segunda-feira, 27 de julho de 2009

Citânia de Briteiros


Foi em 1875 que Martins Sarmento começou as escavações que puseram a descoberto a existência desta Citânia de Briteiros.

Os castros datam dos finais da idade do bronze, primeiro milénio antes de Cristo, e eram povoações fortificadas, situadas em locais estratégicos de sítios elevados com boa visibilidade.
Este, fica num monte sobranceiro ao Rio Ave, rodeado de outras encostas montanhosas, floresta e próximo de outros cursos de água. Graças a estas características locais foi possível aos povos que o habitaram desenvolver uma economia diversificada de pastorícia, no monte do Sameiro, pesca, recolha de frutos silvestres, cultivo de trigo, painço, linho, e comércio de sal com povos que vinham do Mediterrâneo.
A existência de três muralhas é um indício, para alguns arqueólogos, de um estado de guerra endémico. Outros, consideram que as muralhas seriam apenas um sinal de ostentação.

O castro distribui-se por uma área de 27 hectares com núcleos residenciais, arruamentos, muralhas, um cemitério cristão, a Casa do Conselho e balneários.

Para quem julga que a higiene é um hábito recente e que a sauna foi inventada na Finlândia, foi surpreendente descobrir que neste local existiu um balneário para banhos de vapor.
As pedras eram aquecidas num forno e encharcadas com água fria que provocava a libertação do vapor. Havia uma câmara intermédia, de temperaturas mais amenas, e uma terceira, que também serviria de vestiário, com um tanque para banhos de água fria. A entrada no compartimento mais aquecido era feita através de uma pedra, a Pedra Formosa, que possuía uma pequena cavidade que só permitia a entrada de um indivíduo de cada vez, arrastando-se pelo chão, e evitava a saída do calor.

A Casa do Conselho é um edifício Circular onde os chefes das linhagens se reuniam para debater os problemas da comunidade. Sentei-me no degrau do muro, que serviria de assento aos velhos chefes, a imaginar essas assembleias, observando os carvalhos, o pinheiro frondoso em frente e a paisagem envolvente.

A Citânia foi habitada ao longo de vários séculos e sofreu transformações de acordo com a cultura dos povos dominantes em cada uma das épocas. Crê-se que o povoamento original é anterior aos Celtas e deve-se a povos oriundos das primeiras migrações Indo-Europeias que se estabeleceram na Península Ibérica. O período áureo desenvolveu-se entre os séculos II A.C e I D.C, ou seja, no período Romano. Existem vestígios de povoamentos mais recentes, da Idade Média, no cemitério e ermida Cristã.

O sítio http://www.csarmento.uminho.pt/, complementa o desdobrável que recebemos na entrada com mais informação e imagens virtuais.

O grande benfeitor e entusiasta desta descoberta foi Martins Sarmento, um insigne Vimaranense que imbuído pelo espírito do Romantismo Europeu do século XIX se dedicou incansavelmente à recolha e pesquisa das origens e história dos antepassados que povoaram estes locais. Febrilmente desenterrou diversos tipos de objectos de uso quotidiano, pôs a descoberto as ruas e calçadas da citânia e coligiu hipóteses e explicações sobre os primórdios destes povoamentos.
Todo o espólio está a cargo da Sociedade Martins Sarmento, responsável pelo Museu arqueológico de Guimarães e pelo Museu da Cultura Castreja, inaugurado em 2003.

Não houve tempo para visitar este último museu, cujo bilhete de 3€ de entrada na Citânia também dá direito à sua visita, que fica uns quilómetros mais abaixo, na mesma freguesia de São salvador de Briteiros, Concelho de Guimarães. Fica para mais tarde. Assim como o PR2 , a Rota da Citânia, que se cruza com o castro.

Casa do Conselho

Habitação

terça-feira, 21 de julho de 2009

As Aldeias das Margens do Rio Vizela


O concelho de Fafe tem 53 000 habitantes numa área de 219 Km2, o que dá uma densidade populacional de 246 hab/Km2, sensivelmente o dobro da média nacional. O que não surpreende porque estamos no Minho, uma região que sempre se distinguiu pela elevada concentração populacional.
Sempre ouvi dizer que do Norte do país partiram para a emigração milhares de Portugueses, muitos seriam daqui destas paragens. Agora, no verão, começam-se a ver muitas matrículas Francesas e algumas Espanholas pelas aldeias.

Surpreende como estes lugares irrigados, de clima ameno, com muitos pastos para o gado e potencialidades para desenvolver diversos tipos de cultura tenham sentido por diversos períodos dificuldades em fixar as pessoas.

Actualmente, são poucos os que ficam para trabalhar na agricultura, deixou de estar incutido na mentalidade a vontade de trabalhar nos campos. Muitos foram educados para tirar um curso e ganhar o mais possível, implicitamente a agricultura é vista como coisa antiquada dos velhotes das aldeias.

E a indústria próxima, do Vale do Ave, está em declínio acentuado contribuindo novamente para o aumento da emigração.

Restam os serviços. Por que não apostar na fixação das pessoas através dos serviços?

Quanto maior for o número de pessoas a viver nestes locais e a receber um salário, maior será o número de potenciais consumidores do que se produz localmente e de frequentadores do comércio local, contribuindo para que os vizinhos tenham maiores possibilidades de trabalho e de segurança económica.

Ao consumir produtos obtidos próximos de casa, está-se a contribuir para um ambiente mais sustentável porque haverão menos gastos de energia com os transportes.

É necessário que hajam políticas acertadas e vontade de o fazer.

A criação de percursos pedestres concelhios é uma das melhores formas de trazer pessoas às aldeias, de dinamizar o comércio local e, principalmente, de contribuir para um desenvolvimento sustentável, em que se respeitam as paisagens e as tradições.
Essa é a maior riqueza que pode haver para mostrar, que é o que torna cada local único e distinto dos restantes.


Os festivais de pedestrianismo contribuem para divulgar o que de melhor há em cada em destes sítios, que são as paisagens locais, sempre diferentes consoante a região, a história, a cultura, as pessoas…

No Concelho de Fafe existem 10 percursos pedestres marcados pelos Restauradores da Granja e realiza-se o Festival Montes Longos, que dá a possibilidade aos participantes de percorrerem um desses percursos.

Felizmente há cada vez mais gente à procura desse contacto físico e emocional com a natureza, os lugares e os outros.


Para mim, foi mais um momento de alegria e de encontro com os amigos que já não via há dois meses. Companheiros de algumas das mais bonitas caminhadas que fiz até hoje, não só pela beleza desses sítios, mas também por, simplesmente, estar com eles.

Realizamos o PR2 de Fafe, As Aldeia das Margens do Rio Vizela, um percurso circular de 15 km, adequado ao tempo de calor, com muita sombra e água e um nível de dificuldade médio.

O início foi no Largo da Igreja de Lagoa. Seguimos por um caminho bem definido debaixo de uma vegetação frondosa em direcção à Ponte de Pereirola e Pedraído, a primeira povoação do trajecto.
Em alguns pontos torna-se visível o recorte das serras circundantes com uma vegetação rasteira, as aldeias nas encostas e os enormes blocos de granito de configurações arredondadas. Os espigueiros, as eiras, os prados rodeados de árvores, o rio Vizela e os ribeiritos, dão um aspecto bucólico ao trajecto.

Nas aldeias encontram-se vendedoras de fruta e da doçaria típica. Comprei, para conhecer, o Pão-de-ló de Fornelos, os Cigarros Doces, a uma senhora que me garantiu que não me arrependeria, e uns tremoços.

Paramos para lanchar num prado na margem do Vizela, um sítio convidativo para uma soneca deitado na erva à sombra dos amieiros. Tivemos que seguir o ritmo dos restantes caminheiros, não havia tempo para contemplações ou dormidas breves, havia que chegar ao fim por volta das duas e meia. Todos os participantes nos diferentes trajectos reunir-se-iam em Aboim para a confraternização final.

Ao passar nas aldeias encontramos vários fontanários públicos em que soube tão bem reabastecermo-nos de água e refrescarmo-nos. Estávamos na hora de maior calor e o terreno na parte final era mais aberto e exposto ao sol.

Este trajecto tem predominantemente amieiros e choupos, junto do rio, e carvalhos. Ainda não foi invadido pelas árvores exóticas, estranhas a este ambiente, que destroem a paisagem e empobrecem os solos.

Chegado a Lagoa lavei os pés no tanque do largo, tinha-os cheios de pó do último troço, em estradão de terra.

Seguimos todos para o largo da igreja em Aboim, de onde se desfruta de uma admirável panorâmica do maciço do Gerês ao longe.
Reencontramos o restante pessoal dos Restauradores da Granja, sempre simpático, bem-disposto e divertido.
Depois da confraternização e almoço final, com direito a recordações da organização, fomos à barragem da Queimadela para um mergulho. O Domingo não ajudou. Estava apinhada de gente e mudamos de ideias, decidimos parar num café no regresso a casa.

Mais um dia de convívio saudável e feliz que estava a terminar. No café, outros momentos de boa disposição e conversa com projectos para novas caminhadas e novas descobertas.
Para já, que as férias se aproximam, cada um seguirá a sua vida, os seus passeios em família ou com os amigos, as suas deambulações de verão. Mas o reencontro está prometido para o regresso em Setembro, com vontade de voltar a Fafe e de trilhar outras serras.

A Câmara de Fafe e os Restauradores da Granja estão de parabéns por mais uma organização do Festival de Pedestrianismo Montes Longos. Que continuem, como até hoje, a divulgar o património e ambiente local com este espírito saudável e de respeito pelas tradições.



sábado, 18 de julho de 2009

Vislumbres de Espinho


O Museu Municipal de Espinho foi inaugurado há poucas semanas na antiga fábrica de conservas Brandão Gomes,  recuperada para receber o espólio histórico da cidade e da fábrica.
É um espaço com um interior amplo,  de  dois pisos e corredores largos. No primeiro piso está exposta a história da antiga fábrica desde a  fundação, no fim do século XIX, até à falência e encerramento em 1985; a secção dedicada à Arte da Xávega e um espaço para as exposições temporárias, virado a poente, com uma soberba vista para o mar e para a chaminé que resta da fábrica.  Neste momento alberga  uma exposição de escultura.
No piso superior está a decorrer uma exposição temporária de fotografia – Litorais, até 31 de Agosto.

Este foi o final de um caminho iniciado em Grijó. Duas horas depois encontrava-me em Espinho a fotografar os barcos de pesca artesanal.
Esclareci algumas dúvidas no museu. Não fazia ideia que no seu interior encontraria a História da arte da Xávega e dos pescadores de Espinho. Foi uma surpresa agradável, documentada com muitos textos e fotografias fantásticas.

A Arte da Xávega é um sistema de pesca artesanal de arrasto. O barco era rebocado do mar pelos bois, prática que ainda vigorava nos anos setenta do século passado, sendo os animais gradualmente substituídos pelos tractores.


Os barcos têm uma origem muito antiga que remonta ao Médio Oriente e foram possivelmente introduzidos pelos Fenícios.

Outra secção do museu retrata a vida das famílias vareiras, documentada em textos, fotografia e filmes.


O multimédia é uma constante. Há vários monitores a partir dos quais podemos, interactivamente, aceder à diversa informação dispersa pelo museu.

Quanto às conservas, é apresentada de forma  muito detalhada a evolução da fábrica e das condições sociais dos  trabalhadores.  São mostrados vários objectos e documentos relacionados com a história das conservas em Portugal. O mais curioso para mim foram os cartazes e o design das embalagens.

O museu ainda não funciona a 100 porcento, falta a loja de merchandising que abrirá brevemente e os espaços pedagógicos do piso superior, que pareceram encerrados ainda.

No fim da visita foi-me indicada a Biblioteca Municipal de Espinho que possui as fotografias originais expostas no Museu. Não existem à venda em postal, mas podem ser acedidas através do site http://www.cm-espinho.pt/, uma delas é a que se vê no início desta mensagem.

A caminho de Espinho passei pelas freguesias de Guetim e Anta. O costume: povoamento disperso, densamente habitado, e os vestígios de um passado rural que quase já não existe.
Espigueiros, quintas e bancos de pedra na entrada das casas mais antigas para os momentos de descanso e tagarelice com os vizinhos, que hoje já não têm utilidade porque perdeu-se o hábito de tagarelar tranquilamente ao fim do dia, sem pressas, sem televisão, talvez com um copinho de tinto na mão nas noites quentes de verão, as mulheres a coscuvilhar com a vizinha enquanto os homens trabalhavam nos campos... Misturadas com estes vestígios do passado  há as urbanizações e algumas  vivendas aparatosas que foram surgindo no meio desta paisagem rural, por vezes desenquadradas e feias,   sem qualquer ordenamento e previsões de habitabilidade. Resultado: muitas casas e apartamentos novos por vender, enquanto que as habitações tradicionais,  mais bonitas e elegantes, muitas delas obviamente a necessitar de restauração, estão devolutas e aos poucos vão desaparecendo e com elas a memória do nosso passado.  

Contudo, houve algumas surpresas. Em Grijó passei numa rua com o nome de Quinta Amarela. Sabia que existe uma Rua da Quinta Amarela no Porto, não em Grijó. Nesta rua há uma casa senhorial muito bonita, a Quinta de Nossa Senhora da Conceição, propriedade privada que possui no interior uma capelinha, visível da rua.


Em Espinho vejo do outro lado da rua uma colega de Conselho de turma, chamo-a e ficamos ali a palrar no passeio. Pensamos em fazer um almoço na próxima semana com os outros elementos da equipa pedagógica, em jeito de despedida das reuniões e das inúmeras dores de cabeça causadas pela nossa turma de alunos.

No número 277 da rua 19 fica a casa onde viveu o escritor Manuel Laranjeira. Uma figura que conviveu com Miguel de Unamuno, o escritor e filósofo Espanhol que escreveu um livro intitulado Viagem a Portugal, no qual  considerou o povo Português depressivo e dado a suicídios, exemplificando com os casos abundantes na história recente da época: finais do século dezanove, princípios do século vinte: Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Soares dos Reis,...
Manuel Laranjeira explicou  a Miguel de Unamuno a razões desse estado de alma colectivo e do seu próprio espírito depressivo.
Numa outra correspondência com Amadeu de Souza-Cardoso, Manuel Laranjeira mostrou-se muito céptico da vida e descrente das possibilidades de sentir alegria verdadeira, mesmo perante a possibilidade de visitar o amigo em Paris. Ele próprio também se suicidou, aos  34 anos.

No mar, sempre o vento. É raro o dia de Verão em que não há vento junto ao mar,  a famosa Nortada, comum nos dias quentes e que torna a presença na praia desagradável. O mar: frio e bravo, característico desta costa Atlântica, que continua a sustentar muitas famílias de pescadores e abundante de sardinhas, vendidas antigamente  nas latas de Conserva Brandão e Gomes.
Grijó: casa rural

Detalhe do batente

Espinho em dia de nortada

O mar bravo 
Os barcos da Xávega. Este formato existe há centenas de anos. A única modificação foi a introdução de motor
Pormenor das proas
Uma da tarde: Bairro dos pescadores
Azulejos numa casa de Espinho
Museu Municipal de Espinho (antiga fábrica de conservas Brandão Gomes)



Produtos comercializados pela fábrica


sexta-feira, 10 de julho de 2009

Do Porto a Espinho (com alguma utopia)


Nos Aliados encontram-se expostos até 19 de Setembro, dia em que serão leiloados, 100 manequins.
Estes bonecos significam, de acordo com o projecto da exposição, a utopia de transformar o Homem num ser total de liberdade e de sonho, um ser incluso e sem qualquer segregação.

Transcrevo uma parte do folheto que me foi entregue:

“Há no Homem duas perspectivas de vida: o que se submete a uma necessidade contra a qual nada pode e o que procura a fonte original que está na base da liberdade Humana. É esta segunda perspectiva que leva à busca do Homem Total.”

Esta é uma iniciativa do Espaço T, uma instituição que desenvolveu este projecto e cujo lucro reverterá a seu favor.

Vale a pena visitar esta “utopia” de seres únicos, individuais e livres.

Foi um bom mote para iniciar a minha deambulação do Porto até Espinho.

Não tenho limite de tempo, estou inteiramente por minha conta e sem compromissos, não levo mochila, vou discretamente com algum dinheiro no bolso, a máquina digital, o telemóvel e uma roupa leve de Verão. Podia muito bem passar por um qualquer transeunte na Rua de Santa Catarina a caminho de uma loja ou do trabalho. Ninguém poderá imaginar que me preparo para fazer 20 quilómetros a pé até Espinho, ainda bem. O único indício poderão ser apenas as sapatilhas em Gore-Tex.

Passo na livraria Leitura para levantar um livro que encomendei on-line. Estaria disponível em 48-72 horas. Como nunca mais recebia a confirmação para efectuar o levantamento resolvi passar por lá. Ainda não o tinham e já passou mais de uma semana desde a encomenda – Mais um ou dois dias. Para estar atento ao meu correio electrónico – Disseram-me.

Aproximava-se a hora do almoço e comida vegetariana, naquela zona, além do Larica que serve umas francesinhas fabulosas, que eu conheça, só o “Piolho”. Vou para este último e escolho um hambúrguer à base de cogumelos.
Reparo nas placas que foram sendo colocadas nas paredes pelos grupos de estudantes que aqui passaram muito tempo em convívio e estudo. Estudo. É o que dizem algumas. Embora me faça alguma confusão perceber como é possível estudar num café abarrotado de gente e sempre com ruído.
O “Piolho” só fecha três horas por dia, entre as quatro e as sete da manhã. Aqui passam todo o tipo de pessoas, desde os idosos para o seu cafezinho e ler o jornal comprado no quiosque da entrada, até aos estudantes e turistas que começam a lotar por completo o interior e a esplanada a partir da noite.
Uma das placas refere-se aos 100 anos do Âncora Douro, o nome oficial do “Piolho”, comemorados em Junho último.

Sigo o caminho pelo Campo dos Mártires da Pátria, onde ficava a antiga porta do Olival que era uma das entradas na cidade medieval e a Cadeia da Relação, onde agora funciona o Centro Português de Fotografia.
Nesta parte situava-se o bairro Judeu, onde hoje passa a Rua de São Bento da Vitória com o seu mosteiro do mesmo nome e a igreja de Nossa Senhora da Vitória.


Uma placa no muro do mosteiro relembra-nos que aqui foi o bairro Judaico:

“Em memória dos Judeus Portugueses vítimas do infame Decreto de 1496 que só lhes deu a opção à conversão forçada ou à morte.”

Uma das panorâmicas mais interessantes que se usufrui da cidade é no pequeno jardim abandonado ao fim desta rua, de onde se avista Gaia, os telhados da Ribeira e a porta poente da sé.

Mais em baixo, já no início da Rua Nova da Alfândega, resolvo entrar na igreja de São Francisco. Para mim um dos monumentos mais bonitos da cidade. Por 3€ pode-se ver a Igreja, as Catacumbas e a Casa do Despacho da Venerável Ordem Terceira, a entidade que tutela este conjunto patrimonial.

Os primeiros Franciscanos chegaram ao Porto no século XIII onde, após várias vicissitudes com o clero local, acabaram por fundar um pequeno convento, regendo-se pela simplicidade e o desprendimento dos bens terrenos, de acordo com a vida do seu fundador, São Francisco de Assis.

O que se observa pouco tem a ver com a pobreza Franciscana. O interior da igreja é revestido a talha dourada com capelinhas laterais, retábulos e um magnífico altar-mor em madeira policromada e santos esculpidos.

Antigamente, existia o hábito frequente de assegurar “um lugar no céu” a troco de oferendas ao clero. Estes frades tiveram o mérito de caírem no goto de algumas famílias nobres da cidade que escolheram a igreja para o panteão das suas famílias e que, assim, foram enriquecendo o espólio, a decoração e o espaço do convento inicial, através das suas inúmeras doações.

Os Franceses, na segunda invasão, transformaram o convento num estábulo e, nas guerras liberais, o exército do Rei D. Pedro IV, maçónico e liberal, expulsou os frades, contrários à sua ideologia.

Com a implantação definitiva do liberalismo em Portugal, o mosteiro acabaria por ser doado pelo estado à Associação Comercial Portuense, que transformou uma das suas alas no actual Palácio da Bolsa.

O Museu de São Francisco é tutelado pela Venerável Ordem Terceira. Nas catacumbas estão os jazigos dos benfeitores da ordem sepultados até 1866, em conformidade com a as Leis Sanitárias de Costa Cabral que proibiram o enterro dentro das igrejas e que muita agitação social provocou em Portugal, principalmente no Norte mais católico e conservador. A guerrilha da Maria da Fonte foi um episódio desse período.


Depois desta visita continuei sempre junto ao rio até ao pequeno cais de Lordelo do Ouro, mais ou menos em frente ao Bairro do Aleixo, onde por um 1€ apanhei o Flor do Gás para a Afurada.
É uma pequena lancha com capacidade para 20 passageiros com uma parte coberta e um pequeno deck. Vim sentado cá fora, encostado à grade, sentindo a brisa do Atlântico a poucas centenas de metros.


A Afurada é uma terra de pescadores e é um dos poucos sítios em toda a marginal de Gaia que mantém a tipicidade do passado, a par da Aguda, outro local piscatório. Em ambos ainda se podem observar as pequenas embarcações artesanais ancoradas no cais, os velhos a remendar as redes, as mulheres em avental e os homens nas esplanadas das tascas sentados a conversar e a beber. As mulheres não se misturam, mantêm-se em grupos à parte.
Junto da entrada de um restaurante, um fulano assa umas sardinhas cá fora. Estou mesmo em terra de pescadores! Agrada-me o fumo e o cheiro da sardinha.

Vou em direcção ao Cabedelo, a última parte da marginal a ser remodelada. Agora é possível ir sempre por uma via pedonal desde o Centro Histórico até Espinho.
Junto à foz do rio Douro decido descalçar-me e entrar pela enorme língua de areia que separa uma parte do rio do oceano. É um local muito ventoso. Apesar disso vêem-se algumas pessoas a fazer praia abrigadas junto de alguns rochedos e nos tapa-ventos. Este enorme areal é uma Reserva Ornitológica. De acordo com as placas explicativas que existem, nele podem ser observados várias espécies de aves, entre as quais alguns tipos de garças, gaivotas e maçaricos.

Deixei a margem do rio e, agora, vou junto ao mar desde Lavadores até à Granja, a última praia antes de Espinho. Pelo meio paro no Santuário de Nossa Senhora da Pedra em Gulpilhares.
Esta capelinha impressiona pela sua localização, construída em cima de um rochedo, entre as ondas que batem à sua volta e a areia que a une à terra.
É um local de culto Cristão e de outros menos conformes à doutrina Católica, no qual se encontram frequentemente velinhas a arder cá fora, restos de cera e objectos para promessas, bruxarias e mau-olhado.

Antes do Cristianismo se ter implantado, este era já um local dedicado a cultos pagãos e, pelos vistos, continua a ser uma referência para rituais e misticismos exotéricos, independentemente da religião que actualmente se professa.

A Câmara Municipal de Gaia orgulha-se dos seus quinze quilómetros de praias com bandeiras azuis, o maior número de bandeiras por concelho em Portugal. Infelizmente, quase toda a sua linha de costa sofreu os efeitos da construção maciça de apartamentos e vivendas, são poucos os espaços em que não há uma construção qualquer recente. Apenas a aguda vai resistindo com os seus pescadores à descaracterização do litoral e a Granja ainda mantém algumas das suas antigas casas de férias das famílias ricas do Porto que vinham de comboio passar aqui o verão. Diz-se que o rei D. Carlos tinha cá uma amante.
Um evento que mostra como a Granja era “chique”, foi a assinatura de um tratado político, o Pacto da Granja, entre duas facções esquerdistas do século XIX, originando um dos mais importantes partidos políticos do fim da monarquia, o Partido Progressista.


Há muitos bares ao longo da costa construídos provisoriamente para o verão. São quase todos iguais, muda o nome mas o género mantém-se. Sempre com a música de fundo, o mesmo tipo de serviço e refeições, o mesmo aspecto esterilizado e uniforme, tipo Centro Comercial. Gostaria de encontrar apenas um sem música, nem que seja velho e badalhoco, mas onde seja possível estar sentado a ouvir simplesmente o mar sem a impertinência da modernice.


Chego a Espinho derreado e mal-humorado, talvez o fino que bebi num desses bares me tenha deixado assim.
Cadeia da Relação (agora o Centro Português de Fotografia)


Lado Poente da Sé do Porto

Igreja de São Francisco


Ponte da Arrábida



Afurada

Cabedelo (Reserva Ornitológica)

Nossa Senhora da Pedra

quinta-feira, 2 de julho de 2009

De Grijó ao Porto pelo Caminho de Santiago



O caminho vem de sul, uma parte significativa dele pela estrada nacional 1. Sei que há uns desvios pelo interior das freguesias e que estas zonas serão mais tranquilas. Um desses desvios é pelo interior de Grijó, pelo mosteiro. É a partir daqui que relato o percurso de dezasseis quilómetros, aproximadamente, até ao Porto.

O interior do mosteiro estava fechado e com isso a possibilidade de ver os claustros e o túmulo de D. Rodrigo Sancho, um dos mais importantes jazigos Românicos em Portugal. É o elemento mais importante deste conjunto monumental, fala-se muito no mosteiro, contudo o que lhe dá uma importância histórica maior ainda é este túmulo que é uns séculos mais antigo.
Um pouco antes da entrada principal, junto ao cemitério, temos outro marco significativo desta freguesia, o Padrão Velho, que assinala o local hipotético da morte deste nosso cavaleiro.

D. Rodrigo Sancho foi um filho bastardo do rei D. Sancho I e neto de D. Afonso Henriques e morreu em combate por estas bandas, em 1245, numa época de guerras civis em que o estado real queria fortalecer o seu poder contra a influência da igreja. Neste contexto, D. Sancho II foi declarado rei ilegítimo pelo papa que resolveu designar sucessor o seu irmão D. Afonso II, o Bolonhês. D. Rodrigo tomou o partido de um dos irmãos e faleceu numa contenda.
Conta-se, aqui em Grijó, que o lugar de Murracezes tem este nome porque D. Rodrigo depois de ferido veio em fuga no seu cavalo dando “Murros Acesos”. Não sei o que há de verdade nesta versão mas é curiosa a toponímia e a história que lhe deu origem.

No exterior do recinto, antes da Porta Nobre, existe um local que se chama O Cemitério dos Vivos e dos Mortos. Quase ninguém sabe o motivo deste nome e nunca ouvi ninguém contar a História quando eu era miúdo. Talvez por ser pouco dignificante foi sendo omitida ao longo dos tempos e por fim esquecida, mas aqui vai ela:
Na época das Invasões Francesas, no período da Segunda Invasão, quando o Porto estava ocupado pelo Marechal Soult, o exército Anglo-luso aproximava-se pelo sul para reconquistar a cidade. Houve um recontro em Grijó contra os Franceses no dia 11 de Maio de 1809, o mosteiro foi transformado em hospital onde eram tratados os feridos e enterrados os mortos aliados. Quanto aos Franceses, nem sequer tinham direito a tratamento, sendo muitos deles enterrados ainda vivos neste local.

A configuração actual do mosteiro foi adquirida principalmente ao longo dos séculos XVII e XVIII, contudo a sua fundação é do ano 922 e foi entregue aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho até 1770. Neste ano, por motivos religiosos, o Marquês de Pombal, considerando-os fanáticos, forçou a sua transferência para Mafra, enquanto que outros foram presos. O mais interessante neste episódio é que os frades, pelos vistos, procuravam uma maior perfeição espiritual ao aderiram a um movimento chamado “Jacobeia”, malvisto pelo Marquês.

Quanto ao caminho, o melhor é que não é necessário levar mochila. Em qualquer lado há um café ou mercearia para nos reabastecermos, basta levar algum dinheiro.
A parte histórica: é sempre um deslumbramento observarmos o Porto do lado de Gaia.
A serra de Negrelos, entre Perosinho e Canelas, é uma área verde no meio de uma densa malha urbana. Foi o momento mais tranquilo, entrar na serra por uma calçada de pedra e sentir a frescura súbita de um bosque. Contudo, são apenas quinze minutos de caminho neste local e começa-se a passar novamente por casas e cada vez mais casas, até chegarmos à nacional 1 e por aí seguirmos até Santo Ovídeo e Rua Soares dos Reis, embrenhando-nos cada vez mais dentro da cidade de Gaia, seguindo um trajecto sempre urbano.

As partes mais chatas são o cheiro do aterro sanitário de Sermonde ao passarmos nas proximidades, o trânsito constante de pesados nas estradas secundárias, os passeios quase raros para peões, a primazia do automóvel em detrimento da segurança e conforto dos caminhantes e o piso quase sempre em alcatrão ou em paralelos.

Atravessa-se a ponte D. Luíz pelo tabuleiro inferior e chega-se ao coração da Ribeira, à sua praça colorida com as figuras típicas do costume, as tascas e as mercearias.

Já disse neste blogue que existe uma bifurcação na Rua das Flores, uma que vira à esquerda para a praça dos Leões e Cedofeita e a outra que segue em frente até ao largo dos Lóios e Rua do Almada. Optei por esta última opção e resolvi chegar à igreja da Lapa.
Quem quer seguir o Caminho por Barcelos deve optar por virar à esquerda, quem preferir seguir por Braga deve ir frente. Imagino que depois da Lapa deve-se ir ter á Rua do Bonjardim ou muito próximo dela, pois era daqui que se ia para Braga antigamente. Os dois caminhos convergem novamente em Ponte de Lima.

As Rua das Flores e do Almada foram duas das mais movimentadas artérias do Porto, a primeira era a dos ourives e armazéns de roupa, a segunda das cutelarias, ferragens e ferramentas. Hoje, alguns desses negócios ainda vão resistindo, contudo é algo deprimente ver duas ruas tão charmosas e centrais a ficar progressivamente abandonadas com edifícios devolutos. Na rua do Almada estão a surgir alguns negócios e bares alternativos, oxalá tenham muito sucesso!

Nunca soube quem são os responsáveis pela sinalização dos caminhos. Hoje, creio que desvendei um pouco essa dúvida: provavelmente são as paróquias, cada qual deve ser a responsável pela marcação do trajecto dentro da sua circunscrição.

Se estiver errado, agradeço que alguém me corrija.

Na freguesia de Perosinho tive a agradável surpresa de ver não só as habituais flechas amarelas mas também placas de fundo azul com a vieira amarela identificativa do caminho de Santiago. Perguntei quem as colocou: foi a Junta de Freguesia que as inaugurou no último Domingo.
Grijó - Padrão Velho
Mosteiro
Cemitério dos Vivos e dos Mortos
Porto
Rua das Flores
Rua do Almada




Igreja da Lapa