domingo, 3 de maio de 2026

Campo das Carvalheiras

 

Cheguei a casa,  apanhei a minha mulher na cama com outro Homem. Não quis acreditar, esfreguei os olhos uma e outra vez, fiquei sem reagir, sem saber o que dizer ou fazer. A pensar que  estava  a sonhar, a ver mal, ou que não era o que que parecia. Uma ideia  ridícula veio-me à cabeça, talvez fosse um médico que lhe estava a ministrar um tratamento qualquer.  

Os dois estavam debaixo do lençol com a cabeça de fora, calados a olhar  para mim de respiração suspensa, em pânico, apanhados com a boca na botija. Eu, especado e estupefacto,   incrédulo a olhar para eles.  O meu coração latejava violentamente.

Como era possível? Quem é o tipo e como se conheceram?

Jamais na vida imaginei que um dia apanharia a minha mulher na cama com outro homem, isso só acontecia nos filmes ou nos casais decadentes. Nós éramos um casal respeitável, era impensável tal ocorrência  entre nós.   No meu cérebro começaram a fervilhar pensamentos,  bombas prestes a explodir: a santinha, a mulher que frequenta as missas na sé de Braga, a maior beata da cidade, puritana, religiosa como nenhuma outra,     se não me tivesse conhecido seria freira; raramente  fazia sexo comigo;  que eu julgava assexuada e incapaz de me ser infiel… estava na cama com outro homem. Nus, os dois.

Quis ter a certeza. Num ímpeto súbito de raiva aproximei-me deles, puxei violentamente  o lençol e a colcha  para mim. Os dois agarraram  as mantas  com toda a força,  pareciam  dois náufragos a segurarem-se aos últimos destroços de um navio prestes a afundar. De que lhes adiantava isso? O que pretendiam esconder? Arranjariam uma  desculpa qualquer, iludindo-me e mentindo, dizendo que não era o que eu estava a pensar? Ou seria apenas uma reação de pudor e vergonha?

Arranquei o lençol,  expus  toda a sua nudez. A minha esposa encolheu-se tapando a púbis e os seios com as duas mãos, tal e qual a vénus de Botticelli,  num gesto inato de embaraço. Ele tentou alcançar as cuecas debaixo  da cama. Ao pé da cabeceira estavam outras peças de roupa e a gravata, atiradas à pressa para o chão durante os preliminares em que se devem ter beijado sofregamente.  O tipo usava gravata. Devia ser um bancário  das redondezas, um empresáriozeco! Então é disso  que a minha mulher gosta? Homens de gravata,  barbeados, totós perfumados e aprumados. Tinha-me esquecido de como na família dela são comuns os  homens de  blazer e gravata francesa, bem vestidos e elegantes,  de aspeto formal.

Eu vivia seguro da minha conquista, acreditava piamente que ela seria incapaz de se envolver ou de se  apaixonar por outro homem. Conservadora, beata, religiosa, aceitando mal o divórcio das amigas, empertigando-se com as minhas observações de que o divórcio pode ser a melhor solução, que o casamento não tem de  ser para o resto da vida como no tempo dos nossos pais, e que não havendo amor não faz sentido continuar em união. Ideias modernas e progressistas que defendo mas não pratico.   

Subitamente, tomei  consciência de que ela algures deixou de gostar de mim, fartou-se da nossa vida em comum e do tédio em que  ela há muito se havia tornado. O tipo fisicamente era o oposto de mim: sempre fui descuidado  com o meu aspeto; ele, pelo contrário,  parecia vestir-se bem, tinha a pele limpa e brilhante de alguém que gosta de cuidar de si.   Senti-me  humilhado e imundo ao comparar-me a ele. A minha filosofia de desvalorizar as aparências em detrimento da riqueza interior, o que quer que isso signifique,   ruiu por terra.

A minha vida levou um abanou naquele momento. Um tremor de terra violentíssimo!  Tudo em que acreditava deixou de fazer sentido, tornou-se mentira. Fiquei desorientado,  comecei a agir como um macho ferido na sua honra. A ira aumentou desmesuradamente, tornei-me num touro enraivecido e descontrolado.

Peguei na roupa do tipo, atirei-a pela janela. Fiz o mesmo à roupa da minha mulher, abri o guarda-fatos com estrondo,  atirei os cabides com as peças de roupa pela janela do 1.º andar para os paralelos do passeio do largo. Ela agarrou-se a mim, segurou-me os braços. Fez tudo para evitar o escândalo. Meteu-se na minha frente, impedindo-me de atirar mais roupa.  

- Para. Para. Não faças isso, por favor, para! – gritava.

Quanto mais falava e se agarrava a mim, mais surdo eu ficava. Sentia o seu corpo nu a contorcer – se, segurando-me em vão.

O totó do amante olhava boquiaberto sem poder vestir a sua roupa.   Parecia indeciso e receoso de qualquer gesto que me perturbasse ainda mais. Imaginou bem  o que eu era capaz de fazer: afinal, acabava de ser apanhado em flagrante delito pelo cornudo do marido. Um marido encornado é capaz de tudo. Eu podia matá-lo e  desventrá-lo se tivesse uma arma branca. Foi   sensato, não fez nada. A  amante debatia-se com os meus braços e ímpeto de raiva crescente.

-Para, por favor, estás louco! Acalma-te, vamos conversar. Não adianta fazeres isso. Não faças escândalo,  por favor. Olha os vizinhos…

- Sua cabra, sua puta. Como foste capaz? Não acredito que me fizeste isto!  Por detrás desse teu ar de santinha  … as santinhas são as piores – eu começava a ofegar, a espumar da boca, quase a chorar, desvairado. - Sua grandessíssima vaca. Cabrona de merda. Puta traiçoeira. Não sei o que te faço. Foda-se! Caralho, FODA-SE! - os meus berros coléricos ecoavam no apartamento. A vizinhança devia estar a par da briga familiar,  e apreensiva. Uma situação de violência doméstica, talvez chamassem a polícia.

Eu estava descontrolado, esvaziara o armário, tinha de fazer mais disparates, de vincar bem a minha revolta e reprovação. Não é todos os dias que se apanha a mulher na cama com outro.  

O totó entrou na casa de banho,  tapou a nudez com a toalha. Era pequena. Vi-o de costas a tentar esgueirar-se sorrateiramente pela porta,  com o rabo à mostra. Fiquei mais furioso ao perceber que ela me desviava a atenção para ele se escapulir do quarto.  Esbofeteei-a na cara num impulso  descontrolado, ela reagiu e também me esbofeteou com toda a força.  Pela primeira vez na vida,  agredíamo-nos um ao outro. Saltei para o tipo, arranquei-lhe  a toalha do corpo, atirei-a pela janela. Ele interpôs-se entre nós. Finalmente, falou, apontou-me o dedo à cara:

- Você é um cobarde, não devia  bater numa mulher.

- Quem é você para me dar lições de moral? Seu filho da puta, seu cabrão de merda que anda a foder a mulher dos outros.

Atirei-me a ele aos murros e pontapés. Apertei-lhe o pescoço, derrubei-o ao chão,  tentei estrangulá-lo. A mulher pendurou-se nas minhas costas, puxou-me para trás, senti os músculos tensos do  corpo nu a puxar-me os ombros; as pernas transpiradas a apertarem-me o pescoço, desequilibrando-me. Caí desamparado, os dois puseram-se imediatamente em cima de mim,  segurando os estertores da minha raiva. Prenderam-me  os braços e as pernas, um em cada ponta.  Ele acocorou-se com todo o peso do seu corpo em cima da minha caixa torácica,   segurando com os dois braços a minha cabeça e braços. Ela a prender-me as pernas,  deitada sobre elas, agarrando-as com toda a força dos seus dois braços. Eu fiquei extenuado de gritar e lutar, latejava esvaido de energia para me sobrepor a eles, a arfar vencido.

Cuspi-lhe na cara, com as forças que me restavam. Levei um soco e não me lembro de mais nada. Desmaiei.

Quando voltei a mim,  eles tinham desaparecido, os lençóis estavam espalhados no chão e a cama desfeita. Levantei-me dorido, apoiando-me no colchão, com os músculos entorpecidos.  Tinha levado uma valente sova. Olhei-me ao espelho, a cara estava pisada. Deitei-me na cama, confuso,  a pensar na vida. Entretanto,  anoitecera.

A sombra dos plátanos refletia-se nos vidros encadeados pelo luar.  Parecia  impossível ter ocorrido aquela cena vergonhosa  numa noite tão serena e silenciosa.  Lembrei-me do que atirara pela janela, espreitei lá para fora. As peças de roupa tinham sido recolhidas.  Um jovem fumava calmamente um cigarro sentado nos degraus do crucifixo. A vizinhança não dava sinais de si. Parecia que todos tinham abandonado  o largo, indiferentes ao meu drama.

Fiquei quieto muito tempo, a refazer os acontecimentos. Só me apetecia chorar,  chorar muito. Eu merecia chorar como uma criança. Talvez as lágrimas me dessem algum consolo. Estava letárgico, incapaz de assimilar o que aconteceu. Recordei a infância, teci o fio dos  encontros e coincidências  que me levaram a conhecer Inês, procurei uma inocência perdida nas memórias do passado e entender o que falhou. Sentia-me infeliz e vazio. O que falhou?

Finalmente comecei a chorar, afaguei  as lágrimas e os soluços nos mesmos lençóis que envolveram os dois amantes no amor adúltero. Senti o cheiro perfumado da minha mulher. Não me repugnaram  os lençóis humedecidos na intensidade do amplexo. Terá sido muito intenso? Quantas vezes tive uma relação intensa com  Inês?

Sei que nunca fui um bom amante com ela. Eu contentava-me com pouco e ela, aparentemente, também. Oh, descobri da pior forma possível,  como estava enganado!

 

Imaginei Inês nua na cama a fazer amor com o fulano. A cabra! Grandessíssima cabra! Desfez tudo em que eu acreditava. Nunca imaginei, sempre pensei que se algum de nós fosse infiel seria eu.  Comecei a ver Inês de uma forma muito diferente do que antes,  julguei-me um lorpa imbecil, o assexuado agora era eu. O desinteresse que ela mostrava pelo sexo talvez não se devesse a ela, mas a mim. A revelação da sua infidelidade tornou-a subitamente mais sensual e atraente, excitei-me a pensar nela. Um prazer erótico invadiu-me os sentidos. Desejei fodê-la endiabradamente. Bati uma punheta. A raiva contida libertou-se de mim, fiquei  aliviado.

Depois disso,  uma enorme solidão apoderou-se de mim. De manhã,  esclareceria a situação, ligaria a Inês. Era  capaz de perdoar e voltar a amá-la. Prometi a mim mesmo.

A noite estava quente,  revolvi-me nos lençóis. Aconcheguei o pénis na palma da mão, senti o esperma ressequido. Mexi nele suavemente, adormeci de barriga para o ar.

Suportei mal a solidão da noite. A ideia de passar a dormir sozinho atormentou-me em demasia. Habituei-me à sua companhia silenciosa, ao meu lado na cama, com ou sem sexo.

Onde teria passado a noite? Os ciúmes a  imaginá-la na cama do amante foram dilacerantes. Os dois amando-se novamente, fazendo planos para depois do que aconteceu. Cúmplices. Não podiam mais esconder a relação de ambos. O que iria ela fazer? Era-me insuportável a ideia de vê-los juntos, de a ver seguir uma vida independente da minha, a ser amada como nunca a amei;  e eu sozinho, perdido, à procura do amor. Inês estava em vantagem sobre mim. A mulher que eu julgava obediente e submissa, revelara-se uma pessoa totalmente diferente. Ousada, capaz de seduzir e de ter um amante.

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