A ermida de São Pedro é um local
isolado, rodeado de eucaliptos queimados, e
de uma tasca num pequeno
barraco, onde param clientes ocasionais que ali chegam de carro para beber um copo de
verde tinto da região e conversar com o taberneiro, o Sr. Isaltino.
Joana ficou sentada no carro, enquanto o companheiro foi perguntar às duas
únicas pessoas que lá estavam o caminho
para o baloiço da Boneca. O GPS do carro
estava baralhado, não lhes dava o local exato. Há algum tempo que vinham
subindo a serra sem encontrar qualquer sinal e desvio com indicações precisas.
As fotografias que viram na internet, de um baloiço pendurado no alto da serra com
vistas deslumbrantes para cumes montanhosos estendendo-se indefinidamente no horizonte e a curva do rio no fundo do
vale, eram muito apelativas; devia haver
placas, indicações para lá chegar. Era estranho ainda não terem visto nada.
Os homens na tasca interrompiam-se
atabalhoadamente, gesticulando, querendo ambos ser solícitos com o visitante
que passou por eles no carro desportivo de alta cilindrada, cem porcento
elétrico – um carrão ! –, e uma loira de óculos escuros ao seu lado, explicando onde se tinha perdido e o caminho
que devia retomar para lá chegar. O
companheiro de Joana escutava-os, complacente: “Como são diferentes de mim
estes sujeitos!” Vestiam calças cardadas, camisas sujas de nódoas de terra
ressequida e botas gastas; ambos com o seu copo de tinto em cima do balcão, já
meios tocados pelo vinho, em contraste com o jovem moreno e alto, de cabelo
negro ondulado, elegantemente vestido de calças de ganga e casaco de cabedal
por cima de uma T-shirt branca a dizer “Calvin Klein”, que polidamente se havia dirigido a eles.
Desceram a estrada atrás do
camião que ia despejar o lixo no aterro próximo. Joana fez um ar de nojo: -
Querido, não consegues ultrapassar o camião? Incomoda-me ver aquela betoneira a revolver o
lixo mesmo à nossa frente …e o cheiro, meu Deus!
- Tem paciência, minha querida,
estamos quase a chegar ao desvio …
Foi com alívio que encontraram o
estradão de cascalho que os levaria às eólicas e ao baloiço. Tal como os
senhores lhe disseram, a estrada estava em más condições, mas um carro como o dele não teria problemas.
Subiram os últimos metros a pé,
pelas encostas xistosas, agrestes, varridas pelo vento; rebentos de eucaliptos nasciam vigorosos dos
troncos queimados. Atravessaram a cancela com o aviso
“Proibido”. O silvo metálico do vento soprava nas gigantescas pás das
hélices, como o som que o carro elétrico
produz ao arrancar. O rio corria apertado entre duas encostas, contornando a curva lá em baixo, tal como as
fotografias que viram na internet. Caminharam com cuidado, desviando-se das
arestas cortantes das rochas. Não
encontraram o baloiço.
- Talvez a empresa que explora o
parque eólico o tenha tirado - disse
Joana.
Do outro lado da encosta, via-se
o aterro. Um bando denso de gaivotas sobrevoava a pilha de lixo que se elevava
da estrada.
- Acho este sítio um horror… Já que não há mais nada para fazer, vou
apanhar algumas flores.
Joana fez um pequeno bouquet de
pequenas flores amarelas e lilases que despontavam da terra, dando
alguma cor à monotonia do lugar. Combinariam bem com o seu tapete persa, comprado há alguns anos numa loja no Arrábida.
- Esse tapete deve valer muito mais dinheiro agora.
Talvez seja um bom negócio vendê-lo. Neste momento, é quase impossível importar
bens do Irão, com o bloqueio do estreito
Ormuz – observou o companheiro. - Ouviste
a notícia do indivíduo americano, com
ligações ao Presidente, que comprou
ações de companhias petrolíferas poucas horas antes do ataque?
- Sim, querido, isso é que foi
perspicácia.
- Talvez não… grandes negócios
fazem-se com o acesso a informações privilegiadas e sigilosas – disse ele, valendo-se da sua experiência
de investidor. – As ações valorizaram exponencialmente após o ataque….
- Sim, querido, a guerra é uma
grande oportunidade, as ações das empresas de armamento e das companhias
petrolíferas estão em alta. Bravo Ambrósio! – concluiu Joana, tocando no
ombro do companheiro, como fazia sempre que lhe dizia esta frase de um velho anúncio
publicitário.
- Ambrósio, hoje
apetece-me algo doce.
- Senhora, tomei a liberdade de
escolher Ferrero Rocher – riam sempre que repetiam esta brincadeira. Por
vezes, utilizavam palavras obscenas e alusões sexuais. Havia cumplicidade entre
eles. Joana insinuava-se, mostrava as pernas bem torneadas subindo o vestido de
seda até aos joelhos, provocadora. O jogo excitava-os.
Seguiram pela EN 108 até à pousada
do palácio do Freixo. Premiram o botão
debaixo do volante para abrir o tejadilho do carro. Ele pôs os óculos escuros “Ray-Ban” para se
proteger do sol que se punha sobre o Atlântico e lhe cegava a vista. Levava o braço
esquerdo, com o cotovelo dobrado de fora
do carro. Guiava apenas com uma mão, devagar, olhando o rio, fruindo o prazer
da condução, com o autorrádio ligado na SMOOTH FM; ao mesmo tempo, a sua mão direita ia passeando
sobre os contornos das pernas nuas de Joana. A vida corria-lhes bem. O banho de
espuma quente acompanhado com flutes de champagne e bombons de chocolate, e a
massagem Tailandesa no spa privativo da suite, aguardavam por eles.
- Ambrósio, hoje apetece-me
algo…









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