Camilo media apenas um metro e
cinquenta e oito. É um dado algo difícil de acreditar num homem que facilmente
se envolvia em pancadaria e respondia aos insultos desafiando para duelos,
timbre dos românticos do século XIX. Devia ser alvo de chacota frequente
por ser baixinho e por ter na cara marcas das bexigas que o
desfeavam: “cara de areia mijada”, chamaram-lhe certo dia as peixeiras da
Póvoa, local onde passava temporadas em
banhos e esbanjava dinheiro no casino, como jogador compulsivo que era.
Parece que tudo na vida de Camilo
foi desmesurado e excessivo: os amores, a inquietude, os acontecimentos pícaros em que se envolveu desde muito jovem, começando
no seu casamento aos 16 anos em Trás-os-Montes, onde vivia com familiares
próximos, por ter ficado órfão de pai e mãe.
A sua última companheira foi Ana
Plácido; portuense, nascida na rua do
Almada. Casada com um próspero comerciante, Pinheiro Alves, que intentou um
processo contra eles por adultério. Os
amores ilegítimos causaram escândalo na cidade, o casal adúltero esteve preso
na cadeia da relação a aguardar julgamento.
Nesse período, Camilo não se coibiu de provocar os portuenses, usufruía de alguma liberdade, saía para a rua, era visto a passear e a montar a cavalo. Certo
dia, subiu a rua de Santo António (atual
31 de janeiro), comprou botins para a companheira, levou-os na mão, desembrulhados e sem caixa, à vista de todos,
chocando ainda mais a zelosa e conservadora sociedade portuense.
Os botins, a mesa e o banco em
que se sentava a escrever, são alguns dos objetos originais que se encontram na casa museu. Como
pessoa de estatura muito baixa, o seu banco era bastante alto, para chegar à mesa e apanhar a luz que entrava
pela janela lateral virada a norte. É estranho imaginar este gigante, este
escritor brutal, a escrever com as pernas suspensas no ar, lembrando uma
pequena criança que não chega com os pés ao chão. Escrevia de pé, muitas vezes. Do
lado oposto, sentava-se Ana Plácido, que nos últimos anos - Camilo ficou quase
cego - lhe lia e copiava textos ditados por ele. O candeeiro de
azeite, de três pavios e abafadores de chama, iluminava-lhes as noites à secretária, é o
mesmo.
A vitrine da biblioteca conserva
dezenas de livros originais pertencentes a Camilo – foram mais de três mil – de
capa dura e pequenos papelinhos a sobressaírem das páginas, anotações que fazia
em todos eles. Era da sua predileção uma História de Portugal, em 13 volumes.
O relógio de parede, descrito
rebuscada e exageradamente no romance “Eusébio Macário”, numa aposta que fez com Ana Plácido de que
também era capaz de escrever ao estilo realista, está como novo, em
funcionamento. Ouvem-se as cordas e o deslocamento dos ponteiros, o batimento metálico das horas.
Na sala de estar, a cadeira de baloiço – a mesma utilizada por
Manuel de Oliveira no filme sobre os últimos dias de CCB: “O Dia do Desespero” - na qual se suicidou com um
tiro no ouvido e a marquesa onde o
deitaram e acabaria por morrer. A equipa
de filmagens doou ao museu alguns figurinos do filme, vestidos compridos, rendados de cores
berrantes, pendurados no roupeiro de Ana Plácido.
Retratos de época, a
preto-e-branco, de Manuel, filho de Ana Plácido e Pinheiro Alves, herdeiro da
quinta de Seide (Pinheiro Alves desconfiava que podia ser filho de Camilo),
cuja herança transitou para a mãe, devido ao seu falecimento prematuro, aos dezanove anos. E dos
filhos de Camilo e Ana Plácido, Jorge e Nuno. Jorge tinha problemas
psiquiátricos graves: era “louco”,
palavra do próprio Camilo, que o levaram a internamentos no Porto e a ser
acompanhado pelo grande amigo do escritor, o médico Ricardo Jorge. Nuno, foi um estroina tresloucado e, tal como o pai,
um viciado compulsivo pelo jogo. Casou com a filha de um brasileiro rico e teve
uma filha desse casamento. Ambas morreram muito cedo. Herdou a fortuna, que
desbaratou rapidamente no jogo e numa vida devassa. Casou em segundas núpcias
com uma lavradeira de Seide, de quem teve sete filhos. Morreu aos trinta e dois
anos, num chalet do outro lado da rua. É deste filho a descendência atual de Castelos
- Brancos.
No quarto de Camilo, a cadeira de verga tem o entrançado rompido:
como é possível neste museu tão cuidado uma
cadeira neste estado? É assim mesmo, diz-nos a guia, tal e qual como ele a usava. O escritor tinha
uma ferida nas costas; assim, sentava-se sem a encostar na madeira evitando
dores maiores.
Os 68 cacifos na receção do museu
têm, cada um, o nome de uma obra do escritor, ordenadas cronologicamente até ao
seu último livro, escrito pouco antes de
se suicidar em 1890, premonitoriamente intitulado: “Nas Trevas”.
E a visita continuou fora da
quinta, vendo os jardins cuidados, a cameleira, a “árvore do Jorge” – um rebento da árvore
original plantada pelo filho após a morte do pai. A sul, o monte Córdova, que
serviu de inspiração ao escritor no romance “A bruxa do monte Córdoba” e em
muitos outros nos quais descreveu
prodigamente as paisagens e as gentes
minhotas, e onde fica o santuário de
Nossa Senhora da Assunção, que ele ainda queria visitar nesse dia, de passagem por Santo Tirso.
Ouviam-se os altifalantes com
música do Quim Barreiros. Iria decorrer em breve um arraial qualquer, que não lhe
suscitou curiosidade. Passeou pelo largo da junta de freguesia, o
Centro de Estudos Camilianos, projetado por Siza Vieira, encontrava-se aberto. Não
estava com vontade de continuar a embrenhar-se no universo Camiliano, viu ainda
as indicações de um percurso pedestre, um roteiro Camiliano: “o Trilho da
Congosta do Estevão”, inventado com o intuito de revisitar ambientes e
personagens da época, por ruelas empedradas
e de terra, ao longo de moinhos, ribeiras e vivendas rústicas. Ficaria para
outra ocasião, com mais tempo.
Seguiu em direção a Santo Tirso, de
gula aguçada. Pararia na casa Moura para comprar Jesuítas - uma tentação! Provavelmente, a par dos pasteis do Tentúgal, dos melhores doces de Portugal. “Já acabaram, hoje foi uma loucura”,
disse-lhe o empregado de mesa.
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| O monte Córdoba, do quarto de Camilo |






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