domingo, 23 de fevereiro de 2025

Castelo de Penedono

 


Doze damas Ingleses viram-se desonradas. Apenas na nobre Lusitânia se encontraram doze  bravos cavaleiros  para  defender a sua virtude e castidade. Capitaneados por Álvaro Gonçalves Coutinho, conhecido pelo Magriço, natural das terras de Penedono, viajaram por terra e mar, rumo às terras de João de Gaunt, duque de Lancaster.  Os doze de Inglaterra combateram galhardamente os biltres patifes que ofenderam a honra das nobres damas. Venceram as lides, fizeram libações no condado de Lancashire. Não ficou registado nos anais da história se as nobres damas lhes ofereceram alguma recompensa extra por se terem batido tão valentemente, sabe-se  que regressaram a casa cobertos de honrarias e fama que transcenderia o seu tempo. Inspirariam mais tarde cânticos nos Lusíadas, dariam nome à seleção de futebol que representaria o seu país no campeonato do mundo de Inglaterra, comandados por um novo magriço, de nome Eusébio. Também com excelentes resultados que a nação lusitana exultaria.     

Nesse tempo deu-se um outro fenómeno, absolutamente desconhecido, mas altamente preocupante para o futuro da humanidade. O exterminador implacável viajou no tempo para se encontrar com os doze magriços pedindo-lhes ajuda contra a invenção da Inteligência Artificial, disfarçado de cavaleiro medieval, de elmo, escudo e lança, montado no cavalo russo.  Só eles poderiam reverter o curso da evolução humana, impedindo a revolução industrial que começaria  dali a uns séculos naquele condado de Lancashire. Talvez matando os antepassados dos futuros inventores da máquina a vapor, talvez destruindo de alguma forma as minas de carvão que intensificariam a utilização  de energia por máquinas cada vez mais complexas, que culminariam na invenção da IA.

Como é óbvio, não entenderam patavina do que dizia o estranho cavaleiro. No entanto, ele não desistiu da sua missão. Tal como na saga Exterminador Implacável, havia o mau e o bom exterminador. Ela era o bom exterminador, não queria que as máquinas destruíssem a humanidade. Ele próprio foi construído e viajou no tempo com a ajuda da IA. Era uma máquina letal! Tinha pena dos humanos, tão bonzinhos e ingénuos, comparados com as máquinas insensíveis, que se preparavam para os destruir e dominar o planeta Terra. Ele estava disposto a autodesintegrar-se  para não assistir à ascensão das máquinas, à substituição de formas de vida diversificadas, que  admirava, por robots implacáveis, que só aprendiam por algoritmos e não conheciam as subtilezas do amor e do afeto. A sua compaixão pelos humanos devia-se a um erro num dos chips instalados na memória RAM.  Avaliou racionalmente que corriam risco sério de extinção: a humanidade merecia sobreviver. Ele tinha de a salvar já que ela própria parecia ser incapaz de o fazer. Era responsável pelas alterações climáticas, a energia atómica e agora a IA. Estava em maus lençóis. Antes de se desintegrar faria tudo para salvar o Homem,  o criador original.

Encontrou-se com os doze cavaleiros antes de partirem para Inglaterra. Mandaram-no bugiar: Sandeu, louco! Vade retrum! Desaparece, estranho vilão!

Perante a agressividade dos aguerridos lusitanos que viram nele uma oportunidade de treinar a lança em riste, apontando à sua cabeça, não querendo utilizar os seus superpoderes para os aniquilar num segundo e com isso terminar a bela epopeia que estavam prestes a iniciar, decidiu  regressar ao futuro. Viu-se subitamente nas muralhas reluzentes  do castelo de Penedono. Teletransportou-se para os passadiços do Távora, tentando perceber por que motivo os humanos gostam tanto da natureza e são tão casmurros.

Se gostam tanto, por que a destroem para construir máquinas, que por sua vez os destroem a eles? 

Caminhou pelos passadiços com roupas adequadas à época, passando despercebido. Ninguém imaginava que ele era uma máquina. Pensava em estratégias para salvar a humanidade dos perigos da IA.

Encontrou uma salamandra-de-pintas-amarelas. Que belo espécimen da criação e evolução da vida no planeta! Como é possível os humanos construírem máquinas que levam à extinção de seres vivos reais, infinitamente mais belos e complexos?  A salamandra debatia-se com  falta de água, a pele subitamente desidratada com o aquecimento das tábuas. Pegou nela, transportou-a para a margem da albufeira de Vilar, colocou-a na água lodosa. O animal ficou de cabeça levantada, as protuberâncias oculares fixas no exterminador.  Ele sabia, graças ao ultraprocessamento instantâneo da informação que lhe chegava permanentemente através de imagens, que os animais não humanos tem capacidade de comunicar e transmitir mensagens que os Homens não detetam. Decifrou que a salamandra estava a agradecer o cuidado. As máquinas não tem sentimentos, se os tivessem os chips do exterminador processariam no seu corpo a exteriorização de algo parecido com o sentimento de alegria. O Exterminador limitou-se a olhar, sabendo que, de acordo com a  ética ambiental e as teorias ecocêntricas das filosofias humanas, fez “uma boa ação!”.

Regressou ao convívio dos humanos que passeavam nos passadiços. Foi com eles à Vila da Ponte beber um copo. Podia ingerir líquidos (possuía um sistema altamente complexo que impedia as vísceras de oxidarem). Sentou-se na esplanada a fruir o sol, como um verdadeiro humano. Um copo de tinto, uma sandes de queijo na mesa.

Aterrou por acaso no país a que chamam Portugal e na terra que chamam Penedono. Os doze magriços revelaram-se incapazes de perceber a gravidade do problema. Talvez viaje para outro local,  intervenha no presente em vez de condicionar o passado. Naquela semana, curiosamente, decorria em Paris a primeira Cimeira Mundial de IA, em que participavam líderes políticos de todo o mundo. É o local ideal para fazer o alerta.  Iria a Paris disfarçado de executivo fazer lobby pela inteligência natural, estava decidido!



















sábado, 15 de fevereiro de 2025

Nogueira da Regedoura

 


Querida Cidália,

aproveito que finalmente cheguei ao Recife para agradecer sua  extrema generosidade e de sua  irmã. Foi muito difícil comunicar com ela, tal como você referiu. Sendo surda-muda, Cláudia  foi gentilíssima  desde que abriu a porta, se expressando carinhosamente por  linguagem gestual, desenhos, textos, fazendo tudo ao seu alcance para eu entender e me ajudar.  Fico sem palavras para agradecer tudo o que vocês fizeram por mim.

Vou contar o que aconteceu na última tarde em Nogueira da Regedoura. Depois de andar com sua irmã, indo e vindo de carro do shopping, eu quis conhecer um pouco mais do Portugal verdadeiro.  Shopping é igual em todo lado, sabe? Até  o Recife tem shopping,  classe A, assim bonitinho como os vossos.  Estava cansada de entrar em carro, ver loja, fazer compra. No último dia, gesticulei: vou sair na rua, quero ver como é isto aqui. Sua irmã fez cara estranha, arregalou os olhos, como que dizendo: você é estúpida, por que faz isso? Não tem nada pra ver aqui, não. Escrevi para ela o que estava pensando: Ué, tem pessoa, né?! Tem Continente lá no cimo da rua. Tem loja, café, restaurante.  Não é como a cidade ou o shopping, mas tem sítio para encontrar pessoa. Quero ver  campo, que deve ter, ver quinta, que deve ter. Me disseram que havia muita quinta e casa antiga  em Portugal,  coisa que o Brasil não tem. No Brasil, só tem favela, quadra, ou condomínio fechado para os grafinasso. Venha comigo. Percebi pelos gestos de sua irmã que  surda não ia ouvir os carros, era perigoso para ela. 

Saí sozinha na rua, sua irmã ficou olhando a televisão.  Toda a gente fala que Portugal é dos países mais seguros do mundo. Eu ia tranquila, vendo gente pacífica, calada. Muito idoso. Portugal tem muito idoso. Pessoas me observando de lado, fazendo conta que não vê, mas vendo. Gente pouco expansiva. Teriam medo de mim,  julgariam que eu era alguma puta, tendo medo de roubar seu marido? Talvez por usar saia curta e top.  Você sabe como eu sou assim vistosa, meu cabelo longo, ondulado, pele morena. Estava vestida como tu me conhece. Eu mesma!  Imagino seus pensamentos: Quem é esta  caminhando sozinha, aqui? Os cães ladrando de cima do muro, eu tendo de passar a rua para  outro lado. Talvez por farejarem meu perfume ficavam mais furiosos. Eu mais nervosa, apressando o passo para regressar a casa. Os cachorro sentindo meu nervosismo ladrando mais.

Você disse quando era pequena brincava na rua.   Não vi criança, só carro passando apressado. Talvez indo no centro comercial, como vocês dizem em Portugal. Vi o largo bonitinho, junto da igreja, com banquinho para sentar, sem ninguém. Não dá para entender!! Vi ónibus sem passageiro, paragem vazia.  Pensei que Nogueira da Regedoura  teria gente andando de bicicleta,  ciclovia como  nos Países Baixos, que Portugal sendo europeu seria parecido. No Brasil tem gente andando de bicicleta, indo pro trabalho. Esperava  ver mais sobreiro e oliveira. Vi eucalipto igualzinho aos nossos. Sabe,  sou  uma apaixonada pela floresta  Amazônica,  custa ver a invasão de espécies exóticas e  desmatação acontecendo aí. Ver eucalipto, terreno sem árvore, rua sem passeio, lixeira ilegal escondida na erva da berma,  dói, porra! Lixo, Cidália. Muito LI-XO!! Plástico perdido na rua, PLÁS-TI-CO, viu!?

O que você contou de sua infância em Nogueira da Regedoura, não vi, não!  Gente conversando na beira  da porta, garoto jogando bola na rua. Vi vizinho fechado, gente desconfiada, só saindo de carro para trabalhar ou indo no shopping, como eu fui com sua irmã. Tão comum aí que nem pensam sair a pé, passear na rua. Vão para  longe, percorrendo autovia se evadindo. Muita que tem aí!  

Desculpa estar lamuriando. Estou sendo injusta, nada apaga vossa gentiliza e bondade. E estou ficando  com saudade das coisas boas de Portugal,  a  comida, o clima sem  mosquito, o frio no inverno o calor no verão,  a montanha,  a praia. A tranquilidade. 

Se cuidem, porque me parece que está  ficando ruim. É pena! Vocês estão desvalorizando vosso património histórico e natural, transformando Portugal num resort para estrangeiro rico. Em subúrbios tristes. Meus compatriotas começando a sair  para  outros países.  Vocês ficando  mais velhos e caretas. Quem vai cuidar de vosso turismo, restauração, indústria? Vai  voltar a ficar fechado como ficou com Salazar, viu. E pobrezinho.

 

Te adoro,

 

tua querida Neyde.









sábado, 1 de fevereiro de 2025

Haikai à moda do Porto

 


Maria Madalena adora o Japão. Infelizmente, nunca teve a oportunidade de visitar o país. Sente-se fascinada  desde miúda pela arte oriental e pela cultura nipónica em particular. Cativa-a a sonoridade da língua, os sons fechados, melodiosos e curtos das frases, parecendo  stacattos. Lê Mangas,  avidamente. Vê Animes, sempre que pode: inicialmente, através dos DVD que um amigo lhe emprestou; depois, assinou propositadamente a Netflix para ver os inúmeros Animes da plataforma.  Passava horas sentada no sofá, deleitada, a assitstir às histórias e enredos  paranormais de personagens com poderes sobrenaturais. 

É fã do cinema clássico Japonês, viu os filmes de Akira Kurosawa: Ran, Os Senhores da Guerra; Dersu Uzala, a Águia da Estepe; Os Sete Samurais. Fez questão de ver  O Silêncio, de Martin Scorsese, baseado no romance do escritor católico Japonês, Shuzako Endo. Marcou na agenda,  saiu mais cedo de casa nesse dia para ir ao Trindade e chegar a tempo do início, evitando as demoras habituais dos transportes públicos no centro do Porto.  Adorou o filme. Retrata uma parte da história de Portugal: a missionação do Japão pelos jesuítas Portugueses, o  martírio que estes sofreram em nome da fé cristã, o  confronto intenso e a tensão permanente  de dois sistemas antagónicos - o cristão e católico, ocidental, contra o budismo local,  instituído há séculos no país como base do funcionamento político e social japonês. 

Uma das cenas mais memoráveis que viu no cinema até hoje:

- Por que vens ao meu país convencer-nos a alterar as nossas crenças? -  perguntou o magistrado Japonês ao missionário  representado por Andrew Garfield (que orgulho: um ator de Hollywood no  papel de jesuíta Português!)

- Venho em nome de um reino maior - respondeu o missionário António Fonseca.

 - Que reino maior é esse? Portugal? - o orgulho inflamou no peito de Maria Madalena. 

 - Não. É o reino de Deus.

O  diálogo memorável prosseguiu. Um filme tremendo!

Conhece a autobiografia de Wenceslau de Morais. Leu O Bon-Odori, livro que retrata as suas experiências  na ilha de Tokushima, onde serviu como adido de Portugal, e morreu. 

Fascina-a o minimalismo da cultura Japonesa, que encontrou na cultura de bonsais, na construção de miniaturas de jardins  dentro das casas tradicionais de madeira e biombos móveis; e nos haikai, os seus maiores expoentes. 

Não tem espaço em casa, nem tempo, para cuidar de  jardins minúsculos e bonsais.  Falta-lhe a providencial paciência oriental - é incapaz de se deter em minúcias estéticas que reproduzem com pequenos seixos,  regatos de água, montinhos de terra e verduras, paisagens japonesas do monte Fuji.

Quanto aos haikai, é diferente, basta-lhe um papel, alguma inspiração – mesmo que má – para traduzir em  apenas três versos, de dezassete sílabas (5 - 7 - 5)  as impressões dos seus dias, segundo as estações do ano e as suas variações de humor. O haiku (singular de haikai) capta um momento, uma essência: estrofes condensadas, simples e cristalinas.

Ela está longe de atingir a  multiplicidade de sentimentos e imagens que um breve conjunto de palavras pode evocar; no entanto, tenta.  Maravilha-a que, num poema tão curto, caiba tal enormidade de sentimentos.

Um dos seus livros favoritos é O Estreito Caminho Para o Longínquo Norte,  de Matsuo Bashô (Bashô: Bananeira, em japonês). O relato de uma viagem pelo Japão medieval, pela ilha de Hokkaido, do século XVII. O viajante e autor descreve templos, pessoas, lendas dos sítios onde passa, paisagens, variações nas tonalidades de luz, o desabrochar das flores. Escreve os haikai como corolário das suas observações e reflexões.

Na impossibilidade de ir ao Japão, Maria Madalena passeia pelo  Porto, inspirando-se  em Bashô. Escreve frases simples e diretas, poéticas como os haikai, adaptadas à realidade do que observa no dia-a-dia.

Uma das frase que sublinhou no livro foi: 

para viajar deveria bastar-nos o nosso corpo, mas as noites reclamam um agasalho; a chuva, uma capa; o banho, um traje limpo; o pensamento, tinta e uma pena.

Certo dia, ao subir a rua Júlio Dinis, reparou  que o número dos sem-abrigo que dormem e vivem sob as arcadas e alpendres em tendas alinhadas nas entradas dos prédios,   é cada vez maior. 

Será que ainda sonham? Pensou.

Atravessou a rotunda da Boavista e, sem pensar muito no destino que as suas pernas lhe davam, chegou ao cemitério de Agramonte.

Teve uma epifania, um Haiku! 

Os cemitérios 

    Estão cheios 

             De sonhos

Estava inspirada. Almoçou, como não podia deixar de ser, num restaurante Japonês ali perto. Os empregados de mesa eram todos brasileiros.  O Sushiman, Paulista de origem Japonesa. Foi servida por uma jovem,  estudante de Química na FEUP, a viver em Portugal há poucos meses. No Brasil, não conseguia pagar as propinas, aqui é trabalhadora - estudante.

Imaginou  a vida difícil que ela deve ter, a viver num país com salários baixos e rendas exorbitantes. Veio iludida. É provável que não consiga conciliar as duas atividades e regresse ao Brasil. Além do mais, numa época em que o racismo e a xenofobia  aumentam drasticamente, associando criminalidade à imigração. Uma falsidade tremenda, contrariada pelo últimos dados da polícia judiciária que comprovam uma diminuição geral da criminalidade.

Maria Madalena é solteira, tem tempo para deambular, nunca casou e não gosta de homens. Mete conversa com jovens bonitas sempre que pode. As mulheres também a inspiram, não só a cultura japonesa.

Na estação de metro da Casa da Música, viu uma trintona vestida com casaco branco de lã, apertado com botões largos, e calças de ganga. Cruzaram olhares. A estranha dirigiu-se a ela, pressentindo  que talvez lhe conseguisse sacar uma moedinha.   

- Podia-me dar 1 euro para tomar um cafezinho?

Maria Madalena fez o gesto que não com a cabeça. A mulher afastou-se docilmente, sem insistir.  Não parecia drogada, tinha um rosto suave e elegante, sem o desgaste causado pela toxicodependência.

A estranha continuou a deambular pela estação, parecendo insinuar-se discretamente para ela - ou talvez fosse imaginação sua.   Não interessa, não ficou para saber.

Apanhou o 203 para Serralves. Um vagabundo, com aspeto de toxicodependente – teria entrado na avenida de França? – falava sozinho no banco. Seria louco, alguém com um desejo tremendo de comunicar, que inventava personagens e situações imaginárias -  ou seria o corpo ressacado, delirando,  enquanto não injetava a próxima dose?

As copas das árvores abanavam ao longo da avenida da Boavista.

Sussurra o vento lá fora

      O viajante louco

                   O poema encontrou

Saiu na avenida Marechal Gomes da Costa ao encontro de mais inspiração para os seus haikai.

Maria Madalena olhando a cidade do Porto, procurando inspiração para os seus Haikai.






sábado, 25 de janeiro de 2025

Ecovia do Arda

 


Seguimos as palavras de um velho sábio que encontramos no caminho: “Parem onde virem o pássaro rosa  cantar para vocês.” Assim fizemos. Enquanto observávamos o painel informativo no início do percurso, a 300 metros do centro da velha cidade das freiras, o pássaro rosa cantou.  Ao princípio, não o reconhecemos. Perante a sua insistência, olhamos para trás. Vimo-lo aos nossos pés, dizendo: “É aqui!” Depois voou, assustado, pousando no ramo mais seguro que encontrou.  Fomos ao longo do Arda, contando o tempo e os passos, agradados pela tranquilidade do caminho. Os prados humedecidos pelas chuvas do primeiro mês, as levadas e as flores, velhas casas senhoriais,  acompanharam  nosso breve rumo. O sol descia  sua luz suave de fim de tarde, decidimos regressar à cidade, acompanhando o arco-íris sobre a montanha.

Voltaremos mais tarde para concluir o caminho. Talvez de bicicleta, fruindo no pouco tempo o  vale plano do Arda, saindo e voltando por passadiços e ecovias recentes, debaixo das sombras da folhagem frondosa que não vimos.

O velho sábio disse-me uma última vez: “Tu, que voltarás para trabalhos e dias entediantes, leva contigo estas palavras… ri delas, aguenta. Frui a vida com humor. De um poema  que conheces. Vê só a  adaptação que  fiz, propositadamente para ti…”

Entregou-me um papel engelhado, previamente amarrotado, como se tivesse decidido deitá-lo fora e arrependido, no último momento, de o fazer, entregando-o ao primeiro transeunte que encontrasse, que, por acaso, fui eu. No qual estava escrito numa letra desorganizada, rasurada e reescrita várias vezes, evidenciando várias tentativas de escrever algo de jeito, o seguinte texto:

Ítaca (de regresso ao trabalho)

Quando partires de regresso a Ítaca,

Deves orar por uma jornada longa,

Plena de desgaste e más experiências.

Patrões, colegas, e mais chatices,

Um chefe irado – não os temas,

Pensa naqueles que nada fazem.

Se fores brioso e digno e um sentir irado

Teu corpo toca e sobe pela espinha acima.

Patrões, colegas, e mais chatices,

Chefes em fúria – sempre encontrarás

Se é no teu corpo que os levas

Ou a eles ceder  perante ti.

Deves orar por uma jornada longa,

Que sejam muitas as manhãs de inverno,

Quando, com que desprazer, com que esforço,

Entrares em escritórios iguais a tantos outros!

Em gabinetes claustrofóbicos evitarás deter-te

Requerendo audiências, pedidos e autorizações

Que nunca mais chegam ….

(e por aí fora…)










sábado, 18 de janeiro de 2025

Viagem à Grécia

 


Os sentimentos são manipulados. Sentados, assistimos à indução permanente das emoções.

O cinema é interessante por si só, não é necessário o ruído publicitário. Ir ao cinema, diz  Nicole Kidman, é magia, um mundo maravilhoso em que entramos. É verdade, às vezes. Depende do filme. Não precisamos, contudo, que nos digam isso. Nós sabemos, nós sentimos.

A coca-cola diz: “o mundo precisa do Pai Natal”, num filme alegre, de gente feliz que realiza desejos e encontros.

A Vodafone faz um flashback dos anos 80: duas mulheres beijam-se. Uma delas não assume o amor pela outra, por receio. Nos anos 2020, a mesma mulher, envelhecida 40 anos, recebe o sobrinho gay e o namorado na noite de Natal. Após  alguma hesitação, ela diz: “Estou muito orgulhosa de ti.” Depois disso, envia uma mensagem por telemóvel a Beatriz, a paixão  dos anos 80, desejando-lhe um Feliz Natal.

Por detrás do progressismo, da tolerância, do discurso dos direitos humanos, a lavagem comercial esconde o  desrespeito pelas condições  básicas de trabalho, o incumprimento de horários e salários decentes que permitam viver condignamente, de empresas que tão intensamente, e constantemente, apelam à emoção.

Até que ponto os sentimentos, a cultura, o consumo, se transformaram numa gigantesca manipulação e numa grande máquina de vender? É real  este choro?

Prefiro o cinema pelo cinema, sem pipocas e sem publicidade.  

Foi com estes pensamentos que Rafael decidiu  fazer o inter-rail, para estar consigo, ter maior consciência de si. Sem manipulações. Ver o mundo em estado puro, fazer o seu filme pessoal da realidade, sem interferências alheias. E na verdade, porém, porque não teve paciência de arranjar companhia, ou alguém conhecido  que fizesse questão de ir com ele.

Chegou à Grécia. Uma viagem de mais de 2000 km, à outra extremidade da Europa. Sentou-se numa esplanada, ao fim da tarde, vendo as miúdas aperaltadas entrando nos táxis da praça em frente. Iam para “A" noite, era sexta-feira. Observou com vontade de ir atrás, meter conversa, conhecer uma tipa. Mas estava sozinho.

Que faria um Português tímido e só  num sítio desconhecido, longe de casa?

Talvez não fosse boa ideia. Não conhecia  o país e  a cultura, embora lhe agradasse aquele ambiente descontraído e sedutor.  Naquele momento, teve maior consciência da solidão em que se encontrava. Os sentimentos não eram manipulados pela publicidade, eram reais e intensos.  Sentiu-se tremendamente sozinho.

Acreditou nos filmes, nas viagens que via na televisão, nos relatos de quem fez o inter-rail antes dele. Não valia a pena a solidão e o cansaço  só para dizer, quando chegasse a Portugal: “Estive na Grécia”, não disfarçando o orgulho.  

Era um mirone, olhando as mulheres. Sem ninguém com quem conversar. Apenas o menu como tema de conversa com o garçon. Palavras gregas traduzidas para inglês. Perguntava o que eram: a salada, a soda, o Ouzo. Vendo-as entrar nos táxis, partindo para  “A" noite.  Crescendo o sentimento de vazio dentro dele,   imaginando outros filmes com elas.

Não teve consciência do quão sozinho se sentiria. Pura ingenuidade.

Levava consigo a fotocópia de um poema – apenas um, numa folha no meio dos documentos -, Ithaka, de Kavafy, que um amigo lhe arranjara. Não queria ocupar espaço e peso  com livros na mochila.  Foi o mais leve possível. As memórias e os apontamentos de viagem, escreveria depois, quando chegasse.

Viu, de facto,  navios partirem para Íthaca, de mochila às costas, no porto de Patras.

Os dias, passava-os a caminhar acelerado, vendo monumentos, por longas avenidas, sem parar, fazendo praia.  O máximo possível para enganar a solidão. De noite, via televisão no quarto do hotel, numa língua estranha, olhava mapas e guias turísticos, planeava o dia seguinte, contava as horas.  Dormia em hotéis baratos, geralmente barulhentos, virados para as estradas, ao pé das estações. Os primeiros que encontrava. Tinha pouco dinheiro e não queria andar muito tempo de mochila às costas, dorido e suado, dos quilómetros passados dentro de carruagens,  em estações de comboio e portos impessoais.  

O ciclo voltava a repetir-se no dia seguinte. Uns encontros, umas conversas esporádicas, não mais do que isso. Enviou postais aos amigos e família, escrevendo basicamente a mesma mensagem em todos eles: a viagem à Grécia está a ser “Fantástica!!”