O filme "Zona de
Interesse", de Jonathan Glazer, retrata a vida doméstica de Rudolf Höss,
enquanto comandante do campo de concentração de Auschwitz. Vive com a esposa e
os cinco filhos numa bela vivenda com piscina, ao lado do campo. É um homem de
família extremoso, demonstra frequentes gestos
de afeto com a mulher e as crianças. Convida
para as festas de aniversário outras crianças, amigos dos filhos, e famílias de
oficiais nazis. Os homens falam de política, dizem piadas e outras
trivialidades; as mulheres trocam
receitas de cozinha, elogiam as roupas umas das outras. Famílias normais que convivem, trabalham e têm os seus momentos
de lazer.
Vemos Rudolf Höss concentrado
no trabalho, a fazer planos, a mostrar o projeto de ampliação do campo aos
oficiais, preocupado com as notícias que chegam de Berlim, de que provavelmente
será transferido para um campo mais afastado. Mostra o seu desagrado à esposa,
ele que sempre foi um oficial exemplar e executou todas as ordens do Führer não
merecia sair dali. Trabalhou muito para ganhar o cargo e viver naquela casa
espaçosa e luminosa, onde os filhos correm e brincam felizes. A mulher também
não encara com bons olhos a possível transferência do marido, preocupa-a a
possibilidade da família ficar separada e do marido passar a ver os filhos só
aos fins de semana.
O filme mostra a vida de
Rudolf Höss até aqui.
No período em que dirigiu o
campo de Auschwitz a utilização do Zyklon B, pesticida fabricado pela empresa
alemã IG Farben, testado inicialmente com prisioneiros de guerra soviéticos e
polacos, passou a ser utilizado nas câmaras de gás.
Quando a Alemanha foi
derrotada, Rudolf Höss andou escondido alguns meses, disfarçado de jardineiro.
Foi capturado pelos Ingleses, julgado na Polónia e condenado à morte por enforcamento, em
Auschwitz, com um pormenor importante: virado para as barracas onde manteve milhares
de judeus em condições sub-humanas.
Rudolf Höss era um homem de
família que num momento histórico específico teve responsabilidades diretas na
morte de milhares de pessoas. Alguma vez sentiu remorsos ou era um racista e
burocrata inveterado? No julgamento em tribunal reconheceu, pelo menos, a
magnitude dos crimes em que esteve envolvido.
Primo Levi, sobrevivente de
Auschwitz, questiona permanentemente o motivo de homens "normais",
que sabiam o que estava a acontecer, continuarem a cumprir ordens que
implicavam o extermínio de um povo. Ele corresponde-se com um químico alemão,
responsável pelo laboratório de Auschwitz. O alemão pede-lhe desculpas,
compreende a sua revolta, mas responde que naquela época toda a sociedade alemã
estava implicada, retratando o regime nazi como um sistema totalitário que controlava todos os aspetos da vida individual,
do qual não se conseguia escapar. É
neste tom que muitos ex- oficiais e civis, que viveram sob o nazismo, justificam
a sua inação contra os crimes nazis e o seu colaboracionismo: “cumpriam
ordens”.
Ao ouvir a guia que acompanhou
o meu grupo relembrei vários episódios de "Se isto é um Homem": A
orquestra de músicos profissionais, composta também por prisioneiros judeus, acompanhava, com marchas, a saída dos outros prisioneiros
para os campos de trabalho e o seu regresso; o rigor dos alemães nas contagens diárias dos indivíduos, impondo a
proibição de se identificarem pelo nome
próprio, somente pelo número tatuado no braço. Episódios de humilhação permanente
e de desumanização.
Está tudo documentado.
Auschwitz foi um campo de
concentração, de trabalho forçado e de extermínio, no qual o capitalismo, aliado ao racismo e
supremacismo mais primários, reduziu seres humanos a escravos, tratados como bestas, para aumentar a produtividade da indústria
alemã no esforço de guerra. Os trabalhadores só eram mantidos vivos enquanto
eram úteis.
Os inaptos para o trabalho:
crianças, idosos, mulheres grávidas, doentes, eram enviados diretamente do
comboio para as câmaras de gás. Seguiam as ordens de outros prisioneiros judeus, selecionados pelos nazis que, sob a sua
supervisão, ordenavam que se despissem, dizendo-lhes que iam tomar duche; as mães e os filhos iam juntos para não criar pânico. Caminhavam ordeiramente
para a morte. Os jovens e adultos
saudáveis, algumas mulheres incluídas, eram poupados para trabalhar nos campos
e fábricas das redondezas: as IG Farben, Krupp, Siemens.
Estes tiveram uma morte lenta,
por exaustão - trabalhavam 11 horas, sete dias por semana; por
fome - ingeriam em média 1200 calorias por dia, quando um adulto saudável
necessita de 2500; e por torturas
físicas e psicológicas.
Arbeit Macht Frei, O Trabalho
Liberta, a inscrição no pórtico da entrada no campo era de uma ironia e
malvadez tremenda: quem passava debaixo dele trabalharia até morrer.
Estima-se que do milhão e
trezentas mil pessoas deportadas para Auschwitz morreram um milhão e cem mil,
judeus na sua esmagadora maioria.
O campo foi destinado, primeiro, a prisioneiros soviéticos e polacos e, mais tarde, quando os alemães adotaram a
"solução final", ao extermínio da comunidade judaica.
Outras minorias foram enviadas para Auschwitz: prisioneiros políticos, homossexuais,
ciganos, criminosos vulgares, deficientes.
Porquê construir um campo de
concentração neste local? Porque tinha bons acessos ferroviários e estava no
centro da Europa, podendo receber mais facilmente os judeus de muitos
países.
Os crematórios de Auschwitz
revelaram-se insuficientes para incinerar milhares de corpos, muitos passaram a
ser queimados ao ar livre. Os nazis resolveram construir quatro novos
crematórios na localidade de Birkenau, a três quilómetros de distância. A
aldeia polaca que existia no local foi arrasada, os seus habitantes presos ou deslocados. O
campo foi construído num tempo recorde por prisioneiros de Auschwitz.
Birkenau tornou-se num campo
de extermínio programado, as chaminés lançavam fumo continuamente.
A guia, Magdalena, disse que, todos os anos, nas cerimónias de celebração da libertação do campo pelo exército vermelho,
em 27 de janeiro de 1945, participam
sobreviventes do Holocausto: no ano passado participaram 55; este ano, já só foram 27. Há cada vez menos
testemunhas vivas, vai-se perdendo a memória da sua experiência. Ficam
disponíveis apenas os livros e as pinturas dos que conseguiram registar o horror de Auschwitz.
Vi algumas pessoas a chorar. Não chorei, ouvi silenciosamente, tirei fotografias onde era permitido.








































