sábado, 3 de outubro de 2026

Pelo Douro e Tâmega

 


Afinal, existe um baloiço com vista sobre o rio Douro. O que não valem umas placas nas estradas, colocadas no sítio certo, visíveis aos automóveis que passam!

Subimos a vereda despida, rodeados de alguns eucaliptos queimados, de sobreiros que resistiram ao último incêndio e de medronheiros – essa árvore maravilhosa que desponta viçosa depois dos fogos. Como não gostar destas árvores mediterrânicas e resistentes, que quebram a monotonia da terra queimada?

Do miradouro ao baloiço é um tirinho  de 440 metros, por uma ladeira despida e íngreme, com muito cascalho e arestas cortantes de xisto. Sempre com o imponente rio Douro como cenário e as suas encostas verdejantes a  descerem até rasarem a água, da mesma cor.

Não ficamos por ali: o passeio seguiu  pelas margens do Douro até Alpendorada e Matos – com a interrupção do almoço na Ponte da Pedra. Continuamos depois, seguindo a Rota do Românico. Paramos no mosteiro de Vila Boa do Bispo.

Encontramos o largo vazio e o mosteiro fechado. À nossa volta,  silêncio. A casa antiga e senhorial, de fachada solarenga,  estava de janelas abertas deixando o sol tépido  da tarde entrar.   A sombra dos sobreiros estendia-se sobre a ruela e os  muros de granito desciam até à margem do rio Tâmega.

Foi quando a Joana começou a desabafar, igual a si própria.

- É o que dá investir em estádios de futebol e autoestradas, depois, estes sítios, maravilhosos e espetaculares,  ficam vazios e abandonados. Não se investiu na recuperação do património. Repara bem! É um mosteiro românico,  tem  jazigos medievais,  uma longa história, interesse arquitetónico e cultural,  e está  fechado num sábado à tarde.  Podia haver um museu, hotel e esplanadas  nestes palacetes e não vês ninguém. É um abandono.  Só estamos nós os dois aqui.

- Não faz mal estarmos só nós os dois,  até gosto assim …– rodeei-lhe  a anca com o braço e beijei-a suavemente nos lábios. 

 Sentámo-nos nos degraus do coreto. Joana continuou indiferente às minhas carícias. Passou a falar de futebol, parecia uma mistura de Mafalda, do Quino, e de comentadora  desportiva, tipo  Matilde Fidalgo:

- É um país triste. Estou  farta de ouvir que o Cristiano Ronaldo é um símbolo de Portugal. Cambada de idiotas, como o futebol ilude um povo! O que interessa isso? É um ídolo passageiro. Não ouço ninguém falar que temos de recuperar o património, dar-lhe vida, habitá-lo. Fartas-te de ver casas tradicionais devolutas, estradas romanas esquecidas, pontes  e igrejas centenárias a cair aos bocados… Isso sim,  são símbolos de Portugal, fazem parte  da nossa história, são memórias de  outras épocas e que, se recuperados e valorizados,  fariam de Portugal um país bem mais bonito e interessante. Podíamos ser como a Suíça, mas contentámo-nos em ser medíocres. 

Eu olhava para ela, desligado do que dizia. Estava concentrado nos seus pequenos lábios,  que se moviam nervosos. Enquanto falava,  abria e fechava as pálpebras dos olhos com a cara fixa na fachada do mosteiro, do outro lado do terreiro. Como fica sexy quando se enerva! Voltei a cingi-la nos braços;  voltou a ignorar-me, compenetrada que estava no seu discurso.

Levantámo-nos, entrámos no carro e fizemos a última visita do dia, ao Santuário do Menino Jesus de Praga.

- Se o santuário fica em Marco de Canaveses, por que motivo se chama do menino jesus de Praga? – perguntei, desviando o assunto do futebol e do que deve ser considerado ou não um símbolo nacional.

Joana não me soube responder. Ela é definitivamente mais entendida em futebol e história de Portugal do que em religião. Entrámos para ver o interior.

- Que altar original! Aquele deve ser o menino jesus de Praga – disse eu, apontado para a estatueta de um menino com uma bata branca.  

- Pois é, pois é… - respondeu Joana,  mais entusiasmada e já esquecida das misérias do país. – Lembro-me de uma tia minha que foi a Praga e ofereceu à minha mãe uma miniatura de um santinho igualzinho àquele.  

Três fiéis rezavam ajoelhados  de frente para o altar. A decoração sóbria do interior e o silêncio austero da nave tornavam o local  mais circunspeto e rigoroso, contrastando com a inocência que o Menino  Jesus de Praga transmitia.

Arrepiei-me ao pensar que, sob a quietude da igreja,  se perpetraram muitos abusos  contra vítimas indefesas. Uma instituição poderosa  em que se entrava  em silêncio e de  onde se saia subjugado a um poder estranho e discricionário,  onde não havia alegria.

Um padre vindo da sacristia sentou-se discretamente no confessionário. Um dos fiéis levantou-se do genuflexório e ajoelhou-se junto dele. O confessor fez uma oração e começou a ouvir a sua confissão. As vozes ciciadas faziam eco e ouvia-se o que diziam. Se eu fosse um ser perverso teria ficado a escutar, deleitado,  a confissão de um homem e  a doutrinação do sacerdote. Mas saímos imediatamente. Respirámos  a atmosfera descongestionada e livre do exterior. 

Voltei a cingir Joana nos meus braços.


















sábado, 26 de setembro de 2026

Ribeiros

 


Deixo aqui o texto de um amigo, que ele me enviou pelo WhatsApp. Talvez a polícia, os seus familiares e amigos possam obter pistas que ajudem a localizá-lo e contribuam para entender o seu estado mental nos dias anteriores ao  seu desaparecimento. Que quereria ele dizer com tudo isto?  Seria um pedido de ajuda? É um enigma.

 Não foi sem nervosismo que abri a mensagem e li:

Escrevo diretamente no PC e no telemóvel,  em vez de o  fazer em papel, de usar  lápis e caneta. Seria mais intuitivo, orgânico e estimularia as sinapses cerebrais, havendo uma relação física entre a mão e o cérebro. Desta forma, limito-me a pressionar uns caracteres no teclado, que aparecem no monitor a emitir  uma luz  artificial, cansando os olhos e a mente. De noite, os estímulos visuais e a exposição a uma ferramenta eletrónica durante as horas em que devia estar na cama, a dormir, provocam-me insónias e, nos curtos momentos em que passo pelas brasas, agito-me e tenho pesadelos. Sofro de uma inconstância  mental, de súbitas faltas de memória, palavras  básicas que esqueço, nomes de pessoas conhecidas que me não ocorrem no momento. Debato-me entre a realidade e a ficção, entre o escrever e o não escrever

Lentamente, vou perdendo o contacto com a realidade. Vivo num mundo ilusório, inventado por mim, construído com remendos de histórias de pessoas que conheço,  de sonhos e de vidas imaginárias que povoam os meus pensamentos.

A realidade vai-se esvair como areia entre os dedos, até chegar a um ponto em que  deixo de ser Eu e a demência passa a ser  a norma.

Ouço histórias reais, conheço casos cruéis e,  nesses momentos,  sinto-me mais entrosado com a  vida. Tudo se torna mais nítido e as desgraças alheias  alimentam-me como a um parasita,  para sobreviver.

 Anexadas à sua mensagem  vinham fotografias tiradas em locais fáceis de identificar, no concelho de Fafe,  concluindo-se que ele estivera a trabalhar  com a sua instituição de apoio social e que acompanhara, como habitualmente, os jovens com trissomia 21, autismos e outras síndromes profundas.

Depois disso, desapareceu a ainda não foi encontrado.



























sábado, 29 de agosto de 2026

Praia da Torreira



Foi por acaso. Quis fugir dos sítios mais frequentados e levei Joanna a ver a ria. Passámos na praia da Torreira e enquanto caminhávamos pelo areal vimos os tratores e o aglomerado de pessoas na orla do mar. Adivinhei o que era:

-Vais conhecer uma atividade fora dos roteiros turísticos, pouco conhecida. Só existe nesta parte da nossa costa. Não aparece nos folhetos, é um Portugal mais autêntico - dizia eu a Joanna - mesmo os portugueses, a maior parte deles, desconhece o que vais ver - concluí, lembrando-me que poucos ouviram falar na arte da Xávega.

Ela ficou entusiasmada com a surpresa que eu lhe estava dar.
- Really?
Deparámo-nos com a atividade tradicional em plena laboração e eu teria a oportunidade de lhe mostrar algo de verdadeiramente genuíno.
O dia de sol estava magnífico. A bandeira vermelha nas praias vigiadas a Sul indicava mar perigoso, as ondas rebentavam com estrondo no areal.
Apesar disso os pescadores lançaram a rede ao mar.
Já só vimos a recolha do peixe. Dois tratores com roldanas, afastados um do outro cerca de duzentos metros, iam puxando a rede para o areal. Uma mulher conduzia um dos tratores, outra ia dobrando a corda nas amarras. Outros pescadores, com barrotes de madeira, impediam o emaranhamento da rede à medida que saía da água. Os dois tratores iam-se aproximando lentamente. Chegou um terceiro trator com grades de plástico empilhadas umas em cima das outras, onde ia ser colocado o peixe.
Os pescadores assistiam esperançados à aproximação da rede. Havia-se formado um aglomerado de banhistas curiosos que observavam a faxina.
Fui explicando à minha amiga:
- Este tipo de pesca pratica-se nesta zona da costa portuguesa há centenas de anos.  Vês aquele barco? - perguntei, apontando uma embarcação no areal - a forma da proa foi inspirada nos barcos fenícios que cabotavam a costa. Antigamente as redes eram arrastadas por parelhas de bois.
Joanna estava fascinada, não havia nada disto nos Estados Unidos, muito menos em Nova Iorque.
- Very beautiful.
Um homenzinho encardido, com ar de quem vive no mesmo bairro dos pescadores, destacou-se do grupo. Não executava nenhuma tarefa, andava ali a fazer rir os outros e a mostrar um talento especial: equilibrar no nariz a beata apagada de um cigarro. Adivinhando que Joanna, pelo seu porte alto, cabelo loiro e olhos azuis, devia ser estrangeira, aproximou-se dela. Estalou os dedos para repararmos nele e colocou a beata no nariz, equilibrando-a como se fosse um malabarista num circo, fazendo o seu número para a minha amiga. No fim, recebeu um sorriso dela e ele retribuiu da mesma forma, orgulhoso de se ter exibido com sucesso àquela bonitona estrangeira.
Olhámos novamente para o mar. A rede começava a emergir e a formar a bolsa que iria engolfar os peixes. As bóias brancas que a sinalizavam foram retiradas da água. As gaivotas que até então se tinham mantido pousadas na areia voaram para o mar, gritaram e rasaram a água, tentaram capturar os peixes que se aproximaram da superfície.
Trazia pouco peixe. Havia mais pessoas na areia do que peixes na rede.
- Coitados dos pescadores! - disse Joanna condoída deles. Eu também senti um aperto: tanto trabalho, tanta paciência, tanta espera, e o resultado final foram uns míseros quilos. Alguns nem sequer se aproveitavam; as tintureiras bebés foram devolvidas ao mar, contorcendo-se nas mãos dos pescadores, tentando em vão respirar. Ficaram umas petingazitas, lulas, carapaus e peixes-agulha. Os pescadores estavam desapontados, a ver pelas inúmeras grades vazias que vinham no trator. Eles esperavam uma pesca bem mais generosa.
Nestas ocasiões, aparece sempre gente que tenta recolher para os baldes de praia o peixinho fresco que salta da rede - e assim, já não vai à peixaria! - Não sei o que os pescadores pensam, não os vi queixarem-se e a impedir as pessoas de se aproximarem.
Ouvi dizer que de manhã também pescaram pouco. Se é frequente, não imagino como conseguem sobreviver. É uma atividade dura e mal paga, que exige a colaboração de muita gente. Eles podiam estar na praia a apanhar sol ou a passear como nós os dois, mas não. Estavam a trabalhar debaixo do sol quente, num sábado, a molhar as calças na água - não estavam de biquíni nem em calções de banho - enquanto no centro da Torreira havia música e festa.
Afastámo-nos. Joanna queria estender- se nas dunas.
- Mas como? - perguntei eu. - Não temos toalha, nem viemos preparados com roupa de banho.
- Então!? Qual é o problema? Fazemos nudismo.
Fiquei constrangido. Desta, eu não estava à espera! Está certo que ela vinha de Nova Iorque, habituada a atitudes mais liberais e a estar mais à vontade e descontraída com os outros, do que eu. Mas assim, de repente, sem termos falado nisso!? Eu nunca a tinha visto nua e por isso vieram-me à cabeça umas ideias confusas. Éramos só amigos e talvez fosse  a maneira de ser dela, sem segundas intenções. Mas eu fiquei baralhado, mais inseguro. Eu sabia que ela estava a gostar muito daquele dia e não quis desiludi-la nem refrear o seu entusiasmo.
- Ok - anuí timidamente.
Caminhámos para Norte, para onde as pessoas na praia começavam a rarear. Um longo areal estendia-se vazio à nossa frente. Subimos as dunas e procurámos um recanto escondido, onde pudéssemos ficar à vontade a usufruir o esplendor do sol nos nossos corpos.