Os sentimentos são manipulados.
Sentados, assistimos à indução permanente das emoções.
O cinema é interessante por si só,
não é necessário o ruído publicitário. Ir ao cinema, diz Nicole Kidman é magia, um mundo
maravilhoso em que entramos. É verdade, às vezes. Depende do filme. Não
precisamos que nos digam. Nós sabemos, nós sentimos.
A coca-cola diz: “o mundo
precisa do Pai Natal”, num anúncio alegre, com gente feliz a realizar os seus desejos
e encontros.
Flashback dos
anos 80, pela Vodafone: duas mulheres beijam-se na boca, vivem um amor homossexual não assumido. O anúncio faz um loop para a atualidade: a mesma mulher recebe em casa, na noite de Natal, o sobrinho
gay e o namorado. Após
alguma hesitação, ela diz-lhe: “Estou muito orgulhosa de ti.” Depois, envia uma mensagem por telemóvel a Beatriz, a mulher por quem esteve apaixonada, e deseja-lhe um Feliz Natal.
Disfarçadas atrás do progressismo, da tolerância e dos discursos pelos direitos humanos, as campanhas publicitárias de grandes empresas - além do intuito puramente mercantil - escondem o desrespeito
por condições básicas de trabalho, o incumprimento de horários dignos e salários indecentes. Tudo isto, enquanto continuam a apelar à emoção.
Até que ponto os sentimentos, a
cultura e o consumo se transformaram numa gigantesca manipulação e em ferramentas perversas de marketing?
É real este choro?
Prefiro o cinema pelo cinema, sem
pipocas, sem publicidade.
Foi com estes pensamentos que Rafael
decidiu fazer sozinho o inter-rail, para estar
com ele mesmo e ganhar mais consciência de si próprio. Sem manipulações. Quis ver o mundo em estado
puro, fazer o seu filme pessoal da realidade, sem interferências alheias. E também porque não arranjou ninguém para ir com ele.
Chegou à Grécia. Partiu de barco do sul de Itália, viu costas recortadas ao nascer do sol, do convés onde dormia no saco cama. Maravilhou-se com os reflexos de sol que despontavam e refletiam os raios no azul espelhado do mar - o mediterrâneo que via pela primeira vez. Estava a entrar na terra dos deuses, de mitos e lendas. Por momentos, acreditou na sua viagem e que dela voltaria rico de experiências.
Uma viagem de
mais de 2000 km até à outra extremidade da Europa.
Sentou-se numa esplanada na cidade de Patras, ao
fim da tarde, a ver as miúdas aperaltadas a entrar nos táxis da praça em
frente. Iam para a noite, era sexta-feira. Ficou com vontade de ir atrás delas, meter conversa, conhecer uma tipa. Mas estava sozinho.
Que faria um Português solitário e tímido num sítio desconhecido, longe de casa?
Talvez não fosse boa ideia. Não
conhecia o país e a cultura, embora lhe agradasse aquele
ambiente descontraído e sedutor. Naquele
momento, a consciência da solidão em que se encontrava tornou-se mais apurada. Os sentimentos não
eram manipulados pela publicidade, eram reais e intensos. Sentia-se tremendamente sozinho.
Acreditou nos filmes, nas viagens
que via na televisão, nos relatos de quem fez o inter-rail antes dele. Não
valia a pena a solidão e o cansaço só
para dizer, quando chegasse a Portugal: “Estive na Grécia”, exagerando no orgulho.
Era um mirone. Olhava as mulheres, sem ninguém com quem conversar. Tinha apenas o menu como tema de conversa com o
garçom da esplanada, que lhe traduzia para inglês as palavras gregas da ementa: saladas com Feta, Ouzo, sodas. O sumo de Portukali: laranja. Via-as entrar nos táxis em direção à noite e crescia nele o sentimento de vazio, ao imaginar outros filmes com elas.
Antes de partir, não tinha consciência do quão sozinho
se sentiria durante a viagem. Pura ingenuidade!
Levava consigo a fotocópia de um
poema – apenas um! - dobrado na carteira, entre os documentos. Ithaka, de Kavafy,
que um amigo lhe ofereceu. Não queria ocupar espaço e peso com livros na mochila, nem com máquina fotográfica. Foi o mais leve possível. Escreveria as memórias e os
apontamentos da viagem depois do regresso a Portugal.
Ficou perto de Ithaca. Estava de mochila às costas, no porto de Patras, quando viu os navios partirem para a ilha.
Passava os dias a caminhar
apressado, a ver monumentos, atravessava longas avenidas sem parar. Apanhou o autocarro para o areal ali perto. Fez o máximo possível
para enganar a solidão. De noite, ficava no quarto do hotel a ver televisão, a ouvir uma língua
estranha. Consultava mapas e guias turísticos, planeava o dia seguinte e contava as
horas até adormecer. Dormia nos hotéis mais baratos que encontrava. Ficava nos quartos mais barulhentos, virados para estradas movimentadas, junto das estações de comboio.
Tinha pouco dinheiro e não queria andar muito tempo
de mochila às costas. Andava dorido e suado dos quilómetros passados dentro de
carruagens, a caminhar em estradas, em estações de comboio e portos impessoais. O ciclo voltava a repetir-se no dia seguinte.
Tinha encontros e conversas esporádicas, não mais do que isso.
Enviou postais
aos amigos e família, escreveu a mesma mensagem em todos eles: a
viagem à Grécia está a ser “Fantástica!!”