segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Auschwitz - Birkenau

 


O filme "Zona de Interesse", de Jonathan Glazer, retrata a vida doméstica de Rudolf Höss, enquanto comandante do campo de concentração de Auschwitz. Vive com a esposa e os cinco filhos numa bela vivenda com piscina, ao lado do campo. É um homem de família extremoso, demonstra frequentes  gestos de afeto com a  mulher e as crianças. Convida para as festas de aniversário outras crianças, amigos dos filhos, e famílias de oficiais nazis. Os homens falam de política, dizem piadas e outras trivialidades;  as mulheres trocam receitas de cozinha, elogiam as roupas umas das outras.   Famílias normais  que convivem, trabalham e têm os seus momentos de lazer. 

Vemos Rudolf Höss concentrado no trabalho, a fazer planos, a mostrar o projeto de ampliação do campo aos oficiais, preocupado com as notícias que chegam de Berlim, de que provavelmente será transferido para um campo mais afastado. Mostra o seu desagrado à esposa, ele que sempre foi um oficial exemplar e executou todas as ordens do Führer não merecia sair dali. Trabalhou muito para ganhar o cargo e viver naquela casa espaçosa e luminosa, onde os filhos correm e brincam felizes. A mulher também não encara com bons olhos a possível transferência do marido, preocupa-a a possibilidade da família ficar separada e do marido passar a ver os filhos só aos fins de semana. 

O filme mostra a vida de Rudolf Höss até aqui. 

No período em que dirigiu o campo de Auschwitz a utilização do Zyklon B, pesticida fabricado pela empresa alemã IG Farben, testado inicialmente com prisioneiros de guerra soviéticos e polacos, passou a ser utilizado nas câmaras de gás.

Quando a Alemanha foi derrotada, Rudolf Höss andou escondido alguns meses, disfarçado de jardineiro. Foi capturado pelos Ingleses, julgado na Polónia e condenado à morte por enforcamento, em Auschwitz, com um pormenor importante:   virado para as barracas onde manteve milhares de judeus em condições sub-humanas.

Rudolf Höss era um homem de família que num momento histórico específico teve responsabilidades diretas na morte de milhares de pessoas. Alguma vez sentiu remorsos ou era um racista e burocrata inveterado? No julgamento em tribunal reconheceu, pelo menos, a magnitude dos crimes em que esteve envolvido.

Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz, questiona permanentemente o motivo de homens "normais", que sabiam o que estava a acontecer, continuarem a cumprir ordens que implicavam o extermínio de um povo. Ele corresponde-se com um químico alemão, responsável pelo laboratório de Auschwitz. O alemão pede-lhe desculpas, compreende a sua revolta, mas responde que naquela época toda a sociedade alemã estava implicada, retratando o regime nazi como um sistema totalitário  que controlava todos os aspetos da vida individual, do qual não se conseguia escapar.  É neste tom que muitos ex- oficiais e civis, que viveram sob o nazismo, justificam a sua inação contra os crimes nazis e o seu colaboracionismo: “cumpriam ordens”.

Ao ouvir a guia que acompanhou o meu grupo relembrei vários episódios de "Se isto é um Homem": A orquestra de músicos profissionais, composta também por prisioneiros judeus,  acompanhava, com marchas, a saída dos outros prisioneiros para os campos de trabalho e o seu regresso;  o rigor dos alemães nas  contagens diárias dos indivíduos, impondo a proibição  de se identificarem pelo nome próprio, somente pelo número tatuado no braço. Episódios de humilhação permanente e de desumanização.  

Está tudo documentado.

Auschwitz foi um campo de concentração, de trabalho forçado e de extermínio, no qual o capitalismo, aliado ao racismo e supremacismo mais primários, reduziu seres humanos a escravos, tratados como bestas,  para aumentar a produtividade da indústria alemã no esforço de guerra. Os trabalhadores só eram mantidos vivos enquanto eram úteis.

Os inaptos para o trabalho: crianças, idosos, mulheres grávidas, doentes, eram enviados diretamente do comboio para as câmaras de gás. Seguiam as ordens de outros  prisioneiros judeus,  selecionados pelos nazis que, sob a sua supervisão,  ordenavam que se  despissem,  dizendo-lhes que iam tomar duche;  as mães e os filhos iam  juntos  para não criar pânico. Caminhavam ordeiramente para a morte. Os  jovens e adultos saudáveis, algumas mulheres incluídas, eram poupados para trabalhar nos campos e fábricas das redondezas: as IG Farben, Krupp, Siemens. 

Estes tiveram uma morte lenta,  por exaustão -  trabalhavam 11 horas, sete dias por semana; por fome - ingeriam em média 1200 calorias por dia, quando um adulto saudável necessita de 2500; e por  torturas físicas e psicológicas.

Arbeit Macht Frei, O Trabalho Liberta, a inscrição no pórtico da entrada no campo era de uma ironia e malvadez tremenda: quem passava debaixo dele trabalharia até morrer. 

Estima-se que do milhão e trezentas mil pessoas deportadas para Auschwitz morreram um milhão e cem mil, judeus na sua esmagadora maioria.

O campo foi destinado, primeiro,  a prisioneiros soviéticos e polacos e, mais tarde, quando os alemães adotaram a "solução final", ao extermínio da comunidade judaica. Outras minorias foram enviadas para Auschwitz: prisioneiros políticos, homossexuais, ciganos, criminosos vulgares, deficientes.

Porquê construir um campo de concentração neste local? Porque tinha bons acessos ferroviários e estava no centro da Europa, podendo receber mais facilmente os judeus de muitos países. 

Os crematórios de Auschwitz revelaram-se insuficientes para incinerar milhares de corpos, muitos passaram a ser queimados ao ar livre. Os nazis resolveram construir quatro novos crematórios na localidade de Birkenau, a três quilómetros de distância. A aldeia polaca que existia no local foi arrasada,  os seus habitantes presos ou deslocados. O campo foi construído num tempo recorde por prisioneiros de Auschwitz. 

Birkenau tornou-se num campo de extermínio programado, as chaminés lançavam fumo continuamente.

A guia, Magdalena, disse que,  todos os anos,  nas cerimónias de celebração  da libertação do campo pelo exército vermelho, em  27 de janeiro de 1945, participam sobreviventes do Holocausto: no ano passado participaram  55;  este ano, já só foram 27. Há cada vez menos testemunhas vivas, vai-se perdendo a memória da sua experiência. Ficam disponíveis apenas os livros e as pinturas dos que conseguiram  registar o horror  de Auschwitz.

Vi algumas pessoas a chorar. Não chorei, ouvi silenciosamente, tirei fotografias onde era permitido.












domingo, 2 de agosto de 2026

Wieliczka

 


Estava sentado na plataforma da estação de Grzegórzeck. Chegou uma senhora alta e morena, com um casal que deviam ser seus filhos. Parecia desorientada. Pediu uma informação a uma mulher com quem se cruzou, a resposta não a convenceu porque veio ter comigo logo a seguir.
- Desculpe, sabe qual é a linha do comboio para Wieliczka, e a que horas é?
- O comboio é às 10:10 nesta linha.
- Onde posso comprar bilhete? É confuso, não encontro a bilheteira.
- Não há bilheteira, você compra o bilhete na máquina, dentro do comboio, ou ao cobrador. Não se preocupe, eu também vou para Wieliczka pela primeira vez. Siga-me.
- Está bem, faço como você diz - e depois, disse a sorrir, a meter-se comigo - se eu me perder e não chegar a Wieliczka a culpa é sua.

Apesar de estar num país estrangeiro e de só conhecer Pawel, a cara da mulher não me era estranha. Era bizarro. Estava convencido de que a conhecia de algum lado.
O comboio chegou à hora prevista e tudo funcionou como expliquei. Ela sentou-se com os filhos nos bancos atrás de mim. Falavam italiano. Subitamente lembrei-me de onde a conhecia: se não era ela, era muito parecida - Francesca Albanese, relatora da ONU para a Palestina. Também me parecia a voz dela.
Aproveitei o aperto das dezenas de pessoas que saíram do comboio, vinte minutos depois, na estação de Wieliczka Rynek - Kopalnia em direção às minas de sal para, disfarçado entre delas, observar Francesca com mais atenção, confirmar as minhas expetativas e conversar com ela: Chegamos a Wieliczka. Não me enganei. Você não tem de me culpar de nada.


Vi-a a subir a rua em direção às bilheteiras. Eu fiquei para trás, tinha Pawel à minha espera, que me cumprimentou efusivamente quando me encontrou. Nesse momento, perdi-a de vista. Resumi ao meu anfitrião a breve conversa na estação de Grzegórzeck, ele respondeu-me assim:
- Deve ter vindo a Cracóvia pedir o apoio da comunidade judaica para condenar o primeiro-ministro de Israel no TPI.
Ao longo da nossa tarde, Pawel iria revelar um sentido de humor negro e muita ironia com a política. Estávamos no início do nosso encontro, eu não sabia ainda que teria de dar um desconto grande a muito do que ele me iria dizer.
Perguntou como correu a viagem. Elogiei os comboios polacos, o conforto e a frequência de ligações entre as localidades. Ao longo da nossa tarde seria ele a elogiar o seu próprio país, muitas vezes. Nestes casos, falava a sério.
Chegámos às bilheteiras da mina. Dezenas de pessoas faziam filas separadas, de acordo com a língua da visita guiada. Fomos para a fila da visita em Inglês. Pawel, apesar de Polaco, nunca visitou a mina.
- Acho que a mina é uma armadilha turística, vês a quantidade de gente? É tudo para fazer dinheiro. É a mão invisível do capitalismo a atuar.
Fomos num grupo de 30 pessoas. Vimos galerias com esculturas de sal; câmaras com cúpulas do tamanho de catedrais, escavadas pelos mineiros ao longo de centenas de anos; candelabros de sal pendurados das abóbadas, jogos de luzes e cenografias musicadas com bonecos articulados, criando efeitos mágicos e misteriosos no interior da terra.
A guia era uma senhora baixinha, loira, perto da idade da reforma, com piada.
- Veem estes dois bonecos. Sabem quem são?
- Mineiros?
- Não.
- Vigilantes da mina?
- Não.
- Geólogos?
- Não.
Como ninguém acertava, ela deu a resposta: - São dois turistas que se perderam há muitos anos na mina. Por isso, andem sempre juntos atrás de mim.
Nas suas descrições, tendia a baixar a voz e a falar com reverência quando se referia aos mineiros:
- Pessoas extraordinárias e corajosas, artesãos magníficos. Foram eles que esculpiram todas estas obras. Eram incríveis as coisas que faziam.
A visita guiada durou hora e meia, nas últimas galerias havia restaurante, elevador panorâmico e gift shop,  onde os turistas podiam deambular por sua conta. A guia informou-nos:
- Despeço-me de vocês aqui. No entanto, só podem sair na companhia de outro guia. Desloquem-se para este local - mostrou um mapa da mina - e aguardem que ele vos leve ao elevador.
Seguimos por um longo túnel durante alguns minutos, involuntariamente começámos a caminhar depressa, quase a correr. Dezenas de pessoas apertadas em direção ao elevador, passando em diferentes portões, que a outra guia - com um fato preto lembrando o maquinista de um comboio antigo - abria e fechava, contando, muito compenetrada, o número de pessoas que passavam diante dela, mandando parar as restantes quando o número era excedido. Separou, numa dessas ocasiões, uma família.
- Deixe-me passar, estou com a minha mulher e os meus filhos - disse o turista que ficou para trás.
- Não se preocupe, já vai ter com eles.
Foi quando Pawel me disse baixinho: - parece que estamos a ser conduzidos para as câmaras de gás.
Subimos no elevador como sardinhas enlatadas, respirámos de alívio quando chegámos à superfície.

Ao contrário do prognosticado por Pawel, a tourist trap, as minas merecem claramente uma visita, independentemente de serem muito turísticas e de estarem repletas de visitantes; pela originalidade, história, grandiosidade e efeitos visuais surpreendentes que proporcionam.
Aconselhou-me visitar o Czartoryski Muzeum, para ele o melhor museu de Cracóvia e da Polónia, fora dos locais e circuitos massificados, "uma pérola que a mão invisível do capitalismo não tomou de assalto", por um preço acessível, com objetos e obras de arte magníficas.
- Amanhã vou a Auschwitz - disse eu.
- Podes visitar o museu esta tarde, se chegares cedo a Cracóvia. E amanhã vai estar muito calor para visitares Auschwitz.
- Ouvi dizer que encurtam as visitas quando está muito calor.
- Sabes porquê? Porque senão fica um forno - Pawel começou a rir sozinho, interrompendo a cidra que estava a beber para não se engasgar com o riso.  Fiquei a olhar para ele um pouco intrigado com o sentido que quis dar à frase que lhe causou tanta piada.
Passeámos no jardim João Paulo II. Vimos uma estátua que o representa de corpo inteiro, vestido  de papa.  Do outro lado do passeio, uma exposição de cartazes com fotografias desde que foi arcebispo de Cracóvia até às suas últimas aparições, sentado de cabeça caída numa cadeira de rodas. Aguardamos o fim da missa para entrar na  igreja, um quadro a óleo com a figura de João Paulo II estava num dos pilares da nave e, num dos altares, uma estatueta dele. Tenho visto referências abundantes a João Paulo II nos espaços públicos e igrejas da região.


- Sabes o que aconteceu na Polónia quando foi eleito papa em 1978? O regime comunista não queria que as pessoas fossem à rua recebê-lo. Temos um ditado que diz: quanto mais apertam um Polaco mais ele cresce. Foi o que aconteceu: nesse dia o regime suspendeu os transportes públicos para o centro de Cracóvia; insinuou que seria perigoso sair à
 rua, que haveria tentativas de desestabilização vindas do ocidente. Sabes quantas pessoas foram receber o papa? Dois milhões.


Regressei a Cracóvia no mais belo transporte de todos, o comboio. Respirei fundo, descansei. As alusões e piadas de Pawel a Auschwitz agastaram-me. Achei a sua militância política e o conhecimento de cinema e correntes artísticas polacas, de que me falou bastante, uma fanfarronice exibicionista. A conversa fortuita com a mulher que parecia Francesca Albanese foi curiosa, mas talvez não fosse ela.
Segui a recomendação de Pawel, se ele não me tivesse falado no museu provavelmente nunca o teria visitado. Ainda bem que o fez, desta vez estávamos de acordo: o Museu Czartoryski é como ele disse.



Wieliczka













Czartoryski Museum











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sexta-feira, 31 de julho de 2026

Kazimierz

 


Isabela, Isa, é guia de Free Walking Tours em Cracóvia há mais de dez anos. Apareceu com a sombrinha amarela que identifica a empresa, confirmou o meu nome na lista, aguardou a chegada de mais alguns inscritos. Às 10:30, em ponto, iniciou a visita.

Começou por dizer que, como Polaca,  gosta de se lembrar que o seu país foi o mais tolerante do mundo com a comunidade judaica, durante 400 anos, até meados do século XVIII:

"Por este motivo, viviam no país três milhões e meio de judeus antes da  segunda guerra mundial. Só um outro país europeu tinha mais judeus do que a Polónia: a Rússia. Havia uma razão para isso: o reino unido da Polónia e da Lituânia era um território vasto, onde habitavam cristãos ortodoxos, católicos, muçulmanos e judeus.  Tinha de haver obrigatoriamente tolerância entre as diferentes religiões. Com o fim da união das duas coroas,   os judeus ficaram dispersos pelos países que depois vieram a fazer parte da Rússia e da futura União Soviética.

 O bairro de Kazimierz foi fundado pelo rei Casimiro, milhares de judeus Ashkenazis foram viver nele,  fugidos dos países onde eram perseguidos.  Ocupava a área entre esta rua, a Szeroka, e a Estery. Aqui foram construídas cinco sinagogas. Esta, onde nos encontramos, é a mais velha de todas, por isso  chama-se  Sinagoga Velha".

Ouvíamos Isabela encostados ao muro da sinagoga. Uma excursão de estudantes israelitas tinha acabado de sair da praceta; na  praça, em frente,  estavam estacionados carros de polícia. Famílias de judeus ortodoxos entravam e saiam das duas sinagogas na rua Szeroka.

"Se querem conhecer a história da cidade devem fazer o tour da cidade velha, mas se querem  saber mais  sobre a segunda guerra mundial  e histórias menos faladas da perseguição aos judeus, é este o tour que têm de fazer.”

Isa falava da  história judaica de Cracóvia com sensibilidade e paixão,  parava nos locais mais  emblemáticos do  percurso.  Notava-se que nutria predileção especial pelo tema, apresentava factos menos conhecidos, confrontava os clichês de Hollywood,  do filme  "A Lista de Schindler", sobre o gueto de Cracóvia, com a realidade.

"Nunca houve uma lista de Schindler, houve sim uma série de pessoas judias que se livraram dos campos de concentração; muitas delas graças ao apoio do  farmacêutico Polaco, Tadeusz Pankiewicz. Se quiserem saber mais sobre a história do Gueto devem ler o seu livro autobiográfico, está traduzido em algumas línguas: "A Minha Vida no Gueto."

Schindler era um nazi como os outros, beneficiou de mão de obra gratuita  na sua fábrica; por outro lado,  empregou centenas de judeus, evitando a ida deles para os campos de concentração."

Passamos em locais onde foram rodadas cenas do filme.

"O filme tornou o bairro mais famoso. Até aos anos 90 foi um local perigoso e marginal,  aqui viviam as piores pessoas da cidade. O regime comunista enviava para cá criminosos cadastrados, alcoólicos, pessoas com problemas psiquiátricos. Ninguém queria visitar o bairro. Hoje é um sítio charmoso, cheio de turistas, procurado para viver e para onde regressaram muitos judeus.”

Falou do rabino Rehmu, devido à sua grande sabedoria tornou-se rabino aos 21 anos. A sinagoga onde  trabalhou toda a vida ficou com o seu nome.

 "Os nazis destruíram o cemitério, transformaram-no num aterro do lixo, mas pouparam a sua sepultura, talvez por serem supersticiosos acreditaram que podiam  ser castigados se destruíssem o jazigo de um rabino tão influente".

Um dos visitantes perguntou:  Se a Polónia foi um país tão tolerante com os judeus, por que motivo houve tantas perseguições?

"A situação dos judeus piorou muito  quando o rei Segismundo III mudou a capital de Cracóvia para Varsóvia. Houve uma resposta política à reforma protestante, a Polónia radicalizou o Catolicismo. Aumentaram as perseguições e a intolerância com os não católicos".

Isa fazia pausas enquanto nos deslocávamos pela cidade. Perguntou-me, quando atravessávamos a ponte pedonal sobre o Vístula, onde eu vivia em Portugal.

- Porto.

- Estive lá numa época terrível da minha vida, andei pela América Latina e Índia. Quando cheguei ao Porto estava tudo parado, havia greves e manifestações por todo o lado. Fui assaltada.

- Quando foi isso?

- Creio que em 2012.

- Foram os anos da troika. Portugal estava muito endividado: o governo, para receber empréstimos do FMI, teve de cortar nas despesas públicas. Muitas empresas fecharam, os salários baixaram.

- A situação melhorou em Portugal, depois disso?

Hesitei na resposta que devia dar, não quis parecer sombrio e pessimista.  Achei melhor não dar azo a outras questões, até porque Isa tinha de continuar o tour.

-Sim, melhorou.

Depois dessa breve conversa, ela voltou a assumir a sua função de guia. Sentamo-nos todos nos degraus exteriores de uma igreja no bairro de Podgorski.

 "Os Alemães gostavam muito de Cracóvia por isso não a destruíram.  Kazimierz é  próximo do centro, afastaram os judeus  para esta margem do rio e construíram o gueto para os relocar.  Chegaram a viver aqui sessenta mil judeus, duas pessoas  por metro quadrado, uma densidade populacional  só por si suficiente para criar  más condições de vida: as pessoas mal cabiam dentro dele".

A visita guiada estava a chegar ao fim, dirigimo-nos para o último ponto do percurso: a Praça dos Heróis do Gueto.

 "Nesta praça eram reunidas as malas e  deportados  os judeus. Não iam para Auschwitz por ser  demasiado perto da  cidade, o risco de descobrirem o que estava a acontecer era elevado. Eram  transferidos para um campo mais afastado, em Belzec.

O nazismo não surgiu do nada, as perseguições aos judeus  tiveram a cumplicidade da maioria dos Polacos. Como Polaca, custa-me dizer isto, mas é a verdade.

Dos judeus que viviam na Polónia estima-se que só sobreviveram dez por cento. Quando regressaram às suas casas, continuaram a ser perseguidos. Houve um massacre em Agosto de 1945, a Alemanha já estava derrotada. Os Polacos lançaram o boato de que uma criança tinha sido raptada pelos judeus,  continuando a inventar o mesmo tipo de justificações para os perseguir. Foram  sempre os bodes expiatórios de tudo: dos problemas económicos, da fome, da peste, dos crimes. Durante o regime comunista, houve manifestações e protestos estudantis; o governo lançou  a culpa da agitação nas universidades e nas ruas a estudantes judeus, retirou-lhes a nacionalidade e o passaporte. A população judaica ficou reduzida a poucas centenas de pessoas. Depois da guerra continuaram a não  encontrar condições para viver na Polónia e a  solução que tiveram foi abandonar o país.”

Os Free Walking Tours não têm preço estipulado, recomenda-se pagar  uma gratificação ao guia no fim do passeio. Ofereci  alguns zlotys que tinha na carteira. Fui pouco generoso,  Isa desvendou mais histórias do  que as que abordei aqui. As que melhor ficaram registadas na minha memória.

Segui depois o meu caminho pela cidade, regressei no elétrico à  outra margem do rio, onde tinha começado  o passeio  de duas horas e meia. Parei numa pequena praça com esplanada, sentei-me a relaxar e a beber uma cidra polaca. Nesta cidade desconhecida,  de perto de um milhão de pessoas, deu-se a coincidência de encontrar o casal americano que andava na visita com a filha estudante. Percebo inglês suficientemente bem para entender o que diziam entre si  e,  sem querer ser bisbilhoteiro, fiquei um pouco perplexo com o que ouvi.

 A filha dizia ao pai:

- Estás gordo.

- Não estou nada.

- Estás, estás. Se não te cuidas ficas com a barriga inchada.

O pai mandou vir uma cerveja.

- Vês pai, já não consegues estar sem beber cerveja!  Estás a transformar- te num alcoólico.

- Não estou nada, bebo cerveja porque está muito calor. Sabe bem.

A mãe corroborava as palavras da filha, repetindo as suas admoestações.

- Pai, quero visitar a sinagoga Rehmu.

- Não sei se quero.

- Porquê?

- Porque, para entrar,  tenho de comprar um kippah para a cabeça. Não me apetece gastar dinheiro a comprar uma peça que só vou usar uma vez. 

- Pode não ser preciso.

- Acho que vai ser,  vi Kippahs à venda na  entrada da sinagoga,  a 50 zlotys.

- Pai, isso não quer dizer nada. Quando visitei uma sinagoga os meus amigos receberam um kippah descartável sem pagar nada e no fim deitaram-no fora.

- Achas que os judeus iam perder uma oportunidade de fazer dinheiro?

- Pai, és tão preconceituoso.

- Eu sei.

- Pai, não tens piada nenhuma.

- Está calada. Só tens de me obedecer, quem manda sou eu. Não abuses da minha paciência.

Saí incomodado da esplanada com as respostas do brutamontes do pai a ecoarem-me nos ouvidos.  Não sei se a filha o  convenceu  a entrar na sinagoga,   foi revoltante ouvir aqueles disparates depois de um passeio com  histórias pungentes de perseguições e intolerância religiosa. Há imbecis que nunca aprendem.