domingo, 4 de janeiro de 2026

Neve

 


Lamento desiludir-vos meus amigos venezuelanos, mas o Trump não vai trazer-vos a liberdade e a democracia.  Ele ordenou o sequestro do vosso presidente, Nicolas Maduro, para mais facilmente chantagear os restantes dirigentes do regime chavista: não pretende enviar tropas para a Venezuela, o que lhe traria mais impopularidade nos Estados Unidos, pretende simplesmente aceder às imensas reservas petrolíferas do vosso país.  Assim, fica em posição de força para ditar as suas ordens a quem substituir Nicolas Maduro.

O sequestro e julgamento do presidente servirá como exemplo para quem teimar em lhe fazer frente. Os lideres americanos são bullies e agora possuem  um brinquedo para chantagear e meter medo a quem não se submeter à sua vontade. São os líderes do mundo: querem, podem e mandam, não precisam de obedecer ao direito internacional.

Portanto, meus amigos, podem dizer adeus à esperança que colocaram na deposição do presidente. Das duas uma: a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, não se rende a Donald Trump e o velho regime continua intacto, tornando-se porventura mais repressivo; ou a cúpula de dirigentes aceita as exigências dos Estados Unidos em troca da sua continuação no poder. De uma forma ou de outra, o povo venezuelano continuará na miséria sem beneficiar das imensas riquezas do país nem da liberdade para escolher democraticamente os seus lideres políticos.  

Maicon não gostou da análise política do seu amigo português. Tem-se falado muito da Venezuela por estes dias nas redes sociais e na imprensa: é fácil falar de um  país estrangeiro, opinar de barriga cheia sem nunca lá ter vivido e sentido  as agruras quotidianas da esmagadora maioria dos seus habitantes, vendo as notícias ao longe sentadinhos no sofá, a beber um chocolate quente como se estivessem a assistir a um espetáculo qualquer. Ele nasceu na Venezuela, sente os acontecimentos de uma forma totalmente diferente:  com intensidade e preocupação pela  família e amigos que lá deixou. Veio para Portugal, a terra dos  pais, para fugir da incerteza económica, da pauperização permanente das condições de vida, da insegurança causada pelo chavismo que arruinou a empresa do pai, tão arduamente construída por ele ao longo de toda uma vida.

Readquiriu  esperança numa mudança para melhor, a situação era insustentável. Fica irritado com  comentários,  augúrios tão sombrios e idiotices sobre a Venezuela, mesmo que vindas dos seus amigos.  Odeia  ver os apelos nas redes sociais às concentrações  contra a “agressão imperialista norte-americana a um país soberano”. Não tem vergonha de o dizer: apoia a intervenção americana, foi a melhor notícia que lhe chegou da Venezuela nos últimos anos.  Não lhe interessa o “Direito Internacional” e tretas do género. Não havia outra hipótese para remover  aqueles bandidos.

Quando era pequeno foi com os irmãos e os pais ver a neve nas montanhas de Mérida. “A única região da Venezuela onde existe neve”, disse-lhes o pai.

Não sabia o que era neve, só a tinha visto na televisão, nos filmes americanos que passavam no Natal, e do que os  pais lhes contavam de quando eram miúdos em Portugal, antes de emigrarem para a Venezuela: “talvez não acreditem, meus filhos, mas aqui neste clima tropical podemos ver neve se subirmos ao pico Bolívar”. Foram de carro, demoraram muitas horas desde as planícies em redor do lago Maracaíbo, onde viviam,  até chegarem à cordilheira Andina. Lembra-se do pai lhe ter dito que foi um ano particularmente frio nas montanhas do norte da Venezuela e que não era habitual haver neve naquelas  altitudes mais baixas. Ele e os irmãos saíram do carro e, como todas as crianças, fizeram bolas, deslizaram metidos nos sacos de serapilheira que iam na mala e fizeram tropelias. Foi um dia inesquecível. Passaram a noite num pequeno hotel e regressaram a casa no dia seguinte, a descer várias horas de carro até ao mar, passando por climas que mudavam com a altitude. Tempos felizes num país incrível!

Nunca mais viu neve até hoje.  

Em homenagem aos tempos de mudança,  hasteou a bandeira tricolor  do seu país na traseira do carro, como fazem os portugueses quando joga a seleção nacional de futebol   e, nostálgico com as  suas memórias, rumou a um dos poucos sítios de Portugal  onde se pode ver neve: a serra da Estrela. Os amigos portugueses não acreditaram que a última vez, e única,  que viu neve foi  na Venezuela.

- Neve na Venezuela?! Estás a gozar connosco!

Ignorantes, é o que são. Devem pensar que na Venezuela só existem praias tropicais e bananeiras! Não imaginam a beleza e a diversidade do país.

Partiu em direção à Covilhã  e dali subiu à serra. Viu a placa na estrada, junto à pousada, indicava 800 metros de altitude. Mais à frente, viu outra placa: 1200 metros de altitude. Cruzou-se com muitos carros que desciam da Torre; alguns com pedaços de neve agarrados no tejadilho e bonecos de gelo esculpidos no capô. Um deles trazia a bandeira da Venezuela sobre o tablier. Que alegria, compatriotas! Buzinou, abriu o vidro, fez o V de vitória com a mão esquerda, gritou para os ocupantes: Viva Venezuela! Libertad! Libertad! Responderam da mesma forma, eufóricos:  Libertad! Libertad!

1500 metros: famílias e  crianças fora dos carros a mexer nos primeiros pedaços de neve na berma da estrada. A nostalgia da viagem aos Andes, perto de Mérida, pesou-lhe na alma.  Regressaria à Venezuela, tinha de ser!

1700 metros: engarrafamento. Uma longa fila de carros estendia-se pela estrada até à curva que contornava mais uma encosta da serra.

O carro parava e avançava devagar. A esposa abriu a porta, saiu para esticar as pernas, apanhou um pedaço de neve e trouxe-o para dentro do carro. Passou-o ao marido, pacientemente sentado ao volante, acelerando e parando, acelerando e parando. Acariciou a neve com os dedos, maravilhou-se com o pedaço branco na sua mão. Contemplou-o até sentir o frio queimar a pele.

Seguiram no para arranca até à Torre. Estava assim há quase uma hora – já não bastam os engarrafamentos para o trabalho durante a semana, tinha agora de apanhar outro ao fim-de-semana no passeio à serra da Estrela!

Estacionou o carro, caminharam sobre o manto branco que cobria o  planalto superior. A esposa, num gesto maroto, atirou-lhe uma pedra de neve contra o corpo:

- Aaaa… isso não se faz! Queres guerra? Vais ter guerra! – Correram ambos a apanhar mais neve, cada um para seu lado.  Atiraram bolas um contra o outro. 

- Sua malandra!

- Seu medricas, não me acertas.

Do manto branco despontavam rochas, sentinelas silenciosas observando os humanos minúsculos a brincar. Os faróis do carro iluminavam a berma, a luz refletia-se por trás do rail de separação. O círculo de luz fluorescente recortava-se nos tufos de erva perdidos no tapete de neve, como um rendilhado num fino tecido de noiva. Maicon sentiu a pureza da infância encher-lhe a alma, um laivo de esperança num mundo melhor e no regresso à Venezuela renasceu em si.






sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Rua dos Chouriços

 


Bom, Dia Caros Senhores

 

Venho comunicar a insegurança que como peão sinto nas estradas em redor da minha residência em Eirães,  Vila Nova da Cortiça, nomeadamente na rua dos Chouriços, rua das Oliveiras,  rua da Estrela e rua da Belavista.

Vivo aqui desde criança, as estradas eram em paralelos e sempre ansiamos por melhores arruamentos  e alcatroados. Finalmente as obras foram feitas.  Alcatroaram-se e alargaram-se estradas, os passeios foram estreitados. As entradas nas casas ficaram  mais expostas aos carros, não se fizeram lombas, nem se colocaram sinais de trânsito ou passadeiras para reduzir a velocidade. Ruas da largura de estradas nacionais atravessam zonas residenciais onde circulam jovens estudantes a caminho das paragens de autocarro, ou idosos sem carta, porque quem tem carta de condução raramente  caminha nestas estradas, procura outros sítios para o fazer. Os arruamentos foram “melhorados” a pensar nos automóveis e não nos peões.

A coexistência entre peões e viaturas é perigosa. Os carros circulam permanentemente muito acima do limite de velocidade, há curvas,  desníveis; cruzamentos largos,  rápidos e desalinhados, tudo a contribuir  para a perigosidade da estrada e riscos maiores para peões e ciclistas.

Não se atenuou a possibilidade de erro humano, as estradas como estão amplificam o perigo das falhas humanas.

Como morador e cidadão que paga impostos, que conduz e caminha por estas estradas, sinto que devia ter outras garantias de segurança na minha rua e nas circundantes. Não tenho.

Já enviei cartas para a Câmara Municipal, falei pessoalmente com o anterior presidente da Junta de Freguesia,  a sugerir passadeiras, lombas, sinalização e alterações nos perfis das estrada para melhorar a segurança. Não houve qualquer modificação até hoje.

Parece que estamos condenados a ficar cada vez mais confinados e cercados por estradas perigosas onde sair de casa a pé é um risco. Os arruamentos urbanos deviam ser feitos a pensar que caminhar em segurança significa Qualidade de Vida, mas as prioridades e mentalidades ainda estão invertidas, privilegia-se o uso do carro, construindo estradas largas e rápidas dentro das localidades, erros crassos que desumanizam  muitas das nossas freguesias,  destroem a fruição que se devia ter caminhando em sítios onde ainda permanece uma certa ruralidade e memória de tempos ligados ao trabalho na terra,   mantendo  os nossos índices de sinistralidade muito elevados, algo que nos devia embaraçar como país (PRP). Mais de metade das mortes  dão-se em arruamentos urbanos (ANSR).

É um paradoxo: é mais seguro caminhar nas cidades porque o excesso de transito provoca lentidão na circulação, e além disso há mais  passeios e semáforos,  do que no interior das  periferias urbanas que, apesar de terem menos automóveis,  estes circulam  com mais velocidade e, como referi,  a sinalização e o perfil carecem dos necessários instrumentos de segurança.

Peço-vos que na vossa qualidade de organismo de  Prevenção Rodoviária aconselhem  a  Câmara Municipal, um dos concelhos mais prestigiados do país onde a segurança nas estradas pode contribuir decisivamente para a melhoria dos índices nacionais, e a Junta de Freguesia, a fazerem as necessárias melhorias nos seus arruamentos urbanos.  Ou que os vossos técnicos se desloquem a estas ruas, sintam eles próprios o desconforto que eu sinto ao caminhar nelas, elaborem os respetivos relatórios de segurança e encaminhem-nos para quem tem o dever de fazer ruas seguras.

 

Despeço-me com os meus melhores cumprimentos e os desejos de um ano de 2026 com melhorias  significativas na sinistralidade rodoviária.





domingo, 7 de dezembro de 2025

Alpedrinha

 


Fomos entrando no picadeiro real, palácio do século XVIII  adquirido pela câmara municipal do Fundão. Não imaginávamos o que iriamos ver: ninguém na receção, apenas vozes de pessoas a conversar e uma música estranha,  que vinham detrás da cortina preta que tapava a entrada numa sala lateral.

Subimos as escadas de granito e fomos dar a uma sala escura com vários chocalhos pendurados do teto. Na parede um filme a preto-e-branco de cabras a pastar nos montes, montagem multissensorial que nos remeteu de imediato para a cultura local e a pastorícia. Chocalhamos as sinetas, envolvemo-nos no ambiente sonoro e nostálgico da natureza. Os sons e a luminosidade sombria produziram um efeito encantatório em nós, como se estivéssemos a viajar para um tempo primordial de ligação à terra.   

Alguém subiu as escadas.

- Estejam à vontade, é mesmo para chocalhar. Temos mais três salas:  uma para  interagirem  com o espaço e duas exposições.  

Pelos vidros largos das paredes  de uma das salas entrava luz natural e via-se o jardim do lado de fora. Obras coloridas  contrastavam  com as paredes brancas, tornando-as mais vibrantes e expressivas.

 E. atravessa as cortinas da porta lateral e volta para trás.

- parece que cheira a cabra …

Também atravesso as cortinas e entro numa sala escura onde estão duas cabras esculpidas em material plástico, e  pegadas desenhadas no chão. Uma referência óbvia à transumância.

Descemos à receção. O guia despedia-se do casal que visitava a sala da cortina preta.

- Agora posso mostrar-vos a última sala, mas primeiro explorem os círculos no mapa.

Colocamos as mãos sobre os círculos de um painel com a serra da Gardunha e Alpedrinha.  Saem sons de lobos, rebanhos,  passarinhos, do vento, da água,  de máquinas a trabalhar a terra e do fogo a consumir a serra. Uma parafernália de ruídos ouvidos por quem aqui viveu ao longo dos tempos.

Entramos na última sala. Cores berrantes, de formas indecifráveis e dinâmicas, espalham-se nas paredes.

- coloquem uma mão na terra do vaso e a outra na água dos jarros – as formas alteram-se, palavras e frases aparecem e desaparecem das paredes - a intenção é sentir a terra a produzir vibrações sonoras e coloridas.

Envolvem-nos  sons e luzes eletrónicas que criam um efeito hipnótico.

Despedimo-nos do guia, recomenda-nos almoçar no restaurante Degusta-me.

Passamos na fonte de D. João V. A água brota das bicas para dois tanques. Diz a lenda que a bica da esquerda  é para as mulheres solteiras,  a do meio para as casadas e a da esquerda para as bruxas.

Mais abaixo, o memorial aos mortos da primeira invasão Francesa em 1808. Crianças e famílias inteiras massacradas.

Somos recebidos pelo dono do restaurante. Portugal também é isto! Pequenos restaurantes que se descobrem em localidades bonitas, repletas de história, nas quais a gastronomia e as pessoas que a confecionam são em si mesmo uma parte da maravilha que é viajar pelo país. O Sr. Rui é um excelente cozinheiro e anfitrião, serviu-nos tiburnada de bacalhau, feita na hora, ainda com os aromas da batata a murro, do alho e das especiarias a fumegar no prato. Uma delícia! As sobremesas de pudim de pão e tigelada de requeijão fizeram jus ao prato principal, assim como as entradas de queijo da serra e compota de abóbora (tudo feito com ingredientes locais e da época). Espaço pequeno e acolhedor. Um daqueles sítios em que saímos reconfortados pelo que comemos e pelo tempo que passamos.




Obra de Daniela Guerreiro

Obra de Catarina Glam








quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Porto, a Minha Casa

 


Descobri da pior forma que devo ter muito cuidado quando me abrigo debaixo das árvores. Certo dia, ao baixar-me, pousei a mão no poio de um cão, ainda fresco. A revolta imediata que senti contra os donos!  O jardim tinha sacos e contentores para recolha dos dejetos,  mesmo assim continua a haver muitos brutos incivilizados por aí. A minha mão e a manga da casaco sujos, que nojo!! Limpei à erva como pude.  Estava a anoitecer, caminhei do Passeio Alegre até às rochas na praia da Luz. Arranquei algas de uma poça, esfreguei nelas a mão e a manga, juntei água do mar e friccionei com areia. O cheiro teimava em não desaparecer. Aninhei-me debaixo do passadiço de madeira e ali fiquei até ao amanhecer.

Acordei com os passos acelerados das pessoas a correr por cima de mim, sobre as vigas. O dia clareava e eu ficava  visível e exposto a quem passava na praia e no passadiço. Adivinhava-se uma daquelas manhãs de junho, cinzentas e orvalhadas, em que os banhistas se deitam vestidos atrás dos tapa-ventos para se protegerem do frio.  A manga continuava molhada e o meu corpo tremia. Saí para fora,  deambulei para aquecer e fazer horas até abrir o balneário da praia. Recuei para o jardim,  não queria que vissem as minhas olheiras da noite mal dormida e sentissem o meu cheiro a merda de cão. Comi do saco de plástico os restos que sobravam.

Como sempre, andava sem dinheiro. Tomei  duche de água fria e usei o sabão de mão colocado no lavatório. Esfreguei bem a manga.  Voltei a colocar o que restava no sítio.

Apesar de viver na rua,  descobri estratagemas para me manter distante e “invisível” da multidão. Sento-me em bancos de jardim, com o ar mais natural,  a ler jornais de distribuição gratuita nas estações de metro. Mudo de poiso, procuro outros jardins e assim vou iludindo o tempo e as pessoas. Entro nos centros comerciais da cidade apenas para me aliviar e saio imediatamente para a rua. Não gosto de centros comerciais, não tenho dinheiro para gastar, nem paciência para estar sentado nos recantos menos iluminados como alguns vagabundos fazem. Entro e saio. Uma vez,  um antigo colega  de escola reconheceu-me:

- Não és o João? – Fiquei em pânico: - não, não sou o João, está a confundir-me com outra pessoa.

- És o João, és. Como é que não és o João?! É a tua voz, o teu olhar. Estás mais magro. Não te lembras de mim, o Manel?  Jogávamos bilhar no Diu! Como não te podes lembrar de mim, caraças?

- Não sou o João, já disse. Não me chateie – respondi com rispidez.

Desviei-me dele e segui apressadamente para a saída. Começaria a fazer perguntas,  a querer saber porque vivo na rua, provavelmente ofereceria ajuda, comida ou alguma moedinha,  compadecido de mim. Não quero compaixão, quero que se lixe a compaixão! E que se fodam todos.

Desço à Ribeira, procuro nos contentores das ruas das Aldas e dos Mercadores restos de comida. Fico mais   à vontade nas ruas esconsas e escuras. Movo-me furtivamente, se ouço passos e vozes de transeuntes a aproximar disfarço, fecho a tampa, ponho-me direito a olhar para as janelas,  a fingir que estou à espera de alguém. Volto a inclinar-me, a procurar nos sacos do contentor. Não imaginam a quantidade de desperdício, de pedaços de fruta comestível, pacotes com restos de batata frita, bolachas partidas, fiambres, queijos,  pasteis que encontro.  Devem ser miúdos mimados, habituados à abundância,  a terem as vontadinhas todas feitas, que se saturam rapidamente do que pedem insistentemente aos pais, fazem  birra porque viram na montra um doce colorido, provam   e deitam foram.

Ainda bem! Assim tenho muito por onde escolher. Não passo fome, acho até  que como bem e abundantemente, graças ao desperdício. Consigo, pelo cheiro, distinguir diferentes alimentos. Abro apenas os sacos colocados em cima do entulho e sem cheiros desagradáveis: pão,  frutas, carnes, restos ainda frescos. Um trabalho de precisão e paciência que me permite viver e ter comida para o resto da noite e do dia seguinte.

Eu, ao contrário dos outros, aproveito tudo. Meto os restos comestíveis no saco de plástico e vou gerindo a coleta ao longo do dia.  Tenho o meu orgulho, não gosto de ser visto junto dos contentores, por isso só o faço durante a noite. Não procuro as instituições de solidariedade social que distribuem comida pelos sem-abrigo do Porto.

Vivo na rua, mas não me considero marginal. Tenho a minha dignidade!  Ao contrário dos sem-abrigo, não caí na droga nem no alcoolismo. Não fumo, não bebo, não roubo, não arrumo automóveis, não contraí dívidas  nem sou trabalhador precário que não consegue  pagar a renda exorbitante e a solução que encontrou foi dormir na rua. Nada disso! Podia ter muito dinheiro, eu era um miúdo promissor, bom aluno,  filho de boas famílias. Nunca me faltou nada, no entanto levaria uma vida previsível e  aborrecida, teria de cumprir horários rígidos. Teria de trabalhar.

Sou alérgico ao trabalho! O problema seria passar mais de 40 horas por semana fechado num escritório, numa fábrica, onde quer que fosse.   Considero-me um filósofo errante, um niilista ultra individualista que vive na rua por opção,   um passarinho sem ninho. No fundo, um espírito-livre. Assumo orgulhosamente todo o desconforto que isso me causa.    

Tampouco, durmo em qualquer lado. Experimentei uma vez o albergue noturno da rua Mártires da Pátria. Fui atendido por um jovem simpático. Perguntou se  eu tinha ficha, se estava sinalizado pela câmara, o meu número da segurança social, se eu trabalhava, desde quando vivia na rua, se tinha família, etc. Uma intromissão inadmissível na minha vida! Menti.  Disse que fui despejado pelo senhorio nesse mesmo dia devido às rendas em atraso.  Fiz o choradinho.  A família não queria saber de mim, a ex-mulher fez queixa  por violência doméstica, perdi a casa, a família e os amigos. Fui abandonado por todos. Senti um prazer mórbido em inventar uma história dramática, em fazer de mim um desgraçado coitadinho. Só faltou chorar.

- Tem cartão de cidadão? – perguntou desconfiado das minhas balelas.

- Esqueci de dizer que também fui assaltado, estou sem documentos.

 - Muito bem, sr. Isidro -  também inventei o nome –,  vou ligar à polícia a referir que recebemos uma pessoa sem documentação, desempregada. – Mudei de cor.

 -  Não se preocupe, é um procedimento normal. O senhor está numa situação de extrema vulnerabilidade. Pessoas indocumentadas e sem apoio, completamente à margem da sociedade,   são cada vez mais comuns, infelizmente. É obrigatório dar conhecimento às autoridades. Assim que efetuarmos os procedimentos normais arranjarei cama para si e pode ficar até às 8 da manhã.

Da mesma forma que não suporto trabalhar, sou igualmente incapaz de cumprir horários. Se tinha de me levantar tão cedo então o albergue não era para mim e, além do mais, telefonando à polícia, corria o risco de  descobrirem o meu logro. Olhei-o nos olhos, com a minha cara mais séria e digna e disse-lhe:

- Meu caro senhor, não se preocupe mais comigo. Não sou um miserável como esses que aqui vêm ter, a quem vocês não dão o direito de dormir o tempo justo. Já não basta a vida difícil que levam ainda os abrigam a madrugar. Com licença. – Bati a porta e sai para a rua.

Não deixo pilhas de cobertores e plástico rodeados de pacotes de vinho e roupa suja amontoados nas esquinas,  debaixo dos alpendres. Não tenho uma  tenda semiescondida num espaço público nem pertences, apenas a roupa que anda comigo e o saco de plástico.  Não faltam no Porto e arredores sítios abrigados  para me sentar durante a noite e dormir recostado na parede, de boca aberta virada para cima, apesar de serem cada vez mais os verdadeiros sem-abrigo que os ocupam.

O meu sítio preferido no verão é a Foz. Fico encostado a um dos metrosideros na avenida Brasil, ao fim da tarde, na sombra escura,  protegido das vistas indiscretas  até ao anoitecer, a marcar lugar como um cão de guarda. Afasto os bichos que se aproximam a farejar as árvores, sacudo-os com gestos e ruídos, não permito que façam à minha volta as suas necessidades. Aprendi a lição! E quanto a mim, quando o meu corpo dá sinal,  vou ao mar aliviar-me, sem deixar cheiros ou vestígios, ao contrário dos cães.  

Quando chove e faz frio deambulo pelas  estações de metro e combóio até fecharem, depois procuro degraus escondidos e as primeiras igrejas abertas para as missas. Dormito sentado nos bancos de trás, como se estivesse a rezar, a cabeça pendente de sono inclinada para o chão. A essa hora já a cidade acordou e milhares de pessoas caminham na labuta diária para o trabalho, fechadas nos seus pensamentos e preocupações, apressadamente. Sigo entre elas como se fosse mais um que saiu do conforto da cama. E assim recomeço cada novo dia.









sábado, 8 de novembro de 2025

Passadiço de Pindelo

 


Tenho como missão de vida ajudar o próximo e atenuar o seu sofrimento, tornar a vida dos outros mais alegre nestes tempos de servidão e medo.

Vivemos tempos sombrios, a dor alastra às famílias. Os pais envelhecem e morrem, amigos próximos adoecem jovens, ainda com muita vida pela frente.

Vidas cheias de obstáculos financeiros, orçamentos apertados, dívidas. Doenças e morte. Gente desamparada, deprimida e triste, sem saber para onde se virar,  impotente para seguir em frente.

Procuro Deus dentro de mim, Ele existe no meu íntimo à espera de ser encontrado, não é justo que perca a fé e o culpe das desgraças do mundo. Só tenho a agradecer Ele me dar a oportunidade de presenciar a vida a desenrolar-se à minha frente.

Devo encontrar alegria e alento na dor e fealdade, não desejar o mal de ninguém, mesmo a quem maltrata e odeia o seu semelhante. Se responder com rancor torno-me igual a quem odeia e perpetuo o ciclo de sofrimento e revolta das pessoas.

Devo estar acima da história e dos acontecimentos quotidianos que todos os dias nos abalam e entram pela casa adentro.

Os ramos de jasmim, o céu azul sobre mim, a chuva, o vento e o sol, os pássaros que voam existirão sempre. Mesmo das grades e das prisões que nos cercam podemos olhar para fora e ver  beleza em todo o lado. Devemos estar gratos por isso.

Como não me alegrar e não pensar em Deus?

Todas as noites oro, tenho plena consciência de mim, do meu papel e da minha vida dentro dos acontecimentos que fluem e não domino. Compreendo a dor dos Homens e  a minha, e aceito-a. Sinto-me grata por ser assim.

Adoro conversar com as pessoas, tornei-me muito perspicaz a ler a sua alma. Em poucos minutos compreendo toda a sua vida e dor e sinto uma enorme compaixão por elas. Elas sentem que eu as compreendo  e, sem eu nada dizer ou pedir, abrem-se comigo e contam o livro das suas vidas.

Apaixonei-me por muitos homens, mas nunca serei capaz de me casar e de me entregar a um só homem. Não existe nenhuma contradição entre procurar Deus incessantemente dentro de mim e amar mais do que um homem ao mesmo tempo. Neles encontro diferentes manifestações de Deus.

Sinto por S. uma enorme ternura, todos os dias penso nele e quando estamos juntos o nosso amor é casto e profundo.

Durmo no regaço de Han, por ele sinto um amor  físico e intenso, enterro-me nele com  uma alegria vibrante.  Em Amsterdão ando de bicicleta todos os dias, de cigarro na mão, viva e fremente, em direção ao consultório de S. e não sinto qualquer remorso por deixar Han sozinho nos meus outros lençóis.

Quando engravidei subi e desci escadas propositadamente para me estafar, bebi mezinhas e injetei água quente para dissolver a vida que crescia dentro de mim. Não quero ser mãe nem ficar impedida de buscar Deus. Necessito de disponibilidade emocional e tempo para ajudar as pessoas a ultrapassarem o seu sofrimento nestes dias sombrios, de estar ao seu lado descomprometidamente.

Estou em Portugal a convite do João. Ele hoje trouxe-me ao passadiço de Pindelo, ver cascatas, serra e rochas íngremes, que não vejo nos Países Baixos. Mostrei o  meu diário, disse:

- Estou a escrever um diário e mais tarde talvez escreva um grande romance no qual colocarei tudo o que se passa neste tempo e  que  considero importante dizer às pessoas. Ainda temos de aprender a lidar com todas as nossas possibilidades, sinto que tenho algo a dizer para tornar o mundo melhor e com menos sofrimento.

João folheou o caderno amarrotado de linhas azuis onde anoto os meus pensamentos, fui-lhe traduzindo do neerlandês algumas frases que considero mais felizes,  nas quais consegui representar com alguma fidelidade os meus pensamentos íntimos sobre Deus.

- Etty, pela maneira tão entusiasmada e profunda com que falas e escreves, talvez um dia venhas a ser conhecida pelo teu diário. Não necessitas de escrever um grande romance ou poemas, possuis  uma prosa  poética e bela.  O diário é rico, o pensamento e vida nele contida  desmesurados e vastos. Revelas grandeza ao  falar das profundezas da tua alma e ao mostrar o caminho espiritual que encetaste quando conheceste S.  O teu livro ficará na história como “O Diário de Etty Hillesum”, acredita em mim.

Caminhamos pelo passadiço observando as maravilhas de Deus e do Homem, neste breve intervalo de sossego que encontramos juntos, falando da centelha divina que existe em nós. De como nos cruzamos neste tempo, através de um livro. Demos as mãos e seguimos até à cascata da Pedra Má.




domingo, 12 de outubro de 2025

Amarante

 


Os meus bisavós emigraram do Oklahoma para a Califórnia em 1933. As terras deixaram de ser produtivas e os rendeiros não podiam pagar as rendas. A agricultura mecanizou-se, os tratores substituíram os homens. Milhares de famílias abandonaram as quintas rumo ao Oeste, à terra prometida da Califórnia.

Viajaram num camião carregado dos víveres mais essenciais - a  minha avó, os seus pais e irmãos. Contaram-me histórias épicas dessa viagem extenuante e acidentada, que ninguém queria fazer. Foram forçados a encetar o exilio  dentro do próprio país, como párias malditos e peçonhentos,   maltratados e violentados, expulsos das bermas das estradas nos acampamentos temporários que faziam junto de ribeiros, em tendas improvisadas com restos de cartões que encontravam nas lixeiras próximas,  e com as lonas que também  cobriam os camiões nas longas viagens pelos desertos e terras áridas do Arizona e do Novo México.

A Califórnia não foi a terra que almejavam, só lhes ofereceu  ira e revolta. Os empregos prometidos foram um engodo para milhares de deslocados – um estratagema para escravizar e pagar ninharias a famílias inteiras: quanto maior a  procura de emprego mais os patrões podiam chantagear os trabalhadores e baixar os salários. Milhares de hectares foram  intencionalmente mantidos improdutivos para criar escassez de cultivo, e pouca necessidade de mão-de-obra. Tempos miseráveis que a minha avó, Rosasharn, contava quando eu era criança.

Os meus bisavós foram vítimas da mecanização da agricultura, tornaram-se excedentários, ficaram à mercê dos bancos, endividaram-se e perderam as terras que cultivaram durante gerações. Quando emigraram para a Califórnia por falta de terra para cultivar,  continuaram sem condições para  uma vida digna: viveram em acampamentos temporários, as Hoovervilles, sempre à procura de trabalho para alimentar as muitas bocas que tinham a cargo, humilhados pelas autoridades locais e pejorativamente chamados de Okies pelos californianos, por serem do Oklahoma.

Veio a segunda guerra mundial, os Estados Unidos concentraram-se na industrialização e no fabrico de equipamento militar. Os meus avós arranjaram um emprego estável e depois, com a vitória, deu-se o baby boom. A geração do meu pai foi a dos baby boomers,  do crescimento económico, do pleno emprego e do consumismo que tornou a América famosa. Cresci numa bela vivenda ajardinada,  nos arredores de Sacramento.  Conheço, no entanto, o historial da minha família, os sacrifícios que os meus antepassados fizeram para fugir da miséria.

Deixei de reconhecer a América, tornou-se mais violenta e racista, e não gosto de Trump. As minhas amigas falaram-me de Portugal, apresentaram-me o país como uma espécie de Califórnia em miniatura: bom clima, praias, surf, tranquilidade – que deixei de ter na américa – e benefícios fiscais para estrangeiros. Depois de pesquisas aturadas na internet,  de muitas conversas e troca de emails com compatriotas e viver em Portugal, decidi mudar-me com a minha companheira.

Cheguei há um ano, gosto de estabelecer um paralelismo pessoal entre a história dos meus bisavós e a minha, realçando o contraste de vidas e oportunidades tão díspares. 

Pertenço ao grupo dos privilegiados. Levo uma vida  exultante contrariamente aos meus antepassados  – o  Karma encarregou-se de  equilibrar as forças cósmicas que pendem sobre a minha família, dando a mim o que retirou aos outros.   

Da mesma forma que na Califórnia se criou a escassez agrícola de forma intencional,  através do açambarcamento de milhares de hectares por uma minoria de grandes proprietários, em Portugal criou-se a  falta de habitação através do açambarcamento de quarteirões inteiros por grupos económicos e fundos de investimento,  destinados a hotéis, alojamentos locais e arrendamentos de luxo.

Vê-se muita construção, mas pouca gente a viver nela. Sou, neste aspeto, uma felizarda: eu e a minha companheira, além dos benefícios fiscais, conseguimos comprar alguns apartamentos e viver das rendas.

Pelo que li e observo, e do pouco que ainda conheço deste país, que me recebeu de braços abertos, julgo que em Portugal  há escassez de mão-de-obra, faltam trabalhadores em muitos setores.

Temos um exemplo na nossa casa: a empregada doméstica, Petra Von Kant, é filipina. Não conseguimos arranjar uma portuguesa. Disseram-nos que em Lisboa seria mais fácil, mas em Amarante só conseguimos a Petra por intermédio de uma amiga com contatos de trabalhadoras filipinas.

Vivemos em Amarante. Adoro a brejeirice da doçaria local!

Estes Portugueses são levados da breca! Não é que subverteram completamente a seriedade e o rigor religioso que se deve  a um homem  santo, muito acarinhado aqui na terra, e inventaram  um doce de forma fálica, dando-lhe o nome da sua parte íntima: Caralhinho de São Gonçalo?

Muito poderia dizer de Amarante, deixo algumas fotografias para as minhas amigas na América se roerem de inveja.

Esqueci-me de dizer que me chamo Joana, Joana Joad, em homenagem ao meu bisavô Tom Joad, que foi do Oklahoma para a Califórnia. A minha companheira chama-se Marlene e adotamos a Petra,  não só como empregada doméstica, mas também como nossa companheira. Somos muitos felizes as três! A Petra adaptou-se bem e aceitou as nossas condições, de corpo e alma. Os nossos papeis invertem-se frequentemente; nós, as patroas,  gostamos de fazer de empregadas e de ser subjugadas e humilhadas pela Petra, mas isso é outra história que não contarei aqui na internet.














sábado, 27 de setembro de 2025

Quintandona

 

Miradouro do Alto da Pegadinha

Cheguei a Quintandona com o livro de Sebastião Salgado na bolsa, não sei porquê. Ia preparada para a caminhada circular de 10 km que começa na aldeia. No entanto, chovia e o tempo estava sombrio. Decidi deambular por ali,  onde estava pela primeira vez.

Entrei sem ver ninguém. As ruas estreitas sossegadas, ladeadas por casas de xisto, de muros altos, recentemente restauradas. Algumas com letreiros nas lajes, de restaurantes e tascas fechadas. A aldeia parecia viver a ressaca do fim de semana anterior,  em que milhares de pessoas a visitaram para o festival do Caldo de Quintandona.  Os únicos locais abertos, e com pessoas, eram o posto de turismo e a tasca do Aguieiro.

No posto de turismo, deram-me informações sobre o trilho e o baloiço no alto da Pegadinha. Comprei às senhoras que lá estavam maracujás e uma fatia de bolo caseiro. Desci à tasca, comi rissóis e pataniscas,  bebi um vinho branco maduro que a dona retirou do garrafão de 5 litros para o copo de barro vermelho – tudo produtos locais, confecionados pelas senhoras da aldeia:  exceto o vinho, obviamente;  mas que também devia ser da região.

Sentei-me no baloiço da tasca e abri o livro do Sebastião Salgado. Vi algumas imagens,  li algumas das suas reflexões. Não fazia sentido estar ali sentada, sem conhecer as pessoas e a aldeia, com um livro biográfico de um fotógrafo brasileiro. Enfastiei-me com a leitura, fechei o livro. Talvez fosse mais apropriado ler Camilo Castelo Branco: o casario e o ambiente local estariam mais próximos da realidade descrita pelo autor português.

Dois homens encostaram-se ao balcão, a beber vinho e a comer bifanas – achei aquilo mais português, mais Camiliano. Observei discretamente, fiz de conta que continuava a ler. Um deles foi ao carro buscar qualquer coisa, ligou o autorrádio no volume máximo. Ouvi marteladas de música pimba a sair estridentes do interior. Desligou  e regressou ao balcão para continuar a beber com o parceiro. Deu-me a impressão de que conheciam a mulher que os servia e que deviam ser clientes habituais.

Julgo que estariam intrigados comigo: o que faria ali uma mulher sozinha a ler um livro, sentada no baloiço? Talvez a ida ao carro, que estava próximo,  fosse apenas uma desculpa para me observar melhor.   

Afastei-me. Fui a pé ao Alto da Pegadinha. No posto de turismo disseram-me que demoraria 50 minutos, passando no centro da freguesia de Lagares, pela estrada nacional. Um carro abrandou ao meu lado, o vidro abriu – vinham lá dentro os dois homens da tasca – o  passageiro perguntou:

- A menina anda perdida?

Fiz de conta que não ouvi. Olhei discretamente para os lados em autodefesa, havia casas, pessoas, carros a passar. Gritaria e enfiar-me-ia pelo quintal ao lado, se necessário.

- A menina não se preocupe, vimo-la na tasca do Aguieiro sentada no baloiço, lembra-se? Eramos nós que lá estávamos. Somos gente hospitaleira e como anda por aqui sozinha só queremos ajudar – disse ele.

Talvez fossem sinceras as palavras. Dei uma resposta diplomática que, ao mesmo tempo, os despacharia e mostraria que não estava tão vulnerável como aparentava.

- Muito obrigado, meus senhores. O meu marido vem ao meu encontro desde Lagares, deve estar a chegar no carro para me apanhar.  

- Esteja à vontade, vá com cuidado pela estrada - aceleraram, afastaram-se pela encosta acima.

O que havia de dizer? quando uma mulher anda sozinha desculpa-se sempre com o marido que está a chegar. Não é original, mas foi o que me lembrei no momento.

No caminho de terra e alcatrão esburacado para o Alto da Pegadinha,  motards faziam piões com as motos, levantavam uma poeira enorme no ar. Subi ao miradouro. O tempo estava sombrio, a ameaçar chuva. Nuvens carregadas pairavam cada vez mais próximas, trazidas pelo vento: resquícios do furacão Gabrielle a fazerem-se sentir no continente.

Estava completamente sozinha, os motards lá em baixo, distantes, a afinar as motos. Abri os braços ao vento e gritei:

- My name is Joana. I am the queen of the world – as  minhas palavras ecoaram nas encostas das colinas circundantes.

Abriguei-me na rocha, voltei a abrir o livro de Sebastião Salgado: Da Minha Terra à Terra. Reli  a epígrafe na  dedicatória que a  minha amiga Maria Madalena escreveu quando  o  ofereceu:  

O fascismo é a redução do pensamento, é obrigar as pessoas a pensarem da mesma forma. Não gosta do contraditório, de zonas cinzentas e da complexidade. Não aceita discursos racionais e ponderados.