sábado, 5 de novembro de 2022

Nossa Senhora do Salto

O rio Sousa na Nossa Senhora do Salto

Estamos a apenas 20 km do centro do Porto e, no entanto, é como se estivéssemos bem mais longe. O troço de Alvre é mais aberto, os eucaliptos desapareceram. As encostas da serra de Santa Iria têm o solo seco, propício aos matagais, onde crescem as urzes, o tojo, a carqueja, a giesta. Os sobreiros estão-se a expandir. Cercamos um medronheiro frondoso repleto de frutos amarelos e vermelhos, redondinhos como bolas de ping-pong. Apanhamos e comemos os dos ramos mais baixos.

Alvre pertence à freguesia de Aguiar do Sousa, concelho de Paredes. São bem visíveis ainda os vestígios rurais: ramadas de uvas americanas, campos cultivados em socalco, quintais,  quintas e casas de xisto. Mas são poucos os que realmente se dedicam à agricultura:  uma idosa corta erva com a foice, as ovelhas pastam à sua volta. Dali a pouco ela passará por nós na estrada de paralelos levando-as para o curral. Os restantes habitantes devem trabalhar nos serviços e alguns no porto. A CREP passa mesmo ao lado e dali segue-se para qualquer sítio. Por enquanto, esta proximidade viária não se nota na procura de casas e em novos moradores. O lugar continua pacato, o silêncio é interrompido pelo ruído das moto quatro que percorrem a serra aos fins-de-semana.

A caminhada começou na Nossa Senhora do Salto. O local é bonito, as falésias são abruptas, caem a pique. Conta a lenda que um cavaleiro gritou: “Valha-me Nossa Senhora!”, enquanto se despenhava no precipício. Esta fez o milagre de o pousar como uma pena no chão. O rio Sousa forma aqui um canyon de águas rápidas e agitadas, correndo impetuoso, atravessando a garganta estreita que escavou na rocha dura. Uma das colegas diz que foi no rio Sousa que aprendeu a nadar. Imagino que atualmente ninguém nade nele, a água está poluída. Há um cheiro ligeiramente desagradável no ar.  

A 3.ª sessão da formação “Aprender no Campo” terminou  com um convívio pic-nic na margem do rio, iluminado pela lua quase cheia.  A Glória, professora de Geografia, veio de Guimarães. Trouxe uma broa caseira: “a broa de Guimarães”, como rapidamente se tornou conhecida, que todos quiserem provar e elogiaram.  O José Fernandes levou um vinho do Porto “Velhotes” – uma aposta certa – que ajudou a aquecer a noite fria. A Dra. Raquel Viterbo, Diretora Executiva do Parque das Serras do Porto, fala dos projetos  e do modelo de gestão dinâmica em que participam  diversas entidades e parceiros, atuando ao nível da conservação, recuperação do património histórico e ambiental. “Há muitos eucaliptos, é verdade,  mas não podemos cruzar os braços. Continua a haver muito património e biodiversidade para defender e valorizar.” Oferece - nos um pacote com todos os guias da rede de percursos pedestres das serras do Porto e um chapéu do parque. Todos os percursos de Paredes começam na Senhora do Salto. Cada concelho criou os seus próprios trilhos, que se cruzam e ligam entre si.  Foi criado um percurso de grande rota com 108 km de comprimento.  Ao todo 18 percursos.  Há muito para explorar e descobrir  nas serras ao pé do Porto.

Tivemos a companhia de um podengo esfomeado que ora ia à nossa frente, farejando, vasculhando os muros e as árvores, ora voltava atrás verificando se não faltava ninguém.

Provavelmente foi abandonado. Novito, dócil, mas desconfiado, nunca se aproximou em demasia, talvez  traumatizado pelo abandono e maus tratos recentes. Não entrou em Alvre. Quando iniciamos o regresso à Senhora do Salto, lá estava ele à saída da aldeia, à nossa espera. A companhia que nos fez foi recompensada com as fatias de chouriço, os restos de empadão de atum e de folhado de carne que lhe fomos atirando para o chão. Arrefeceu muito ao início da noite.  Ele colocou o rabito entre as pernas, fazendo com que as suas costelas no corpo  esquálido se notassem mais. Por fim, desapareceu algures na escuridão, procurando um abrigo onde se pudesse proteger do frio, menos esfomeado do que habitualmente.  

 




As marmitas de gigante, fenómeno geológico.

Madressilva

Outro troço do Rio Sousa. É evidente o problema da eutrofização.

A ribeira de Santa Comba, entre a Nossa Senhora do Salto e Alvre. Desagua no rio Sousa.  Ao contrário deste, tem águas límpidas e transparentes.

Medronhos

Sobreiro à entrada de Alvre

Campo agrícola em Alvre. Vê-se ao longe o viaduto da CREP sobre o rio Sousa. 

Entrada em Alvre

Ambiente totalmente diferente a 20 km do centro do Porto: 





O rio Sousa em Alvre

O nosso companheiro especial, pouco antes de desaparecer na escuridão.

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