domingo, 28 de junho de 2026

Salman Rushdie no Porto


O jornalista Alberto Postiga adquiriu  bilhete para o encontro literário com Salman Rushdie, no coliseu do Porto.  Comprou um  livro na livraria Utopia, próxima da praça da República, e com o voucher e o respetivo código que vinha no livro,  reservou online o lugar no evento. Na sua opinião, o aspeto mais interessante do Festival Babell, a decorrer na cidade, era a possibilidade oferecida a qualquer livraria do Porto de vender  livros  com vouchers destinados aos eventos do festival. Dessa forma, dava-se um contributo interessante aos pequenos livreiros de terem um lucro suplementar.

O encontro a que mais queria assistir era, sem dúvida, o de Salman Rushdie. Quais  Prémios Nobel da literatura Olga Tokarczuk e László Krasznahorkai, quais campeões de venda Margaret Atwood e Byung-Chul Han, quais escritores Portugueses Lídia Jorge e Valter Hugo Mãe! Ele queria ver  Salman Rushdie, o homem que teve  a vida a prémio, condenado à morte  pelo Aiatolá Khomeini,  escondido anos a fio pela Scotland yard; o autor dos Versículos Satânicos.

Relataria o encontro  no  Blog em que colabora, sobre literatura e viagens:  “Livros e Destinos”. Havia tentado escrever em jornais de grande circulação nacional: o Público, o Diário e o Jornal de Notícias;  em semanários: o Expresso, a revista Sábado. Rejeitado por todos: “falta de qualidade literária”, “jornalista e escritor  sem nome firmado no mercado”, "escritor mediocre". Foram alguns dos epítetos com que foi mimado. Apesar disso, não desistiu. Escreveu uma carta ao Miguel Sousa Tavares, mas até hoje não obteve qualquer resposta dele. Uma grande desconsideração para consigo e sentia-se muito desiludido com o que considerava ser uma certa vaidade e arrogância existente no mundo literário.

Alimentava  a escrita nos tempos livres, que eram muitos, vivia do subsídio de desemprego,  não tinha muito que fazer,   exceto  apresentar-se regularmente na Segurança Social.

Estacionou o carro no Via Catarina, desceu pela rua Formosa. Uma imensa fila de pessoas alinhava-se ao longo da berma: “É para o encontro com o Salman Rushdie?”, perguntou à última pessoa da fila: “É, sim.”

- Por que motivo estão a entrar pelas traseiras do coliseu?

- Não estão a entrar pelas traseiras, a fila começa na entrada principal da rua Passos Manuel.

- O quê?! Quer dizer que a fila contorna a praça dos Poveiros, vem pela rua da Alegria e desce a rua Formosa?

- É isso mesmo!

- Uauu!!!

Muitas pessoas levavam  livro na mão, jovens ofereciam o jornal  do evento.  Duas carrinhas de policia fechavam a rua de Passos Manuel com a praça dos Poveiros.  Ele esteve uma hora na fila,  que bifurcava nos degraus  do coliseu.  Fez-se a primeira triagem: leitura  dos QR Codes pelos seguranças; depois,  uma segunda triagem,  mais demorada:  passagem pelos detetores de metais, tal e qual o Check-in nos aeroportos. “Incrível! Tudo por causa de uma só pessoa, de um escritor …que estrela POP!”, pensou. Subiu à galeria. De lá de cima, viu o coliseu repleto com 3000 pessoas. Acontecimento raro e único, merecedor de uma fotografia para a posteridade, como aquela da primeira sessão de um filme 3D nos Estados Unidos. 


Por motivos de segurança, estavam proibidas as fotografias, ninguém à sua volta tinha o telemóvel na mão.  A audiência portava-se bem e cumpria  as regras. Ele, obviamente, faria o mesmo.

Chegou na hora certa, de  ouvir a apresentação do moderador, o homem-livro, Alberto Manguel.

A partir deste ponto, transcrevo a entrevista  que o jornalista Alberto Postiga colocou no Blog “Livros e Destinos”. São as palavras dele, adaptadas e resumidas do que ouviu na conversa realizada ao longo de uma hora.

 

Alberto Manguel (AM) entrevista Salman Rushdie (SR) em Inglês no coliseu do Porto, com tradução simultânea para português no painel sobre o palco, com a ajuda da Inteligência Artificial.

AM fala inglês fluentemente, bem articulado e percetível. Veste  fato branco,  usa o típico chapéu de abas, com que é sempre visto,  metido na cabeça.  Refere que, provavelmente, o festival Babell tornou-se no maior  festival de literatura da europa.

AM: Demos as boas-vindas ao nosso convidado,  Salman Rushdie (grande ovação do público, em pé).

(Entra SR no palco, caminha lentamente, ligeiramente encurvado. Fato escuro, pala a cobrir o olho direito. Senta-se ao lado de AM. Uma mesinha entre eles com uma garrafa de água).

AM: Fale-nos da Índia e dos seus primeiros anos.

SR: Nasci em Bombaim, era uma cidade muito tolerante, não tinha ainda as tensões sociais de atualmente. É a cidade do cinema, de Bollywood. Os jornais da cidade tinham 4 paginas de notícias e vinte páginas sobre os atores de Bollywood (risos na plateia). Era proibido dar beijos na televisão, havia uma série de códigos. Por exemplo, se um ator queria beijar uma mulher dava um beijo na manga do vestido,  ela depois beijava a mesma manga. Era um beijo indireto (risos). Nasci no período da independência da Índia, havia uma anedota que se contava na minha família: os ingleses fugiram 8 dias antes de eu nascer.

AM: Pode-nos falar da relação com o seu pai…

SR: Não gosto de falar disso, já tive acontecimentos traumáticos que cheguem na minha vida … posso dizer que, inicialmente,  quando éramos crianças muito pequenas, eu e as minhas irmãs, ele era muito carinhoso connosco, tinha jeito para nós. Mais tarde, tudo mudou, ele tinha  um problema com o álcool. O meu pai ensinou-me a interpretar As Mil e uma Noites. Não há um único tapete voador nas histórias, é uma mentira;  têm muito sexo e violência, não são para crianças. No entanto, no ocidente,  tornaram-se conhecidas como histórias infantis.

AM: Fale-nos do seu primeiro livro… um conto, creio que inspirado no “Feiticeiro de Oz”, e das suas primeiras influências.

SR: Quando escrevi o meu primeiro conto tinha 10 anos, não se lhe deve dar muito crédito  (risos na plateia)… nele,   invento um arco-íris em que falo do início desse arco-íris na cidade de Bombaim; ao contrário do feiticeiro de Oz, em que a história acontece por cima do arco-íris: over the rainbow. Devido à relação com o meu pai, escrever foi uma forma de criar o meu feiticeiro. Os adultos não me inspiravam confiança, no “Feiticeiro de Oz” é uma criança, uma menina,  que se torna forte e vence.  No fim do conto, o feiticeiro derrete-se, como se crescesse para baixo, e Dorothy torna-se gigante em relação a ele.

AM: Quais foram as suas referências na literatura?

SR: Na adolescência fui para um colégio em Inglaterra, aprendi latim, tenho pena de não ter aprendido grego. Li as “Metamorfoses”,  de Ovídeo.  Na minha obra há muitas personagens que se metamorfoseiam,  são uma influência até kafka.

E Shakespeare, o maior escritor de sempre de língua inglesa. Pergunto-me, se ele,  no seu tempo,  tinha noção de ser o melhor de sempre a escrever em Inglês. Gosto de pensar que sim: há uma cena deliciosa no filme Shakespeare In Love, em que ele escreve com a pena no caderno, levanta a cabeça para a amada e diz: “Saiu mesmo bem!”

AM: Você também pensa isso quando escreve?

SR: Sim! (risos).  Escrever é um processo doloroso e complexo. Mas, simultaneamente, o mais recompensador de todos. O escritor não é um Frankenstein, não recebe pedaços de outros cérebros, tem de se colocar no cérebro de personagens criadas por ele.  Não é fácil, eu repito-me  muitas vezes sem dar conta.

Uma vez,  um tradutor dinamarquês ligou, disse-me: na página 126 do livro a sua personagem diz isto; na página 237 do mesmo livro, outra personagem diz exatamente a mesma coisa. Esclareça-me.

Eu não fazia ideia de ter repetido frases. Disse-lhe,  para não ficar mal, que era intencional (risos na plateia).

AM: Você referiu que a realidade é mais forte do que a ficção…

SR: A ficção permite-me misturar tempos e personagens; por exemplo, na minha obra “A Feiticeira de Florença”, juntei  a India do século XIV e  Florença do século XV, quando estava no seu apogeu. Nas pesquisas que fiz,  descobri que,  apesar da distância física entre os territórios, havia aspetos muito parecidos entre ambos.  Uma personagem florentina do romance  nunca se poderia ter cruzado com uma  indiana do século XIV, viveu 100 anos antes; no entanto,  elas cruzam-se. É o poder da ficção. Na altura, havia o império Otomano entre Florença e a India; na Transilvânia,  ocupada pelos otomanos,  vivia uma personagem chamada Vlad Szepes, ficou conhecida na história pelas suas malvadezas, chamaram-lhe demónio,  dracul. Também a coloco no romance.

AM: Faz alterações aos seus textos, nas edições posteriores?

SR: Não, um livro morre quando acabo de o escrever. Passa a ser dos leitores, não tenho o direito de alterar o que chegou a eles antes disso. Conheço o caso de um escritor que fez alterações nos versos de um poema nas versões posteriores. Ficou pior, alterou-lhe o significado.

AM: No livro “Faca” você entrevista o homem que o tentou assassinar, pode-nos falar disso…

SR: Achei que devia escrever sobre esse acontecimento, tentar perceber por que motivo alguém com um cadastro criminal limpo, sem nunca cometer um crime, integrado na sociedade, um jovem de 24 anos nascido em New Jersey, resolve matar uma pessoa com uma faca …pensei ir entrevistá-lo à cadeia, a minha mulher demoveu-me.  O que iria acontecer? Valeria a pena? Estaria arrependido? Conclui que não valia a pena, um dos capítulos do livro é uma entrevista que lhe faço: é ficção, uma tentativa minha de esclarecer os seus motivos, de dar vida complexa ao homem que me tentou matar. Os críticos disseram que era a melhor parte do livro; outros dois críticos referiram ser a pior. Conclusão: não gosto de críticos (risos na plateia).

Em  “À Espera de Godot”, as personagens insultam-se, gritam umas para as outras em crescendo, até chegarem à última palavra, a mais intensa de todas, a mais abjeta que se pode chamar a alguém: CRÍTICO.

AM: Escrita e política misturam-se?

SR: Não é obrigatório misturarem-se, gosto de falar das emoções, da humanidade, sem contextualizar a situação política das personagens. Há exemplos na literatura: Jane Austen é contemporânea das guerras napoleónicas, foi um acontecimento colossal no seu tempo, era impossível ser-lhe indiferente; contudo, em todos os seus livros não há uma única referência aos acontecimentos cataclísmicos que estavam a ocorrer na europa,  a não ser para escrever sobre os fatos elegantes dos soldadinhos nos bailes de gala (risos na plateia).

Quando era miúdo,  um grande poeta indiano  amigo da minha tia, irmã da minha mãe -  sentei-me no colo dele - escrevia poemas de amor, apreciados e reconhecidos por todos;  mais tarde,  começou a escrever poemas políticos,  sobre a partição da India e o surgimento do Paquistão, acontecimentos muito violentos. Foi ameaçado de morte. Como sabiam que éramos amigos,  foram a nossa casa à procura dele, a minha tia tinha-o escondido num fundo falso debaixo do tapete: “o que vêm cá vocês fazer? não têm vergonha de ameaçar uma mulher sozinha?”, respondeu-lhes. Não o encontraram. Também falo de tapetes que escondem fundos falsos num dos meus romances.

AM: Estamos a encerrar o nosso encontro, uma última pergunta: qual a sua relação com a morte?

SR: Bem, já tive a minha quota parte de proximidade com ela (risos na plateia)… mas prefiro não a conhecer (aplausos).

AM: Muito obrigado, Salman.

SR (em Português, com sotaque inglês): Viva o Porto!

Grande ovação de pé. Fim da entrevista de uma hora. Passou rápido.

A voz off de Rui Couceiro, comissário do Babell, soou na sala pelo microfone:

“Não haverá sessão de autógrafos. O autor assinou previamente 200 exemplares,  colocados no átrio da entrada. Quem estiver interessado pode tentar adquiri-los,  se ainda estiverem disponíveis”.

E aqui termina  o texto colocado no Blog “Livros e Destinos”.

 Alberto Postiga saiu sozinho do coliseu com esperança de encontrar algum conhecido, não viu ninguém. Centenas de caras e de pessoas anónimas regressavam a casa na noite avançada de domingo,  no dia seguinte começariam a nova semana de trabalho.   Ele estava sem trabalho e uma solidão desconfortável afligia-o, teria de regressar a casa o quanto antes para escrever as suas impressões e a entrevista, iludindo o tempo e o vazio.

Passou pela entrada da garagem do Coliseu  na rua Formosa,  viu seguranças e polícias a fazer a vigilância aos veículos de alta cilindrada estacionados ao fundo do corredor. Estariam à espera de Salman Rushdie? Talvez Salman Rushdie esteja prestes  a sair, aguardo por ele para lhe pedir um autógrafo?.




sábado, 27 de junho de 2026

Apúlia

 


L: Pois é meu caro, não sei por que insistes em cansares-te desnecessariamente. Sempre que tens uma folga no teu precioso tempo, nessa vida que levas tão intensa, em vez de aproveitares para descansar, fruir as horas despreocupadamente, deixar que elas te surpreendam, continuas a planificar tudo ao milímetro, a fazer da vida um plano rígido.  Ela é mais forte do que tu e impossível de controlar.

J: Não tem nada a ver com isso, simplesmente preciso de estar permanentemente em ação,  desgastar-me, transpirar muito,  para esquecer  os problemas. Só dessa forma consigo entrar num estado que diria de transe, em modo de velocidade de cruzeiro, como os aviões. Aí esqueço tudo e relaxo verdadeiramente. Tenho de organizar  as minhas saídas, sentir-me seguro, passear por trilhos definidos  em zonas habitadas para, se me acontecer algum imprevisto ou sofrer algum acidente, ter apoio imediato. Não tenho a tua tranquilidade inata, o teu saber estar e otimismo. Não me sinto bem em qualquer lado, como tu. Gosto de estar sozinho e de testar os meus limites, mas de forma controlada e em ambientes familiares.

Hoje, como imaginas, planifiquei a minha caminhada. Consultei a internet, escolhi um trilho fácil em Esposende, descarreguei o folheto PDF para o telemóvel, consultei o site Trilhos e Caminhadas com as avaliações do percurso, segui em direção à Apúlia.

Nem sempre o que parece é: ao contrário das avaliações que referiam  trilho bem sinalizado e fácil, cheguei a um ponto em que as silvas densas tapavam o caminho e engoliam o painel interpretativo junto à torre de vigia. Foi impossível continuar em frente. Logo de seguida, enquanto ia pelo caminho rural em direção à estrada que liga ao centro da Apúlia, uma cobra saiu das ervas da berma, atravessou a terra arenosa serpenteando velozmente à minha frente. Apanhei um susto. Fiquei imóvel, fascinado, a ver as escamas reluzentes do dorso esverdeado desaparecerem do outro lado do caminho. Como as cobras nos perturbam! É incrível este medo ancestral e repulsa inata que sentimos por elas: talvez uma cobra-rateira, a avaliar  pelo comprimento e grossura do dorso. Segui pela terra empoeirada entre campos de milho transgénico até encontrar a estrada para o centro da vila.

Não foi nada entusiasmante este pequeno trilho. Felizmente, desta vez não ia sozinho, valeu-me a preciosa companhia de Sara que foi conversando comigo,  conseguindo acompanhar a minha passada mais vigorosa e acelerada.

L: Concordo contigo, gosto de outro tipo de atividades, não tenho a tua necessidade de desgaste físico. A mim, basta-me estar na praia a fruir o sol e a delicadeza da areia,   estar com pessoas, no cinema, em casa, a ler livros, ou mesmo a dar aulas e em reuniões chatas; todas as experiências servem para, como se diz pomposamente, cultivar o espírito. Não acredito em subterfúgios como a atividade física para melhorar a autoestima, basta observar o mundo, as pessoas, meditar, que lentamente a transformação acontece.  Uma transformação mais profunda do que qualquer outra, que provoca mudança interior,  sem exigências, estando presente no momento, ganhando consciência de nós próprios.

Enquanto caminhavam, visitei o Museu do Sargaço, vi reproduções em grandes telas de fotografias de Artur Pastor a António Meneres que representam a vida dos sargaceiros.  Não havia mais ninguém, além de mim e do rececionista. Sentei-me no banco da sala silenciosa a observar as imagens, acredito que estar ali sentado alguns minutos sem mais ninguém deve ter um efeito em mim mais  tranquilizador do que qualquer caminhada e atividade física que tu faças.






sábado, 6 de junho de 2026

Villa Romana de Sendim



Não se sabe bem quem construiu a villa, pode ter sido um nativo que desceu da citânia aqui próximo ou um legionário de muitas posses que passou, gostou do sítio e ficou. Aqui passava a estrada que ligava Bracara Augusta a Tongóbriga, seria  normal construir uma villa entre estas  cidades importantes. Num dia, era possível chegar a cavalo a qualquer uma delas.  

Aqui ficava o   peristilo, o  jardim no centro da casa.  Deste  lado do corredor,   situava-se o larário, a divisão  onde se adoravam os  deuses do lar e os antepassados da família; e ao lado,  o  quarto do  proprietário: reparem que  tinha duas divisões; nesta aqui, mais espaçosa,  ele recebia as visitas e na mais pequena dormia. Do outro lado do corredor havia mais quartos, um deles era o dos escravos limpos - limpos porque  trabalhavam  dentro da casa, enquanto os escravos sujos trabalhavam no campo e nas tarefas mais árduas.

Do lado sul ficava a cozinha. Sabem por que motivo construíam desse lado? Como os ventos dominantes vinham do  norte, os cheiros eram assim afastados da casa.

Ambrósia guiava o grupo de visitantes pelo passadiço metálico sobre as ruínas, falando com profissionalismo e entusiasmo. Transparecia, no entanto,  uma inquietação que só a visita mais  atenta repararia.

- Deste lado,  tínhamos o caldarium, o balneário de água quente. Veem aqueles pilares de  granito? São  originais,  foram encontrados tombados e dispersos noutros sítios  e colocados como se imagina que estariam quando a villa era habitada. A água era aquecida com fogueiras que os escravos sujos faziam debaixo do tanque, sustentado pelos pilares. Havia um balneário de água morna, o tepidarium;  e outro de água fria, o frigidarium. O dono ia passando da água quente para a fria, a água quente abria os poros, a morna retemperava a pele, a fria fechava os poros.  Era um tratamento muito avançado.

- Os romanos tratavam-se bem! Também espalhavam  unguentos no corpo e faziam massagens.  Eram muito modernos! – Comentaram  os visitantes.

 - Nos balneários romanos, os homens e as mulheres ficavam em divisões separadas. Esta era uma villa, uma quinta com escravos e vivenda particular, não sabemos bem como seria, provavelmente o dono teria convidados e, por vezes, devia haver mais do que uma pessoa nos balneários, além dos escravos.

O tanque de água fria tinha peixes, como não era higiénico tomarem banho com eles, construíram um pequeno reservatório para onde eram desviados e retirados. Depois do banho, eram colocados novamente na água da piscina.  Dado que esta era uma divisão mais fresca, também servia de espaço de convívio nos dias quentes.

Aquele buraco debaixo do muro era por onde se escoava  a água. A casa tinha cloacas  ligadas entre si e estava  ligeiramente inclinada, fazendo com que a água descesse para o rio que corre mais abaixo.  Os romanos usavam as condições naturais a seu favor, esta é uma região com muita água.

O grupo ia comentando:

- Os romanos eram muito inteligentes!

- Brilhantes e altamente sofisticados.

- Reparem como as paredes estão  sólidas e preservadas ao fim de 2000 anos!

 Ambrósia continuava a guiar o grupo de visitantes.  Excecionalmente, o  centro interpretativo da   villa romana abriu no sábado de tarde para receber o grupo de trinta pessoas que andava a visitar as redondezas, interrompendo os planos que ela tinha de passar  todo o dia com Omar. Ele voltaria ao fim do dia para a apanhar e  ficariam juntos mais algum tempo. Precisavam de falar, pois andavam chateados  há alguns dias;  o trabalho intenso era um obstáculo que os distanciava e impedia de estar  juntos como gostariam.

 - Os mosaicos no chão, tesselatus, são extremamente minuciosos. Colocá-los exigia  talento, trabalho demorado e apurado. Levavam-se meses a decorar o chão. Este tinha motivos geométricos com quatro cores: preto, branco, vermelho e amarelo. No nosso museu poderão ver um esquema do desenho – Ambrósia  apontou para o chão.

- Vocês têm de imaginar que esta villa era muito maior do que o que aqui vemos. Isto é apenas uma pequena parte. As ruínas foram descobertas  em 1992, quando um senhor estava a construir os alicerces para uma casa nova neste terreno.  É provável que debaixo das moradias aqui ao lado estejam soterradas muitas outras divisões e anexos. Já se descobriram milhares de fragmentos de objetos romanos nas escavações que estamos a fazer.

Ambrósia falava  com entusiasmo, pois não era habitual receber um grupo tão numeroso de visitantes. Conduziu-o para a sala  com os achados arqueológicos e falou dos artefactos agrícolas,  louça de cozinha, talheres, lamparinas,  moedas.

 - Sabem onde se encontraram todas as moedas? Nas tubagens. Eram objetos perdidos, iam parar aos esgotos. Aqui temos um achado muito importante, pratos com as letras XP. Sabem o que significam  as letras XP?

-É o símbolo de Cristo – disse um visitante calvo de meia idade, professor de História.

- Muito bem. Isto significa que, a partir de uma determinada época, quem aqui habitou era cristão. A villa foi construída por volta dos séculos II e III d.C. e habitada até ao século VIII, passou por diferentes períodos históricos, desde o império Romano até à ocupação sueva.

O mesmo professor de História referiu um apontamento que viu no friso cronológico: os movimentos Bagaudas, que no século V d.C. ocorreram no noroeste peninsular. Revoltas populares a que se juntaram escravos fugitivos e pequenos proprietários arruinados, afetados pela instabilidade do império, impostos elevados e insegurança, anunciando o fim do domínio romano.

Ambrósia  agradeceu a informação extra e conduziu o grupo para outra sala,  onde se viam dezenas de caixas brancas  empilhadas em prateleiras. Abriu uma delas e mostrou o conteúdo:

- Aqui estão guardados sacos de plástico com milhares de fragmentos arqueológicos, meticulosamente catalogados,  do mosteiro de Pombeiro e da villa, para serem encaixados como as peças de um puzzle e reconstruírem o objeto original.

Notava-se o denodo com que Ambrósia se envolvia no trabalho e o entusiasmo que sentia ao trabalhar como arquivista do museu,  guia e arqueóloga. Era necessária  muita precisão e disponibilidade para reconstruir   estilhaços,   aparentemente inúteis e insignificantes, em  objetos  harmoniosos com uma função específica utilizados no passado,  pertencentes ao quotidiano das gentes diversas que viveram no território. A tarefa deixava-a  orgulhosa da riqueza histórica do seu concelho, mas exigia  demasiado de si,  causando  danos nos seus relacionamentos e roubando-lhe o pouco tempo livre de que dispunha. Era frequente passar horas pela noite dentro, com um frontal na cabeça,  observando os minúsculos fragmentos como se fossem peças de joias raras, avaliando a função e o  espaço que ocupariam no objeto.

Ambrósia regressaria a casa na companhia de Omar. Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros e passado na ermida de Santa Quitéria,  a ver paisagens, pondo os pontos nos is, analisando o seu relacionamento.  Talvez agora se pudessem reconciliar. Ele mostrou-se paciente e carinhoso com ela, o que não era habitual.

Omar fora bruto e insensível, dissera coisas que a feriram muito, de forma arrogante com  palavras caras como se ela as não entendesse,  atingindo-a ainda mais. Certo dia dissera-lhe:

- Ouvi dizer que és amasia…

Não concluiu a frase. Ambrósia tapou-lhe a boca com a mão, fulminou-o com o olhar e, sem falar, pensou: como te atreves a dizer tal coisa?

Ele leu-lhe o pensamento e baixou os olhos, arrependido. O mal estava feito.

Mais tarde, confessou-lhe que quase chorou ao pressentir que ela o tinha deixado de amar,  e que  fora por revolta que  falara grosseiramente.  Não tinha razão nenhuma, era um parvo. O relacionamento melhorou a partir daí.    

Ambrósia, nesse dia, andava bem-disposta, animada com os visitantes. Ao fim da tarde, voltaria a estar com Omar, recetiva a amar.











Os mosaicos no chão, tesselatios, são extremamente minuciosos, colocá-los exigia  talento, trabalho demorado e apurado. Levavam-se meses a decorar o chão. Este tinha motivos geométricos com quatro cores: preto, branco, vermelho e amarelo.




Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros