lembrar a coluna de Nelson em Trafalgar Square deixaram-me dúvidas.
- Sim, é Viana do Castelo no séc. XIX. É uma imagem um pouco romantizada porque os senhores finos aqui representados supostamente não deviam andar a passear neste sítio, as mulheres do povo iam encher as bilhas no chafariz e muita água caia na terra enlameando tudo. A coluna lá atrás é a estátua de Mercúrio que foi transposta para o largo José Pedro. – Disse-me a guia, Mafalda.
Outro quadro do século XVI, de pintor anónimo: “A Adoração dos Reis Magos”, impressionou-me pelas cores muito vivas. Parece um postal de Natal.
- Trata-se de uma corrente mais ingénua, naïve, da época renascentista.
Também apreciei particularmente a escrivaninha do séc. XIX com pinturas muito coloridas na frente dos gavetões, se bem que num museu com tantas peças valiosas, impressionantes e antigas se torne injusto realçar apenas estas. É o museu visto pelos olhos de um amador, nada mais.
Pareceu-me que os castiçais antropomórficos de pretos, do século XIX, os representam com feições de cão ou de macaco. É apenas uma suposição, não esclareci a dúvida com a guia.

Deambulei pelas ruas de Viana. Vi vários restaurantes. É sempre difícil escolher um numa terra que não conhecemos. A maioria tinha a ementa na porta, alguns mais caros e requintados. Fiz um desvio pela rua do Anjinho e entrei no restaurante O Grelhador. Fiquei contente por encontrar este restaurante - pequeno, aconchegado, asseado e despretensioso. Decoração sóbria com motivos tradicionais: três lenços e o brasão de Viana emoldurado pendurados nas paredes, a cabeça de um gigantone pousada no armário da louça, um quadro da praça da Rainha, atual praça da República, cujo original se encontra no museu municipal. Clientes de todas as idades.
Paguei 6, 5€ pelo prato do dia que incluiu entradas de pão e broa, sopa, robalinho grelhado, bebida, café e sobremesa. Comida saborosa e empregados solícitos.
Regressei ao Porto no comboio regional da linha do Minho das 15:08:  7, 95€ o bilhete em 2ª classe. Mesmo em viagem e fora de casa sou constantemente assediado. Uma pedinte Romena pede-me esmola, digo que não tenho. Ela insiste: “O Sr. Comprou bilhete, deve ter troco e dinheiro”, mostra-me algumas moedas para ser mais persuasiva. Fico com a impressão que me vai continuar a chatear enquanto não lhe der alguma coisa. Dou-lhe esmola mais para a despachar – estava a interromper a minha leitura, do que por comiseração.
No comboio recebo uma chamada da NOS a propor um pacote - 5 minutos de conversa com algumas interrupções e sem decidir nada, apenas com a garantia de que voltarei a ser contactado.


Estou de regresso a casa, à minha ilha, onde Penélope e Telémaco esperam por mim. Noutra altura, com ou sem eles,  regressarei ao caminho e encontrarei Lestrogónios, Poseidons, cidades e povos sabedores e aprenderei com eles. 

A estátua de Frei Bartolomeu dos Mártires no largo de São Domingos

Praça da República


Museu do Traje

A estátua de Mercúrio, largo José Pedro

O largo de São Domingos e o Museu Municipal

Passeio das Mordomias da Romaria

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Caminho Português da Costa: Esposende - Viana do Castelo



Esposende – Viana do Castelo (cerca de 27 Km)


Manhã tranquila, sem chuva. Esposende é uma vila pacata e bonita, ruas pedonais asseadas, estátuas a homenagear as pessoas e profissões da terra; placas na entrada dos monumentos que informam a sua origem e  história.  Do outro lado do rio ficam as dunas de Fão e a restinga da foz do Cávado

Esposende
Igreja Matriz de Esposende

Monumento ao Homem do Mar (Séc. XX)

Restinga do Cávado

                                      

Forte de São João Baptista (Séc. XVII/XVIII)
O trajeto segue até à Praia Suave Mar -  pessoas de várias idades fazem jogging bem agasalhadas ao longo da ecovia, outras caminham no areal, um  cão esgaravata a areia -, afasta-se do mar e segue paralelo a ele por estradas calcetadas de granito, quintas, vivendas, quintais, cameleiras em flor, oliveiras, árvores carregadas de limões e tangerinas.
No átrio do albergue de Marinhas uma seta indica 26 Km para Viana do Castelo. Um placard anuncia o núcleo museológico da Abelheira.
Estou rendido ao caminho. A sinalização é impecável, as localidades estão vocacionadas para receber peregrinos: várias mercearias e cafés anunciam o Menu do Peregrino e Carimbos na Credencial, algumas em Inglês: “Stamps Here”. Percebo que é muito antigo pelos cruzeiros e pequenas ermidas ao longo dele. 
Lerei mais à frente, em Castelo do Neiva, que a igreja local  é “o mais antigo templo  consagrado  a Santiago, fora do território Espanhol”, sagrada em 862, coeva das descobertas das relíquias do santo.  No entanto, vou ouvindo os passarinhos, passo por ruas quase sem ninguém, um ou outro idoso no quintal ou à janela a espreitar, entre o azul do mar e a encosta da serra com ermidas lá no alto. Tudo tranquilo.   
 As margens do rio Neiva são muito arborizadas e algo abruptas, com musgo nas pedras escorregadias e lama, é necessário cuidado. O som da água a correr sobre pequenos açudes e cascatas é relaxante.

Albergue das Marinhas. 




                                               


Nesta anta foram colocados seixos pintados à mão, com frases de boa sorte, desejos, fotografias e fitas deixados por peregrinos de várias partes do mundo.


O rio Neiva entre a vegetação

Travessia do rio Neiva e entrada no concelho de Viana do Castelo


 Já no concelho de Viana do Castelo, depois de atravessar o rio, apanho uma tangerina caída no chão que me sabe maravilhosamente.
Encontro o Sr. Fernando a plantar eucaliptos no meio do bosque, meto-me com ele:
- Isso é muito mau para os incêndios.
- Não vou tirar proveito deles, já estou velho, são para o meu filho.
- Por que não planta sobreiros?
- Trabalhei no Alentejo, há lá um ditado que diz:” O sobreiro dá o avô ao neto”, cresce muito devagar. O eucalipto cresce mais depressa.
- Mas a madeira do eucalipto arde muito rápido, a do sobreiro é mais lenta e mais cara.
- Não se pode cortar sobreiros – conclui o Sr. Fernando. Eu calo-me. Um desconhecido que surge de repente no meio do nada, é melhor não fazer mais perguntas.
Mas o sr. Fernando continua a falar, sento-me no meco de granito a ouvi-lo e a beber chá da garrafa térmica:  os terrenos em volta foram todos comprados por um tio avô que ganhou a lotaria no Brasil; as burocracias paroquias que envolvem a comissão fabriqueira e a construção de um albergue de peregrinos; o filho que está no Canadá.
Sigo pelo meio do bosque que nem um Capuchinho Vermelho, de repente surge a fachada barroca de um mosteiro entre as copas dos pinheiros. Á frente do antigo mosteiro Beneditino, uma escadaria ingreme até à ermida da Sra. do Crasto. Deixo a mochila cá em baixo e subo os degraus até lá acima, dos dois lados vários painéis de azulejo representam o calvário de Jesus Cristo. Subir a escadaria também é um pequeno calvário depois de todos os quilómetros percorridos a pé desde ontem.
Atravesso as freguesias de Castelo do Neiva, São Romão do Neiva e Vila Nova da Anha, onde, num cruzamento rodeado de arvoredo, um memorial relembra o assassinato do Sr. João Pereira de Saraiva, da freguesia da Apúlia, às mãos dos ladrões, no ano de 1836:  imaginei um senhor montado no seu cavalo a ser surpreendido neste sítio isolado por bandidos. O ambiente de um conto de Camilo Castelo Branco, que tão bem retratou esta região de Portugal no século XIX.
O trajeto de hoje é mais ingreme, irregular e fisicamente mais exigente. Chego a Darque por uma estrada que atravessa o mato. Num local mais escondido, um carro estacionado com uma fulana a ler uma revista.
 E, agora, o Capuchinho Vermelho pergunta: Por que razão está esta senhora neste sítio isolado a ler a revista dentro do carro? E é simpática, está a sorrir para mim.
Sigo pela N13: trânsito, barulho. Estou menos à vontade. Os carros não param na passadeira antes da ponte de ferro sobre o rio Lima. As vias laterais pedonais são muito estreitas, é desagradável caminhar nos acessos e na ponte.
Um dos critérios para medir a qualidade de vida de uma cidade deve ser o conforto e a segurança dos peões. Neste aspeto, o acesso a Viana, para quem vem por Darque, está muito aquém.

Fico na Pousada da Juventude de Viana do Castelo. O site das pousadas da juventude de Portugal está aqui. Não sou sócio, além dos 13€ pela dormida numa camarata com quatro camas, pago mais 2,5€ pela aquisição do cartão das pousadas da juventude, sem o qual não posso pernoitar. Exceção feita a quem possui a Credencial do Peregrino. O pequeno almoço está incluído no preço.
Estou com sorte, a receção colocou-me numa camarata sem mais ninguém, com vista para o rio Lima.  Um grupo de crianças e adolescentes de Guimarães está na pousada.
Vou jantar ao snack-bar restaurante Viana Remo por sugestão da rececionista.  Caminho ao longo da margem do  Lima. É noite, não se vê ninguém. Tudo silencioso. As luzes fosforescentes dos candeeiros do jardim e do outro lado do rio. O snack está quase vazio. Na TVI passa um concurso qualquer com a Cristina Ferreira, ouço os seus risinhos estridentes enquanto tento anotar as impressões da caminhada.
Igreja de Santiago (Castelo do Neiva) "O mais antigo templo consagrado a Santiago, fora do território Espanhol". 

Obra muito interessante. O recorte das letras no metal deixa passar a luz e lê-se o texto na sombra.

                                     

Estrada Romana entre Castelo e São Romão do Neiva. O painel informativo do caminho de Santiago, logo após a travessia do rio Neiva refere que "no concelho de Viana do Castelo, o Caminho percorre o traçado de uma antiga estrada Romana e da estrada Real ao longo de 30 Km e de sete freguesias"

                                     

Painel de azulejo na subida para a Sra. do Crasto

Caminho da Rebadeira (Vila Nova de Anha)

Vila Nova de Anha

A ponte de ferro para Viana. No tabuleiro inferior passa a linha férrea, no superior a nacional 13.

Rio Lima