Vi o cartaz na piscina a agradecer os visitantes e assim fiquei a saber que o concelho também foi afetado pela tempestade Kristin. Os bombeiros de Cantanhede andaram ocupados a remover árvores derrubadas e a apoiar populações afetadas. Fiquei satisfeito por, inadvertidamente, estar a apoiar o turismo na região, dando o meu modesto contributo para a sua recuperação económica com a minha visita. Talvez este verão ainda visite outros locais do centro.
Palmilheiro
Caminhadas, lugares, memórias, o mundo, a vida... falando e escrevendo para os meus botões.
terça-feira, 11 de agosto de 2026
Ançã
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Caminho de Finisterra - Muxia
Amanhece. As gaivotas gritam por
cima de nós, enquanto aguardamos sentados no porto de pesca de Muxia o
autocarro de regresso a Santiago.
Foram pouco mais de vinte e
quatro horas, fisicamente muito intensas.
Partimos do Porto no autocarro da
Flixbus às 2:45 da madrugada do dia anterior, em direção a Santiago e logo de
seguida apanhamos o bus para Finisterra.
Às nove da manhã estávamos
preparados para iniciar a longa caminhada. Visitámos o farol de Finisterra, o
sítio que os antigos consideravam ser o fim da terra, a finis
terrae. Lugar com aura mística, por ser o último local de visita de
quem peregrinava até Santiago e por estar alcandorado num promontório rochoso,
no cimo de falésias, de frente para o mar imprevisível e revolto, a que deram o
nome de Costa De La Muerte.
Fizemos cinco quilómetros entre o
farol e o centro da cidade, e pela carretera nacional, até
encontrarmos o marco de cimento com a vieira de Santiago indicando
Muxia.
Era uma da tarde. Chegámos sete
horas depois, cumprindo aproximadamente vinte e oito quilómetros de distância.
Percorremos estradas de mato,
caminhos rurais e alcatroados, maioritariamente afastados do mar. Passámos em
locais isolados, vimos pequenas aldeias com meia dúzia de casas fechadas,
andámos centenas de metros sem ver pessoas e carros. Fomos precavidos com água,
sandes e frutos secos, antecipando que seria difícil encontrar abastecimento.
Estávamos cansados, as pernas a
ficar doridas, a sapatilha a apertar um dedo que me começava a inchar, pelo que
soube bem a paragem em Lires, a meio do caminho, para beber duas cañas bem
fresquinhas.
Caminhámos mais duas horas até
encontrarmos uma praia, de aspeto paradisíaco, à entrada de Muxia. Passámos um
casal de peregrinos que parecia estar numa sessão de terapia: a jovem mulher
levava atrás da mochila uma pequena cartolina com o nome "Paulo
Coelho"; o homem dava-lhe as mãos, olhava e falava insistentemente com
ela. A referência a Paulo Coelho não me impressionou, pelo contrário.
Pensei: leram O Alquimista e agora andam armados em peregrinos, à
procura de espiritualidade. Não repararam em nós, de tão absorvidos
que estavam. Habitualmente, quando nos cruzávamos com outros peregrinos,
cumprimentávamo-nos com "Hola".
Não considero que nós dois
fôssemos peregrinos: apesar de eu levar a vieira de peregrino de Santiago,
visível na mochila, e de termos ambos uma velha credencial, com os carimbos de
outros caminhos, fizemos só uma etapa, não dormimos em mais de um
albergue. Passamos de raspão em Santiago, sem entrar na catedral, e não fomos à
missa.
Procurámos albergue para
pernoitar, os primeiros estavam lotados. No dia seguinte, iria começar a Feira
Medieval e havia muita procura. Se não encontrássemos dormida, pediríamos para
nos deixarem tomar duche e passaríamos o resto da noite a fazer horas até ao
primeiro autocarro da manhã para regressar a Santiago.
Conseguimos dois lugares por um
triz, no albergue @Muxia. O balcão da receção fica num salão, entre a banca de
lavar louça, os eletrodomésticos da cozinha e a sala de refeições. Quarenta
lugares em camaratas mistas.
O hospedeiro guiou-nos até aos
dois beliches onde dormiríamos na parte de cima - os colchões de baixo já
estavam ocupados com os sacos cama e objetos de dois peregrinos. Mostrou-nos os
cacifos, colocamos as mochilas e os documentos; e um armário no corredor, mais
afastado da camarata, em que era obrigatório deixar as sapatilhas para não
levar o cheiro do chulé.
Tomámos duche. Fomos ver o pôr do
sol ao Santuário da Virgem da Barca: as cores negras das rochas e do santuário
erigido sobre elas, o céu violeta, a costa recortada e montanhosa que se
estendia do outro lado da baía, as pessoas que observavam os últimos raios a
desaparecer no horizonte, sentadas nas lajes junto ao mar, faziam do lugar um
sítio encantado. Senti-me levitar.
Fomos tratar de assuntos mais
mundanos: jantar.
Estávamos cheios de fome, a
última refeição a sério tinha sido em Portugal, nesse dia só tínhamos petiscado
sandes, fruta, frutos secos e bocadillos em Finisterra.
Regalámo-nos com entradas de zamburinhas e pimentos Padron, bem regadas com
sidras e cañas. Comemos salmão grelhado e esparguete de legumes.
Limpámos os pratos.
Regressamos tarde ao albergue. Entrámos na camarata em bicos de pés, para não
perturbar o sono dos peregrinos que já ressonavam. Nos colchões de baixo,
dormiam duas mulheres.
Temos de ser práticos nos
albergues: o espaço é exíguo, não devemos fazer ruídos quando procuramos os
objetos pessoais na mochila - não há espaço nem luz para isso. Eu uso pequenos
estojos: um com a toilette; outro com equipamento eletrónico. A roupa vai
em bolsas separadas. Pego diretamente no que preciso, mesmo às escuras.
Subi com cuidado, arranjei-me em silêncio o melhor que pude. Corri a cortina e
tentei dormir. Poucas horas depois, acordei com o bip do relógio a dar as 6 da
manhã. O colchão debaixo do meu já estava vazio, no beliche ao lado a mulher
continuava a dormir.
Mais tarde, iríamos fazer os seguintes comentários:
- Dormimos com duas mulheres debaixo de nós.
-Eu tive mais sorte do que tu: a minha esteve mais tempo debaixo de mim.
No regresso a Santiago, vimos peregrinos que se cumprimentavam no início de
mais uma etapa: "Buen camino". Outros, nunca mais se voltariam
a encontrar, foram-se despedir à paragem do autocarro com abraços apertados e
algumas lágrimas. Alguns regressavam juntos. Pessoal de todas as idades,
equipados a rigor: mochila, bastões, gola, roupa desportiva. Americanos,
europeus, asiáticos, latino-americanos, falando entre si maioritariamente em
espanhol e inglês. Os caminhos tornaram-se numa romagem de culto, havendo
encontros e experiências marcantes para muitos peregrinos. Lembrei-me da série
de TV espanhola, de três episódios, “El Camino”, realizada com o intuito
claro de os promover. Jovens de diferentes países conhecem-se no caminho - cada
um deles com um motivo pessoal e traumático para o fazer, desvendado em
sucessivos flashbacks ao longo dos episódios- aprofundam relações entre eles,
enamoram-se e no fim até chega a haver um casamento.
Sentou-se atrás de nós o jovem casal, fã do Paulo Coelho - não sei se já eram
namorados ou se travaram namoro no caminho. Não se calaram um minuto, a terapia
continuou até Santiago com sotaque espanhol da América latina. Ele falava-lhe
dos traumas de infância, da falta de comunicação com os pais, da universidade,
das dúvidas que tinha, etc. Ela dava-lhe conselhos e apoio psicológico,
motivava-o e escutava-o pacientemente. Iriam casar e ser felizes para o resto
da vida?
segunda-feira, 3 de agosto de 2026
Auschwitz - Birkenau
O filme "Zona de
Interesse", de Jonathan Glazer, retrata a vida doméstica de Rudolf Höss,
enquanto comandante do campo de concentração de Auschwitz. Vive com a esposa e
os cinco filhos numa bela vivenda com piscina, ao lado do campo. É um homem de
família extremoso, demonstra frequentes gestos
de afeto com a mulher e as crianças. Convida
para as festas de aniversário outras crianças, amigos dos filhos, e famílias de
oficiais nazis. Os homens falam de política, dizem piadas e outras
trivialidades; as mulheres trocam
receitas de cozinha, elogiam as roupas umas das outras. Famílias normais que trabalham e têm os seus momentos
de lazer.
Vemos Rudolf Höss concentrado
no trabalho, a fazer planos, a mostrar o projeto de ampliação do campo aos
oficiais, preocupado com as notícias que chegam de Berlim, de que provavelmente
será transferido para um campo mais afastado. Mostra o seu desagrado à esposa,
ele que sempre foi um oficial exemplar e executou todas as ordens do Führer não
merecia sair dali. Trabalhou muito para ganhar o cargo e viver naquela casa
espaçosa e luminosa, onde os filhos correm e brincam felizes. A mulher também
não encara com bons olhos a possível transferência do marido, preocupa-a a
possibilidade da família ficar separada e do marido passar a ver os filhos só
aos fins de semana.
O filme mostra a vida de
Rudolf Höss até aqui.
No período em que dirigiu o
campo de Auschwitz a utilização do Zyklon B, pesticida fabricado pela empresa
alemã IG Farben, testado inicialmente com prisioneiros de guerra soviéticos e
polacos, passou a ser utilizado nas câmaras de gás.
Quando a Alemanha foi
derrotada, Rudolf Höss andou escondido alguns meses, disfarçado de jardineiro.
Foi capturado pelos Ingleses, julgado na Polónia e condenado à morte por enforcamento, em
Auschwitz, com um pormenor importante: virado para as barracas onde manteve milhares
de judeus em condições sub-humanas.
Rudolf Höss era um homem de
família que num momento histórico específico teve responsabilidades diretas na
morte de milhares de pessoas. Alguma vez sentiu remorsos ou era um racista e
burocrata inveterado? No julgamento em tribunal reconheceu, pelo menos, a
magnitude dos crimes em que esteve envolvido.
Primo Levi, sobrevivente de
Auschwitz, questiona permanentemente o motivo de homens "normais",
que sabiam o que estava a acontecer, continuarem a cumprir ordens que
implicavam o extermínio de um povo. Ele corresponde-se com um químico alemão,
responsável pelo laboratório de Auschwitz. O alemão pede-lhe desculpas,
compreende a sua revolta, mas responde que naquela época toda a sociedade alemã
estava implicada, retratando o regime nazi como um sistema totalitário que controlava todos os aspetos da vida individual,
do qual não se conseguia escapar. É
neste tom que muitos ex- oficiais e civis, que viveram sob o nazismo, justificam
a sua inação contra os crimes nazis e o seu colaboracionismo: “cumpriam
ordens”.
Ao ouvir a guia que acompanhou
o meu grupo relembrei vários episódios de "Se isto é um Homem": A
orquestra de músicos profissionais, composta também por prisioneiros judeus, acompanhava, com marchas, a saída dos outros prisioneiros
para os campos de trabalho e o seu regresso; o rigor dos alemães nas contagens dos indivíduos, impondo a
proibição de se identificarem pelo nome
próprio, somente pelo número tatuado no braço. Episódios de humilhação permanente
e de desumanização.
Está tudo documentado.
Auschwitz foi um campo de
concentração, de trabalho forçado e de extermínio, no qual o capitalismo, aliado ao racismo e
supremacismo mais primários, reduziu seres humanos a escravos, tratados como bestas, para aumentar a produtividade da indústria
alemã no esforço de guerra. Os trabalhadores só eram mantidos vivos enquanto
eram úteis.
Os inaptos para o trabalho:
crianças, idosos, mulheres grávidas, doentes, eram enviados diretamente do
comboio para as câmaras de gás. Outros prisioneiros judeus, sob supervisão nazi, cumpriam ordens para os despir, dizendo-lhes que iam tomar duche. Para evitar o pânico, mães e filhos seguiam juntos. Caminhavam ordeiramente
para a morte. Os jovens e adultos
saudáveis - e algumas mulheres - eram poupados para o trabalho forçado nas fábricas das redondezas: as IG Farben, Krupp, Siemens.
Estes tiveram uma morte lenta: por exaustão, trabalhavam 11 horas, sete dias por semana; fome, ingeriam em média 1200 calorias por dia- um adulto saudável
necessita de 2500; tortura física e psicológica.
Arbeit Macht Frei, O Trabalho
Liberta - a inscrição no pórtico da entrada - era de uma ironia e
malvadez tremenda: quem o atravessava trabalharia até morrer.
Do milhão e trezentas mil pessoas deportadas para Auschwitz, estima-se que morreram um milhão e cem mil - judeus na esmagadora maioria.
O campo destinou-se, primeiro, aos prisioneiros soviéticos e polacos. Mais tarde, com a adoção da "Solução Final", serviu o extermínio da comunidade judaica. Outras minorias foram enviadas para Auschwitz: prisioneiros políticos, homossexuais, ciganos, criminosos vulgares, deficientes.
Porquê construir um campo de
concentração neste local? Porque tinha bons acessos ferroviários e estava no
centro da Europa, podendo receber mais facilmente os judeus de muitos
países.
Os crematórios de Auschwitz
revelaram-se insuficientes para incinerar milhares de corpos, muitos passaram a
ser queimados ao ar livre. Os nazis resolveram construir quatro novos
crematórios na localidade de Birkenau, a três quilómetros de distância. A
aldeia polaca que existia no local foi arrasada, os seus habitantes presos ou deslocados. O
campo foi construído num tempo recorde por prisioneiros de Auschwitz.
Birkenau tornou-se num campo
de extermínio programado, as chaminés lançavam fumo continuamente.
A guia, Magdalena, disse que, todos os anos, nas cerimónias de celebração da libertação do campo pelo exército vermelho,
em 27 de janeiro de 1945, participam
sobreviventes do Holocausto: no ano passado participaram 55; este ano, já só foram 27. Há cada vez menos
testemunhas vivas, vai-se perdendo a memória da sua experiência. Ficam
disponíveis apenas os livros e as pinturas dos que conseguiram registar o horror de Auschwitz.
Vi algumas pessoas a chorar. Não chorei, ouvi silenciosamente, tirei fotografias onde era permitido.

















































