Isabela, Isa, é guia de Free Walking
Tours em Cracóvia há mais de dez anos. Apareceu com a sombrinha amarela que identifica a
empresa, confirmou o meu nome na lista, aguardou a chegada de mais alguns
inscritos. Às 10:30, em ponto, iniciou a visita.
Começou por dizer que, como
Polaca, gosta de se lembrar que o seu país foi o mais tolerante do mundo
com a comunidade judaica, durante 400 anos, até meados do século XVIII:
"Por este motivo, viviam
no país três milhões e meio de judeus antes da segunda guerra mundial. Só
um outro país europeu tinha mais judeus do que a Polónia: a Rússia. Havia uma
razão para isso: o reino unido da Polónia e da Lituânia era um território
vasto, onde habitavam cristãos ortodoxos, católicos, muçulmanos e judeus.
Tinha de haver obrigatoriamente tolerância entre as diferentes religiões. Com o
fim da união das duas coroas, os judeus ficaram dispersos pelos
países que depois vieram a fazer parte da Rússia e da futura União Soviética.
O bairro de Kazimierz foi fundado pelo rei
Casimiro, milhares de judeus Ashkenazis foram viver nele, fugidos dos
países onde eram perseguidos. Ocupava a área entre esta rua, a Szeroka, e
a Estery. Aqui foram construídas cinco sinagogas. Esta, onde nos encontramos, é
a mais velha de todas, por isso chama-se Sinagoga Velha".
Ouvíamos Isabela encostados ao
muro da sinagoga. Uma excursão de estudantes israelitas tinha acabado de sair
da praceta; na praça, em frente, estavam estacionados carros de
polícia. Famílias de judeus ortodoxos entravam e saiam das duas sinagogas na
rua Szeroka.
"Se querem conhecer a
história da cidade devem fazer o tour da cidade velha, mas se querem
saber mais sobre a segunda guerra mundial e histórias menos faladas
da perseguição aos judeus, é este o tour que têm de fazer.”
Isa falava da história
judaica de Cracóvia com sensibilidade e paixão, parava nos locais
mais emblemáticos do percurso. Notava-se que nutria
predileção especial pelo tema, apresentava factos menos conhecidos, confrontava
os clichês de Hollywood, do filme
"A Lista de Schindler", sobre o gueto de Cracóvia, com a realidade.
"Nunca houve uma lista de
Schindler, houve sim uma série de pessoas judias que se livraram dos campos de
concentração; muitas delas graças ao apoio do farmacêutico Polaco,
Tadeusz Pankiewicz. Se quiserem saber mais sobre a história do Gueto devem ler
o seu livro autobiográfico, está traduzido em algumas línguas: "A Minha
Vida no Gueto."
Schindler era um nazi como os
outros, beneficiou de mão de obra gratuita na sua fábrica; por outro lado,
empregou centenas de judeus, evitando a
ida deles para os campos de concentração."
Passamos em locais onde foram
rodadas cenas do filme.
"O filme tornou o bairro
mais famoso. Até aos anos 90 foi um local perigoso e marginal, aqui viviam as piores pessoas da cidade. O
regime comunista enviava para cá criminosos cadastrados, alcoólicos, pessoas
com problemas psiquiátricos. Ninguém queria visitar o bairro. Hoje é um sítio
charmoso, cheio de turistas, procurado para viver e para onde regressaram
muitos judeus.”
Falou do rabino Rehmu, devido
à sua grande sabedoria tornou-se rabino aos 21 anos. A sinagoga onde
trabalhou toda a vida ficou com o seu nome.
"Os nazis destruíram o cemitério,
transformaram-no num aterro do lixo, mas pouparam a sua sepultura, talvez por
serem supersticiosos acreditaram que podiam ser castigados se destruíssem
o jazigo de um rabino tão influente".
Um dos visitantes
perguntou: Se a Polónia foi um país tão tolerante com os judeus, por que
motivo houve tantas perseguições?
"A situação dos judeus
piorou muito quando o rei Segismundo III mudou a capital de Cracóvia para
Varsóvia. Houve uma resposta política à reforma protestante, a Polónia
radicalizou o Catolicismo. Aumentaram as perseguições e a intolerância com os
não católicos".
Isa fazia pausas enquanto nos
deslocávamos pela cidade. Perguntou-me, quando atravessávamos a ponte pedonal
sobre o Vístula, onde eu vivia em Portugal.
- Porto.
- Estive lá numa época
terrível da minha vida, andei pela América Latina e Índia. Quando cheguei ao
Porto estava tudo parado, havia greves e manifestações por todo o lado. Fui
assaltada.
- Quando foi isso?
- Creio que em 2012.
- Foram os anos da troika.
Portugal estava muito endividado: o governo, para receber empréstimos do FMI,
teve de cortar nas despesas públicas. Muitas empresas fecharam, os salários
baixaram.
- A situação melhorou em
Portugal, depois disso?
Hesitei na resposta que devia
dar, não quis parecer sombrio e pessimista. Achei melhor não dar azo a outras questões,
até porque Isa tinha de continuar o tour.
-Sim, melhorou.
Depois dessa breve conversa,
ela voltou a assumir a sua função de guia. Sentamo-nos todos nos degraus
exteriores de uma igreja no bairro de Podgorski.
"Os Alemães gostavam muito de Cracóvia
por isso não a destruíram. Kazimierz é próximo do centro, afastaram os judeus
para esta margem do rio e construíram o gueto para os relocar. Chegaram a viver aqui sessenta mil judeus, duas pessoas por metro quadrado, uma densidade
populacional só por si suficiente para criar más condições de vida:
as pessoas mal cabiam dentro dele".
A visita guiada estava a
chegar ao fim, dirigimo-nos para o último ponto do percurso: a Praça dos Heróis do
Gueto.
"Nesta praça eram
reunidas as malas e deportados os judeus. Não iam para Auschwitz por ser demasiado perto da cidade, o risco de
descobrirem o que estava a acontecer era elevado. Eram transferidos para
um campo mais afastado, em Belzec.
O nazismo não surgiu do nada, as perseguições aos judeus tiveram a cumplicidade da maioria dos
Polacos. Como Polaca, custa-me dizer isto, mas é a verdade.
Dos judeus que viviam na
Polónia estima-se que só sobreviveram dez por cento. Quando regressaram às suas
casas, continuaram a ser perseguidos. Houve um massacre em Agosto de 1945, a
Alemanha já estava derrotada. Os Polacos lançaram o boato de que uma criança
tinha sido raptada pelos judeus, continuando
a inventar o mesmo tipo de justificações para os perseguir. Foram sempre os bodes expiatórios de tudo: dos
problemas económicos, da fome, da peste, dos crimes. Durante o regime comunista,
houve manifestações e protestos estudantis; o governo lançou a culpa da agitação nas universidades e nas ruas
a estudantes judeus, retirou-lhes a nacionalidade e o passaporte. A população
judaica ficou reduzida a poucas centenas de pessoas. Depois da guerra continuaram
a não encontrar condições para viver
na Polónia e a solução que tiveram foi
abandonar o país.”
Os Free Walking Tours
não têm preço estipulado, recomenda-se pagar uma gratificação ao guia no fim do passeio.
Ofereci alguns zlotys que tinha na carteira. Fui pouco generoso,
Isa desvendou mais histórias do que as
que abordei aqui. As que melhor ficaram registadas na minha memória.
Segui depois o meu caminho
pela cidade, regressei no elétrico à outra margem do rio, onde tinha
começado o passeio de duas horas e
meia. Parei numa pequena praça com esplanada, sentei-me a relaxar e a beber uma
cidra polaca. Nesta cidade desconhecida, de perto de um milhão de pessoas, deu-se a
coincidência de encontrar o casal americano que andava na visita com a filha estudante.
Percebo inglês suficientemente bem para entender o que diziam entre si e,
sem querer ser bisbilhoteiro, fiquei um
pouco perplexo com o que ouvi.
A filha dizia ao pai:
- Estás gordo.
- Não estou nada.
- Estás, estás. Se não te
cuidas ficas com a barriga inchada.
O pai mandou vir uma cerveja.
- Vês pai, já não consegues
estar sem beber cerveja! Estás a transformar- te num alcoólico.
- Não estou nada, bebo cerveja
porque está muito calor. Sabe bem.
A mãe corroborava as palavras
da filha, repetindo as suas admoestações.
- Pai, quero visitar a
sinagoga Rehmu.
- Não sei se quero.
- Porquê?
- Porque, para entrar,
tenho de comprar um kippah para a cabeça. Não me apetece gastar dinheiro
a comprar uma peça que só vou usar uma vez.
- Pode não ser preciso.
- Acho que vai ser, vi Kippahs
à venda na entrada da sinagoga, a 50 zlotys.
- Pai, isso não quer dizer
nada. Quando visitei uma sinagoga os meus amigos receberam um kippah
descartável sem pagar nada e no fim deitaram-no fora.
- Achas que os judeus iam
perder uma oportunidade de fazer dinheiro?
- Pai, és tão preconceituoso.
- Eu sei.
- Pai, não tens piada nenhuma.
- Está calada. Só tens de me
obedecer, quem manda sou eu. Não abuses da minha paciência.
Saí incomodado da esplanada
com as respostas do brutamontes do pai a ecoarem-me nos ouvidos. Não sei
se a filha o convenceu a entrar na sinagoga, foi revoltante
ouvir aqueles disparates depois de um passeio com histórias pungentes de perseguições e
intolerância religiosa. Há imbecis que nunca aprendem.











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