sábado, 21 de março de 2026

Serra da Boneca

 


A ermida de São Pedro é um local isolado, rodeado de eucaliptos queimados, e  de uma tasca num  pequeno barraco,  onde param  clientes ocasionais  que ali chegam de carro para beber um copo de verde tinto da região e conversar com o taberneiro, o Sr. Isaltino. 

 Joana ficou sentada no carro,  enquanto o companheiro foi perguntar às duas únicas pessoas que lá estavam  o caminho para o baloiço da Boneca.  O GPS do carro estava baralhado, não lhes dava o local exato. Há algum tempo que vinham subindo a serra sem encontrar qualquer sinal e desvio com indicações precisas. As  fotografias que viram na internet,   de um baloiço pendurado no alto da serra com vistas deslumbrantes para cumes montanhosos estendendo-se indefinidamente  no horizonte e a curva do rio no fundo do vale,  eram muito apelativas; devia haver placas, indicações para lá chegar. Era estranho ainda não terem visto nada.

Os homens na tasca interrompiam-se atabalhoadamente,  gesticulando,  querendo ambos ser solícitos com o visitante que passou por eles no carro desportivo de alta cilindrada, cem porcento elétrico – um carrão ! –, e uma loira de óculos escuros ao seu lado,  explicando onde se tinha perdido e o caminho que devia retomar para lá chegar.  O companheiro de Joana escutava-os, complacente: “Como são diferentes de mim estes sujeitos!” Vestiam calças cardadas, camisas sujas de nódoas de terra ressequida e botas gastas; ambos com o seu copo de tinto em cima do balcão, já meios tocados pelo vinho, em contraste com o jovem moreno e alto, de cabelo negro ondulado, elegantemente vestido de calças de ganga e casaco de cabedal por cima de uma T-shirt branca a dizer “Calvin Klein”, que polidamente  se havia dirigido a eles.

Desceram a estrada atrás do camião que ia despejar o lixo no aterro próximo. Joana fez um ar de nojo: - Querido, não consegues ultrapassar o camião?  Incomoda-me ver aquela betoneira a revolver o lixo mesmo à nossa frente …e o cheiro, meu Deus!

- Tem paciência, minha querida, estamos quase a chegar ao desvio …

Foi com alívio que encontraram o estradão de cascalho que os levaria às eólicas e ao baloiço. Tal como os senhores lhe disseram, a estrada estava em más condições, mas  um carro como o dele não teria problemas.  

Subiram os últimos metros a pé, pelas encostas xistosas, agrestes, varridas pelo vento;   rebentos de eucaliptos nasciam vigorosos dos troncos queimados. Atravessaram a cancela com o  aviso  “Proibido”. O silvo metálico do vento soprava nas gigantescas pás das hélices, como o som que o  carro elétrico produz ao arrancar.  O  rio corria apertado entre duas encostas,  contornando a curva lá em baixo, tal como as fotografias que viram na internet. Caminharam com cuidado, desviando-se das arestas cortantes  das rochas. Não encontraram o baloiço.

  - Talvez a  empresa que explora o parque eólico o tenha tirado -  disse Joana.

Do outro lado da encosta, via-se o aterro. Um bando denso de gaivotas sobrevoava a pilha de lixo que se elevava da estrada.   

 - Acho este sítio um horror…  Já que não há mais nada para fazer, vou apanhar algumas flores.

Joana fez um pequeno bouquet de pequenas flores amarelas e lilases que despontavam da terra, dando alguma cor à monotonia do lugar. Combinariam bem com o seu tapete persa,  comprado há alguns anos numa loja no  Arrábida.  

- Esse  tapete deve valer muito mais dinheiro agora. Talvez seja um bom negócio vendê-lo. Neste momento, é quase impossível importar bens do Irão,  com o bloqueio do estreito Ormuz – observou  o companheiro. - Ouviste a notícia do indivíduo americano,  com ligações ao Presidente,  que comprou ações de companhias petrolíferas poucas horas antes do ataque?

- Sim, querido, isso é que foi perspicácia.

- Talvez não… grandes negócios fazem-se com o acesso a informações privilegiadas  e sigilosas – disse ele, valendo-se da sua experiência de investidor. – As ações valorizaram exponencialmente após o ataque….

- Sim, querido, a guerra é uma grande oportunidade, as ações das empresas de armamento e das companhias petrolíferas estão em alta. Bravo Ambrósio! – concluiu Joana, tocando no ombro do companheiro, como fazia sempre que lhe dizia esta frase de um velho anúncio publicitário.  

- Ambrósio, hoje apetece-me algo doce.

- Senhora, tomei a liberdade de escolher Ferrero Rocher – riam sempre que repetiam esta brincadeira. Por vezes, utilizavam palavras obscenas e alusões sexuais. Havia cumplicidade entre eles. Joana insinuava-se, mostrava as pernas bem torneadas subindo o vestido de seda até aos joelhos, provocadora. O jogo excitava-os.

Seguiram pela EN 108 até à pousada do palácio do Freixo. Premiram  o botão debaixo do volante para abrir o tejadilho do carro.  Ele pôs os óculos escuros “Ray-Ban” para se proteger do sol que se punha sobre o Atlântico e lhe cegava a vista. Levava o braço esquerdo, com o cotovelo dobrado  de fora do carro. Guiava apenas com uma mão, devagar, olhando o rio, fruindo o prazer da condução, com o autorrádio ligado na SMOOTH FM;  ao mesmo tempo, a sua mão direita ia passeando sobre os contornos das pernas nuas de Joana. A vida corria-lhes bem. O banho de espuma quente acompanhado com flutes de champagne e bombons de chocolate, e a massagem Tailandesa no spa privativo da suite,  aguardavam por eles.  

- Ambrósio, hoje apetece-me algo…









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