sábado, 26 de agosto de 2023

Caminho Português de Santiago (Variante Espiritual), Etapa 2: Armenteira - Vilanova de Arousa

 

Rota da Pedra e da Água

Na manhã seguinte juntamo-nos os cinco na cozinha a tomar o pequeno almoço. Vejo Samuel de forma totalmente diferente: chapéu de santiago, colar e t-shirt havaiana, pulseiras garridas, trombeta e um pequeno mastro com a bandeira de Itália, preso na mochila. Jéssica muito admirada, diz: “É ele!!!!”, mostra-me um vídeo a circular nas redes sociais do Samuel a cantar eufórico, vestido de peregrino extravagante, a fazer o caminho. 

Apanhamos boleia do companheiro de Ester, Seso. Viúvo, o proprietário da casa. Tem filhos adultos, que preferem viver noutro lado. A casa está vazia, rentabilizam-na, alugando-a a peregrinos. 

Falamos da Galiza, de Rosalia de Castro, declama de cor:

“Adios ríos, adios fontes;

Adios, regatos pequenos,

Miña terra, miña terra,

Terra donde me eu criei

…”

Na viagem para o albergue, onde iniciaremos a segunda etapa, conta-nos a lenda de Santo Ero, o fundador do mosteiro de Armenteira:

O monge foi para o bosque ouvir o som das aves, encontrou uma cujo canto o encantou tanto que só ao fim de trezentos anos voltou a si.

Peregrino não empata peregrino e cedo nos separamos, continuei apenas com o meu primo ao longo do rio Armenteira, seguindo a rota da Pedra e da Água. Trajeto de oito quilómetros, coincidente com o caminho de Santiago.

A Rota da Pedra e da Água

O nome deve-se à existência dos moinhos, a pedra, ao longo do curso de água. Entramos num bosque encantado, caminhando debaixo de copas frondosas e de sombras misteriosas, pela margem do rio, repleto de moinhos abandonados, pequenas cascatas, rochas escorregadias e musgos.   Ambiente silencioso e ameno que nos transporta para os contos de fadas, a história do capuchinho vermelho perdido na floresta, o lobo mau e outras personagens fantásticas.  

Saímos do mundo encantado da rota e seguimos por campos de milho, vinhas floridas, oferecendo uma sombra permanente à terra debaixo delas. Vimos aldeias com  espigueiros tradicionais, casas rústicas de granito, igrejas e cruzeiros medievais de Santiago.  Almoçamos numa tasca,  a melhor que encontramos no caminho, no lugar de Mouzos. Vinho albariño servido em malgas de porcelana, acompanhado com entradas de fabada galega, em doses suficientes para não ser necessário pedir o prato principal.  

Fomo-nos aproximando do fim da segunda etapa, de 23 km, em Vilanova de Arosa. Encontramos no bar do parque de campismo a Jéssica e a Emanuela. Que alegria! Juntàmo-nos elas. Mandámos vir mais cerveja. 

Por que razão decidiram fazer o caminho de Santiago sozinhas?

Jéssica: para ver as estrelas e estar sozinha.

Emanuela: para descobrir-me e estar sozinha.

Eu: Vocês são muito corajosas. Estão de parabéns.

Elas: na realidade acabamos por não estar sozinhas muito tempo, estamos sempre a encontrar pessoas e a andar acompanhadas.

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O meu primo queria conhecer o verdadeiro espírito dos caminhos de Santiago, dormindo num albergue de peregrinos. A noite anterior não contou, tínhamos ficado num sítio demasiadamente confortável. Neste sentido, o albergue de peregrinos de Vilanova de Arosa correspondeu inteiramente às expetativas: desconfortável, apertado, com cheiros esquisitos, repleto de peregrinos barulhentos.  

Jéssica e  Emanuela, que chegaram depois de nós, só conseguiram lugar numa sala em que teriam de dormir no chão. Não quiseram, foram procurar outro sítio. O albergue ocupa uma ala do pavilhão desportivo municipal. A camarata mista tem 28 lugares em 14 beliches e apenas uma casa de banho, com chuveiros e sanitas. Estavam disponíveis, contudo, os balneários do pavilhão, onde tomei o meu duche. O hospitaleiro deu-nos as fronhas para a almofada e o colchão, carimbou as nossas credenciais, pagamos   10€ por pessoa. Deixamos as sapatilhas num banco fora da camarata, entramos, deparamo-nos com uma algazarra de italianos, homens e mulheres, mochilas e roupas espalhadas no chão, nas cadeiras, dispostas nos colchões dos beliches. Por sermos os últimos, ficamos com os piores lugares, na parte de cima do beliche, e eu ao lado da porta, por onde todos entravam e saiam.

Deitei-me no colchão, tentando descansar, abstraindo-me do ruído das conversas animadas e dos cheiros esquisitos, quando uma italiana bonita  entra na camarata  e passa ao meu lado, apenas com a toalha de banho enrolada no corpo: “scusa”, disse-me.

A noite foi uma autêntica sinfonia de ressonadelas, umas mais graves do que outras. Por vezes ouvia uma solitária e longa, imediatamente acompanhada por outras fazendo coro. Pensei: são italianos, vou imaginar que são o Pavarotti e os ruídos áreas de Verdi. Acho que consegui dormir alguma coisa. Às cinco da manhã o colchão ao meu lado já estava desocupado. Lentamente os peregrinos foram acordando, com algumas risadas femininas, colocando os objetos nas mochilas, indo à casa de banho. Às sete de manhã quase todos tinham abandonado a camarata.

É impossível dormir mais tempo, por muito cansado que se esteja. No entanto, há peregrinos que dormem que nem uma porta, abstraindo-se completamente dos barulhos.

- Como é que há gajos que conseguem isso? – perguntou o meu primo com uma certa inveja.




Rota da Pedra e da Água

Rota da Pedra e da Água


Rota da Pedra e da Água


Rota da Pedra e da Água


Rota da Pedra e da Água


Rota da Pedra e da Água


Rota da Pedra e da Água


Rota da Pedra e da Água







Tasca em Mouzos, a melhor do caminho


Chegada a Vilanova de Arousa


Vilanova de Arousa

Vilanova de Arousa

No albergue de Vilanova de Arousa

Ainda a rota da Pedra e da Água



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