sábado, 18 de abril de 2026

Casa-Museu de Camilo Castelo Branco

 


Camilo media apenas um metro e cinquenta e oito. É um dado algo difícil de acreditar num homem que facilmente se envolvia em pancadaria e respondia aos insultos desafiando  para duelos,  timbre dos românticos do século XIX. Devia ser alvo de chacota frequente por ser baixinho  e  por ter na cara marcas das bexigas que o desfeavam: “cara de areia mijada”, chamaram-lhe certo dia as peixeiras da Póvoa,  local onde passava temporadas em banhos e esbanjava dinheiro no casino, como jogador compulsivo que era.

Parece que tudo na vida de Camilo foi desmesurado e excessivo: os amores, a inquietude, os acontecimentos  pícaros em que se envolveu desde muito jovem, começando no seu casamento aos 16 anos em Trás-os-Montes, onde vivia com familiares próximos, por ter ficado órfão de pai e mãe.

A sua última companheira foi Ana Plácido;  portuense, nascida na rua do Almada. Casada com um próspero comerciante, Pinheiro Alves, que intentou um processo contra eles por adultério.  Os amores ilegítimos causaram escândalo na cidade, o casal adúltero esteve preso na cadeia da relação a aguardar  julgamento. Nesse período, Camilo não se coibiu de provocar os portuenses,  usufruía de alguma liberdade,  saía  para a rua,  era visto a passear e a montar a cavalo. Certo dia, subiu a rua de Santo António (atual  31 de janeiro), comprou botins para a companheira, levou-os na mão,  desembrulhados e sem caixa, à vista de todos, chocando ainda mais a zelosa e conservadora sociedade portuense.  

Os botins, a mesa e o banco em que se sentava a escrever, são alguns dos objetos  originais que se encontram na casa museu. Como pessoa de estatura muito baixa, o seu banco era bastante alto,  para chegar à mesa e apanhar a luz que entrava pela janela lateral virada a norte. É estranho imaginar este gigante, este escritor brutal, a escrever com as pernas suspensas no ar, lembrando uma pequena criança que não chega com os pés ao chão. Escrevia de pé, muitas vezes. Do lado oposto, sentava-se Ana Plácido, que nos últimos anos - Camilo ficou quase cego -  lhe lia e  copiava textos ditados por ele. O candeeiro de azeite, de três pavios e abafadores de chama,  iluminava-lhes as noites à secretária, é o mesmo.

A vitrine da biblioteca conserva dezenas de livros originais pertencentes a Camilo – foram mais de três mil – de capa dura e pequenos papelinhos a sobressaírem das páginas, anotações que fazia em todos eles. Era da sua predileção uma História de Portugal, em 13 volumes.

O relógio de parede, descrito rebuscada e exageradamente no romance “Eusébio Macário”,  numa aposta que fez com Ana Plácido de que também era capaz de escrever ao estilo realista, está como novo, em funcionamento. Ouvem-se as cordas e o deslocamento dos ponteiros, o  batimento metálico das horas.

Na sala de estar,  a cadeira de baloiço – a mesma utilizada por Manuel de Oliveira no filme sobre os últimos dias de CCB:  “O Dia do Desespero” - na qual se suicidou com um tiro no ouvido  e a marquesa onde o deitaram e acabaria por morrer.  A equipa de filmagens doou ao museu alguns figurinos do filme,  vestidos compridos, rendados de cores berrantes, pendurados no roupeiro de Ana Plácido.  

Retratos de época, a preto-e-branco, de Manuel, filho de Ana Plácido e Pinheiro Alves, herdeiro da quinta de Seide (Pinheiro Alves desconfiava que podia ser filho de Camilo), cuja herança transitou para  a mãe,  devido ao seu falecimento prematuro, aos dezanove anos.    E dos filhos de Camilo e Ana Plácido, Jorge e Nuno. Jorge tinha problemas psiquiátricos graves:  era “louco”, palavra do próprio Camilo, que o levaram a internamentos no Porto e a ser acompanhado pelo grande amigo do escritor,  o médico Ricardo Jorge. Nuno,  foi um estroina tresloucado e, tal como o pai, um viciado compulsivo pelo jogo. Casou com a filha de um brasileiro rico e teve uma filha desse casamento. Ambas morreram muito cedo. Herdou a fortuna, que desbaratou rapidamente no jogo e numa vida devassa. Casou em segundas núpcias com uma lavradeira de Seide, de quem teve sete filhos. Morreu aos trinta e dois anos, num chalet do outro lado da rua.  É deste filho a descendência atual de Castelos - Brancos.

No quarto de Camilo,  a cadeira de verga tem o entrançado rompido: como é possível neste museu tão cuidado  uma cadeira neste estado? É assim mesmo, diz-nos a guia,  tal e qual como ele a usava. O escritor tinha uma ferida nas costas; assim, sentava-se sem a encostar na madeira evitando dores maiores.

Os 68 cacifos na receção do museu têm, cada um, o nome de uma obra do escritor, ordenadas cronologicamente até ao seu último livro,  escrito pouco antes de se suicidar em 1890, premonitoriamente intitulado: “Nas Trevas”.

E a visita continuou fora da quinta, vendo os jardins cuidados, a cameleira,  a “árvore do Jorge” – um rebento da árvore original plantada pelo filho após a morte do pai. A sul, o monte Córdova, que serviu de inspiração ao escritor no romance “A bruxa do monte Córdoba” e em muitos outros  nos quais descreveu prodigamente as  paisagens e as gentes minhotas, e  onde fica o santuário de Nossa Senhora da Assunção, que ele ainda queria visitar nesse dia,  de passagem por Santo Tirso.

Ouviam-se os altifalantes com música do Quim Barreiros. Iria decorrer em breve um arraial qualquer, que não lhe suscitou  curiosidade.  Passeou pelo largo da junta de freguesia, o Centro de Estudos Camilianos, projetado por Siza Vieira, encontrava-se aberto. Não estava com vontade de continuar a embrenhar-se no universo Camiliano, viu ainda as indicações de um percurso pedestre, um roteiro Camiliano: “o Trilho da Congosta do Estevão”, inventado com o intuito de revisitar ambientes e personagens da época,  por ruelas empedradas e de terra,  ao longo de moinhos,  ribeiras e vivendas rústicas. Ficaria para outra ocasião, com mais tempo.

Seguiu em direção a Santo Tirso, de gula aguçada. Pararia na casa Moura para comprar Jesuítas - uma tentação! Provavelmente, a par dos pasteis do Tentúgal, dos melhores doces de  Portugal. “Já acabaram, hoje foi uma loucura”, disse-lhe o empregado de mesa.





O monte Córdoba, do quarto de Camilo


Sem comentários: