Lamento desiludir-vos meus amigos
venezuelanos, mas o Trump não vai trazer-vos a liberdade e a democracia. Ele ordenou o sequestro do vosso presidente,
Nicolas Maduro, para mais facilmente chantagear os restantes dirigentes do
regime chavista: não pretende enviar tropas para a Venezuela, o que lhe traria
mais impopularidade nos Estados Unidos, pretende simplesmente aceder às imensas
reservas petrolíferas do vosso país. Assim, fica em posição de força para ditar as
suas ordens a quem substituir Nicolas Maduro.
O sequestro e julgamento do
presidente servirá como exemplo para quem teimar em lhe fazer frente. Os
lideres americanos são bullies e agora possuem um brinquedo para chantagear e meter
medo a quem não se submeter à sua vontade. São os líderes do mundo: querem,
podem e mandam, não precisam de obedecer ao direito internacional.
Portanto, meus amigos, podem dizer adeus à esperança que depositaram na deposição do presidente. Das duas uma: a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, não se rende a Donald Trump e o velho regime continua intacto, tornando-se porventura mais repressivo; ou a cúpula de dirigentes aceita as exigências dos Estados Unidos em troca da sua continuação no poder. De uma forma ou de outra, o povo venezuelano continuará na miséria sem beneficiar das imensas riquezas do país nem da liberdade para escolher democraticamente os seus lideres políticos.
Maicon não gostou da análise
política do seu amigo português. Tem-se falado muito da Venezuela por estes dias
nas redes sociais e na imprensa: é fácil falar de um país estrangeiro, opinar de barriga cheia sem
nunca lá ter vivido e sentido as agruras
quotidianas da esmagadora maioria dos seus habitantes, vendo as notícias ao
longe sentadinhos no sofá, a beber um chocolate quente como se estivessem a
assistir a um espetáculo qualquer. Ele nasceu na Venezuela, sente os
acontecimentos de uma forma totalmente diferente: com intensidade e preocupação pela família e amigos que lá deixou. Veio para
Portugal, a terra dos pais, para fugir
da incerteza económica, da pauperização permanente das condições de vida, da
insegurança causada pelo chavismo que arruinou a empresa do pai, tão arduamente
construída por ele ao longo de toda uma vida.
Readquiriu esperança numa mudança para melhor, a
situação era insustentável. Fica irritado com comentários, augúrios tão sombrios e idiotices sobre a
Venezuela, mesmo que vindas dos seus amigos. Odeia ver os apelos nas redes sociais às
concentrações contra a “agressão
imperialista norte-americana a um país soberano”. Não tem vergonha de o dizer:
apoia a intervenção americana, foi a melhor notícia que lhe chegou da Venezuela
nos últimos anos. Não lhe interessa o
“Direito Internacional” e tretas do género. Não havia outra hipótese para
remover aqueles bandidos.
Quando era pequeno foi com os
irmãos e os pais ver a neve nas montanhas de Mérida. “A única região da
Venezuela onde existe neve”, disse-lhes o pai.
Não sabia o que era neve, só a
tinha visto na televisão, nos filmes americanos que passavam no Natal, e do que
os pais lhes contavam de quando eram
miúdos em Portugal, antes de emigrarem para a Venezuela: “talvez não acreditem,
meus filhos, mas aqui neste clima tropical podemos ver neve se subirmos ao pico
Bolívar”. Foram de carro, demoraram muitas horas desde as planícies em redor do
lago Maracaíbo, onde viviam, até
chegarem à cordilheira Andina. Lembra-se do pai lhe ter dito que foi um ano
particularmente frio nas montanhas do norte da Venezuela e que não era habitual
haver neve naquelas altitudes mais baixas.
Ele e os irmãos saíram do carro e, como todas as crianças, fizeram bolas,
deslizaram metidos nos sacos de serapilheira que iam na mala e fizeram
tropelias. Foi um dia inesquecível. Passaram a noite num pequeno hotel e
regressaram a casa no dia seguinte, a descer várias horas de carro até ao mar,
passando por climas que mudavam com a altitude. Tempos felizes num país incrível!
Nunca mais viu neve até hoje.
Em homenagem aos tempos de
mudança, hasteou a bandeira tricolor do seu país na traseira do carro, como fazem os portugueses quando joga a
seleção nacional de futebol e, nostálgico com as suas memórias, rumou a um dos poucos sítios
de Portugal onde se pode ver neve: a serra
da Estrela. Os amigos portugueses não acreditaram que a última vez, e única, que viu neve foi na Venezuela.
- Neve na Venezuela?! Estás a
gozar connosco!
Ignorantes, é o que são. Devem
pensar que na Venezuela só existem praias tropicais e bananeiras! Não imaginam
a beleza e a diversidade do país.
Partiu em direção à Covilhã e dali subiu à serra. Viu a placa na estrada,
junto à pousada, indicava 800 metros de altitude. Mais à frente, viu outra
placa: 1200 metros de altitude. Cruzou-se com muitos carros que desciam da
Torre; alguns com pedaços de neve agarrados no tejadilho e bonecos de gelo
esculpidos no capô. Um deles trazia a bandeira da Venezuela sobre o tablier. Que
alegria, compatriotas! Buzinou, abriu o vidro, fez o V de vitória com a mão esquerda,
gritou para os ocupantes: Viva Venezuela! Libertad! Libertad! Responderam
da mesma forma, eufóricos: Libertad!
Libertad!
1500 metros: famílias e crianças fora dos carros a mexer nos
primeiros pedaços de neve na berma da estrada. A nostalgia da sua infância
aumentou. Regressaria à Venezuela, tinha de ser!
1700 metros: engarrafamento. Uma
longa fila de carros estendia-se pela estrada até à curva que contornava mais
uma encosta da serra.
O carro parava e avançava devagar.
A esposa abriu a porta, saiu para esticar as pernas, apanhou um pedaço de neve
e trouxe-o para dentro do carro. Passou-o ao marido, pacientemente sentado ao
volante, acelerando e parando, acelerando e parando. Acariciou a neve com os
dedos, maravilhou-se com o pedaço branco na sua mão. Contemplou-o até sentir o
frio queimar a pele.
Seguiram no para arranca até à
Torre. Estava assim há quase uma hora – já não bastam os engarrafamentos para o
trabalho durante a semana, tinha agora de apanhar outro ao fim-de-semana no
passeio à serra da Estrela!
Estacionou o carro, caminharam sobre
o manto branco que cobria o planalto
superior. A esposa num gesto maroto atirou-lhe uma pedra de neve contra o
corpo:
- Aaaa… isso não se faz! Queres
guerra? Vais ter guerra! – Ele e a esposa correram a apanhar mais neve, começaram a atirar bolas um ao outro.
- sua malandra!
- seu medricas, não me acertas.
Do manto branco despontavam
rochas, sentinelas silenciosas observando os humanos minúsculos a brincar. Os
faróis do carro iluminavam a berma, a luz refletia-se por trás do rail de
separação. O círculo de luz fluorescente recortava-se nos tufos de erva perdidos
no tapete de neve, como um rendilhado num fino tecido de noiva. Maicon
sentiu a pureza da infância encher-lhe a alma, um laivo de esperança num mundo
melhor e no regresso à Venezuela renasceu em si.










