sábado, 29 de agosto de 2026

Praia da Torreira



Foi por acaso. Quis fugir dos sítios mais frequentados e levei Joanna a ver a ria. Passámos na praia da Torreira e enquanto caminhávamos pelo areal vimos os tratores e o aglomerado de pessoas na orla do mar. Adivinhei o que era:

-Vais conhecer uma atividade fora dos roteiros turísticos, pouco conhecida. Só existe nesta parte da nossa costa. Não aparece nos folhetos, é um Portugal mais autêntico - dizia eu a Joanna - mesmo os portugueses, a maior parte deles, desconhece o que vais ver - concluí, lembrando-me que poucos ouviram falar na arte da Xávega.

Ela ficou entusiasmada com a surpresa que eu lhe estava dar.
- Really?
Deparámo-nos com a atividade tradicional em plena laboração e eu teria a oportunidade de lhe mostrar algo de verdadeiramente genuíno.
O dia de sol estava magnífico. A bandeira vermelha nas praias vigiadas a Sul indicava mar perigoso, as ondas rebentavam com estrondo no areal.
Apesar disso os pescadores lançaram a rede ao mar.
Já só vimos a recolha do peixe. Dois tratores com roldanas, afastados um do outro cerca de duzentos metros, iam puxando a rede para o areal. Uma mulher conduzia um dos tratores, outra ia dobrando a corda nas amarras. Outros pescadores, com barrotes de madeira, impediam o emaranhamento da rede à medida que esta saía da água. Os dois tratores iam-se aproximando lentamente enquanto se iam retirando as cordas. Chegou um terceiro trator com grades de plástico empilhadas umas em cima das outras onde ia ser colocado o peixe.
Os pescadores assistiam esperançados à aproximação da rede. Havia-se formado um aglomerado de muitos banhistas curiosos que assistiam ao acontecimento.
Fui explicando à minha amiga:
- Este tipo de pesca pratica-se nesta zona da costa portuguesa há centenas de anos. - Apontei para o barco artesanal que repousava encostado na duna: - Vês aquele barco? Julgo que a forma da proa foi inspirada nos barcos fenícios que cabotavam a costa. Antigamente as redes eram arrastadas por parelhas de bois.
Joanna estava fascinada, não havia nada disto nos Estados Unidos, muito menos em Nova Iorque.
- Very beautiful.
Um homenzinho encardido, seguramente familiar, amigo e vizinho dos pescadores, destacou-se do grupo. Não executava nenhuma tarefa, andava por ali a fazer rir os outros e a mostrar um talento especial: equilibrar no nariz a beata apagada de um cigarro. Adivinhando que Joanna, pelo seu porte alto, cabelo loiro e olhos azuis, devia ser estrangeira, aproximou-se dela. Estalou os dedos para repararmos nele e colocou a beata no nariz, equilibrando-a como se fosse um malabarista num circo, fazendo o seu número para a minha amiga. No fim, recebeu um sorriso dela e ele retribuiu da mesma forma, orgulhoso de se ter exibido com sucesso àquela bonitona estrangeira.
Olhámos novamente para o mar. A rede começava a emergir e a formar a bolsa que iria engolfar os peixes. As bóias brancas que a sinalizavam foram retiradas da água. As gaivotas que até então se tinham mantido pousadas na areia voaram para o mar, gritaram e rasaram a água, tentaram capturar os peixes que se aproximaram da superfície.
Trazia pouco peixe. Havia mais pessoas na areia do que peixes na rede.
- Coitados dos pescadores! - disse Joanna condoída deles. Eu também senti um aperto: tanto trabalho, tanta paciência, tanta espera, e o resultado final foram uns míseros quilos. Alguns nem sequer se aproveitavam: as tintureiras bebés foram devolvidas ao mar, contorcendo-se nas mãos dos pescadores, tentando em vão respirar. Ficaram umas petingazitas, lulas, carapaus e peixes-agulha. Os pescadores estavam desapontados: a ver pelas inúmeras grades que vinham no trator que iam ficar vazias, eles esperavam uma pesca bem mais generosa.
Nestas ocasiões, aparece sempre gente que tenta recolher para os baldes de praia o peixinho fresco que salta da rede - e assim, já não vai à peixaria! - Não sei o que os pescadores pensam disso, não os vi queixarem-se e a impedir as pessoas de se aproximarem.
Ouvi dizer que de manhã também pescaram pouco. Se é frequente, não imagino como conseguem sobreviver. É uma atividade dura e mal paga, que exige a colaboração de muita gente. Eles podiam estar na praia a apanhar sol ou a passear como nós os dois, mas não. Estavam a trabalhar debaixo do sol quente, num sábado, a molhar as calças na água - não estavam de biquíni nem em calções de banho - enquanto no centro da Torreira havia música e festa.
Afastámo-nos. Joanna queria estender- se nas dunas.
- Mas como? - perguntei eu. - Não temos toalha, nem viemos preparados com roupa de banho.
- Então!? Qual é o problema? Fazemos nudismo.
Fiquei constrangido. Desta, eu não estava à espera. Está certo que ela vinha de Nova Iorque, habituada a atitudes mais liberais e a estar mais à vontade e descontraída com os outros, do que eu. Mas assim, de repente, sem termos falado nisso!? Eu nunca a tinha visto nua e por isso vieram-me à cabeça umas ideias confusas. Eramos só amigos e talvez fosse apenas a maneira de ser dela, sem segundas intenções. Mas eu fiquei baralhado, mais inseguro. Eu sabia que ela estava a gostar muito daquele dia e não quis desiludi-la nem refrear o seu entusiasmo.
- Ok - anuí timidamente.
Caminhámos para Norte, para onde as pessoas na praia começavam a rarear. Um longo areal estendia-se vazio à nossa frente. Subimos as dunas e procurámos um recanto escondido, onde pudéssemos ficar à vontade a usufruir do esplendor do sol nos nossos corpos. 









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