domingo, 28 de junho de 2026

Salman Rushdie no Porto


O jornalista Alberto Postiga conseguiu bilhete para o encontro literário com Salman Rushdie, no coliseu do Porto. Comprou um livro, nesse livro vinha um voucher que permitiu adquirir bilhete on-line para a sessão. Não teve dúvidas, era a sua prioridade, o evento a que mais queria assistir. Quais  Prémios Nobel da literatura Olga Tokarczuk e László Kraszanahorkai, quais campeões de venda Margaret Atwood e Byung-Chul Han, quais escritores Portugueses Lídia Jorge e Valter Hugo Mãe! Ele queria ver  Salman Rushdie, o homem que teve  a vida a prémio, condenado à morte  pelo Aiatola Khomeini,  escondido anos a fio pela Scotland yard;  o autor dos Versículos Satânicos.

Relataria o encontro  no  Blog em que colabora sobre literatura e viagens  “Livros e Destinos”. Havia tentado escrever em jornais de grande circulação nacional: o Público, o Diário e o Jornal de Notícias;  em semanários: o Expresso, a revista Sábado. Rejeitado por todos: “Falta de qualidade literária”, “jornalista e escritor  sem nome firmado no mercado”. Escreveu uma carta ao Miguel Sousa Tavares, nunca obteve resposta. Que desconsideração!

Alimentava  a escrita nos tempos livres, que eram muitos, vivia do subsídio de desemprego,  não tinha muito que fazer,   exceto  apresentar-se regularmente na Segurança Social.

Estacionou o carro no Via Catarina, desceu pela rua Formosa. Uma imensa fila de pessoas alinhava-se ao longo da berma: “É para o encontro com o Salman Rushdie?”, perguntou à última pessoa da fila: “É, sim.”

- Por que motivo estão a entrar pelas traseiras do coliseu?

- Não estão a entrar pelas traseiras, a fila começa na entrada principal da rua Passos Manuel.

- O quê?! Quer dizer que a fila contorna a praça dos Poveiros, vem pela rua da Alegria e desce a rua Formosa?

- É isso mesmo!

- Uauu!!!

Muitas pessoas levavam  livro na mão, jovens ofereciam o jornal  do evento.  Duas carrinhas de policia fechavam a rua de Passos Manuel com a praça dos Poveiros.  Ele esteve uma hora na fila,  que bifurcava nos degraus  do coliseu.  Fez-se a primeira triagem: leitura  dos QR Codes pelos seguranças; depois,  uma segunda triagem,  mais demorada:  passagem pelos detetores de metais, tal e qual o Check-in nos aeroportos. “Incrível! Tudo por causa de uma só pessoa, de um escritor …que estrela POP!”, pensou. Subiu à galeria. De lá de cima, viu o coliseu repleto com 3000 pessoas. Acontecimento raro e  único, merecedor de uma fotografia para a posteridade, como aquela da primeira sessão de um filme 3D nos Estados Unidos. 


Por motivos de segurança, estavam proibidas as fotografias, ninguém à sua volta tinha o telemóvel na mão.  A audiência portava-se bem e cumpria  as regras. Ele, obviamente, faria o mesmo.

Chegou na hora certa, de  ouvir a apresentação do moderador, o homem-livro, Alberto Manguel.

A partir deste ponto, transcrevo a entrevista  que o jornalista Alberto Postiga colocou no Blog “Livros e Destinos”. São as palavras dele, adaptadas e resumidas do que ouviu na conversa realizada ao longo de uma hora.

 

Alberto Manguel (AM) entrevista Salman Rushdie (SR) em Inglês no coliseu do Porto, com tradução simultânea para português no painel sobre o palco, com a ajuda da Inteligência Artificial.

AM fala inglês fluentemente, bem articulado e  percetível. Veste  fato branco,  usa o típico chapéu de abas, com que é sempre visto,  metido na cabeça.  Refere que, provavelmente, o festival Babell tornou-se no maior  festival de literatura da europa.

AM: Demos as boas-vindas ao nosso convidado,  Salman Rushdie (grande ovação do público, em pé).

Entra SR no palco, caminha lentamente, ligeiramente encurvado. Fato escuro, pala a cobrir o olho direito. Senta-se ao lado de AM. Uma mesinha entre eles com uma garrafa de água.

AM: Fale-nos da Índia e dos seus primeiros anos.

SR: Nasci em Bombaim, era uma cidade muito tolerante, não tinha ainda as tensões sociais de atualmente. É a cidade do cinema, de Bollywood. Os jornais da cidade tinham 4 paginas de notícias e vinte páginas sobre os atores de Bollywood (risos na plateia). Era proibido dar beijos na televisão, havia uma série de códigos. Por exemplo, se um ator queria beijar uma mulher dava um beijo na manga do vestido,  ela depois beijava a mesma manga. Era um beijo indireto (risos). Nasci no período da independência da Índia, havia uma anedota que se contava na minha família: os ingleses fugiram 8 dias antes de eu nascer.

AM: Pode-nos falar da relação com o seu pai…

SR: Não gosto de falar disso, já tive acontecimentos traumáticos que cheguem na minha vida … posso dizer que, inicialmente,  quando éramos crianças muito pequenas, eu e as minhas irmãs, ele era muito carinhoso connosco, tinha jeito para nós. Mais tarde, tudo mudou, ele tinha  um problema com o álcool. O meu pai ensinou-me a interpretar As Mil e uma Noites. Não há um único tapete voador nas histórias, é uma mentira;  têm muito sexo e violência, não são para crianças. No entanto, no ocidente,  tornaram-se conhecidas como histórias infantis.

AM: Fale-nos do seu primeiro livro… um conto, creio que inspirado no “Feiticeiro de Oz”, e das suas primeiras influências.

SR: Quando escrevi o meu primeiro conto tinha 10 anos, não se lhe deve dar muito crédito  (risos na plateia)… nele,   invento um arco-íris em que falo do início desse arco-íris na cidade de Bombaim; ao contrário do feiticeiro de Oz, em que a história acontece por cima do arco-íris: over the rainbow. Devido à relação com o meu pai, escrever foi uma forma de criar o meu feiticeiro. Os adultos não me inspiravam confiança, no “Feiticeiro de Oz” é uma criança, uma menina,  que se torna forte e vence.  No fim do conto, o feiticeiro derrete-se, como se crescesse para baixo, e Dorothy torna-se gigante em relação a ele.

AM: Quais foram as suas referências na literatura?

SR: Na adolescência fui para um colégio em Inglaterra, aprendi latim, tenho pena de não ter aprendido grego. Li as “Metamorfoses”,  de Ovídeo.  Na minha obra há muitas personagens que se metamorfoseiam,  são uma influência até kafka.

E Shakespeare, o maior escritor de sempre de língua inglesa. Pergunto-me, se ele,  no seu tempo,  tinha noção de ser o melhor de sempre a escrever em Inglês. Gosto de pensar que sim: há uma cena deliciosa no filme Shakespeare In Love, em que ele escreve com a pena no caderno, levanta a cabeça para a amada e diz: “Saiu mesmo bem!”

AM: Você também pensa isso quando escreve?

SR: Sim! (risos).  Escrever é um processo doloroso e complexo. Mas, simultaneamente, o mais recompensador de todos. O escritor não é um Frankenstein, não recebe pedaços de outros cérebros, tem de se colocar no cérebro de personagens criadas por ele.  Não é fácil, eu repito-me  muitas vezes sem dar conta.

Uma vez,  um tradutor dinamarquês ligou, disse-me: na página 126 do livro a sua personagem diz isto; na página 237 do mesmo livro, outra personagem diz exatamente a mesma coisa. Esclareça-me.

Eu não fazia ideia de ter repetido frases. Disse-lhe,  para não ficar mal, que era intencional (risos na plateia).

AM: Você referiu que a realidade é mais forte do que a ficção…

SR: A ficção permite-me misturar tempos e personagens; por exemplo, na minha obra “A Feiticeira de Florença”, juntei  a India do século XIV e  Florença do século XV, quando estava no seu apogeu. Nas pesquisas que fiz,  descobri que,  apesar da distância física entre os territórios, havia aspetos muito parecidos entre ambos.  Uma personagem florentina do romance  nunca se poderia ter cruzado com uma  indiana do século XIV, viveu 100 anos antes; no entanto,  elas cruzam-se. É o poder da ficção. Na altura, havia o império Otomano entre Florença e a India; na Transilvânia,  ocupada pelos otomanos,  vivia uma personagem chamada Vlad Szepes, ficou conhecida na história pelas suas malvadezas, chamaram-lhe demónio,  dracul. Também a coloco no romance.

AM: Faz alterações aos seus textos, nas edições posteriores?

SR: Não, um livro morre quando acabo de o escrever. Passa a ser dos leitores, não tenho o direito de alterar o que chegou a eles antes disso. Conheço o caso de um escritor que fez alterações nos versos de um poema nas versões posteriores. Ficou pior, alterou-lhe o significado.

AM: No livro “Faca” você entrevista o homem que o tentou assassinar, pode-nos falar disso…

SR: Achei que devia escrever sobre esse acontecimento, tentar perceber por que motivo alguém com um cadastro criminal limpo, sem nunca cometer um crime, integrado na sociedade, um jovem de 24 anos nascido em New Jersey, resolve matar uma pessoa com uma faca …pensei ir entrevistá-lo à cadeia, a minha mulher demoveu-me.  O que iria acontecer? Valeria a pena? Estaria arrependido? Conclui que não valia a pena, um dos capítulos do livro é uma entrevista que lhe faço: é ficção, uma tentativa minha de esclarecer os seus motivos, de dar vida complexa ao homem que me tentou matar. Os críticos disseram que era a melhor parte do livro; outros dois críticos referiram ser a pior. Conclusão: não gosto de críticos (risos na plateia).

Em  “À Espera de Godot”, as personagens insultam-se, gritam umas para as outras em crescendo, até chegarem à última palavra, a mais intensa de todas, a mais abjeta que se pode chamar a alguém: CRÍTICO.

AM: Escrita e política misturam-se?

SR: Não é obrigatório misturarem-se, gosto de falar das emoções, da humanidade, sem contextualizar a situação política das personagens. Há exemplos na literatura: Jane Austen é contemporânea das guerras napoleónicas, foi um acontecimento colossal no seu tempo, era impossível ser-lhe indiferente; contudo, em todos os seus livros não há uma única referência aos acontecimentos cataclísmicos que estavam a ocorrer na europa,  a não ser para escrever sobre os fatos elegantes dos soldadinhos nos bailes de gala (risos na plateia).

Quando era miúdo,  um grande poeta indiano  amigo da minha tia, irmã da minha mãe -  sentei-me no colo dele - escrevia poemas de amor, apreciados e reconhecidos por todos;  mais tarde,  começou a escrever poemas políticos,  sobre a partição da India e o surgimento do Paquistão, acontecimentos muito violentos. Foi ameaçado de morte. Como sabiam que éramos amigos,  foram a nossa casa à procura dele, a minha tia tinha-o escondido num fundo falso debaixo do tapete: “o que vêm cá vocês fazer? não têm vergonha de ameaçar uma mulher sozinha?”, respondeu-lhes. Não o encontraram. Também falo de tapetes que escondem fundos falsos num dos meus romances.

AM: Estamos a encerrar o nosso encontro, uma última pergunta: qual a sua relação com a morte?

SR: Bem, já tive a minha quota parte de proximidade com ela (risos na plateia)… mas prefiro não a conhecer (aplausos).

AM: Muito obrigado, Salman.

SR (em Português, com sotaque inglês): Viva o Porto!

Grande ovação de pé. Fim da entrevista de uma hora. Passou rápido.

A voz off de Rui Couceiro, comissário do Babell, soou na sala pelo microfone:

“Não haverá sessão de autógrafos. O autor assinou previamente 200 exemplares,  colocados no átrio da entrada. Quem estiver interessado pode tentar adquiri-los,  se ainda estiverem disponíveis”.

E aqui termina  o texto colocado no Blog “Livros e Destinos”.

 Alberto Postiga saiu sozinho do coliseu com esperança de encontrar algum conhecido, não viu ninguém. Centenas de caras e de pessoas anónimas regressavam a casa na noite avançada de domingo,  no dia seguinte começariam a nova semana de trabalho.   Ele estava sem trabalho e uma solidão desconfortável afligia-o, teria de regressar a casa o quanto antes para escrever as suas impressões e a entrevista, iludindo o tempo e o vazio.

Passou pela entrada da garagem do Coliseu  na rua Formosa,  viu seguranças e polícias a fazer a vigilância aos veículos de alta cilindrada estacionados ao fundo do corredor. Estariam à espera de Salman Rushdie? Talvez Salman Rushdie esteja prestes  a sair, aguardo por ele para lhe pedir um autógrafo?, pensou.  




sábado, 27 de junho de 2026

Apúlia

 


L: Pois é meu caro, não sei por que insistes em cansares-te desnecessariamente. Sempre que tens uma folga no teu precioso tempo, nessa vida que levas tão intensa, em vez de aproveitares para descansar, fruir as horas despreocupadamente, deixar que elas te surpreendam, continuas a planificar tudo ao milímetro, a fazer da vida um plano rígido.  Ela é mais forte do que tu e impossível de controlar.

J: Não tem nada a ver com isso, simplesmente preciso de estar permanentemente em ação,  desgastar-me, transpirar muito,  para esquecer  os problemas. Só dessa forma consigo entrar num estado que diria de transe, em modo de velocidade de cruzeiro, como os aviões. Aí esqueço tudo e relaxo verdadeiramente. Tenho de organizar  as minhas saídas, sentir-me seguro, passear por trilhos definidos  em zonas habitadas para, se me acontecer algum imprevisto ou sofrer algum acidente, ter apoio imediato. Não tenho a tua tranquilidade inata, o teu saber estar e otimismo. Não me sinto bem em qualquer lado, como tu. Gosto de estar sozinho e de testar os meus limites, mas de forma controlada e em ambientes familiares.

Hoje, como imaginas, planifiquei a minha caminhada. Consultei a internet, escolhi um trilho fácil em Esposende, descarreguei o folheto PDF para o telemóvel, consultei o site Trilhos e Caminhadas com as avaliações do percurso, segui em direção à Apúlia.

Nem sempre o que parece é: ao contrário das avaliações que referiam  trilho bem sinalizado e fácil, cheguei a um ponto em que as silvas densas tapavam o caminho e engoliam o painel interpretativo junto à torre de vigia. Foi impossível continuar em frente. Logo de seguida, enquanto ia pelo caminho rural em direção à estrada que liga ao centro da Apúlia, uma cobra saiu das ervas da berma, atravessou a terra arenosa serpenteando velozmente à minha frente. Apanhei um susto. Fiquei imóvel, fascinado, a ver as escamas reluzentes do dorso esverdeado desaparecerem do outro lado do caminho. Como as cobras nos perturbam! É incrível este medo ancestral e repulsa inata que sentimos por elas: talvez uma cobra-rateira, a avaliar  pelo comprimento e grossura do dorso. Segui pela terra empoeirada entre campos de milho transgénico até encontrar a estrada para o centro da vila.

Não foi nada entusiasmante este pequeno trilho. Felizmente, desta vez não ia sozinho, valeu-me a preciosa companhia de Sara que foi conversando comigo,  conseguindo acompanhar a minha passada mais vigorosa e acelerada.

L: Concordo contigo, gosto de outro tipo de atividades, não tenho a tua necessidade de desgaste físico. A mim, basta-me estar na praia a fruir o sol e a delicadeza da areia,   estar com pessoas, no cinema, em casa, a ler livros, ou mesmo a dar aulas e em reuniões chatas; todas as experiências servem para, como se diz pomposamente, cultivar o espírito. Não acredito em subterfúgios como a atividade física para melhorar a autoestima, basta observar o mundo, as pessoas, meditar, que lentamente a transformação acontece.  Uma transformação mais profunda do que qualquer outra, que provoca mudança interior,  sem exigências, estando presente no momento, ganhando consciência de nós próprios.

Enquanto caminhavam, visitei o Museu do Sargaço, vi reproduções em grandes telas de fotografias de Artur Pastor a António Meneres que representam a vida dos sargaceiros.  Não havia mais ninguém, além de mim e do rececionista. Sentei-me no banco da sala silenciosa a observar as imagens, acredito que estar ali sentado alguns minutos sem mais ninguém deve ter um efeito em mim mais  tranquilizador do que qualquer caminhada e atividade física que tu faças.






sábado, 6 de junho de 2026

Villa Romana de Sendim



Não se sabe bem quem construiu a villa, pode ter sido um nativo que desceu da citânia aqui próximo ou um legionário de muitas posses que passou, gostou do sítio e ficou. Aqui passava a estrada que ligava Bracara Augusta a Tongóbriga, seria  normal construir uma villa entre estas  cidades importantes. Num dia,  se podia chegar de cavalo a uma e a outra.

Aqui ficava o   peristilo, o  jardim no centro da casa;  deste  lado do corredor,   o larário, a divisão  onde se adoravam os  deuses do lar e os antepassados da família; e ao lado,  o  quarto do  proprietário: reparem,  tinha duas divisões; nesta aqui, mais espaçosa,  ele recebia as visitas e na mais pequena dormia. Do outro lado do corredor, havia mais quartos, um deles era o dos escravos limpos, limpos porque  trabalhavam  dentro da casa; enquanto que, os escravos sujos trabalhavam no campo e nas tarefas mais árduas.

Do lado sul ficava a cozinha, sabem por que motivo a cozinha era construída do lado sul? Porque os ventos dominantes vinham do  norte;   assim,  os cheiros eram afastados da casa.

Ambrósia guiava o grupo de visitantes pelo passadiço metálico sobre as ruínas, falava com profissionalismo e entusiasmo. Transparecia, no entanto,  uma inquietação que só a visita mais  atenta repararia.

Deste lado,  tínhamos o caldarium, o balneário de água quente. Veem aqueles pilares de  granito? São  originais,  foram encontrados tombados e dispersos noutros sítios  e colocados como se imagina que estariam quando a villa era habitada. A água era aquecida com fogueiras que os escravos sujos faziam debaixo do tanque, sustentado pelos pilares. Havia um balneário de água morna, o tepidarium;  e outro de água fria, o frigidarium. O dono ia passando da água quente para a fria, a água quente abria os poros, a morna retemperava a pele, a fria fechava os poros.  Era um tratamento muito avançado.

- Os romanos tratavam-se bem! Também espalhavam  unguentos no corpo e faziam massagens.  Eram muito para a frentex! – Comentaram  os visitantes.

Nos balneários romanos, os homens e as mulheres ficavam em divisões separadas. Esta era uma villa, uma quinta com escravos e vivenda particular, não sabemos bem como seria, provavelmente o dono teria convidados, por vezes devia haver mais do que uma pessoa nos balneários, além dos escravos.

O tanque de água fria tinha peixes, como não era higiénico tomarem banho com peixes, construíram um  pequeno reservatório para onde eram desviados e retirados. Depois do banho, eram colocados novamente na água da piscina. Como esta era uma divisão mais fresca, também servia de convívio nos dias quentes.

Aquele buraco debaixo do muro,  era por onde se escoava  a água, a casa tinha cloacas  ligadas entre si e estava  ligeiramente inclinada, a água descia para o rio que corre mais abaixo.  Os romanos usavam as condições naturais a seu favor, esta é uma região com muita água.

O grupo ia comentando:

- Os romanos eram muito inteligentes!

- Brilhantes e altamente sofisticados.

- Reparem como as paredes estão  sólidas e preservadas ao fim de 2000 anos!

 Ambrósia continuava a guiar o grupo de visitantes.  Excecionalmente, o  centro interpretativo da   villa romana abriu no sábado para receber o grupo de trinta pessoas que andava a visitar as redondezas, interrompendo os seus planos de passar  todo o dia com Omar. Ele voltaria ao fim da tarde a apanhá-la e estariam juntos o resto do dia. Precisavam de falar, andavam chateados  há algum tempo,  o trabalho intenso era um obstáculo que os distanciava e impedia de estarem  juntos como gostariam.

Os mosaicos no chão, tesselatios, são extremamente minuciosos, colocá-los exigia  talento, trabalho demorado e apurado. Levavam-se meses a decorar o chão. Este tinha motivos geométricos com quatro cores: preto, branco, vermelho e amarelo. No nosso museu poderão ver um esquema do desenho  – Ambrósia  apontou para o chão.

Vocês têm de imaginar que esta villa era muito maior do que o que aqui vemos. Isto é apenas uma pequena parte. As ruínas foram descobertas  em 1992, quando um senhor estava a construir os alicerces para uma casa nova neste terreno.  É provável que debaixo das moradias aqui ao lado estejam soterradas muitas outras divisões e anexos.

Já se descobriram milhares de fragmentos de objetos romanos nas escavações que estamos a fazer.

Ambrósia falava  com entusiasmo, não era habitual receber um grupo tão numeroso de visitantes.  Conduziu-o para a sala  com os achados arqueológicos.

Falou dos artefactos agrícolas,  louça de cozinha, talheres, lamparinas,  moedas.

Sabem onde se encontraram todas as moedas? Nas tubagens. Eram objetos perdidos, iam parar aos esgotos.

Aqui temos um achado muito importante, pratos com as letras XP. Sabem o que significam  as letras XP?

- São o símbolo de Cristo – disse um visitante calvo de meia idade, professor de História.

Muito bem. Isto significa que a partir de uma determinada época quem aqui habitou era cristão. A villa foi construída por volta dos séculos II e III d.C. e habitada até ao século VIII, passou por diferentes períodos históricos, desde o império Romano até à ocupação Sueva.

O mesmo professor de História referiu um apontamento que viu no friso cronológico: os movimentos Bagaudas, que no século V d.C. ocorreram no noroeste peninsular. Revoltas populares a que se juntaram escravos fugitivos e pequenos proprietários arruinados, afetados pela instabilidade do império, impostos elevados e insegurança, anunciando o fim do domínio romano.

Ambrósia  agradeceu a informação extra. Conduziu o grupo para outra sala onde se viam dezenas de caixas brancas  empilhadas em prateleiras. Abriu uma caixa,  mostrou o conteúdo:

aqui estão guardados sacos de plástico com milhares de fragmentos arqueológicos, meticulosamente catalogados,  do mosteiro de Pombeiro e da villa, para serem encaixados como as peças de um puzzle e voltarem a reconstruir o objeto original.

Notava-se o denodo com que Ambrósia se envolvia no trabalho e o entusiasmo que para si era trabalhar como arquivista do museu,  guia e arqueóloga. Era necessária  muita precisão e disponibilidade para reconstruir   estilhaços,   aparentemente inúteis e insignificantes, em  objetos  harmoniosos com uma função específica utilizados no passado,  pertencentes ao quotidiano das gentes diversas que viveram no território. A tarefa deixava-a  orgulhosa da riqueza histórica do seu concelho, mas exigia-lhe  demasiado de si causando  danos nos seus relacionamentos, roubando-lhe o pouco tempo livre de que dispunha. Era frequente passar horas pela noite dentro com um frontal na cabeça observando os minúsculos fragmentos como se fossem peças de joias raras, avaliando a função e o  espaço que ocupariam no objeto.

Ambrósia regressaria a casa na companhia de Omar Khayyam. Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros e passado na ermida de santa Quitéria,  a ver paisagens, pondo os pontos nos is, analisando o seu relacionamento.  Talvez agora se pudessem reconciliar. Ele mostrou-se paciente e carinhoso com ela, o que não era habitual.

Omar era bruto e insensível, dizia coisas que a feriam muito, de forma arrogante usando palavras caras como se ela as não percebesse, magoando-a e atingindo-a ainda mais. Certo dia disse-lhe:

- Ouvi dizer que és amasia…

Não concluiu a frase, Ambrósia tapou-lhe a boca com a mão, fulminou-o com o olhar e sem nada  dizer, pensou: como te atreves a dizer tal coisa.

Ele leu-lhe o pensamento, baixou os olhos arrependido. O mal estava feito.

Mais tarde, confessou-lhe que quase chorou ao pressentir que ela o tinha deixado de amar,   foi por revolta que lhe falou grosseiramente, não tinha razão nenhuma. Era um parvo. O relacionamento melhorou.   

Ambrósia nesse dia andava bem disposta, animada com os visitantes e voltaria a estar com Omar esquecendo o trabalho, mais recetiva a amar.











Os mosaicos no chão, tesselatios, são extremamente minuciosos, colocá-los exigia  talento, trabalho demorado e apurado. Levavam-se meses a decorar o chão. Este tinha motivos geométricos com quatro cores: preto, branco, vermelho e amarelo.




Nessa manhã tinham percorrido o trilho da levada de Jugueiros





domingo, 3 de maio de 2026

Campo das Carvalheiras

 

Cheguei a casa,  apanhei a minha mulher na cama com outro Homem. Não quis acreditar, esfreguei os olhos uma e outra vez, fiquei sem reagir, sem saber o que dizer ou fazer. A pensar que  estava  a sonhar, a ver mal, ou que não era o que que parecia. Uma ideia  ridícula veio-me à cabeça, talvez fosse um médico que lhe estava a ministrar um tratamento qualquer.  

Os dois estavam debaixo do lençol com a cabeça de fora, calados a olhar  para mim de respiração suspensa, em pânico, apanhados com a boca na botija. Eu, especado e estupefacto,   incrédulo a olhar para eles.  O meu coração latejava violentamente.

Como era possível? Quem é o tipo e como se conheceram?

Jamais na vida imaginei que um dia apanharia a minha mulher na cama com outro homem, isso só acontecia nos filmes ou nos casais decadentes. Nós éramos um casal respeitável, era impensável tal ocorrência  entre nós.   No meu cérebro começaram a fervilhar pensamentos,  bombas prestes a explodir: a santinha, a mulher que frequenta as missas na sé de Braga, a maior beata da cidade, puritana, religiosa como nenhuma outra,     se não me tivesse conhecido seria freira; raramente  fazia sexo comigo;  que eu julgava assexuada e incapaz de me ser infiel… estava na cama com outro homem. Nus, os dois.

Quis ter a certeza. Num ímpeto súbito de raiva aproximei-me deles, puxei violentamente  o lençol e a colcha  para mim. Os dois agarraram  as mantas  com toda a força,  pareciam  dois náufragos a segurarem-se aos últimos destroços de um navio prestes a afundar. De que lhes adiantava isso? O que pretendiam esconder? Arranjariam uma  desculpa qualquer, iludindo-me e mentindo, dizendo que não era o que eu estava a pensar? Ou seria apenas uma reação de pudor e vergonha?

Arranquei o lençol,  expus  toda a sua nudez. A minha esposa encolheu-se tapando a púbis e os seios com as duas mãos, tal e qual a vénus de Botticelli,  num gesto inato de embaraço. Ele tentou alcançar as cuecas debaixo  da cama. Ao pé da cabeceira estavam outras peças de roupa e a gravata, atiradas à pressa para o chão durante os preliminares em que se devem ter beijado sofregamente.  O tipo usava gravata. Devia ser um bancário  das redondezas, um empresáriozeco! Então é disso  que a minha mulher gosta? Homens de gravata,  barbeados, totós perfumados e aprumados. Tinha-me esquecido de como na família dela são comuns os  homens de  blazer e gravata francesa, bem vestidos e elegantes,  de aspeto formal.

Eu vivia seguro da minha conquista, acreditava piamente que ela seria incapaz de se envolver ou de se  apaixonar por outro homem. Conservadora, beata, religiosa, aceitando mal o divórcio das amigas, empertigando-se com as minhas observações de que o divórcio pode ser a melhor solução, que o casamento não tem de  ser para o resto da vida como no tempo dos nossos pais, e que não havendo amor não faz sentido continuar em união. Ideias modernas e progressistas que defendo mas não pratico.   

Subitamente, tomei  consciência de que ela algures deixou de gostar de mim, fartou-se da nossa vida em comum e do tédio em que  ela há muito se havia tornado. O tipo fisicamente era o oposto de mim: sempre fui descuidado  com o meu aspeto; ele, pelo contrário,  parecia vestir-se bem, tinha a pele limpa e brilhante de alguém que gosta de cuidar de si.   Senti-me  humilhado e imundo ao comparar-me a ele. A minha filosofia de desvalorizar as aparências em detrimento da riqueza interior, o que quer que isso signifique,   ruiu por terra.

A minha vida levou um abanou naquele momento. Um tremor de terra violentíssimo!  Tudo em que acreditava deixou de fazer sentido, tornou-se mentira. Fiquei desorientado,  comecei a agir como um macho ferido na sua honra. A ira aumentou desmesuradamente, tornei-me num touro enraivecido e descontrolado.

Peguei na roupa do tipo, atirei-a pela janela. Fiz o mesmo à roupa da minha mulher, abri o guarda-fatos com estrondo,  atirei os cabides com as peças de roupa pela janela do 1.º andar para os paralelos do passeio do largo. Ela agarrou-se a mim, segurou-me os braços. Fez tudo para evitar o escândalo. Meteu-se na minha frente, impedindo-me de atirar mais roupa.  

- Para. Para. Não faças isso, por favor, para! – gritava.

Quanto mais falava e se agarrava a mim, mais surdo eu ficava. Sentia o seu corpo nu a contorcer – se, segurando-me em vão.

O totó do amante olhava boquiaberto sem poder vestir a sua roupa.   Parecia indeciso e receoso de qualquer gesto que me perturbasse ainda mais. Imaginou bem  o que eu era capaz de fazer: afinal, acabava de ser apanhado em flagrante delito pelo cornudo do marido. Um marido encornado é capaz de tudo. Eu podia matá-lo e  desventrá-lo se tivesse uma arma branca. Foi   sensato, não fez nada. A  amante debatia-se com os meus braços e ímpeto de raiva crescente.

-Para, por favor, estás louco! Acalma-te, vamos conversar. Não adianta fazeres isso. Não faças escândalo,  por favor. Olha os vizinhos…

- Sua cabra, sua puta. Como foste capaz? Não acredito que me fizeste isto!  Por detrás desse teu ar de santinha  … as santinhas são as piores – eu começava a ofegar, a espumar da boca, quase a chorar, desvairado. - Sua grandessíssima vaca. Cabrona de merda. Puta traiçoeira. Não sei o que te faço. Foda-se! Caralho, FODA-SE! - os meus berros coléricos ecoavam no apartamento. A vizinhança devia estar a par da briga familiar,  e apreensiva. Uma situação de violência doméstica, talvez chamassem a polícia.

Eu estava descontrolado, esvaziara o armário, tinha de fazer mais disparates, de vincar bem a minha revolta e reprovação. Não é todos os dias que se apanha a mulher na cama com outro.  

O totó entrou na casa de banho,  tapou a nudez com a toalha. Era pequena. Vi-o de costas a tentar esgueirar-se sorrateiramente pela porta,  com o rabo à mostra. Fiquei mais furioso ao perceber que ela me desviava a atenção para ele se escapulir do quarto.  Esbofeteei-a na cara num impulso  descontrolado, ela reagiu e também me esbofeteou com toda a força.  Pela primeira vez na vida,  agredíamo-nos um ao outro. Saltei para o tipo, arranquei-lhe  a toalha do corpo, atirei-a pela janela. Ele interpôs-se entre nós. Finalmente, falou, apontou-me o dedo à cara:

- Você é um cobarde, não devia  bater numa mulher.

- Quem é você para me dar lições de moral? Seu filho da puta, seu cabrão de merda que anda a foder a mulher dos outros.

Atirei-me a ele aos murros e pontapés. Apertei-lhe o pescoço, derrubei-o ao chão,  tentei estrangulá-lo. A mulher pendurou-se nas minhas costas, puxou-me para trás, senti os músculos tensos do  corpo nu a puxar-me os ombros; as pernas transpiradas a apertarem-me o pescoço, desequilibrando-me. Caí desamparado, os dois puseram-se imediatamente em cima de mim,  segurando os estertores da minha raiva. Prenderam-me  os braços e as pernas, um em cada ponta.  Ele acocorou-se com todo o peso do seu corpo em cima da minha caixa torácica,   segurando com os dois braços a minha cabeça e braços. Ela a prender-me as pernas,  deitada sobre elas, agarrando-as com toda a força dos seus dois braços. Eu fiquei extenuado de gritar e lutar, latejava esvaido de energia para me sobrepor a eles, a arfar vencido.

Cuspi-lhe na cara, com as forças que me restavam. Levei um soco e não me lembro de mais nada. Desmaiei.

Quando voltei a mim,  eles tinham desaparecido, os lençóis estavam espalhados no chão e a cama desfeita. Levantei-me dorido, apoiando-me no colchão, com os músculos entorpecidos.  Tinha levado uma valente sova. Olhei-me ao espelho, a cara estava pisada. Deitei-me na cama, confuso,  a pensar na vida. Entretanto,  anoitecera.

A sombra dos plátanos refletia-se nos vidros encadeados pelo luar.  Parecia  impossível ter ocorrido aquela cena vergonhosa  numa noite tão serena e silenciosa.  Lembrei-me do que atirara pela janela, espreitei lá para fora. As peças de roupa tinham sido recolhidas.  Um jovem fumava calmamente um cigarro sentado nos degraus do crucifixo. A vizinhança não dava sinais de si. Parecia que todos tinham abandonado  o largo, indiferentes ao meu drama.

Fiquei quieto muito tempo, a refazer os acontecimentos. Só me apetecia chorar,  chorar muito. Eu merecia chorar como uma criança. Talvez as lágrimas me dessem algum consolo. Estava letárgico, incapaz de assimilar o que aconteceu. Recordei a infância, teci o fio dos  encontros e coincidências  que me levaram a conhecer Inês, procurei uma inocência perdida nas memórias do passado e entender o que falhou. Sentia-me infeliz e vazio. O que falhou?

Finalmente comecei a chorar, afaguei  as lágrimas e os soluços nos mesmos lençóis que envolveram os dois amantes no amor adúltero. Senti o cheiro perfumado da minha mulher. Não me repugnaram  os lençóis humedecidos na intensidade do amplexo. Terá sido muito intenso? Quantas vezes tive uma relação intensa com  Inês?

Sei que nunca fui um bom amante com ela. Eu contentava-me com pouco e ela, aparentemente, também. Oh, descobri da pior forma possível,  como estava enganado!

 

Imaginei Inês nua na cama a fazer amor com o fulano. A cabra! Grandessíssima cabra! Desfez tudo em que eu acreditava. Nunca imaginei, sempre pensei que se algum de nós fosse infiel seria eu.  Comecei a ver Inês de uma forma muito diferente do que antes,  julguei-me um lorpa imbecil, o assexuado agora era eu. O desinteresse que ela mostrava pelo sexo talvez não se devesse a ela, mas a mim. A revelação da sua infidelidade tornou-a subitamente mais sensual e atraente, excitei-me a pensar nela. Um prazer erótico invadiu-me os sentidos. Desejei fodê-la endiabradamente. Bati uma punheta. A raiva contida libertou-se de mim, fiquei  aliviado.

Depois disso,  uma enorme solidão apoderou-se de mim. De manhã,  esclareceria a situação, ligaria a Inês. Era  capaz de perdoar e voltar a amá-la. Prometi a mim mesmo.

A noite estava quente,  revolvi-me nos lençóis. Aconcheguei o pénis na palma da mão, senti o esperma ressequido. Mexi nele suavemente, adormeci de barriga para o ar.

Suportei mal a solidão da noite. A ideia de passar a dormir sozinho atormentou-me em demasia. Habituei-me à sua companhia silenciosa, ao meu lado na cama, com ou sem sexo.

Onde teria passado a noite? Os ciúmes a  imaginá-la na cama do amante foram dilacerantes. Os dois amando-se novamente, fazendo planos para depois do que aconteceu. Cúmplices. Não podiam mais esconder a relação de ambos. O que iria ela fazer? Era-me insuportável a ideia de vê-los juntos, de a ver seguir uma vida independente da minha, a ser amada como nunca a amei;  e eu sozinho, perdido, à procura do amor. Inês estava em vantagem sobre mim. A mulher que eu julgava obediente e submissa, revelara-se uma pessoa totalmente diferente. Ousada, capaz de seduzir e de ter um amante.

sábado, 18 de abril de 2026

Casa-Museu de Camilo Castelo Branco

 


Camilo media apenas um metro e cinquenta e oito. É um dado algo difícil de acreditar num homem que facilmente se envolvia em pancadaria e respondia aos insultos desafiando  para duelos,  timbre dos românticos do século XIX. Devia ser alvo de chacota frequente por ser baixinho  e  por ter na cara marcas das bexigas que o desfeavam: “cara de areia mijada”, chamaram-lhe certo dia as peixeiras da Póvoa,  local onde passava temporadas em banhos e esbanjava dinheiro no casino, como jogador compulsivo que era.

Parece que tudo na vida de Camilo foi desmesurado e excessivo: os amores, a inquietude, os acontecimentos  pícaros em que se envolveu desde muito jovem, começando no seu casamento aos 16 anos em Trás-os-Montes, onde vivia com familiares próximos, por ter ficado órfão de pai e mãe.

A sua última companheira foi Ana Plácido;  portuense, nascida na rua do Almada. Casada com um próspero comerciante, Pinheiro Alves, que intentou um processo contra eles por adultério.  Os amores ilegítimos causaram escândalo na cidade, o casal adúltero esteve preso na cadeia da relação a aguardar  julgamento. Nesse período, Camilo não se coibiu de provocar os portuenses,  usufruía de alguma liberdade,  saía  para a rua,  era visto a passear e a montar a cavalo. Certo dia, subiu a rua de Santo António (atual  31 de janeiro), comprou botins para a companheira, levou-os na mão,  desembrulhados e sem caixa, à vista de todos, chocando ainda mais a zelosa e conservadora sociedade portuense.  

Os botins, a mesa e o banco em que se sentava a escrever, são alguns dos objetos  originais que se encontram na casa museu. Como pessoa de estatura muito baixa, o seu banco era bastante alto,  para chegar à mesa e apanhar a luz que entrava pela janela lateral virada a norte. É estranho imaginar este gigante, este escritor brutal, a escrever com as pernas suspensas no ar, lembrando uma pequena criança que não chega com os pés ao chão. Escrevia de pé, muitas vezes. Do lado oposto, sentava-se Ana Plácido, que nos últimos anos - Camilo ficou quase cego -  lhe lia e  copiava textos ditados por ele. O candeeiro de azeite, de três pavios e abafadores de chama,  iluminava-lhes as noites à secretária, é o mesmo.

A vitrine da biblioteca conserva dezenas de livros originais pertencentes a Camilo – foram mais de três mil – de capa dura e pequenos papelinhos a sobressaírem das páginas, anotações que fazia em todos eles. Era da sua predileção uma História de Portugal, em 13 volumes.

O relógio de parede, descrito rebuscada e exageradamente no romance “Eusébio Macário”,  numa aposta que fez com Ana Plácido de que também era capaz de escrever ao estilo realista, está como novo, em funcionamento. Ouvem-se as cordas e o deslocamento dos ponteiros, o  batimento metálico das horas.

Na sala de estar,  a cadeira de baloiço – a mesma utilizada por Manuel de Oliveira no filme sobre os últimos dias de CCB:  “O Dia do Desespero” - na qual se suicidou com um tiro no ouvido  e a marquesa onde o deitaram e acabaria por morrer.  A equipa de filmagens doou ao museu alguns figurinos do filme,  vestidos compridos, rendados de cores berrantes, pendurados no roupeiro de Ana Plácido.  

Retratos de época, a preto-e-branco, de Manuel, filho de Ana Plácido e Pinheiro Alves, herdeiro da quinta de Seide (Pinheiro Alves desconfiava que podia ser filho de Camilo), cuja herança transitou para  a mãe,  devido ao seu falecimento prematuro, aos dezanove anos.    E dos filhos de Camilo e Ana Plácido, Jorge e Nuno. Jorge tinha problemas psiquiátricos graves:  era “louco”, palavra do próprio Camilo, que o levaram a internamentos no Porto e a ser acompanhado pelo grande amigo do escritor,  o médico Ricardo Jorge. Nuno,  foi um estroina tresloucado e, tal como o pai, um viciado compulsivo pelo jogo. Casou com a filha de um brasileiro rico e teve uma filha desse casamento. Ambas morreram muito cedo. Herdou a fortuna, que desbaratou rapidamente no jogo e numa vida devassa. Casou em segundas núpcias com uma lavradeira de Seide, de quem teve sete filhos. Morreu aos trinta e dois anos, num chalet do outro lado da rua.  É deste filho a descendência atual de Castelos - Brancos.

No quarto de Camilo,  a cadeira de verga tem o entrançado rompido: como é possível neste museu tão cuidado  uma cadeira neste estado? É assim mesmo, diz-nos a guia,  tal e qual como ele a usava. O escritor tinha uma ferida nas costas; assim, sentava-se sem a encostar na madeira evitando dores maiores.

Os 68 cacifos na receção do museu têm, cada um, o nome de uma obra do escritor, ordenadas cronologicamente até ao seu último livro,  escrito pouco antes de se suicidar em 1890, premonitoriamente intitulado: “Nas Trevas”.

E a visita continuou fora da quinta, vendo os jardins cuidados, a cameleira,  a “árvore do Jorge” – um rebento da árvore original plantada pelo filho após a morte do pai. A sul, o monte Córdova, que serviu de inspiração ao escritor no romance “A bruxa do monte Córdoba” e em muitos outros  nos quais descreveu prodigamente as  paisagens e as gentes minhotas, e  onde fica o santuário de Nossa Senhora da Assunção, que ele ainda queria visitar nesse dia,  de passagem por Santo Tirso.

Ouviam-se os altifalantes com música do Quim Barreiros. Iria decorrer em breve um arraial qualquer, que não lhe suscitou  curiosidade.  Passeou pelo largo da junta de freguesia, o Centro de Estudos Camilianos, projetado por Siza Vieira, encontrava-se aberto. Não estava com vontade de continuar a embrenhar-se no universo Camiliano, viu ainda as indicações de um percurso pedestre, um roteiro Camiliano: “o Trilho da Congosta do Estevão”, inventado com o intuito de revisitar ambientes e personagens da época,  por ruelas empedradas e de terra,  ao longo de moinhos,  ribeiras e vivendas rústicas. Ficaria para outra ocasião, com mais tempo.

Seguiu em direção a Santo Tirso, de gula aguçada. Pararia na casa Moura para comprar Jesuítas - uma tentação! Provavelmente, a par dos pasteis do Tentúgal, dos melhores doces de  Portugal. “Já acabaram, hoje foi uma loucura”, disse-lhe o empregado de mesa.





O monte Córdoba, do quarto de Camilo


sábado, 21 de março de 2026

Serra da Boneca

 


A ermida de São Pedro é um local isolado, rodeado de eucaliptos queimados e  de uma tasca num  pequeno barraco, onde param  clientes ocasionais  que ali chegam de carro para beber um copo de verde tinto da região e conversar com o taberneiro, o Sr. Isaltino. 

Joana ficou sentada no carro,  enquanto o companheiro foi perguntar às duas únicas pessoas que lá estavam  o caminho para o baloiço da Boneca.  O GPS do carro estava baralhado, não lhes dava o local exato. Há algum tempo que vinham subindo a serra sem encontrar qualquer sinal e desvio com indicações precisas. As  fotografias que viram na internet,   de um baloiço pendurado no alto da serra com vistas deslumbrantes para cumes montanhosos estendendo-se indefinidamente  no horizonte, e a curva do rio no fundo do vale,  eram muito apelativas; devia haver placas, indicações para lá chegar. Estranhavam ainda não terem visto nada.

Os homens na tasca interrompiam-se atabalhoadamente,  gesticulando,  querendo ambos ser solícitos com o visitante que passou por eles no carro desportivo de alta cilindrada, cem porcento elétrico – um carrão ! –, e uma loira de óculos escuros ao seu lado,  explicando onde se tinha perdido e o caminho que devia retomar para lá chegar.  O companheiro escutava-os, complacente: “Como são diferentes de mim estes sujeitos!” Vestiam calças cardadas, camisas sujas de nódoas de terra ressequida e botas gastas; ambos com o seu copo de tinto em cima do balcão, já meio tocados pelo vinho, em contraste com o jovem moreno e alto, de cabelo negro ondulado, elegantemente vestido de calças de ganga e casaco de cabedal por cima de uma T-shirt branca a dizer “Calvin Klein”, que polidamente  se havia dirigido a eles.

Desceram a estrada atrás do camião que ia despejar o lixo no aterro próximo. Joana fez um ar de nojo: - Querido, não consegues ultrapassar o camião? Incomoda-me ver aquela betoneira a revolver o lixo mesmo à nossa frente …e o cheiro, meu Deus!

- Tem paciência, minha querida, devemos estar a chegar ao desvio …

Foi com alívio que encontraram o estradão de cascalho que os levaria às eólicas e ao baloiço. Tal como os senhores lhe disseram a estrada estava em más condições, mas  um carro como o dele não teria problemas.  

Subiram os últimos metros a pé, pelas encostas xistosas, agrestes, varridas pelo vento. Rebentos de eucalipto nasciam vigorosos dos troncos queimados. Atravessaram a cancela com o  aviso  “Proibido”. O silvo metálico do vento soprava nas gigantescas pás das hélices, lembrando o som do carro elétrico ao arrancar. Viram o rio a correr numa curva apertada no fundo das encostas, uma imagem igual à das fotografias que viram na net. Caminharam com cuidado, desviaram-se  das arestas cortantes  das rochas, não encontraram o baloiço.

  - A empresa que explora o parque deve-o ter retirado, provavelmente...  - disse Joana.

Do outro lado da encosta, via-se o aterro. Um bando denso de gaivotas sobrevoava a pilha de lixo que se elevava da estrada.   

 - Que horror!! Já que não há baloiço vou colher flores.

Joana fez um  bouquet de pequenaflores amarelas e lilases que despontavam da terra, dando alguma cor à monotonia do lugar. Combinariam bem com o tapete  persa,  comprado há alguns anos numa loja do Arrábida.  

- Esse  tapete agora vale muito dinheiro, faríamos um bom negócio se o vendêssemos. Neste momento, é quase impossível importar bens do Irão devido ao bloqueio do estreito de Ormuz – observou  o companheiro. - Ouviste a notícia do indivíduo americano, amigo do presidente, que comprou ações de companhias petrolíferas horas antes do ataque?

- Ouvi, querido. Isso é que foi perspicácia!

- Ou apenas informação privilegiada, fazem-se grandes negócios quando se sabe antecipadamente o que vai acontecer no mercado – disse ele, habituado investir o seu dinheiro em ações, ETFs e fundos – As ações  valorizaram exponencialmente após o ataque….

- A guerra é uma grande oportunidade de negócio, as ações de armamento e petróleo estão em alta. Bravo Ambrósio! – concluiu Joana, tocando provocadora no ombro do companheiro com a sua  mão delicada e amaciada pelo creme de alfazema que comprou em Paris a semana passada. Uma brincadeira que repetiam frequentemente, inspirados  num velho anúncio publicitário:

Ambrósiohoje apetece-me algo doce. 

- Senhora, tomei a liberdade de escolher Ferrero Rocher.

Riam sempre que a faziam. Usavam palavras obscenas e alusões sexuais. Havia cumplicidade entre eles. Joana insinuava-se, subia o vestido de algodão até às coxas, mostrava as pernas bem torneadas. O jogo excitava-os.

Seguiram pela EN 108 até à pousada do palácio do Freixo. Premiram  o botão debaixo do volante para abrir o tejadilho do carro.  Ele pôs os óculos escuros “Ray-Ban” para se proteger do sol que se punha sobre o Atlântico e lhe encadeava a vista. Levava o braço esquerdo com o cotovelo dobrado, apoiado na janela. Guiava com uma mão, devagar, olhando o rio, fruindo o prazer da condução, o autorrádio ligado na SMOOTH FM;  a mão direita tateava  suavemente  os contornos nus  das pernas de Joana. A vida corria bem. O banho de espuma quente com flutes de champagne e bombons de chocolate, a massagem Tailandesa no spa privativo da suite,  aguardavam por eles.  

- Ambrósio, hoje apetece-me algo…