O homem não se calava. Não sei
como tinha fôlego para estar sempre a matraquear, incansável e iracundo, todo o tempo ao meu lado. Tinha aspeto de reformado,
cabelo grisalho, cara redonda e lisa. Inicialmente, ele parecia que manifestava um
entusiasmo natural pelo que se passava no centro da Praça D. João I, tal como toda a gente ali. Mas depois percebi que aquilo não era só entusiasmo, havia
qualquer coisa que não batia certo naquele homem.
— Vinte e cinco de Abril sempre,
fascismo nunca mais! — gritava em coro com o amontoado de gente que
observava a praça do cimo do muro. No entanto, o seu palavreado descambou.
— Mostrem-lhes, caralho, que não
têm medo! Montem as tendas, muitas tendas, foda-se! É bem feito! Mostrem aos
filhos da puta como se faz, para eles perceberem que o povo unido jamais será
vencido. Fascistas de merda!
Depois de montadas as tendas,
organizou-se a assembleia popular. O idoso comentava o que se passava na praça, virava-se frequentemente para mim, à espera que eu falasse com ele, que lhe desse a minha concordância. Mantive-me ostensivamente calado, ignorando-o completamente. Ele não desistia:
ora falava para mim e para as pessoas encostadas a nós, ora gritava para a
praça.
— É o que dá votar na AD e no Chega. A Câmara do Porto tinha dois vereadores do PCP e um do Bloco de Esquerda, agora não tem nenhum! É o que dá votar nesses partidos fascistas. A AD vai coligar-se com o Chega, vocês vão ver! Aproveitem, amigos, informação gratuita: basta mais um vereador e a direita fica com a maioria na Câmara do Porto.
Há mais de cinquenta anos que luto contra o fascismo. Sou do Porto, nota-se pelo meu sotaque. De Campanhã, não acredita? — Tirou a identificação da carteira e mostrou-a ao desconhecido ao seu lado. — Nunca tinha visto esta praça cheia de jovens a protestar como hoje. É histórico! Finalmente, a juventude levantou-se.
O PS não é de confiança. Andou
sempre a ziguezaguear e agora fodeu-se e fodeu o país! Filhos da puta!
Andou a fazer farinha de pau.
Também era um merdolas aquele gajo do PS que estava na Câmara. Ai, como é que
ele se chamava... Foda-se! A minha cabeça já não é o que era. Um gajo de barba,
conheço-o bem, vive ali para os lados da Rua do Heroísmo.
Fui praça da Marinha. A Marinha é
a única instituição que tem praças. Hoje, quem vai para a Marinha não inspira confiança
nenhuma. Tenham cuidado com a Marinha: se houver uma revolução, não contem com
eles. Nunca vos ajudarão. Já não é como no meu tempo.
Sei o que é a guerra. Estive em Angola.
Ninguém sabe, ninguém sabe o que isso é.
Por isso, fico nervoso quando ouço dizer que a polícia deu bastonadas à
juventude. Os polícias de hoje nunca foram à guerra. Deviam ir à guerra, filhos
da puta, para saberem o que é levar bastonadas!
Mas podem estar descansados, meus
amigos, hoje eles não vos vão bater! Estão aqui quarenta mil pessoas...
— Três mil — corrigiu um jovem
que o ouviu.
— Eles têm medo, não se vão meter convosco! São uns cobardolas de merda. Bem, nem todos. Também há polícias bons. Só se metem convosco quando não há ninguém a ver. Cobardolas de merda!
Deviam estar aqui os Superdragões.
Onde é que eles estão? Se calhar, estão infiltrados! Se fosse futebol, isto
estava cheio de gente. Vinham todos para a rua.
«O futebol é o ópio do povo», já
dizia o Rui Reininho. O Porto está cheio de filósofos, caralho!
Duas miúdas chegaram à praça e
colocaram-se ao lado dele, a observar a multidão. Julgando que seriam
estudantes, o homem mudou o rumo da conversa.
— Estudantes? Muito bem. Deviam
vir todos para a rua, em vez de andarem por aí a fazer praxes, bêbados. Eu sei
bem o que se passa. Este ano, na Queima, foram violadas quatro alunas. Bêbados!
Venham para aqui. Estendam as vossas capas na praça, apoiem estes
manifestantes, isso é que era!
As duas miúdas afastaram-se,
assustadas.
— Ai, fogem de mim?! Não
precisam, não vos faço mal.
Eu sei bem o que as mulheres
sofrem. Vejo todas as noites mulheres negras, africanas, a sair das cozinhas
dos restaurantes. Coitadinhas! A ganhar seis euros à hora. Guineenses,
cabo-verdianas, santomenses. Vejo-as à noite, cansadas, à espera do autocarro
para a Maia. Seis euros à hora, onde é que já se viu?
Sabe-se lá o que mais lhes fazem
os patrões! Raparigas novitas, completamente desprotegidas, sem apoio, sem
documentos, à mercê do patrão. Sabe-se lá o que mais lhes fazem os patrões!
Eu começava a ter dores de cabeça, de tanto ouvir o matraquear constante daquela voz irritante nos meus tímpanos. Afastei-me. Fui arejar, ver os cartazes espalhados nos muros altos da praça, ouvir
os discursos inflamados da assembleia popular. Os manifestantes iam continuar acampados, pelo
menos até quinta-feira. Não tinham medo. Iam continuar a lutar, a exigir a
demissão do presidente da Câmara do Porto e ele que viesse ao acampamento
conversar com eles. Não seriam eles a ir à Câmara, o presidente é que tinha de
vir até eles.
Centenas de jovens sentados formavam o semicírculo em frente ao microfone, iam cantando e reagindo de punhos erguidos aos discursos entusiasmados. Parecia que iam conquistar o mundo, estavam imparáveis. A luta, apesar de difícil, seria ganha. Não iriam desistir. Gritavam motes pelo direito à habitação e contra a especulação imobiliária. Contra o fascismo. Pela greve geral Ibérica de 11 de novembro. Em solidariedade com os acampados de Espanha e pela revolta dos estudantes em França.
O entusiasmo foi esmorecendo e o número de pessoas na praça diminuindo. A duzentos
metros dali, nas ruas adjacentes de Sá da Bandeira, do Bolhão e de Santa
Catarina, as esplanadas estavam cheias de turistas. Centenas de jovens,
portugueses e estrangeiros, saíam para a noite, para os bares e restaurantes, alheios
ao que se passava na praça. Nessas ruas,
o mundo continuava igual. Ali perto, no entanto, havia quem ia passar a noite ao relento, sem o conforto de uma cama, em luta pelo direito à habitação. Cidadãos que acreditam numa vida
mais justa, se organizam e lutam.
































































