sábado, 29 de agosto de 2009

Rota do Senhor dos Mártires


O PR1 de Alcácer do Sal, A Rota do Senhor dos Mártires, está bem sinalizado do princípio ao fim, é considerado fácil, tem 13 Km de extensão em circulo e está bem descrito, com a indicação dos pontos mais importantes do trajecto, no folheto de divulgação do percurso. Facilmente adquirido em qualquer hotel, posto de turismo ou museu de Alcácer.

A cidade tem uma história que remonta a 5000 anos atrás, até à Idade do Ferro. Foi um importante centro Romano de nome Salatia com cunhagem de moeda, povoado Visigótico, cidade Muçulmana e importante centro medieval. Aqui nasceu Pedro Nunes, um dos mais importantes Matemáticos Portugueses, inventor do Nónio e casou D. Manuel I com a rainha D. Maria de Castela.
É possível, na cripta arqueológica do castelo, observar toda a estratificação histórica desde a Idade do Ferro até ao século XIX nos diferentes tipos de construções que se foram sobrepondo, desde os locais de culto mais primitivos, até aos balneários, muros e cisternas árabes e nos diferentes objectos desenterrados: porcelanas, estatuetas de guerreiros em ferro, bustos e aras romanas, lucernas árabes, crucifixos e relicários medievais. Todos contam um pouco da história riquíssima desta cidade.

A visita é gratuita e culturalmente muito enriquecedora.

Não vou descrever o percurso pedestre. Como disse, ele está bem descrito no folheto e quem estiver interessado também é possível via internet aceder ao mesmo em

http://www.cm-alcacerdosal.pt/PT/Visitar/percursospedestres/Paginas/RotadoSenhordosMartires.aspx

Vou apenas referir e reflectir sobre duas situações que podem acontecer a quem caminha por determinadas zonas.

Primeiro: Cães.

Pode surgir um mais agressivo e pregar-nos um susto.

Junto da Igreja do Senhor dos Mártires, um cão aproximou-se de mim e seguiu-me alguns metros. Era de compleição média e já impunha algum respeito, comecei a ficar nervoso. Não eram festinhas que ele queria. Sei distinguir um cão mais dócil e quando quer brincadeira. Este não ladrava mas também não abanava o rabo nem as orelhas, estava fixo farejando-me a uma certa distância, intrigado.
Não havia mais nada nas redondezas a não ser a Igreja. Se por algum motivo ele decidisse morder-me, apanhar-me-ia completamente desprevenido. Quis enxotá-lo mas puderia ser interpretado como uma atitude agressiva, o que seria pior naquele momento. Por isso, fui andando e ele sem me largar. Olhava para trás, o que está errado porque denuncia nervosismo, e ele cada vez mais desconfiado, pressentindo o meu medo.

Não aconteceu nada, o bicho acabou por retroceder e eu segui o caminho. Contudo, fiquei nervoso e apreensivo e não voltei a usufruir do prazer de caminhar porque ia com estes pensamentos e por causa do que veio a acontecer mais adiante, mas lá chegarei.

Outros cães apareceram a ladrar-me, mas felizmente estavam dentro de casa e os que não estavam eram pequenos e não assustavam, só arreliavam.

Estava sozinho e pode haver situações em que subitamente se fica muito vulnerável. Foi um pouco isso que senti. Não tinha sequer um bastão que poderia servir de dissuasor ou como defesa, numa situação mais extrema. Ouvi falar nuns apitos que têm uma frequência só detectada pelos canídeos e que os deixa meios atrofiados quando os ouvem. Um instrumento destes também pode dar jeito.
Resumindo, não tinha nada útil para defesa contra ataques de cães.

Segundo: Caça.

Pelo que sei os dias oficiais para caça são as Quintas-Feiras e os Domingos, por isso é muito aconselhável evitar estes dias para a realização de percursos pedestres em épocas de caça e que atravessem as zonas estabelecidas para o efeito.

Realizei o percurso numa Segunda-Feira, por isso digo:

Das duas uma: Ou a informação que tenho sobre os dias de caça não está totalmente correcta ou então alguém andava a caçar ilegalmente.

Comecei a ouvir tiros esporádicos ao longe. Quando caminhava entre os arrozais ouço um disparo muito próximo. Assusto-me, claro! E dou um berro para me fazer ouvir e para que se saiba que alguém caminha ali perto. Não ouço nem vejo ninguém.

Alguém anda escondido entre os arrozais e os canaviais a atirar aos patos.

Estou num estradão de terra, devo estar fora do trajecto dos disparos. Imagino que o caçador só disparará para onde os patos se escondem, nos arrozais e juncos.
E se uma bala cruza o caminho onde me encontro na direcção do arrozal do outro lado?

Mais um tiro muito próximo. Dou um berro ainda maior e desta vez tenho que falar: - Hee, anda aqui gente a caminhar… – Não me ocorreu mais nada. Fica-se meio apalermado sem saber o que dizer.

Não há resposta, novamente o silêncio total. Naturalmente devo estar a ser observado pelo caçador que não se quer denunciar ou espantar a caça.
Sinto-me muito desconfortável naquele momento, com tiros muito próximos de mim.

Apetece-me dizer muito alto para acabar com os tiros enquanto eu ali estiver e explicar que estou a fazer uma simples caminhada, que não tenho nada a ver com aquilo, para parar de me assustar.

Ajo com prudência. O melhor é ficar calado para não enervar o indivíduo que deve precisar de concentração para acertar nos animais, ou ainda acerta em mim por desleixo ou intencionalmente porque fiz muito barulho e espantei a caça.
Resigno-me e vou caminhando calado, não tenho outra alternativa. Tento manter um ar calmo e natural mas faço um passo mais ligeiro.

E se me confunde com um pato?

Tenho uma boina axadrezada, t-shirt e calças claras.

E se afinal não for um caçador mas um psicopata que se quer divertir à minha custa?

Tento não ter um ar aflitivo, caso esteja a ser observado.

Vejo uma tabuleta vermelha e branca que diz Zona Municipal de Caça. É Segunda-Feira, não deveria haver caça, julgo eu.

Finalmente começam a aparecer algumas herdades e casas. Não pode haver caça próximo das habitações. Começo a descomprimir.

Estou agora mais determinado e, em certo ponto, furioso. Pode aparecer um cão a mostrar-me os dentes e a rosnar que sou capaz de lhe atirar uma pedra ao focinho.

Vereda dos Brescos



O percurso inicia-se junto à entrada do Parque de Campismo da Lagoa de Santo André.
Segue junto à rede do parque e continua por uma estrada de sobreiros e pinheiros bravos até ao Centro de Interpretação de Paio, do Instituto de conservação da Natureza (ICN).
A partir daqui há duas opções: ir pela direita por um trilho parcialmente coincidente com um percurso marcado pelo ICN, O Percurso da Casa do Peixe, junto da lagoa, ou seguir em frente pela aldeia dos Brescos.
Optei por esta última hipótese. Nesta aldeia pode-se observar um forno comunitário e, mais à frente, o trilho vira à direita passando numa pequena ponte de cimento.
A marcha é dificultada pelo piso arenoso, comum na maioria do trajecto, levantando também muito pó.
De seguida atravessa-se uma zona de pinheiros bravos com extracção de resina e de sobreiros descortiçados. Há muitas pinhas dispersas no chão e agulhas dos pinheiros, o moliço, como é conhecido em algumas zonas do Norte.
O caminho bifurca na localidade de Foros da Quinta. Aqui não vi a sinalização correspondente e vejo-me obrigado a consultar o mapa, vou pela direita. Não me enganei, mais à frente voltam a aparecer as marcas do percurso.
Novamente uma zona muito arborizada de pinheiros mansos e de sobreiros e um estradão arenoso a emperrar a minha marcha.
Cruzo a estrada nacional que liga Santo André a Sines. Uma placa indica Zona de Acesso Restrito e deixo de ver a sinalização. Penso que se existe um mapa com a sinalização do percurso é porque devo poder continuar, não penso noutra coisa senão seguir em frente.
Há muitos minutos que deixei de ver os sinais e oriento-me exclusivamente pelo mapa. Vou em direcção à lagoa que sei que está à minha frente, embora ainda não a vislumbre. Chego a uma Estação Ornitológica, do Monte Outeirão, não vejo ninguém, apenas um carro e um jeep do ICN. Silêncio à minha volta. É uma boa altura para pedir um esclarecimento qualquer porque começo-me a sentir meio desorientado.
Continuo na direcção da lagoa. Ultrapasso uma vedação e mais à frente há uma cabana de madeira que me parece abandonada, sigo por ali porque é o único trilho definido. Chego a uns juncos, aparentemente não há continuação, o trilho torna-se mais incerto entre as zonas lamacentas dos juncais e das ervas altas. Não faço ideia por onde seguir e volto para trás até à estação ornitológica a ver se encontro alguém que me ajude.
Felizmente encontro um indivíduo que me esclarece que aquela zona é de acesso restrito, só pessoas ligadas ao ICN podem deambular por ali para observar aves e fazer trabalho científico. Uma das actividades da estação é a anilhagem das aves. A parte do trilho que atravessa aquela zona foi marcada sem a permissão do Instituto.
Talvez seja por isso que deixei de ver as marcações.
Sou informado amavelmente de como sair dali e volto a retomar o mesmo sentido até uma nora onde o trilho se torna novamente mais definido. Mais à frente o trajecto torna-se coincidente com a marcação do percurso da Casa do Peixe.
A Zona de Protecção Especial das Lagoas de Santo André e da Sancha é um espelho de água separado do oceano por uma duna. Nos invernos, o cordão dunar rompe-se e dá-se a renovação da massa de água e o repovoamento com alguma fauna piscícola, o que permite a conservação da biodiversidade.
Inúmeras espécies de aves nidificam nos canaviais, turfeiras e zonas húmidas envolventes: patos, tartaranhões, garças e cegonhas, entre muitas outras. Os diferentes graus de salinidade da água originam uma convivência de muitas espécies adaptadas a diferentes regimes alimentares.
Aves minúsculas depenicam ao longe na lama dos charcos, pequenos pontos brancos no horizonte, e, ao meu lado, quatro gralhas assustam-se e voam subitamente da erva alta, uma-a-uma como os aviões à espera da descolagem.

Chego finalmente ao Monte do Paio, a partir daqui repito o percurso, no sentido inverso, até ao parque de campismo. Estou empoeirado, é Agosto e está muito calor.

A vereda dos Brescos é o PR1 do Concelho de Santiago do Cacém. São onze quilómetros em sentido circular de baixo grau de dificuldade, com a inconveniência de se passar numa zona protegida sem marcação, ou então fui eu que vi mal, e sem a permissão do ICN.

No regresso à Galé decido procurar um barbeiro, há muitos dias que ando fora de casa sem fazer a barba e começo a ter mau aspecto.

Em Melides dizem-me para ir até às bombas de gasolina que ali ao lado há uma senhor que faz barba, é o único nas redondezas.

O Senhor M. é muito idoso e treme um pouco, fico indeciso. Já que ali estou não quero fazer a desfeita. Ainda me pergunta se tenho a certeza se quero fazer a barba, fico mais indeciso ainda. Mostro um ar natural e digo que Sim.
Não quero parecer indelicado e dar a entender que recuso a barba devido à idade do senhor.
-Faça-me a barba com muito cuidado. Detesto fazer a barba, não trouxe a máquina para a aparar - Ainda me pergunta se prefiro aparar a barba com a máquina, também tem uma no salão.
Já que ali estou, vou até ao fim. Cheguei com a ideia de fazer a barba com lâmina e, apesar de tudo me dissuadir, digo resoluto:
- Com lâmina! – Mas vou avisando – É uma barba difícil…
- Não há problema. Faz-se devagarinho, com calma.
O Sr. M. tem 91 anos, é barbeiro há 70, sempre em Melides.
Vai cortando muito devagarinho, sinto-lhe a mão a tremer mas não me corta a pele uma única vez.
- O senhor tem uma barba terrível!
No fim mostra-me um espelho para eu ver a minha cara de mais perto. Há alguns tufos de pêlo debaixo do nariz, no pescoço e na cara.
- Sr. M, corte aqui.
- Sim, sem pressa…
-E aqui, e aqui.
Volta-me a mostrar o espelho. Continuo com o tufo debaixo do nariz
- Este é difícil, em casa também me custa muito cortá-lo. É preciso enfiar a lâmina quase dentro do nariz. - Digo para amenizar a situação.
O Sr. M. corta devagarinho, passa a lâmina nos mesmos sítios mas não me corta.

- Obrigado Sr. M. Você deve ser o barbeiro mais velho de Portugal.
- Já estive para ir à SIC – Diz com orgulho.
- Ainda está a tempo!

Mais tarde, no parque de campismo, reparam que ainda tenho alguns pêlos dispersos pela cara – Paciência.
O parque tem acesso directo para o mar. Vou imediatamente para a água e dou um mergulho. Limpo as poeiras e o suor entranhado no corpo e refresco cara da sensação desagradável de desprotecção.
Finalmente o mar, a ondulação suave da praia da galé.

Arriba Fóssil da Praia da Galé

S. Yacobo de Cazem


É com este nome, que soa a Judaico e Muçulmano, que surge uma das primeiras referências ao Concelho de Santiago do Cacém. É também o nome de um percurso pedestre urbano que dá a conhecer o património desta cidade Alentejana.
O quer mais sobressai é o silêncio das ruelas e a ausência de pessoas. Hoje é 15 de Agosto, feriado de Nossa Senhora da Assunção, talvez por isso haja menos gente ainda. Só na igreja Matriz é que fico a saber que hoje é feriado. Em férias perco a noção do tempo e do passar dos dias, são todos iguais, não tenho horários, não consulto calendários, nem conto os dias que faltam para o fim-de-semana.
A igreja é de uma beleza sóbria. O alto-relevo de Santiago combatendo os Mouros é uma obra medieval digna de admiração que nos impõe respeito.
O castelo está fechado, contorno as muralhas pelo passeio das Romeirinhas e seguidamente deambulo pelas ruas do Centro Histórico consultando o guia quando vejo um edifício que me suscita mais curiosidade: o Palácio da Carreira, a Praça Conde de Bracial, a pequena escadaria da Igreja de Santiago que convida a um descanso, agora que faz sombra nos degraus e ninguém passa.
São muitos os edifícios brasonados que conferem um estilo elegante ao Centro e os vestígios construídos ao longo de mais de setecentos anos de história.
D. Sancho I fez a doação do Concelho à Ordem de Santiago e Espada, contudo os Muçulmanos reconquistaram estas terras, até os cavaleiros Cristãos as retomarem definitivamente em 1217.
Entre 1310 e 1336 Santiago pertenceu a uma princesa Bizantina de nome Vetácia. Um nome e uma origem que facilmente nos transportam para mistérios e lendas medievais, propícios à imaginação.
Como é que esta princesa oriental se tornou dona destas terras?
Duas idosas conversam à porta de casa, mais abaixo há festa na filarmónia e chega à rua o som de acordeão e de guitarras, uns miúdos brincam às escondidas. Nas restantes ruas reina o silêncio, parece que se ouve o eco dos passos. Tanta história que existe por trás destas paredes e tanto silêncio!
Caminho com o vento brando e aprazível pela frente e sento-me num miradouro a observar a planície que se estende até ao mar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Setúbal


Quando eu era miúdo o Bocage era uma personagem das anedotas que ouvia contar entre os meus colegas. Um palerma que resolvia muitas encrencas recorrendo aos mais ridículos e absurdos expedientes, sendo muitas vezes enganado pelos outros e o alvo predilecto de patifarias e travessuras, de quem todos se riam.
Até em algumas zonas do Brasil se contam anedotas do Bocage.
Esta imagem depreciativa não revela a grandiosidade e o talento do verdadeiro Bocage, cuja vida atribulada deu azo à invenção de muitas anedotas e ao exagero.
Teve muitos inimigos, foi preso pela inquisição e não suportava nenhum tipo de tirania. Questionava os fundamentos da Igreja e do Estado e a hipocrisia social, o que lhe saiu caro. Acusado pela inquisição de conduta imoral, esteve preso no Limoeiro e morreu miserável na casa de uma irmã em Lisboa.
Filho de um advogado e neto de um militar Francês que se havia estabelecido em Portugal. A mãe ensinou-lhe a língua do avô e assentou praça aos dezasseis anos, depois alistou-se na marinha e viajou pelas paragens do Império. Desertou e regressou a Lisboa.
Comparava-se a Camões na desventura mas não no talento. Ficou conhecido principalmente pelas rimas satíricas e eróticas. Uma de cariz biográfico reza assim:

Aqui dorme Bocage, o putanheiro
Passou vida folgada e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro

Nasceu em Setúbal em 1765 e faleceu em 1805.

O Feriado municipal de Setúbal comemora-se na data de nascimento do Poeta.

Na casa de Bocage não há um único objecto que lhe tenha pertencido, apenas as paredes onde viveu até aos dezasseis anos e uma exposição sobre as suas sete musas: a Inspiração, a Dor, a Ironia, A Boémia, o Lirismo, a Revolta e o Erotismo.

Como morreu miserável e pobre, nada restou.

No piso superior está albergado o espólio do fotógrafo Américo Ribeiro. Mais de 140 000 negativos de pessoas, ofícios, tradições e algumas máquinas fotográficas que retrataram a região de Setúbal no segundo quartel do século passado.

Chego à cidade no autocarro vindo da praia da Figueirinha, sem mapa e sem nada planeado. Começo uma deambulação incerta a partir da Av. Luísa Todi, que será a minha referência para não me perder. Todas as ruas vão dar a Roma, diz o ditado. Aqui em Setúbal parece que todas as ruas vão dar à Av. Luísa Todi.
Sigo pelas ruas adjacentes e chego à Praça do Bocage. Percorro as ruelas estreitas e pedonais em calcário, entre casas de tons claros e outras mais vetustas, descubro becos e escadarias.
Há poucos declives, o relevo é suave e torna-se agradável caminhar com a brisa quente deste dia de Agosto.
Cheira constantemente a peixe assado. Quase todos os restaurantes têm um assador no exterior. O bairro das Fontainhas parece ser a zona a com maior densidade de restaurantes: há vários tipos de peixe assado, choco frito e a caldeirada Setubalense. As esplanadas estão bem compostas com pessoas a almoçar e algumas com filas à espera.
Encontro o Museu do Trabalho Michel Giacometti, só abre ao fim da tarde. Gosto da homenagem que fizeram a este etnomusicólogo, atribuindo-lhe o seu nome ao museu. Venho a saber que a temática da exposição não está relacionada com as recolhas musicais feitas por ele, mas com a indústria conserveira. Existiram em Setúbal, aproximadamente, cento e cinquenta fábricas conserveiras, hoje não há nenhuma.

É hora de almoço e a Casa do Corpo Santo, que alberga o Museu do Barroco, também está fechada. Entro na Casa do Bocage e surpreendo-me mais tarde com o Convento de Jesus.
Há mais de três horas que caminho sem parar. Procuro a Av. Luísa Todi e descubro outras avenidas no caminho. Está na hora de regressar à praia.
No autocarro aberto, número 723, tem-se uma panorâmica agradável do trajecto, encostado à serra da Arrábida, junto do rio Sado, que tem uma população de 25 golfinhos-roazes, em declínio, e Tróia na outra margem.
A praia de Albarquel, o Outão, a cimenteira da Secil e a Figueirinha. Cheguei.

Praça do Bocage

Convento de Jesus

Da Figueirinha ao Portinho da Arrábida


Para quem vem de carro a estrada é de sentido único da Figueirinha ao Portinho, entre as 9.00 e as 18.00h. Portanto, quem vai ao Portinho não pode voltar para trás, antes dessa hora.
Indo a pé pode-se caminhar no sentido que bem se entender, desviar o rumo e improvisar à sua vontade com um grau de liberdade impossível num carro.
São centenas de carros estacionados nas bermas da estrada entre estas praias, por isso tentei desviar-me o mais possível do asfalto e caminhar pela areia.
Li descrições do Portinho nas crónicas que o João Benard da Costa fazia no jornal Público e sempre ouvi referirem-se a Sebastião da Gama como o poeta da Arrábida. «Pelo sonho é que vamos».
Tenho que conhecer alguma coisa daqui. Parto da Figueirinha apinhada de gente que vem de Setúbal. Sortudos por terem uma praia tão bela ao pé de casa!
Noto logo algumas diferenças em relação ao Norte: o azul do mar é mais intenso, a água mais translúcida, o areal mais branco. Há mais luminosidade no céu.
O estuário do Sado e o mar fundem-se numa harmonia de imenso azul. Há uma língua de areia que se estende quase até Tróia, na outra margem (do rio ou do mar?).
Alguns vultos caminham parecendo suspensos na água e há barcos de recreio ancorados ali.
Regresso à estrada, passo por um túnel num passadiço lateral em madeira. Do meu lado esquerdo tenho o mar e pinheiros bravos que protegem a encosta e, do lado direito, a Serra da Arrábida com os seus picos e vegetação rasteira.
Desço para a praia dos Galapos e caminho junto à água, passo numa zona rochosa e chego a outra praia. Não sei se continua a ser a mesma, visto que há continuidade entre as duas e estão encostadas uma à outra. Aqui há mais reentrâncias rochosas e pequenos abrigos, ideais para mergulhos. Não descubro continuação. Tenho que subir e seguir em frente pela estrada. Passo entre a vegetação rasteira que cobre o acesso a esta praia. Há vários caminhos de terra, podia entreter-me algum tempo por aqui a calcorreá-los.
As cigarras cantam intensamente e sinto um cheiro familiar a camarinhas. Estas são pretas, tipo groselhas. Não me atrevo a prová-las. As comestíveis são brancas.
Chego à estrada. Continua a haver carros e mais carros estacionados nas bermas. Um pouco mais à frente começo novamente a descer para o mar e visito a Estação Arqueológica de Creiro.
Aqui existiu um centro de salga do peixe no tempo dos Romanos. Recordo Tivoli, perto de Roma. São muito modestas estas ruínas comparadas com as outras, contudo o calor, o cântico das cigarras e a sensação de estar numa ambiência mediterrânica são muito idênticas.
Vê-se o mar ao fundo entre os pinheiros. Será que os trabalhadores da salga teriam tempo para apreciar esta beleza paisagística? Quais os conceitos estéticos da época?

No areal, vou até ao fim. Tenho dúvidas se já cheguei ao Portinho, aqui não há praia , só um minúsculo cais sobre a brita. Talvez por isso se chame «Portinho». A praia estende-se antes de chegar aqui, no Creiro. Isto, afinal, é só uma extremidade dessa praia. Uma escola de mergulho, meia dúzia de casas bonitas e um ou dois restaurantes.

Regresso disposto a ir mergulhando nas praias mais bonitas. Fiz o reconhecimento dos lugares e adquiri a noção da distância e da demora. Foi fácil, em duas horas, com calma e parando cheguei aqui, agora posso mergulhar mais à vontade. Tenho muito tempo.

Vejo algumas pessoas a seguir em frente depois do areal do Creiro. Resolvo descobrir o que há mais além, passo por rochas, tendo que caminhar algumas vezes dentro de água. Como há outros a fazer o mesmo, sigo até onde puder. Chego a um areal fino e branco, de água translúcida com uma ilhota em frente. Conto as pessoas, quinze comigo.
Um sítio excelente. Estendo a toalha. À água é límpida mas fria. Entro até ter água pelo pescoço e vejo nitidamente a ponta dos meus pés.
Demoro-me a dar alguns mergulhos e estendido na toalha. Tenho que regressar para experimentar mais mergulhos noutras praias e porque a maré está a subir.
Já não é tão fácil passar entre as rochas, agora a água chega-me à cintura. Mais uma hora e teria que nadar e molhar a mochila e a máquina digital. Estragaria tudo.

Volto a passar na estação arqueológica e sigo para a praia dos Galapos pelos caminhos de terra entre os arbustos. Há vários, não sei bem qual deles é o correcto. Vou andando na direcção do mar e dou de caras com outra praia não vigiada. A água é de um verde transparente, a verem-se as rochas junto às encostas que a abrigam. Tem pouca gente. Demoro-me aqui com mais um banho e no regresso tento memorizar o caminho de terra correcto para amanhã trazer as minhas queridas companheiras e fazer-lhes uma agradável surpresa.


Na praia da Figueirinha reencontro-as e digo que esta praia é boa, mas que amanhã vamos para outra com menos gente e muito bonita também.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Aldeia de José Franco



José franco foi um oleiro que devotou uma parte significativa da sua vida a um sonho, a construção de um aldeamento em miniatura que representasse os ofícios, vivências e pessoas característicos da região do Oeste.
A aldeia situa-se na estrada nacional entre Mafra e Ericeira, no lugar de Sobreiro, do lado direito. É fácil de identificá-la, a primeira construção que se vê é um moinho de vento, branco como os da região. Quem pára não imagina a surpresa que nos espera.
Uma série de construções em miniatura distribuem-se por trás, através de ruelas a imitar uma aldeia tradicional, com casinhas, coretos, igrejas, torres, presépio, escolinha, tasca, mercearia, sapataria, olaria, padaria e restaurante (verdadeiros estes).
No interior de algumas casinhas há manequins que representam as profissões mais características: a tia Adelina da tasca cheia de presuntos e aguardentes nas paredes, o sapateiro a coser sapatos, o oleiro com a sua esposa e a porta que dá acesso à mó e ao rio, a escolinha com as carteiras em miniatura, os mapas de África, as Lousas para escrever.
A padaria, verdadeira, serve um afamado pão com chouriço, feito na hora e o restaurante, são as únicas formas de subsistência e manutenção deste lugar, explorado pelos descendentes do Senhor José Franco, falecido este ano. A entrada é gratuita.
Foi imensa a generosidade deste senhor que com todo o seu talento criou este pequeno mundo de fantasia e o pôs à disposição de quem quiser aqui vir.
Há ditados e sabedoria popular escritos no tradicional azulejo azul e branco, fixo nas paredes das casinhas, alguns cheios de riqueza e profundidade filosófica.



quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Tapada de Mafra


Existe desde 1747 por ordem do Rei D. João V que, no seguimento de construção do Palácio-Convento de Mafra, quis ter um local para refúgio da corte e abastecimento de lenha.
São mais de 11 000 hectares, a maior extensão de terreno murado em Portugal, tutelados, em parte, pelo Ministério da Agricultura para o aproveitamento dos diversos recursos da tapada.
Um deles é a caça que teve a sua época áurea nos reinados dos Reis D. Luís e D. Carlos. Outros são os percursos pedestres temáticos, os passeios em BTT, a cavalo, em charrette, foto-orientação, visitas em comboio articulado e turismo de habitação.
Existem 3 percursos pedestres sinalizados por cores: verde, amarelo e azul. Os primeiros com 7,5 km de extensão e o último com 4 Km.
Escolhi o percurso verde, centrado na fauna. Observei gamos e javalis a deambular livremente junto da recepção, as expectativas eram por isso elevadas para ver muitos outros animais.
O caminho está bem delineado por um estradão em terra batida e sinalizado com setas verdes numeradas de 1 a 21. A cada número corresponde uma explicação no guia do percurso.
Desloco-me sem observar os animais, vejo vestígios, excrementos e pegadas de gamo. Uma ave de rapina plana sobre o vale e ouço um ruído vindo dos arbustos. É um gamo que se camufla na vegetação.
Passo no cercado dos lobos e não os vejo, circundo-o silenciosamente e nada. Tento esmiuçar todos os recantos possíveis, existe uma zona mais densa no meio. Deve ser ali que fazem as tocas e estão escondidos.
No cercado ao lado estão veados, estes sim, bem visíveis. Distinguem-se dos gamos pela maior corpulência e penugem menos sarapintada.
Próximo do estradão vejo finalmente um conjunto de gamos e javalis. Aproximo-me. Pela primeira vez estou muito próximo de javalis em liberdade.
Qual será a reacção deles à minha aproximação?
Os gamos são os primeiros a pressentir-me e afastam-se, os javalis continuam a focinhar no mato. São fêmeas com crias. Decido não aproximar-me mais e manter-me a uma distância de segurança. As mães com crias podem ser perigosas. Tiro uma fotografia.

Um incêndio devastou a tapada em 2003 e muitas áreas estão a ser reflorestadas com espécies autóctones. A única que sobreviveu em grande número ao incêndio foi o sobreiro que resiste ao fogo por causa da cortiça.

O caminho é agradável, absolutamente seguro, com sombra e acessível. Está sempre bem delimitado e com explicações através dos vários painéis.

Para mais informações sobre a Tapada, o contacto da portaria é o número 261 814 240 e o website http://www.tapadademafra.pt/

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Ericeira: Percurso Urbano e Maritimo


Levanto-me às 6.30 da manhã para realizar este circuito pedonal na Ericeira. Tento seguir exactamente a numeração do folheto que adquiri de véspera no posto de turismo, mas fico mais desorientado. Chego à conclusão que é mais fácil deambular sem ordem e consultar o folheto apenas nos pontos que me suscitem mais curiosidade.
Existem dois circuitos marcados com pequenas tabuletas em forma de prancha de surf (a Ericeira é uma das principais estâncias de surf do país), um junto ao mar e outro pelas ruelas da vila. Ambos cruzam-se e podem ser realizados em duas horas.
Não vejo ninguém na rua, o dia amanhece fresco e límpido. È um momento muito agradável para fotografar as ruas desertas e ouvir os passarinhos a chilrear freneticamente nas árvores.
Junto ao mar o cheiro das algas é forte e o areal está completamente molhado. É estreito. Fico na dúvida se foi a água que chegou ao muro durante a noite ou se foi da humidade.
Um dos pontos emblemáticos é o pelourinho que testemunha a categoria de Concelho. O da Ericeira foi extinto no século XIX.
A parte típica tem ruelas de casas brancas e esquinas coloridas, as capelas de Santo António e Santa Marta, outras ermidas e fontes. Há muitos restaurantes, lojas e comércio abertos até tarde (durante o verão, pelo menos), com muita animação nocturna.
A estrada nacional 247 divide a parte velha da nova, repleta de empreendimentos com a habitual “Vista para o mar”.
A Ericeira é actualmente uma freguesia de concelho de Mafra, outrora foi uma Vila com foral concedido pelo Rei D. Afonso V. Local de veraneio de muita nobreza, daqui partiu o Rei D. Manuel II para o exílio em Inglaterra, após o derrube do regime Monárquico em 1910. Foi também a quarta mais importante alfândega portuária do reino, depois das de Lisboa, Porto e Setúbal.
Realço o charme do hotel Vila Galé, mesmo defronte do mar. Não estive alojado nele, apenas vi o seu enquadramento que não passa despercebido a quem visita a Vila, não destoa da envolvência marítima e rochosa em que se insere.