Deixo aqui o texto de um amigo, que ele me enviou pelo
WhatsApp. Talvez a polícia, os seus familiares e amigos possam obter pistas que
ajudem a localizá-lo e contribuam para entender o seu estado mental nos dias
anteriores ao seu desaparecimento. Que
quereria ele dizer com tudo isto? Seria
um pedido de ajuda? É um enigma.
Não foi sem nervosismo que abri a mensagem e li:
Escrevo diretamente no PC e no telemóvel, em vez de o
fazer em papel, de usar lápis e
caneta. Seria mais intuitivo, orgânico e estimularia as sinapses cerebrais,
havendo uma relação física entre a mão e o cérebro. Desta forma, limito-me a pressionar
uns caracteres no teclado, que aparecem no monitor a emitir uma luz artificial, cansando os olhos e a mente. De
noite, os estímulos visuais e a exposição a uma ferramenta eletrónica durante
as horas em que devia estar na cama, a dormir, provocam-me insónias e, nos
curtos momentos em que passo pelas brasas, agito-me e tenho pesadelos. Sofro de
uma inconstância mental, de súbitas
faltas de memória, palavras básicas que
esqueço, nomes de pessoas conhecidas que me não ocorrem no momento. Debato-me
entre a realidade e a ficção, entre o escrever e o não escrever
Lentamente, vou perdendo o contacto com a realidade. Vivo num
mundo ilusório, inventado por mim, construído com remendos de histórias de
pessoas que conheço, de sonhos e de vidas
imaginárias que povoam os meus pensamentos.
A realidade vai-se esvair como areia entre os dedos, até chegar
a um ponto em que deixo de ser Eu e a
demência passa a ser a norma.
Ouço histórias reais, conheço casos cruéis e, nesses momentos, sinto-me mais entrosado com a vida. Tudo se torna mais nítido e as desgraças
alheias alimentam-me como a um parasita,
para sobreviver.
Depois disso, desapareceu a ainda não foi encontrado.

























