sábado, 10 de outubro de 2026

Serra do Marão

 


Descíamos o estradão de terra e ouvíamos o rebanho no fundo da encosta. Os cães de fila, pressentindo a aproximação de estranhos, destacaram-se das ovelhas e começaram a ladrar ameaçadoramente. Intuitivamente, tomámos uma atitude defensiva: agrupámo-nos,  seis homens,  alguns  bastões de caminhada e mãos para pegar em pedras e lançá-las contra eles. Seguimos em frente,  estava fora de questão voltar para trás. Os cães correram na nossa direção a ladrar, a saltar, a farejar os humanos que se aproximavam do seu rebanho, com o instinto protetor à flor …do pelo.

Eu fiquei atrás do grupo, acobardado. Os homens da frente, mais possantes do que eu, assumiram o risco.

- Olá lindos! – disseram eles. Acocoraram-se e deram as mãos a cheirar.

Nisto, os cães começaram a rebolar no chão, a pedir mimos, a saltar para as costas dos colegas, a lamber as mãos e a dar ao rabo com a língua de fora, de contentamento. Felizes por encontrar quem lhes desse festinhas. Vieram reconhecer os outros elementos do grupo, voltaram a farejar mais  mãos e encostaram- se desavergonhadamente às suas pernas, a pedir  mais mimo. Andaram no nosso meio a saltitar enquanto caminhávamos e nos aproximávamos do rebanho. Demos-lhes água do garrafão de 5 litros.

Tirámos fotografias, a eles e às cabras. Enquanto filmava os animais  um dos cães olhou-me curioso: julgaria ele que o telemóvel – um objeto estranho – era uma ameaça ao rebanho? Morder-me-ia a mão? Afinal, só queria mais umas festinhas.

Da mesma forma que subitamente se envolveram connosco, também, com a mesma rapidez, deixaram de nos seguir assim que ultrapassámos as cabras.

Tínhamos falado, ao longo do trilho, de sustos apanhados em caminhadas. Um deles envolvia cães:

- Uma vez, uma matilha cercou-me, querendo-me morder. Como eram  cãezitos pequenos, tentei pontapeá-los e eles afastaram-se.

- Comigo foram bois. Eu estava sozinho na serra da Freita, o trilho era estreito e não tinha mais por onde ir. Eles pastavam à minha frente, por isso tive de voltar para trás.

A caminhada havia começado na aldeia de Mafômedes, concelho de Baião. Vinte e cinco quilómetros pela cumeeira do Marão, quase sempre por caminhos de estradão de terra, encostas despidas e aerogeradores. Um trilho agreste, seco e difícil, com subidas muito acentuadas em que o batimento cardíaco andou próximo das 180 pulsações por minuto. E nem estava muito calor, o que teria sido demasiado violento. Tudo isto foi compensado, no entanto,  pelas vistas desafogadas de Trás-os-Montes  e do Douro Litoral, que víamos ora de um lado da encosta, ora do outro; pelas redondezas da ermida da Senhora da Serra - o ponto mais alto do Marão, 1416 metros de altitude -, onde encontrámos resquícios de uma floresta tradicional de pinheiros; e pelos vales verdejantes que vimos encaixados no sopé da montanha.

No fim, apesar da fadiga,  ficou a alegria de ter conhecido mais uma serra de Portugal e de ter chegado ao fim. Houve momentos  em que pensei que não ia conseguir, algo que nunca me aconteceu, mas, como se costuma dizer, há sempre uma primeira vez para tudo. Felizmente, ainda não foi esta a primeira vez.  Descobri que há uma estrada para a Senhora da Serra e que é possível lá chegar de carro. Talvez numa próxima faça isso.

Aldeia de Mafômedes, Baião








Senhora da Serra










sábado, 3 de outubro de 2026

Pelo Douro e Tâmega

 


Afinal, existe um baloiço com vista sobre o rio Douro. O que não valem umas placas nas estradas, colocadas no sítio certo, visíveis aos automóveis que passam!

Subimos a vereda despida, rodeados de alguns eucaliptos queimados, de sobreiros que resistiram ao último incêndio e de medronheiros – essa árvore maravilhosa que desponta viçosa depois dos fogos. Como não gostar destas árvores mediterrânicas e resistentes, que quebram a monotonia da terra queimada?

Do miradouro ao baloiço é um tirinho  de 440 metros, por uma ladeira despida e íngreme, com muito cascalho e arestas cortantes de xisto. Sempre com o imponente rio Douro como cenário e as suas encostas verdejantes a  descerem até rasarem a água, da mesma cor.

Não ficamos por ali: o passeio seguiu  pelas margens do Douro até Alpendorada e Matos – com a interrupção do almoço na Ponte da Pedra. Continuamos depois, seguindo a Rota do Românico. Paramos no mosteiro de Vila Boa do Bispo.

Encontramos o largo vazio e o mosteiro fechado. À nossa volta,  silêncio. A casa antiga e senhorial, de fachada solarenga,  estava de janelas abertas deixando o sol tépido  da tarde entrar.   A sombra dos sobreiros estendia-se sobre a ruela e os  muros de granito desciam até à margem do rio Tâmega.

Foi quando a Joana começou a desabafar, igual a si própria.

- É o que dá investir em estádios de futebol e autoestradas, depois, estes sítios, maravilhosos e espetaculares,  ficam vazios e abandonados. Não se investiu na recuperação do património. Repara bem! É um mosteiro românico,  tem  jazigos medievais,  uma longa história, interesse arquitetónico e cultural,  e está  fechado num sábado à tarde.  Podia haver um museu, hotel e esplanadas  nestes palacetes e não vês ninguém. É um abandono.  Só estamos nós os dois aqui.

- Não faz mal estarmos só nós os dois,  até gosto assim …– rodeei-lhe  a anca com o braço e beijei-a suavemente nos lábios. 

 Sentámo-nos nos degraus do coreto. Joana continuou indiferente às minhas carícias. Passou a falar de futebol, parecia uma mistura de Mafalda, do Quino, e de comentadora  desportiva, tipo  Matilde Fidalgo:

- É um país triste. Estou  farta de ouvir que o Cristiano Ronaldo é um símbolo de Portugal. Cambada de idiotas, como o futebol ilude um povo! O que interessa isso? É um ídolo passageiro. Não ouço ninguém falar que temos de recuperar o património, dar-lhe vida, habitá-lo. Fartas-te de ver casas tradicionais devolutas, estradas romanas esquecidas, pontes  e igrejas centenárias a cair aos bocados… Isso sim,  são símbolos de Portugal, fazem parte  da nossa história, são memórias de  outras épocas e que, se recuperados e valorizados,  fariam de Portugal um país bem mais bonito e interessante. Podíamos ser como a Suíça, mas contentámo-nos em ser medíocres. 

Eu olhava para ela, desligado do que dizia. Estava concentrado nos seus pequenos lábios,  que se moviam nervosos. Enquanto falava,  abria e fechava as pálpebras dos olhos com a cara fixa na fachada do mosteiro, do outro lado do terreiro. Como fica sexy quando se enerva! Voltei a cingi-la nos braços;  voltou a ignorar-me, compenetrada que estava no seu discurso.

Levantámo-nos, entrámos no carro e fizemos a última visita do dia, ao Santuário do Menino Jesus de Praga.

- Se o santuário fica em Marco de Canaveses, por que motivo se chama do menino jesus de Praga? – perguntei, desviando o assunto do futebol e do que deve ser considerado ou não um símbolo nacional.

Joana não me soube responder. Ela é definitivamente mais entendida em futebol e história de Portugal do que em religião. Entrámos para ver o interior.

- Que altar original! Aquele deve ser o menino jesus de Praga – disse eu, apontado para a estatueta de um menino com uma bata branca.  

- Pois é, pois é… - respondeu Joana,  mais entusiasmada e já esquecida das misérias do país. – Lembro-me de uma tia minha que foi a Praga e ofereceu à minha mãe uma miniatura de um santinho igualzinho àquele.  

Três fiéis rezavam ajoelhados  de frente para o altar. A decoração sóbria do interior e o silêncio austero da nave tornavam o local  mais circunspeto e rigoroso, contrastando com a inocência que o Menino  Jesus de Praga transmitia.

Arrepiei-me ao pensar que, sob a quietude da igreja,  se perpetraram muitos abusos  contra vítimas indefesas. Uma instituição poderosa  em que se entrava  em silêncio e de  onde se saia subjugado a um poder estranho e discricionário,  onde não havia alegria.

Um padre vindo da sacristia sentou-se discretamente no confessionário. Um dos fiéis levantou-se do genuflexório e ajoelhou-se junto dele. O confessor fez uma oração e começou a ouvir a sua confissão. As vozes ciciadas faziam eco e ouvia-se o que diziam. Se eu fosse um ser perverso teria ficado a escutar, deleitado,  a confissão de um homem e  a doutrinação do sacerdote. Mas saímos imediatamente. Respirámos  a atmosfera descongestionada e livre do exterior. 

Voltei a cingir Joana nos meus braços.


















sábado, 26 de setembro de 2026

Ribeiros

 


Deixo aqui o texto de um amigo, que ele me enviou pelo WhatsApp. Talvez a polícia, os seus familiares e amigos possam obter pistas que ajudem a localizá-lo e contribuam para entender o seu estado mental nos dias anteriores ao  seu desaparecimento. Que quereria ele dizer com tudo isto?  Seria um pedido de ajuda? É um enigma.

 Não foi sem nervosismo que abri a mensagem e li:

Escrevo diretamente no PC e no telemóvel,  em vez de o  fazer em papel, de usar  lápis e caneta. Seria mais intuitivo, orgânico e estimularia as sinapses cerebrais, havendo uma relação física entre a mão e o cérebro. Desta forma, limito-me a pressionar uns caracteres no teclado, que aparecem no monitor a emitir  uma luz  artificial, cansando os olhos e a mente. De noite, os estímulos visuais e a exposição a uma ferramenta eletrónica durante as horas em que devia estar na cama, a dormir, provocam-me insónias e, nos curtos momentos em que passo pelas brasas, agito-me e tenho pesadelos. Sofro de uma inconstância  mental, de súbitas faltas de memória, palavras  básicas que esqueço, nomes de pessoas conhecidas que me não ocorrem no momento. Debato-me entre a realidade e a ficção, entre o escrever e o não escrever

Lentamente, vou perdendo o contacto com a realidade. Vivo num mundo ilusório, inventado por mim, construído com remendos de histórias de pessoas que conheço,  de sonhos e de vidas imaginárias que povoam os meus pensamentos.

A realidade vai-se esvair como areia entre os dedos, até chegar a um ponto em que  deixo de ser Eu e a demência passa a ser  a norma.

Ouço histórias reais, conheço casos cruéis e,  nesses momentos,  sinto-me mais entrosado com a  vida. Tudo se torna mais nítido e as desgraças alheias  alimentam-me como a um parasita,  para sobreviver.

 Anexadas à sua mensagem  vinham fotografias tiradas em locais fáceis de identificar, no concelho de Fafe,  concluindo-se que ele estivera a trabalhar  com a sua instituição de apoio social e que acompanhara, como habitualmente, os jovens com trissomia 21, autismos e outras síndromes profundas.

Depois disso, desapareceu a ainda não foi encontrado.