Não se sabe bem quem
construiu a villa, pode ter sido um
nativo que desceu da citânia aqui próximo ou um legionário de muitas posses que
passou, gostou do sítio e ficou. Aqui passava a estrada que ligava Bracara
Augusta a Tongóbriga, seria normal
construir uma villa entre estas cidades importantes. Num dia, se podia chegar de cavalo a uma e a outra.
Aqui ficava o peristilo, o jardim no centro da casa; deste lado do corredor, o
larário, a divisão onde se adoravam os deuses do lar e os antepassados da família; e
ao lado, o quarto do
proprietário: reparem, tinha duas
divisões; nesta aqui, mais espaçosa, ele
recebia as visitas e na mais pequena dormia. Do outro lado do corredor, havia
mais quartos, um deles era o dos escravos limpos, limpos porque trabalhavam dentro da casa; enquanto que, os escravos
sujos, trabalhavam no campo e nas tarefas mais árduas.
Do lado sul ficava a cozinha,
sabem por que motivo a cozinha era construída do lado sul? Porque os ventos
dominantes vinham do norte; assim, os cheiros eram afastados da casa.
Ambrósia guiava o grupo de
visitantes pelo passadiço metálico sobre as ruínas, falava com profissionalismo
e entusiasmo. Transparecia, no entanto,
uma inquietação que só a visita mais
atenta repararia.
Deste lado, tínhamos o caldarium, o balneário de
água quente. Veem aqueles pilares de granito? São
originais, foram encontrados
tombados e dispersos noutros sítios e colocados
como se imagina que estariam quando a villa era habitada. A água era
aquecida com fogueiras que os escravos sujos faziam debaixo do tanque,
sustentado pelos pilares. Havia um balneário de água morna, o tepidarium;
e outro de água fria, o frigidarium.
O dono ia passando da água quente para a fria, a água quente abria os poros, a
morna retemperava a pele, a fria fechava os poros. Era um tratamento muito avançado.
- Os romanos tratavam-se bem! Também
espalhavam unguentos no corpo e faziam
massagens. Eram muito para a frentex! – Comentaram
os visitantes.
Nos balneários romanos, os homens
e as mulheres ficavam em divisões separadas. Esta era uma villa, uma quinta
com escravos e vivenda particular, não sabemos bem como seria, provavelmente o
dono teria convidados, por vezes devia haver mais do que uma pessoa nos
balneários, além dos escravos.
O tanque de água fria tinha
peixes, como não era higiénico tomarem banho com peixes, construíram um pequeno reservatório para onde eram desviados e
retirados. Depois do banho, eram colocados novamente na água da piscina. Como
esta era uma divisão mais fresca, também servia de convívio nos dias quentes.
Aquele buraco debaixo do muro, era por onde se escoava a água, a casa tinha cloacas ligadas entre si e estava ligeiramente inclinada, a água descia para o
rio que corre mais abaixo. Os romanos
usavam as condições naturais a seu favor, esta é uma região com muita água.
O grupo ia comentando:
- Os romanos eram muito
inteligentes!
- Brilhantes e altamente
sofisticados.
- Reparem como as paredes estão sólidas e preservadas ao fim de 2000 anos!
Os mosaicos no chão, tesselatios,
são extremamente minuciosos, colocá-los exigia
talento, trabalho demorado e apurado. Levavam-se meses a decorar o chão.
Este tinha motivos geométricos com quatro cores: preto, branco, vermelho e
amarelo. No nosso museu poderão ver um esquema do desenho – Ambrósia apontou para o chão.
Vocês têm de imaginar que esta villa
era muito maior do que o que aqui vemos. Isto é apenas uma pequena parte. As
ruínas foram descobertas em 1992, quando
um senhor estava a construir os alicerces para uma casa nova neste
terreno. É provável que debaixo das moradias
aqui ao lado estejam soterradas muitas outras divisões e anexos.
Já se descobriram milhares de
fragmentos de objetos romanos nas escavações que estamos a fazer.
Ambrósia falava com entusiasmo, não era habitual receber um
grupo tão numeroso de visitantes. Conduziu-o para a sala com os achados arqueológicos.
Falou dos artefactos agrícolas, louça de cozinha, talheres, lamparinas, moedas.
Sabem onde se encontraram todas
as moedas? Nas tubagens. Eram objetos perdidos, iam parar aos esgotos.
Aqui temos um achado muito
importante, pratos com as letras XP. Sabem o que significam as letras XP?
- São o símbolo de Cristo – disse
um visitante calvo de meia idade, professor de História.
Muito bem. Isto significa que a
partir de uma determinada época quem aqui habitou era cristão. A villa foi
construída por volta dos séculos II e III d.C. e habitada até ao século VIII, passou
por diferentes períodos históricos, desde o império Romano até à ocupação
Sueva.
O mesmo professor de História referiu
um apontamento que viu no friso cronológico: os movimentos Bagaudas, que no
século V d.C. ocorreram no noroeste peninsular. Revoltas populares a que se
juntaram escravos fugitivos e pequenos proprietários arruinados, afetados pela
instabilidade do império, impostos elevados e insegurança, anunciando o fim do
domínio romano.
Ambrósia agradeceu a informação extra. Conduziu o grupo
para outra sala onde se viam dezenas de caixas brancas empilhadas em prateleiras. Abriu uma
caixa, mostrou o conteúdo:
aqui estão guardados sacos de
plástico com milhares de fragmentos arqueológicos, meticulosamente catalogados,
do mosteiro de Pombeiro e da villa,
para serem encaixados como as peças de um puzzle e voltarem a reconstruir o
objeto original.
Notava-se o denodo com que
Ambrósia se envolvia no trabalho e o entusiasmo que para si era trabalhar como
arquivista do museu, guia e arqueóloga.
Era necessária muita precisão e
disponibilidade para reconstruir estilhaços, aparentemente inúteis e insignificantes, em objetos harmoniosos com uma função específica
utilizados no passado, pertencentes ao
quotidiano das gentes diversas que viveram no território. A tarefa deixava-a orgulhosa da riqueza histórica do seu concelho,
mas exigia-lhe demasiado de si causando danos nos seus relacionamentos, roubando-lhe
o pouco tempo livre de que dispunha. Era frequente passar horas pela noite
dentro com um frontal na cabeça observando os minúsculos fragmentos como se
fossem peças de joias raras, avaliando a função e o espaço que ocupariam no objeto.
Ambrósia regressaria a casa na
companhia de Omar Khayyam. Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros
e passado na ermida de santa Quitéria, a
ver paisagens, pondo os pontos nos is, analisando o seu relacionamento. Talvez agora se pudessem reconciliar. Ele
mostrou-se paciente e carinhoso com ela, o que não era habitual.
Omar era bruto e insensível,
dizia coisas que a feriam muito, de forma arrogante usando palavras caras como
se ela as não percebesse, magoando-a e atingindo-a ainda mais. Certo dia
disse-lhe:
- Ouvi dizer que és amasia…
Não concluiu a frase, Ambrósia tapou-lhe
a boca com a mão, fulminou-o com o olhar e sem nada dizer, pensou: como te atreves a dizer tal
coisa.
Ele leu-lhe o pensamento, baixou
os olhos arrependido. O mal estava feito.
Mais tarde, confessou-lhe que
quase chorou ao pressentir que ela o tinha deixado de amar, foi por
revolta que lhe falou grosseiramente, não tinha razão nenhuma. Era um parvo. O
relacionamento melhorou.
Ambrósia nesse dia andava bem
disposta, animada com os visitantes e voltaria a estar com Omar esquecendo o trabalho,
mais recetiva a amar.
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| Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros |











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