quinta-feira, 30 de julho de 2026

Castelo de Wawel

 


Ao subir a escadaria para o segundo piso, a  vigilante, ao ver-me entrar,  levantou-se imediatamente da cadeira. Veio ter comigo, perguntou:

- O seu crachá? - apontou para o peito, desenhou um pequeno retângulo com os dedos, como se eu não tivesse entendido a palavra badge, crachá.

- Não tenho  crachá - respondi com naturalidade, encolhendo os ombros. Reparei que naquela sala todos os visitantes usavam crachá.

A vigilante apontou para o crachá de uma turista que passava por nós para se certificar de que eu a estava a entender.

Voltei a dizer que não o tinha.

- Mostre-me o bilhete, por favor.

Mostrei o bilhete. A senhora, muito admirada,  descobriu que eu estava ali sem ter cometido nenhuma infração. Pouco convencida, perguntou:

- Por onde entrou?

Apeteceu-me responder  que entrei pela chaminé, mas fui educado e disse a verdade:

- Entrei pela letra H.

- Devia ter entrado pela letra G. Não faz mal, continue a sua visita - voltou à sua cadeira baixando os braços em aquiescência.

Continuei a ver  quadros com as efígies de reis polacos,  cenas bíblicas e  tapeçarias gigantescas que ilustram  batalhas importantes da história da Polónia.

Nas outras salas, a  imensa história do palácio era contada através das relíquias arqueológicas e de múltiplos objetos distribuídos por vários espaços. Passei numa capela privativa encontrada nas escavações do castelo, com a ogiva gótica incrustada nos alicerces, onde os monarcas rezavam: a religião era a base de toda a política e vida social, a palavra em que todos acreditavam piamente. No meio de tanta turistada,  aquela sala vazia, outrora um espaço recatado de oração, teve algum impacto em mim.

Os audioguias foram redundantes, por vezes os cabos emaranhavam-se nos meus óculos e atrapalhavam a visita; além do mais, as salas e as peças expostas tinham  informação escrita junto delas.

Ao fim de quatro horas de visita, exausto de tanta informação, na penúltima sala,  a L, recusei o aparelho de áudio: foi a única em que fez falta. Passei trinta minutos nas catacumbas a  ouvir a história de um dragão,  em polaco. Não percebi patavina! Pela entoação da voz, da música e dos efeitos especiais das luzes nas caves escuras, devia ser muito emocionante.

O importante são os detalhes e arranjar tempo para os observar  é fundamental. Abstrair-me do ruído da multidão e da profusão de informação; conseguir, nem que seja por um momento breve, que algo surpreenda e  não passe indiferente. Talvez o momento na velha capela tenha sido isso.

A partir de certa altura, limitei-me a procurar ângulos e imagens fora de comum, mais fáceis de encontrar em sítios assim, e a visita passou a ser mais entusiasmante.

Saí por uma das portas da muralha depois de ter atravessado grutas escondidas debaixo do castelo, que criam ambientes propícios ao surgimento de lendas e de histórias encantadas. Fui ter à margem do rio Vístula onde centenas de pessoas gozavam o dia de calor intenso e se abrigavam do sol escaldante nas sombras das árvores e das muralhas. Um grupo de idosos vestidos com trajes tradicionais e instrumentos de música popular, aproximou-se de mim:

- Italiano?

- Não, Português.

- O italiano e o português são parecidos - disse um deles.

- Mais ou menos - respondi.

Falaram comigo misturando italiano com outras palavras que deviam ser espanhol. Disseram Cristiano Ronaldo e Fernão de Magalhães. Eu sorri.

Abriram o estojo do violoncelo na relva do jardim, com muitas notas de zloty.  Começaram a cantar e a tocar músicas populares para os transeuntes. Estive alguns minutos a ouvi-los, houve um momento em que fiquei preocupado: pensei que me iam convidar a cantar com eles. Deixei uma nota de 10 Zloty. Acenei Adeus e segui caminho contornando a cidade velha, pelos passeios frondosos e ajardinados do Planty, até à praça do mercado.
















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