Amanhece. As gaivotas gritam por
cima de nós, enquanto aguardamos sentados no porto de pesca de Muxia o
autocarro de regresso a Santiago.
Foram pouco mais de vinte e
quatro horas, fisicamente muito intensas.
Partimos do Porto no autocarro da
Flixbus às 2:45 da madrugada do dia anterior, em direção a Santiago e logo de
seguida apanhamos o bus para Finisterra.
Às nove da manhã estávamos
preparados para iniciar a longa caminhada. Visitámos o farol de Finisterra, o
sítio que os antigos consideravam ser o fim da terra, a finis
terrae. Lugar com aura mística, por ser o último local de visita de
quem peregrinava até Santiago e por estar alcandorado num promontório rochoso,
no cimo de falésias, de frente para o mar imprevisível e revolto, a que deram o
nome de Costa De La Muerte.
Fizemos cinco quilómetros entre o
farol e o centro da cidade, e pela carretera nacional, até
encontrarmos o marco de cimento com a vieira de Santiago indicando
Muxia.
Era uma da tarde. Chegámos sete
horas depois, cumprindo aproximadamente vinte e oito quilómetros de distância.
Percorremos estradas de mato,
caminhos rurais e alcatroados, maioritariamente afastados do mar. Passámos em
locais isolados, vimos pequenas aldeias com meia dúzia de casas fechadas,
andámos centenas de metros sem ver pessoas e carros. Fomos precavidos com água,
sandes e frutos secos, antecipando que seria difícil encontrar abastecimento.
Estávamos cansados, as pernas a
ficar doridas, a sapatilha a apertar um dedo que me começava a inchar, pelo que
soube bem a paragem em Lires, a meio do caminho, para beber duas cañas bem
fresquinhas.
Caminhámos mais duas horas até
encontrarmos uma praia, de aspeto paradisíaco, à entrada de Muxia. Passámos um
casal de peregrinos que parecia estar numa sessão de terapia: a jovem mulher
levava atrás da mochila uma pequena cartolina com o nome "Paulo
Coelho"; o homem dava-lhe as mãos, olhava e falava insistentemente com
ela. A referência a Paulo Coelho não me impressionou, pelo contrário.
Pensei: leram O Alquimista e agora andam armados em peregrinos, à
procura de espiritualidade. Não repararam em nós, de tão absorvidos
que estavam. Habitualmente, quando nos cruzávamos com outros peregrinos,
cumprimentávamo-nos com "Hola".
Não considero que nós dois
fôssemos peregrinos: apesar de eu levar a vieira de peregrino de Santiago,
visível na mochila, e de termos ambos uma velha credencial, com os carimbos de
outros caminhos, fizemos só uma etapa, não dormimos em mais de um
albergue. Passamos de raspão em Santiago, sem entrar na catedral, e não fomos à
missa.
Procurámos albergue para
pernoitar, os primeiros estavam lotados. No dia seguinte, iria começar a Feira
Medieval e havia muita procura. Se não encontrássemos dormida, pediríamos para
nos deixarem tomar duche e passaríamos o resto da noite a fazer horas até ao
primeiro autocarro da manhã para regressar a Santiago.
Conseguimos dois lugares, por um
triz, no albergue @Muxia. O balcão da receção fica num salão, entre a banca de
lavar louça, os eletrodomésticos da cozinha e a sala de refeições. Quarenta
lugares em camaratas mistas.
O hospedeiro guiou-nos até aos
dois beliches onde dormiríamos na parte de cima - os colchões de baixo já
estavam ocupados com os sacos cama e objetos de dois peregrinos. Mostrou-nos os
cacifos, colocamos as mochilas e os documentos; e um armário no corredor, mais
afastado da camarata, em que era obrigatório deixar as sapatilhas para não
levar o cheiro do chulé.
Tomámos duche. Fomos ver o pôr do
sol ao Santuário da Virgem da Barca: as cores negras das rochas e do santuário
erigido sobre elas, o céu violeta, a costa recortada e montanhosa que se
estendia do outro lado da baía, as pessoas que observavam os últimos raios a
desaparecer no horizonte, sentadas nas lajes junto ao mar, faziam do lugar um
sítio encantado. Senti-me levitar.
Fomos tratar de assuntos mais
mundanos: jantar.
Estávamos cheios de fome, a
última refeição a sério tinha sido em Portugal, nesse dia só tínhamos petiscado
sandes, fruta, frutos secos e bocadillos em Finisterra.
Regalámo-nos com entradas de zamburinhas e pimentos Padron, bem regadas com
sidras e cañas. Comemos salmão grelhado e esparguete de legumes.
Limpámos os pratos.
Regressamos tarde ao albergue. Entrámos na camarata em bicos de pés, para não
perturbar o sono dos peregrinos que já ressonavam. Nos colchões de baixo,
dormiam duas mulheres.
Temos de ser práticos nos
albergues: o espaço é exíguo, não devemos fazer ruídos quando procuramos os
objetos pessoais na mochila - não há espaço nem luz para isso. Eu uso pequenos
estojos: um com a toilette; outro com equipamento eletrónico. A roupa vai
em bolsas separadas. Pego diretamente no que preciso, mesmo às escuras.
Subi com cuidado, arranjei-me em silêncio o melhor que pude. Corri a cortina e
tentei dormir. Poucas horas depois, acordei com o bip do relógio a dar as 6 da
manhã. O colchão debaixo do meu já estava vazio, no beliche ao lado a mulher
continuava a dormir.
Mais tarde, iríamos fazer os seguintes comentários:
- Dormimos com duas mulheres debaixo de nós.
-Eu tive mais sorte do que tu: a minha esteve mais tempo debaixo de mim.
No regresso a Santiago, vimos peregrinos que se cumprimentavam no início de
mais uma etapa: "Buen camino". Outros, nunca mais se voltariam
a encontrar, foram-se despedir à paragem do autocarro com abraços apertados e
algumas lágrimas. Alguns regressavam juntos. Pessoal de todas as idades,
equipados a rigor: mochila, bastões, gola, roupa desportiva. Americanos,
europeus, asiáticos, latino-americanos, falando entre si maioritariamente em
espanhol e inglês. Os caminhos tornaram-se numa romagem de culto, havendo
encontros e experiências marcantes para muitos peregrinos. Lembrei-me da série
de TV espanhola, de três episódios, “El Camino”, realizada com o intuito
claro de os promover. Jovens de diferentes países conhecem-se no caminho - cada
um deles com um motivo pessoal e traumático para o fazer, desvendado em
sucessivos flashbacks ao longo dos episódios- aprofundam relações entre eles,
enamoram-se e no fim até chega a haver um casamento.
Sentou-se atrás de nós o jovem casal, fã do Paulo Coelho - não sei se já eram
namorados ou se travaram namoro no caminho. Não se calaram um minuto, a terapia
continuou até Santiago com sotaque espanhol da América latina. Ele falava-lhe
dos traumas de infância, da falta de comunicação com os pais, da universidade,
das dúvidas que tinha, etc. Ela dava-lhe conselhos e apoio psicológico,
motivava-o e escutava-o pacientemente. Iriam casar e ser felizes para o resto
da vida?




















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