sábado, 6 de junho de 2026

Villa Romana de Sendim



Não se sabe bem quem construiu a villa, pode ter sido um nativo que desceu da citânia aqui próximo ou um legionário de muitas posses que passou, gostou do sítio e ficou. Aqui passava a estrada que ligava Bracara Augusta a Tongóbriga, seria  normal construir uma villa entre estas  cidades importantes. Num dia,  se podia chegar de cavalo a uma e a outra.

Aqui ficava o   peristilo, o  jardim no centro da casa;  deste  lado do corredor,   o larário, a divisão  onde se adoravam os  deuses do lar e os antepassados da família; e ao lado,  o  quarto do  proprietário: reparem,  tinha duas divisões; nesta aqui, mais espaçosa,  ele recebia as visitas e na mais pequena dormia. Do outro lado do corredor, havia mais quartos, um deles era o dos escravos limpos, limpos porque  trabalhavam  dentro da casa; enquanto que, os escravos sujos, trabalhavam no campo e nas tarefas mais árduas.

Do lado sul ficava a cozinha, sabem por que motivo a cozinha era construída do lado sul? Porque os ventos dominantes vinham do  norte;   assim,  os cheiros eram afastados da casa.

Ambrósia guiava o grupo de visitantes pelo passadiço metálico sobre as ruínas, falava com profissionalismo e entusiasmo. Transparecia, no entanto,  uma inquietação que só a visita mais  atenta repararia.

Deste lado,  tínhamos o caldarium, o balneário de água quente. Veem aqueles pilares de  granito? São  originais,  foram encontrados tombados e dispersos noutros sítios  e colocados como se imagina que estariam quando a villa era habitada. A água era aquecida com fogueiras que os escravos sujos faziam debaixo do tanque, sustentado pelos pilares. Havia um balneário de água morna, o tepidarium;  e outro de água fria, o frigidarium. O dono ia passando da água quente para a fria, a água quente abria os poros, a morna retemperava a pele, a fria fechava os poros.  Era um tratamento muito avançado.

- Os romanos tratavam-se bem! Também espalhavam  unguentos no corpo e faziam massagens.  Eram muito para a frentex! – Comentaram  os visitantes.

Nos balneários romanos, os homens e as mulheres ficavam em divisões separadas. Esta era uma villa, uma quinta com escravos e vivenda particular, não sabemos bem como seria, provavelmente o dono teria convidados, por vezes devia haver mais do que uma pessoa nos balneários, além dos escravos.

O tanque de água fria tinha peixes, como não era higiénico tomarem banho com peixes, construíram um  pequeno reservatório para onde eram desviados e retirados. Depois do banho, eram colocados novamente na água da piscina. Como esta era uma divisão mais fresca, também servia de convívio nos dias quentes.

Aquele buraco debaixo do muro,  era por onde se escoava  a água, a casa tinha cloacas  ligadas entre si e estava  ligeiramente inclinada, a água descia para o rio que corre mais abaixo.  Os romanos usavam as condições naturais a seu favor, esta é uma região com muita água.

O grupo ia comentando:

- Os romanos eram muito inteligentes!

- Brilhantes e altamente sofisticados.

- Reparem como as paredes estão  sólidas e preservadas ao fim de 2000 anos!

 Ambrósia continuava a guiar o grupo de visitantes.  Excecionalmente, o  centro interpretativo da   villa romana abriu no sábado para receber o grupo de trinta pessoas que andava a visitar as redondezas, interrompendo os seus planos de passar  todo o dia com Omar. Ele voltaria ao fim da tarde a apanhá-la e estariam juntos o resto do dia. Precisavam de falar, andavam chateados  há algum tempo,  o trabalho intenso era um obstáculo que os distanciava e impedia de estarem  juntos como gostariam.

Os mosaicos no chão, tesselatios, são extremamente minuciosos, colocá-los exigia  talento, trabalho demorado e apurado. Levavam-se meses a decorar o chão. Este tinha motivos geométricos com quatro cores: preto, branco, vermelho e amarelo. No nosso museu poderão ver um esquema do desenho  – Ambrósia  apontou para o chão.

Vocês têm de imaginar que esta villa era muito maior do que o que aqui vemos. Isto é apenas uma pequena parte. As ruínas foram descobertas  em 1992, quando um senhor estava a construir os alicerces para uma casa nova neste terreno.  É provável que debaixo das moradias aqui ao lado estejam soterradas muitas outras divisões e anexos.

Já se descobriram milhares de fragmentos de objetos romanos nas escavações que estamos a fazer.

Ambrósia falava  com entusiasmo, não era habitual receber um grupo tão numeroso de visitantes.  Conduziu-o para a sala  com os achados arqueológicos.

Falou dos artefactos agrícolas,  louça de cozinha, talheres, lamparinas,  moedas.

Sabem onde se encontraram todas as moedas? Nas tubagens. Eram objetos perdidos, iam parar aos esgotos.

Aqui temos um achado muito importante, pratos com as letras XP. Sabem o que significam  as letras XP?

- São o símbolo de Cristo – disse um visitante calvo de meia idade, professor de História.

Muito bem. Isto significa que a partir de uma determinada época quem aqui habitou era cristão. A villa foi construída por volta dos séculos II e III d.C. e habitada até ao século VIII, passou por diferentes períodos históricos, desde o império Romano até à ocupação Sueva.

O mesmo professor de História referiu um apontamento que viu no friso cronológico: os movimentos Bagaudas, que no século V d.C. ocorreram no noroeste peninsular. Revoltas populares a que se juntaram escravos fugitivos e pequenos proprietários arruinados, afetados pela instabilidade do império, impostos elevados e insegurança, anunciando o fim do domínio romano.

Ambrósia  agradeceu a informação extra. Conduziu o grupo para outra sala onde se viam dezenas de caixas brancas  empilhadas em prateleiras. Abriu uma caixa,  mostrou o conteúdo:

aqui estão guardados sacos de plástico com milhares de fragmentos arqueológicos, meticulosamente catalogados,  do mosteiro de Pombeiro e da villa, para serem encaixados como as peças de um puzzle e voltarem a reconstruir o objeto original.

Notava-se o denodo com que Ambrósia se envolvia no trabalho e o entusiasmo que para si era trabalhar como arquivista do museu,  guia e arqueóloga. Era necessária  muita precisão e disponibilidade para reconstruir   estilhaços,   aparentemente inúteis e insignificantes, em  objetos  harmoniosos com uma função específica utilizados no passado,  pertencentes ao quotidiano das gentes diversas que viveram no território. A tarefa deixava-a  orgulhosa da riqueza histórica do seu concelho, mas exigia-lhe  demasiado de si causando  danos nos seus relacionamentos, roubando-lhe o pouco tempo livre de que dispunha. Era frequente passar horas pela noite dentro com um frontal na cabeça observando os minúsculos fragmentos como se fossem peças de joias raras, avaliando a função e o  espaço que ocupariam no objeto.

Ambrósia regressaria a casa na companhia de Omar Khayyam. Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros e passado na ermida de santa Quitéria,  a ver paisagens, pondo os pontos nos is, analisando o seu relacionamento.  Talvez agora se pudessem reconciliar. Ele mostrou-se paciente e carinhoso com ela, o que não era habitual.

Omar era bruto e insensível, dizia coisas que a feriam muito, de forma arrogante usando palavras caras como se ela as não percebesse, magoando-a e atingindo-a ainda mais. Certo dia disse-lhe:

- Ouvi dizer que és amasia…

Não concluiu a frase, Ambrósia tapou-lhe a boca com a mão, fulminou-o com o olhar e sem nada  dizer, pensou: como te atreves a dizer tal coisa.

Ele leu-lhe o pensamento, baixou os olhos arrependido. O mal estava feito.

Mais tarde, confessou-lhe que quase chorou ao pressentir que ela o tinha deixado de amar,   foi por revolta que lhe falou grosseiramente, não tinha razão nenhuma. Era um parvo. O relacionamento melhorou.   

Ambrósia nesse dia andava bem disposta, animada com os visitantes e voltaria a estar com Omar esquecendo o trabalho, mais recetiva a amar.





Os mosaicos no chão, tesselatios, são extremamente minuciosos, colocá-los exigia  talento, trabalho demorado e apurado. Levavam-se meses a decorar o chão. Este tinha motivos geométricos com quatro cores: preto, branco, vermelho e amarelo.




Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros