Ao subir a escadaria para o
segundo piso, a vigilante, ao ver-me entrar, levantou-se
imediatamente da cadeira. Veio ter comigo, perguntou:
- O seu crachá? - apontou para
o peito, desenhou um pequeno retângulo com os dedos, como se eu não tivesse
entendido a palavra badge, crachá.
- Não tenho crachá -
respondi com naturalidade, encolhendo os ombros. Reparei que naquela sala todos
os visitantes usavam crachá.
A vigilante apontou para o
crachá de uma turista que passava por nós para se certificar de que eu a estava
a entender.
Voltei a dizer que não o
tinha.
- Mostre-me o bilhete, por
favor.
Mostrei o bilhete. A senhora,
muito admirada, descobriu que eu estava ali sem ter cometido nenhuma
infração. Pouco convencida, perguntou:
- Por onde entrou?
Apeteceu-me responder
que entrei pela chaminé, mas fui educado e disse a verdade:
- Entrei pela letra H.
- Devia ter entrado pela letra
G. Não faz mal, continue a sua visita - voltou à sua cadeira baixando os braços
em aquiescência.
Continuei a ver quadros
com as efígies de reis polacos, cenas bíblicas e tapeçarias
gigantescas que ilustram batalhas importantes da história da Polónia.
Nas outras salas, a
imensa história do palácio era contada através das relíquias arqueológicas e de
múltiplos objetos distribuídos por vários espaços. Passei numa capela privativa
encontrada nas escavações do castelo, com a ogiva gótica incrustada nos
alicerces, onde os monarcas rezavam. No meio de tanta
turistada, aquela sala vazia, outrora um espaço recatado de oração, teve
algum impacto em mim.
Os audioguias foram redundantes,
por vezes os cabos emaranhavam-se nos meus óculos e atrapalhavam a visita; além
do mais, as salas e as peças expostas tinham informação escrita junto delas.
Ao fim de quatro horas de
visita, exausto de tanta informação, na penúltima sala, a L, recusei o
aparelho de áudio: foi a única em que me fez falta. Passei trinta minutos nas
catacumbas a ouvir a história de um
dragão, em polaco. Pela entoação da voz, da música e dos efeitos especiais das luzes nas caves
escuras, devia ser emocionante.
O importante são os detalhes e tempo para os observar. A capacidade de se abstrair do ruído da
multidão e da profusão de informação; conseguir, nem que seja por um momento
breve, que algo surpreenda e não seja indiferente. Talvez o momento na
velha capela tenha sido isso.
A partir de certa altura,
limitei-me a procurar ângulos e imagens fora de comum para fotografar, mais fáceis de encontrar
em edifícios monumentais, arquitetonicamente diversificados e recheados de objetos valiosos. A visita passou a ser mais entusiasmante.
Saí por uma das portas da
muralha depois de ter atravessado grutas escondidas debaixo do castelo, ambientes que deram origem a lendas e histórias encantadas na cultura popular. Fui ter à margem do rio Vístula onde centenas de pessoas gozavam o dia de calor
intenso e se abrigavam do sol escaldante nas sombras das árvores e das
muralhas. Um grupo de idosos vestidos com trajes folclóricos e instrumentos de
música popular, aproximou-se de mim:
- Italiano?
- Não, Português.
- O italiano e o português são
parecidos - disse um deles.
- Mais ou menos - respondi.
Falaram comigo misturando italiano com outras palavras que deviam ser espanhol. Disseram Cristiano Ronaldo e Fernão de Magalhães. Eu sorri. Abriram o estojo do violoncelo na relva do jardim, com muitas notas de zloty. Começaram a cantar e a tocar músicas tradicionais para os transeuntes.
Estive alguns minutos a ouvi-los, houve um momento em que fiquei preocupado: pensei que me iam convidar a cantar com eles. Deixei uma nota de 10 Zloty. Acenei Adeus e segui caminho, contornando a cidade velha, pelos passeios frondosos e ajardinados do Planty, até à praça do mercado.















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