quinta-feira, 16 de julho de 2026

Dakar

 


Vim enganado. Julgava que encontraria alguma organização e limpeza como  na Europa. A ideia que temos de um país sem nunca lá ter estado é absolutamente errada. Tendemos a construir uma ideia do mundo e da organização social baseada na nossa experiência pessoal e pelo que é transmitido na televisão.  Vemos imagens de África, sabemos que existe mais pobreza e miséria, mas não imaginamos o quão caótico e sujo pode ser.

Vi a seleção do Senegal no campeonato do mundo de futebol, uma boa equipa africana. Não sei por que razão inconsciente,  no meu íntimo devia haver um pensamento que dizia: se o país tem uma equipa no campeonato do mundo deve ser relativamente organizado. Talvez seja o mesmo efeito psicológico produzido  por um anúncio televisivo em que aparece  uma mulher bonita:  se a mulher bonita  compra o produto então ele deve  ser bom.  Nada mais errado. Só a  vivência entre as pessoas locais no coração da cidade, fora  dos resorts turísticos que também existem aqui, permite  conhecer a fundo a verdadeira realidade do país.

Apesar da desordem, as pessoas seguem a sua vida como em todo o lado: têm  as suas relações pessoais, famílias e amigos,  trabalham, celebram os dias especiais, vivem as suas  rotinas, alegrias e tristezas, como todos os outros.   Mas o contraste é chocante.  

Como é possível esta desigualdade tremenda de desenvolvimento e organização entre os  países?

Na cidade, as estradas  são montes de entulho, alcatrão velho, esburacado, onde se acumularam milhares de poeiras trazidas pelos ventos do Sahara. Estradas desniveladas, que devem ter sido  planas, tornaram-se amontoados irregulares de terra, que as pessoas foram empilhando nas bermas durante a construção das suas casas.

Circulam pick ups, carrinhas, jeeps, motorizadas.  Não há separadores, semáforos, passeios e linhas a delimitar as bermas e os sentidos da estrada. As mulheres  caminham de trajes garridos,  levando  enormes sacos de plástico na cabeça, entre a desordem e  o  fumo dos canos dos escape, as buzinadelas e a poluição sonora. Passam  crianças e idosos. Jovens ociosos deambulam pelas esquinas à procura de um biscate.  Cães rafeiros esquálidos, de costelas salientes,  farejam o lixo, também fazem parte da fisionomia da cidade.

Os sacos que as mulheres transportam são depositados nas bermas e fazem-se feiras improvisadas, todos os dias. Vende-se de tudo:  comida, bugigangas, roupa. Trocam-se e vendem-se   telemóveis,  expostos em cima de tábuas  apoiadas nas latas colocadas nas extremidades.  

As casas são barracos incompletos, sem reboco, por pintar, à espera que os filhos casem e construam uma nova divisão para a família. Rodeadas de lixo, sem esgotos, onde os  detritos correm a céu aberto para a estrada.

Estou em casa da família Diop, entendo-me com eles arranhando o Francês. Pensava que todos falavam Francês, por ter sido uma colónia francesa. Outro erro. A língua que utilizam entre si é o Wolof, uma língua com uma sonoridade estranha que adotou alguns vocábulos franceses e ingleses, que capto quando falam entre si e  acentua o meu isolamento.   São muçulmanos praticantes;  a mãe, madame Mariam,  usa véu e um longo vestido colorido, de algodão,  que lhe tapam o corpo todo, deixando-lhe apenas os olhos à mostra.

O Sr. Diop, o patriarca, veste habitualmente camisa e calça escura, e em determinados momentos coloca um chapéu curto, comum em África, que me lembro de ver em  miúdo a ser usado por Mobutu Sesse Seko.

As filhas adolescentes vestem à ocidental, pintam as unhas, usam calças de ganga e tops, saem sozinhas e sei que a mais velha, Florence, fuma às escondidas. Embora  observem o islamismo e eu veja frequentemente a mãe a rezar um terço de contas de madeira, talvez por influência de outras culturas  e a costumes ancestrais, anteriores à introdução do islamismo,  são uma  família  que eu considero tolerante.  

As pessoas daqui são muito belas. As mulheres ondulantes e sensuais, com poucos recursos económicos sabem realçar os seus atributos físicos e a sua beleza. Usam pestanas postiças, alongam-nas evidenciando  os seus olhos amendoados e a íris intensamente negra no leito branco; têm cabelos negros espessos e resinosos  como piche e  tons de pele delicados,  do castanho ao preto ébano.  Os homens são elegantes, elásticos e robustos sem serem  desproporcionados.

Ada, a filha do meio, foi-me mostrar o mar. Eu era o único branco que se via na rua, olhavam-me como um objeto estranho, o que faria um branco com uma mulher negra na rua? Felizmente, Ada era conhecida da vizinhança e a ela se juntaram uma série de miúdos curiosos que nos seguiram até à praia. A gentileza que ela tinha para lidar com os miúdos fazendo com que eles não me importunassem. Eu tinha idade para ser seu pai, não podia haver nada entre nós e além do mais Ada estava noiva de Omar, embora não gostasse dele, confidenciou-me. Eu iria regressar em breve ao meu país,  não havia problema em desabafar comigo, acho que ela usou o pretexto de me levar a passear para contar coisas que não contaria a mais ninguém. Talvez por eu ser estrangeiro, não falar a língua deles e estar de saída, era como um cofre em  que podia  depositar  os seus segredos.

Levou-me pelo caminho que  conhecia a visitar o porto de pesca e a ver  os barcos. Era lá que se encontrava com Suleiman, o homem de quem gostava. Naquela dia estava apreensiva, sabia que Ele e um grupo de amigos estavam no mar alto a tentar  chegar a Espanha, às ilhas Canárias, num barco de fundo chato,  um simples barquito com um único motor, para fugir à miséria e começar uma vida nova na Europa.

A partir daquele dia começamos a ir juntos, Ela para ter notícias de Suleiman e desabafar os seus segredos;  Eu  para fugir da claustrofobia da cidade suja e caótica. O mar era o Atlântico, o mesmo mar do meu país, as mesmas cores, o mesmo vento e ondulação. Ali sentia-me perto de casa e pensava, todos os dias,  no momento de regressar.  




Sem comentários: