Estava sentado na plataforma da estação de Grzegórzeck. Chegou
uma senhora alta e morena, com um casal que deviam ser seus filhos. Parecia
desorientada. Pediu uma informação a uma mulher com quem se cruzou, a resposta
não a convenceu porque veio ter comigo logo a seguir.
- Desculpe, sabe qual é a linha do comboio para Wieliczka, e a que horas é?
- O comboio é às 10:10 nesta linha.
- Onde posso comprar bilhete? É confuso, não encontro a bilheteira.
- Não há bilheteira, você compra o bilhete na máquina, dentro do comboio, ou ao
cobrador. Não se preocupe, eu também vou para Wieliczka pela primeira vez.
Siga-me.
- Está bem, faço como você diz - e depois, disse a sorrir, a meter-se comigo -
se eu me perder e não chegar a Wieliczka a culpa é sua.
Apesar de estar num país estrangeiro e de só conhecer Pawel, a cara da mulher
não me era estranha. Era bizarro. Estava convencido de que a conhecia de algum
lado.
O comboio chegou à hora prevista e tudo funcionou como expliquei. Ela sentou-se
com os filhos nos bancos atrás de mim. Falavam italiano. Subitamente lembrei-me
de onde a conhecia: se não era ela, era muito parecida - Francesca Albanese,
relatora da ONU para a Palestina. Também me parecia a voz dela.
Aproveitei o aperto das dezenas de pessoas que saíram do comboio, vinte minutos
depois, na estação de Wieliczka Rynek - Kopalnia em direção às minas de sal
para, disfarçado entre delas, observar Francesca com mais atenção, confirmar as
minhas expetativas e conversar com ela: Chegamos a Wieliczka. Não me enganei.
Você não tem de me culpar de nada.
Vi-a a subir a rua em direção às bilheteiras. Eu fiquei para trás, tinha Pawel
à minha espera, que me cumprimentou efusivamente quando me encontrou. Nesse
momento, perdi-a de vista. Resumi ao meu anfitrião a breve conversa na estação
de Grzegórzeck, respondeu assim:
- Deve ter vindo a Cracóvia pedir o apoio da comunidade judaica para condenar o
primeiro-ministro de Israel no TPI.
Ao longo da nossa tarde, Pawel iria revelar um sentido de humor negro e sarcasmo político que me deixaram dúvidas sobre o que realmente pensava, entendi rapidamente que não lhe devia dar muito crédito, ele parecia ser uma pessoa a quem nós em Portugal chamámos "um gozão".
Perguntou como correu a viagem. Elogiei os comboios polacos, o conforto e a
frequência de ligações entre as localidades. Ao longo da tarde, serie ele a elogiar frequentemente o seu próprio país. Nestes casos, eu sabia que ele falava a sério, revelava um orgulho exagerado.
Chegámos às bilheteiras da mina. Centenas de pessoas distribuíam-se em filas com bandeiras que indicavam o idioma da visita guiada. Alinhámo-nos na fila com a bandeira do Reino Unido.
Pawel, apesar de Polaco, nunca tinha visitado a mina.
- Acho que a mina é uma armadilha turística, vês a quantidade de gente? É tudo
para fazer dinheiro. É a mão invisível do capitalismo a atuar. Estes sítios de turismo massificado destroem a essência dos lugares.
Fomos num grupo de 30 pessoas. Vimos galerias com esculturas de sal; câmaras
com cúpulas do tamanho de catedrais, escavadas pelos mineiros ao longo de
centenas de anos; candelabros de sal pendurados das abóbadas, jogos de luzes e
cenografias musicadas com bonecos articulados, criando efeitos mágicos e
misteriosos no interior da terra.
A guia era uma senhora baixinha, loira, perto da idade da reforma, com piada.
- Veem estes dois bonecos. Sabem quem são?
- Mineiros?
- Não.
- Vigilantes da mina?
- Não.
- Geólogos?
- Não.
Como ninguém acertava, ela deu a resposta: - São dois turistas que se perderam
há muitos anos na mina. Por isso, andem sempre juntos atrás de mim.
Nas suas descrições, tendia a baixar a voz e a falar com reverência quando se
referia aos mineiros:
- Pessoas extraordinárias e corajosas, artesãos magníficos. Foram eles que
esculpiram todas estas obras. Eram incríveis as coisas que faziam.
A visita guiada durou hora e meia, nas últimas galerias havia restaurante,
elevador panorâmico e gift shop, onde os
turistas podiam deambular por sua conta.
- Despeço-me de vocês aqui. No entanto, só podem sair na companhia de outro
guia. Desloquem-se para este local - mostrou um mapa da mina - e aguardem que
ele vos leve ao elevador.
Seguimos por um longo túnel durante alguns minutos, involuntariamente começámos
a caminhar rápido, quase a correr. Dezenas de pessoas apertadas em direção ao
elevador, passando em diferentes portões, que a nova guia - com um fato preto
a lembrar os maquinistas dos comboios antigos - abria e fechava. Contava, muito
compenetrada, o número de pessoas que passavam diante dela, mandava esperar as
restantes quando o número era excedido. Separou, numa dessas ocasiões, uma
família.
- Deixe-me passar, estou com a minha mulher e os meus filhos - disse o turista que ficou para
trás.
- Não se preocupe, já vai ter com eles.
Pawel disse-me muito sério: - Estamos a ser levados para
as câmaras de gás.
Subimos no elevador como sardinhas enlatadas. Respirei de alívio quando
vi a porta a abrir e a luz natural a inundar a sala de chegada.
Ao contrário do prognosticado por Pawel, a tourist trap, as minas merecem claramente uma visita, independentemente de serem muito turísticas e de estarem repletas de visitantes; pela sua originalidade, grandiosidade, riqueza histórica e cultural e surpreendentes jogos de luzes.
Aconselhou-me visitar o Czartoryski Muzeum, para ele o melhor museu de Cracóvia e da Polónia, fora dos locais e circuitos massificados, "uma pérola que a mão invisível do capitalismo não tomou de assalto", por um preço acessível, com objetos e obras de arte magníficas.
- Amanhã vou a Auschwitz - disse eu.
- Podes visitar o museu esta tarde, se chegares cedo a Cracóvia. E amanhã vai
estar muito calor para visitares Auschwitz.
- Ouvi dizer que encurtam as visitas quando está muito calor.
- Sabes porquê? Porque senão fica um forno - Pawel começou a rir sozinho,
interrompendo a cidra que estava a beber para não se engasgar com o riso. Fiquei a olhar para ele, intrigado
com a sua reação.
Passeámos no jardim João Paulo II. Vimos uma estátua que o representa de corpo
inteiro, vestido de papa. Do outro lado do passeio, uma exposição de
cartazes com fotografias desde que foi arcebispo de Cracóvia até às suas
últimas aparições, sentado de cabeça caída numa cadeira de rodas. Aguardamos o fim da missa para entrar na igreja. Um quadro a óleo com a figura de João Paulo II estava num dos pilares
da nave e, num dos altares, uma estatueta. Tenho visto referências
abundantes a João Paulo II nos espaços públicos e igrejas da região.
- Sabes o que aconteceu na Polónia quando foi eleito papa em 1978? O regime
comunista não queria que as pessoas fossem à rua recebê-lo. Temos um
ditado que diz: quanto mais apertam um Polaco mais ele cresce. Foi o que
aconteceu: nesse dia o regime suspendeu os transportes públicos para o centro
de Cracóvia; insinuou que seria perigoso sair à rua, que haveria tentativas
de desestabilização vindas do ocidente. Sabes quantas pessoas foram receber o
papa? Dois milhões.
Regressei a Cracóvia no mais belo transporte de todos, o comboio. Respirei
fundo, descansei. As alusões e piadas de Pawel a Auschwitz agastaram-me. Achei
a sua militância política e o conhecimento de cinema e correntes artísticas
polacas, de que me falou bastante, uma fanfarronice exibicionista. A conversa
fortuita com a mulher que parecia Francesca Albanese foi curiosa, mas talvez
não fosse ela.
Apesar de tudo, segui a sua recomendação e ainda bem que o fiz, o museu Czartoryski é uma pequena joia no centro de Cracóvia. Possui pinturas de várias épocas e países, objetos arqueológicos do antigo Egito e Roma; achados em bronze e ferro do neolítico. Um pequeno reportório da história da arte humana.






























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