quinta-feira, 17 de abril de 2014

Serra da Estrela

Lagoa Comprida
Os antigos montes Hermínios dos Romanos e dos Lusitanos, de onde Viriato e as suas hordas de guerreiros indomáveis desciam para combater e depois voltavam aos refúgios inacessíveis. Dificilmente subjugados, só à traição foram conquistados pelos Romanos, após os assassinatos  de Viriato e de Sertório,  seu sucessor.
O rei Dom Carlos realizou uma expedição à serra da Estrela no início do século XX, que mesmo nessa época continuava a ser um local de muito difícil acesso. Rezam as crónicas que a expedição teve de ser preparada com muita antecedência e envolveu meios logísticos pouco habituais, desde carroças para transportar todo o material necessário ao conforto e à dignidade de um rei e da sua comitiva, assim como os aparelhos científicos para o registo das observações.
Hoje é fácil chegar à serra. Situada no centro de Portugal, equidistante dos principais centros populacionais. O grande afluxo de turistas retira-lhe algum interesse e genuinidade. A torre continua a ser um local horrível, as lojas de artigos regionais são pindéricas, os armazéns são feios e sem enquadramento arquitetónico. As estradas estão buracadas e apinhadas de carros aos fins-de-semana e feriados. Abstraindo-nos destes aspetos e retirando-nos para outros locais com menos afluência, talvez se volte a encontrar o silêncio e o espaço para contemplar a majestade da serra.
 Os lusitanos celebravam os seus cultos nos pontos mais altos, que era onde estavam mais próximos das estrelas e dos Deuses. Talvez no silêncio, longe das hordas de turistas se possam reencontrar os Deuses destas paisagens imponentes.

Turfeira


Pinheiro Silvestre
Pias
Vale Glaciário do Zêzere
Cântaro Magro e Covão da Ametade
O Cântaro Magro e o Rio Zêzere


Nave de Santo António

 

domingo, 6 de abril de 2014

O Caminho do morto que matou o vivo


A aldeia de Covas do Rio não tinha cemitério. Os mortos eram enterrados na vizinha Aldeia da Pena, algumas centenas de metros mais acima. Nesses tempos não havia estrada, o caminho fazia-se subindo pelo vale encaixado e declivoso, impossível de ser ultrapassado por carroças com animais. Só os homens a pé, com o seu esforço e vontade conseguiam transportar os objetos maiores. Era desta forma que os caixões iam para o cemitério na Aldeia da Pena, levados nas costas. Num desses momentos, com os homens exaustos, o caixão escorregou dos ombros e deslizou pela encosta abaixo, matando quem vinha atrás. Assim o caminho ficou a ser conhecido pelo nome do “Caminho do morto que matou o vivo”.
Creio já ter ouvido versões idênticas noutros lugares. Não faço ideia se a história realmente aconteceu e se foi aqui ou noutro sítio, no entanto o paradoxo do “morto que matou o vivo” é curioso e intrigante para quem não conhece a história. Ouvi-a ser contada de diferentes formas e com muito humor. Como é de prever o caminho é difícil, de outra forma não poderia ter ocorrido o acidente com o caixão.
O riacho corre rumoroso e límpido pelo vale encaixado, formando minúsculas cascatas e lagoas. O caminho é por vezes um estreito carreiro de terra sulcado na serra, outras vezes é composto por lajes soltas de xisto, muito escorregadias, debruadas de um lado por muros de xisto e do outro pelo precipício do riacho. As giestas, gilbardeiras, urzes e tojo crescem nas encostas da serra, dando-lhe um tom  amarelado e rosa. Nos locais mais abrigados há carvalhos e loureiros.
Entra-se na aldeia da pena por um vale onde pastam algumas vacas e cavalos. As habitações são de xisto, mantendo a traça arquitetónica tradicional. O único acesso por estrada é uma ingreme descida que vem do São Macário. São poucos os habitantes que permanecem aqui, contudo existe uma adega típica que serve petiscos por encomenda e vende queijo e mel da serra. O Caminho do Morto termina na aldeia da pena. O regresso faz-se por Covas do Monte, através da encosta da serra da arada, passando por um pinhal e depois por uma paisagem mais aberta, de onde se avista toda a serra de Montemuro, mais a norte, e a serra da Freita, a poente. Covas do Monte fica encaixada num vale profundo, cercada pelas encostas da serra da Arada e pelos terrenos agrícolas que se distendem verdejantes ao longo do vale. Também aqui há um pequeno restaurante que faz refeições por encomenda, as tradicionais casas de xisto, espigueiros e, surpresa, um espaço internet.
Na aldeia de Covas do Rio tem-se tempo para uma visita mais demorada, sentindo o andamento e o viver das pessoas, quase todas idosas. Há apenas uma criança que frequenta a escola noutra freguesia. Os idosos, como acontece cada vez mais em Portugal, são a esmagadora maioria. Uma senhora corta a lenha e rapidamente alguns pedestrianistas se prontificam para a ajudar, outros habitantes oferecem vinho caseiro ou contam histórias da sua vida, sentados nos degraus da entrada. Há uma rua estreita que atravessa a aldeia, circulando apenas um carro de cada vez. Imagino que a vida seja muito idêntica ao que era há cinquenta anos atrás, havendo contudo um acentuar dos velhos problemas: envelhecimento da população, isolamento, falta de apoio aos idosos em comodidades básicas como a saúde: um táxi custa 40€ para o médico mais próximo, em Arouca ou São Pedro do Sul, e não há nenhum subsídio que pague estes deslocamentos. As pessoas estão cada vez mais envelhecidas e entregues a si próprias.
Nesta região fica a famosa capela do São Macário, uma ermida no alto da serra da Arada, construída nas rochas de xisto; e o Portal do Inferno, um pequeno troço na estrada sinuosa que une os concelhos de São Pedro do Sul a Arouca, cujas bermas são precipícios de um lado e do outro. A conduzir com muito cuidado!
Participei num numeroso grupo de caminhantes inseridos noutros clubes: os Calcantes, Serrabiscos, Clube de Campismo de São João da Madeira. O mais surpreendente foi verificar que apesar de numeroso e da exigência física do caminho, o grupo funcionou muito bem. Manteve uma passada regular, não houve percalços, ninguém se sentiu mal ou ficou para trás. Todos caminharam com desenvoltura e o ambiente geral foi descontraído e divertido.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Barragem da Queimadela


A Barragem da Queimadela foi inaugurada em 1993 pelo então presidente da Câmara de Fafe, Parcídio Summavielle. Serve para produção de eletricidade e irrigação. Hoje é talvez o principal polo turístico do concelho. No verão é praia fluvial, com parque de campismo adjacente e local onde se iniciam e cruzam pelo menos três Percursos de pequena rota: 1, 4 e 11. Onde se privilegia a preservação da natureza e as formas de contacto mais natural e saudável com ela. O perímetro da barragem, embora curto, cerca de 3 Km, é bastante diversificado sob o ponto de vista paisagístico e Humano. Nele se cruzam levadas e moinhos, alguns deles excelentemente recuperados e transformados em turismo de habitação na aldeia do Pontido, aldeias de granito, típicos espigueiros de milho e uma flora e fauna diversificada com variedade de espécies autóctones como os Quercus e os castanheiros, as lontras, aves de rapina e peixes como a truta, que sobrevive apenas em águas muito oxigenadas e límpidas. O declive é pouco acentuado e facilmente se completa o percurso em pouco mais de uma hora. Neste altura do ano, devido às chuvas abundantes que têm caído, o caudal do rio Vizela, que alimenta a barragem, está bastante impetuoso e as cascatas com muita água. O que torna o percurso ainda mais interessante e bonito. Ver toda esta profusão de água, granito, musgos e caminhos rurais cobertos de folhas castanhas. O Visionarium – Centro de Ciência Viva do Europarque – retomou um projeto de saídas de campo, neste caso as Expedições Científicas. É no próximo Domingo que se realiza a primeira saída do ano, que se realizará pelo perímetro desta barragem. Os participantes terão a companhia de um biólogo para interpretação da fauna e flora e haverá outras surpresas. O número limite de participantes está quase esgotado assim como a data de inscrição. O ponto de encontro é o parque de campismo da Queimadela às 14.00. Para mais informações consulte o site do Visionarium (http://www.visionarium.pt/index.html).
 Deixo como aperitivo algumas fotos do trajeto. A próxima saída de campo do Visionarium está agendada para o dia 23 de Março à floresta do Furadouro.
Levada

Aldeia do Pontido






domingo, 8 de dezembro de 2013

Pé do Cabril

Por detrás da velha e abandonada casa do guarda-florestal, na Portela do Leonte, a 862 metros de altitude, há uma encosta que leva ao Pé do Cabril. O maciço rochoso é visível desde muito longe, a vários quilómetros de distância. Imponente e difícil de acreditar que é possível chegar lá acima. A subida tem pouco declive inicialmente. Há a sombra de vários azevinhos – uma árvore protegida – carvalhos e pinheiros. O trilho é de terra batida, bem definido e, mais adiante, as mariolas orientam o caminhante em direção ao Pé do Cabril. Quem sobe por esta encosta passa obrigatoriamente por um túnel numa rocha. Uma curta passagem de vinte metros, feita de cócoras e com a mochila arrastada pelo chão. Depois, a inclinação torna-se mais acentuada, quando começa a subida para o maciço rochoso, sendo necessário trepar com a ajuda das mãos. Lá no alto ficamos numa situação delicada, com precipícios de paredes rochosas, quase lisas, de um lado e do outro. Almoçamos num pequeno espaço, cercados pelas falésias. Que medo! Que vertigens eu tenho! O vento por vezes sopra com força e uma rajada qualquer parece capaz de nos desequilibrar e mandar-nos cá baixo. A panorâmica é estonteante: o vale encaixado do rio Gerês, a barragem da caniçada e mais montanhas para poente. O Pé do Cabril tem cerca de 1200 metros de altitude. Para chegar mesmo ao topo é necessário subir a rocha por uns apoios metálicos que servem de escadaria. Não o fizemos. Eu nunca o faria de qualquer forma, com medo das alturas. No regresso necessito da ajuda de dois colegas, há uma passagem muita estreita e não posso olhar para baixo, com vertigens. Um de cada lado protege-me do precipício. Tentamos descobrir um trilho que contorne o Pé do Cabril para não ter que regressar pelo mesmo caminho. Não descobrimos. Há tempo ainda para ir ao outro lado da encosta e ver a barragem de Vilarinho das Furnas e os contrafortes despidos e austeros da serra Amarela.




Excrementos de lobo

Azevinho

Vale do Gerês, visto do Pé do Cabril


Barragem de Vilarinho das Furnas


domingo, 3 de novembro de 2013

Percurso de Fermelã



Foi inaugurado recentemente o percurso de Fermelã, sinalizado como PR8 de Estarreja. Faz parte da rede de percursos pedestres do BIORIA e é talvez o mais diversificado e bonito de todos os que conheço em Estarreja. Suplanta o percurso de Salreu. Como todos, é totalmente plano e ciclável. As vias são estradões de terra largos e bem definidos. No entanto a diversidade de cores é maior, observam-se mais culturas e mais espécies de árvores. O percurso passa pelo labirinto de terrenos do Bocage e junto de esteiros que desaguam na ria. Há vacas marinhoas, cavalos e muitas aves. Está bem sinalizado, com as cores vermelho e amarelo de pequena rota. Tem painéis explicativos, bem cuidados sobre a fauna e flora local. Uma boa oportunidade para aliar o desporto de natureza à interpretação da paisagem. Este ambiente, embora com muita flora e fauna selvagem, foi sendo transformado pelo Homem ao longo dos tempos, que aproveitou a presença da ria e dos esteiros para construir uma rede de canais de irrigação, controlando o fluxo de água através de comportas. Quem segue na EN109 vira à direita depois de Canelas. Segue em direção ao parque do Canal ou à rua do Carregal, os pontos de início e fim do percurso.






domingo, 6 de outubro de 2013

Ermida Gerês


Caminhada circular com início na ponte do Arado, improvisando e descobrindo novas encostas do Gerês. Dia de Sol magnífico com direito a mergulho numa lagoa de água gélida. Regresso ao local de partida pela ribeira e cascata do Arado.
Nas proximidades fica a aldeia de Ermida, pertencente ao Concelho de Terras de Bouro, distrito de Braga, no limite com o concelho de Montalegre e o distrito de Vila Real.
Uma pequena parte deste percurso coincidiu com  o PR  14 de Terras de Bouro – Trilho do Sobreiral da Ermida do Gerês .


6 horas de duração aproximada, dificuldade média/elevada, devido principalmente a uma encosta com um declive extremamente acentuado e à dificuldade em encontrar um trilho seguro . Finalmente, foram encontradas as mariolas dos pastores para orientar os caminhantes.










domingo, 14 de abril de 2013

Fragata D. Fernando II e Glória



Em 1963 um incêndio destruiu a Fragata D. Fernando II e Glória, a última a fazer a carreira das Índias.


Construída em 1843 em Damão, na índia Portuguesa, fez a carreira nas últimas décadas do século XIX.


Foi o navio chefe da armada na campanha militar do Ambriz, em Angola no ano de 1855, e mais tarde das forças navais Portuguesas; escola da artilharia naval e, a partir de 1940, sede da obra social, que acolhia rapazes de fracos recursos económicos, ensinando-lhes as artes da marinha.


Entre o incêndio de 1963 e 1992 esteve encalhado no rio Tejo, até ao início dos trabalhos de restauro nos estaleiros de Aveiro.


Foi apresentado remodelado na expo de 1998, encontrando-se exposto atualmente na base naval do Alfeite, em Almada.


D. Fernando II foi rei consorte, marido de D. Maria II, que reinava Portugal no ano do lançamento da fragata à água.


A viagem entre Lisboa e a Índia demorava 5 meses e a fragata chegou a transportar mais de 600 pessoas, entre tripulantes e passageiros. Também eram transportados animais vivos, que iam sendo mortos durante a viagem para haver sempre carne fresca.


Imagino que as condições de higiene eram deploráveis. O cheiro e os dejetos dos animais, ovelhas e galinhas principalmente, colocados a bordo de um navio com centenas de pessoas, amontoadas num espaço exíguo. Provavelmente não existiam latrinas, talvez um simples balde servisse para as necessidades, ou o mar diretamente.


Não existiam lugares fixos, os passageiros que desejavam um pouco mais de privacidade, recolhiam-se em mini camaratas, protegidas por tapumes de madeira, desmontáveis diariamente. A maioria dormia em camas de rede ou no soalho.


Apesar das limitações, existia uma botica onde eram preparados os medicamentos e um pequeno altar para a realização das missas.


É um precioso restauro. Mantêm-se detalhes originais que, imagino, terão sido muito difíceis de restaurar.


Como encontrar pessoas, mestres e artífices, capazes de recuperar um navio com as mesmas características de há 150 anos atrás?


A fragata D. Fernando II e Glória conta uma parte importante da História de Portugal e das relações com a India. Um período trágico e grandioso ao mesmo tempo, que durou quase 500 anos, desde a construção do império, no início do século XVI, até ao século XX. As viagens eram realizadas em condições que nós hoje dificilmente imaginamos, foi preciso entrar no navio para perceber um pouco como se vivia a bordo.