sábado, 26 de setembro de 2026

Ribeiros

 


Deixo aqui o texto de um amigo, que ele me enviou pelo WhatsApp. Talvez a polícia, os seus familiares e amigos possam obter pistas que ajudem a localizá-lo e contribuam para entender o seu estado mental nos dias anteriores ao  seu desaparecimento. Que quereria ele dizer com tudo isto?  Seria um pedido de ajuda? É um enigma.

 Não foi sem nervosismo que abri a mensagem e li:

Escrevo diretamente no PC e no telemóvel,  em vez de o  fazer em papel, de usar  lápis e caneta. Seria mais intuitivo, orgânico e estimularia as sinapses cerebrais, havendo uma relação física entre a mão e o cérebro. Desta forma, limito-me a pressionar uns caracteres no teclado, que aparecem no monitor a emitir  uma luz  artificial, cansando os olhos e a mente. De noite, os estímulos visuais e a exposição a uma ferramenta eletrónica durante as horas em que devia estar na cama, a dormir, provocam-me insónias e, nos curtos momentos em que passo pelas brasas, agito-me e tenho pesadelos. Sofro de uma inconstância  mental, de súbitas faltas de memória, palavras  básicas que esqueço, nomes de pessoas conhecidas que me não ocorrem no momento. Debato-me entre a realidade e a ficção, entre o escrever e o não escrever

Lentamente, vou perdendo o contacto com a realidade. Vivo num mundo ilusório, inventado por mim, construído com remendos de histórias de pessoas que conheço,  de sonhos e de vidas imaginárias que povoam os meus pensamentos.

A realidade vai-se esvair como areia entre os dedos, até chegar a um ponto em que  deixo de ser Eu e a demência passa a ser  a norma.

Ouço histórias reais, conheço casos cruéis e,  nesses momentos,  sinto-me mais entrosado com a  vida. Tudo se torna mais nítido e as desgraças alheias  alimentam-me como a um parasita,  para sobreviver.

 Anexadas à sua mensagem  vinham fotografias tiradas em locais fáceis de identificar, no concelho de Fafe,  concluindo-se que ele estivera a trabalhar  com a sua instituição de apoio social e que acompanhara, como habitualmente, os jovens com trissomia 21, autismos e outras síndromes profundas.

Depois disso, desapareceu a ainda não foi encontrado.



























sábado, 29 de agosto de 2026

Praia da Torreira



Foi por acaso. Quis fugir dos sítios mais frequentados e levei Joanna a ver a ria. Passámos na praia da Torreira e enquanto caminhávamos pelo areal vimos os tratores e o aglomerado de pessoas na orla do mar. Adivinhei o que era:

-Vais conhecer uma atividade fora dos roteiros turísticos, pouco conhecida. Só existe nesta parte da nossa costa. Não aparece nos folhetos, é um Portugal mais autêntico - dizia eu a Joanna - mesmo os portugueses, a maior parte deles, desconhece o que vais ver - concluí, lembrando-me que poucos ouviram falar na arte da Xávega.

Ela ficou entusiasmada com a surpresa que eu lhe estava dar.
- Really?
Deparámo-nos com a atividade tradicional em plena laboração e eu teria a oportunidade de lhe mostrar algo de verdadeiramente genuíno.
O dia de sol estava magnífico. A bandeira vermelha nas praias vigiadas a Sul indicava mar perigoso, as ondas rebentavam com estrondo no areal.
Apesar disso os pescadores lançaram a rede ao mar.
Já só vimos a recolha do peixe. Dois tratores com roldanas, afastados um do outro cerca de duzentos metros, iam puxando a rede para o areal. Uma mulher conduzia um dos tratores, outra ia dobrando a corda nas amarras. Outros pescadores, com barrotes de madeira, impediam o emaranhamento da rede à medida que saía da água. Os dois tratores iam-se aproximando lentamente. Chegou um terceiro trator com grades de plástico empilhadas umas em cima das outras, onde ia ser colocado o peixe.
Os pescadores assistiam esperançados à aproximação da rede. Havia-se formado um aglomerado de banhistas curiosos que observavam a faxina.
Fui explicando à minha amiga:
- Este tipo de pesca pratica-se nesta zona da costa portuguesa há centenas de anos.  Vês aquele barco? - perguntei, apontando uma embarcação no areal - a forma da proa foi inspirada nos barcos fenícios que cabotavam a costa. Antigamente as redes eram arrastadas por parelhas de bois.
Joanna estava fascinada, não havia nada disto nos Estados Unidos, muito menos em Nova Iorque.
- Very beautiful.
Um homenzinho encardido, com ar de quem vive no mesmo bairro dos pescadores, destacou-se do grupo. Não executava nenhuma tarefa, andava ali a fazer rir os outros e a mostrar um talento especial: equilibrar no nariz a beata apagada de um cigarro. Adivinhando que Joanna, pelo seu porte alto, cabelo loiro e olhos azuis, devia ser estrangeira, aproximou-se dela. Estalou os dedos para repararmos nele e colocou a beata no nariz, equilibrando-a como se fosse um malabarista num circo, fazendo o seu número para a minha amiga. No fim, recebeu um sorriso dela e ele retribuiu da mesma forma, orgulhoso de se ter exibido com sucesso àquela bonitona estrangeira.
Olhámos novamente para o mar. A rede começava a emergir e a formar a bolsa que iria engolfar os peixes. As bóias brancas que a sinalizavam foram retiradas da água. As gaivotas que até então se tinham mantido pousadas na areia voaram para o mar, gritaram e rasaram a água, tentaram capturar os peixes que se aproximaram da superfície.
Trazia pouco peixe. Havia mais pessoas na areia do que peixes na rede.
- Coitados dos pescadores! - disse Joanna condoída deles. Eu também senti um aperto: tanto trabalho, tanta paciência, tanta espera, e o resultado final foram uns míseros quilos. Alguns nem sequer se aproveitavam; as tintureiras bebés foram devolvidas ao mar, contorcendo-se nas mãos dos pescadores, tentando em vão respirar. Ficaram umas petingazitas, lulas, carapaus e peixes-agulha. Os pescadores estavam desapontados, a ver pelas inúmeras grades vazias que vinham no trator. Eles esperavam uma pesca bem mais generosa.
Nestas ocasiões, aparece sempre gente que tenta recolher para os baldes de praia o peixinho fresco que salta da rede - e assim, já não vai à peixaria! - Não sei o que os pescadores pensam, não os vi queixarem-se e a impedir as pessoas de se aproximarem.
Ouvi dizer que de manhã também pescaram pouco. Se é frequente, não imagino como conseguem sobreviver. É uma atividade dura e mal paga, que exige a colaboração de muita gente. Eles podiam estar na praia a apanhar sol ou a passear como nós os dois, mas não. Estavam a trabalhar debaixo do sol quente, num sábado, a molhar as calças na água - não estavam de biquíni nem em calções de banho - enquanto no centro da Torreira havia música e festa.
Afastámo-nos. Joanna queria estender- se nas dunas.
- Mas como? - perguntei eu. - Não temos toalha, nem viemos preparados com roupa de banho.
- Então!? Qual é o problema? Fazemos nudismo.
Fiquei constrangido. Desta, eu não estava à espera! Está certo que ela vinha de Nova Iorque, habituada a atitudes mais liberais e a estar mais à vontade e descontraída com os outros, do que eu. Mas assim, de repente, sem termos falado nisso!? Eu nunca a tinha visto nua e por isso vieram-me à cabeça umas ideias confusas. Éramos só amigos e talvez fosse  a maneira de ser dela, sem segundas intenções. Mas eu fiquei baralhado, mais inseguro. Eu sabia que ela estava a gostar muito daquele dia e não quis desiludi-la nem refrear o seu entusiasmo.
- Ok - anuí timidamente.
Caminhámos para Norte, para onde as pessoas na praia começavam a rarear. Um longo areal estendia-se vazio à nossa frente. Subimos as dunas e procurámos um recanto escondido, onde pudéssemos ficar à vontade a usufruir o esplendor do sol nos nossos corpos. 









segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Alcafache


Passei aqui há cerca de vinte e cinco anos. Uma amiga fazia vilegiaturas nas Caldas da Felgueira, costumávamos, depois dos tratamentos, dar passeios de carro pelas redondezas. Procurávamos sítios com praias fluviais para ir a banhos, conhecemos Sangemil e Alcafache. Para mim, a explorar a região pela primeira vez, cada local era uma descoberta interessante. Agradavam-me as vilas antigas, penduradas nas margens de riachos verdejantes, com as suas pequenas igrejas românicas e vestígios centenários - geralmente pontes de origem romana a ligar as duas margens do rio. Localidadezinhas simpáticas, de comércio e hotelaria sazonal, recebiam visitas graças às propriedades medicinais das suas águas. As casas e as fachadas mantinham um porte garboso e cuidado para dar guarida aos visitantes.

Regressei e confesso que já não sinto o mesmo encanto, a desilusão começa a fazer parte deste país. Em vinte e cinco anos, nada evoluiu: houve sempre uma inércia atávica que impediu o desenvolvimento económico.
Não sei quais foram as causas, sei que a população diminuiu em muitos concelhos do interior - em quase todos -, fecharam serviços públicos e houve dinheiro investido, fundos europeus, que não se traduziram no bem-estar e desenvolvimento social do país.
Ver fachadas degradadas, marasmo, património histórico, cultural e social com potencial para criar riqueza totalmente desvalorizado, é entristecedor.
No entanto, o encanto das oliveiras e sobreiros nas bermas da estrada, os campos e pomares cultivados, o som das cigarras nas horas do calor, a arquitetura tradicional, não desapareceram. O que causa maior dó: apesar de todas as contrariedades, o interior resiste e continua com motivos de interesse.
As termas ficam num edifício de cores claras, linhas modernas e retangulares, parecidas com uma clínica, mas mais acolhedoras, semi escondidas na margem do rio Dão. O hotel de três estrelas já teve melhores dias. A fachada nostálgica de um velho hotel de charme, de portas e janelas partidas, lembra quem passa na rua que houve outro tempo com mais pessoas e animação nas termas. Alcafache parece mais sonolenta e parada do que nunca.
Estendemo-nos no pequeno areal, na extremidade da sombra que sobrava de uma tileira exuberante. Encostaram-se a nós, de pé, três senhoras com um carrinho de bebé sujo e enferrujado, lá dentro uma criança minúscula de poucos dias. Vinham com elas alguns homens em calções de ganga. As mulheres entraram vestidas na água, as camisolas e as calças molhadas colaram-se ao corpo, realçando os membros maciços e as barrigas obesas. Eram ciganas.
Dei umas braçadas na água castanha e tépida do rio.
Estendi-me no areal e vi chegar um jovem casal com uma cadelinha arraçada de Labrador que, pouco depois, entrou e passeou com ela na água, dando-a a beber, fazendo-lhe festinhas e sacudindo o pelo. Eu tinha o corpo molhado, fiquei com a impressão de que estava a cheirar a cão. Encostei o braço ao nariz, cheirei a pele discretamente. Continuei a sentir o cheiro no corpo. Talvez estivesse sugestionado pelo que estava a observar e fosse apenas o aroma normal da água doce misturada com a poeira do areal. Achei uma falta de higiene e de consideração dos donos da cadela para com as pessoas na praia - um local pequeno frequentado por algumas dezenas de banhistas - andarem a passeá-la na água. A praia não era vigiada, por isso não vi qualquer proibição; e como as outras pessoas continuavam dentro da água como se nada fosse, alheias à presença do animal, aceitei o facto e não liguei mais ao assunto. Continuei a ler o meu livro.
De repente, gerou-se uma algazarra entre o grupo cigano e o casal. O motivo teve a ver com os ciganos terem feito uma observação ao casal, por andarem a banhar a cadela ao pé da criança. Às ciganas juntaram-se outras, que no entanto surgiram de outros pontos do areal: umas oito, gesticulando nervosamente, quase a agredir a mulher: "Nós não somos cães, veja lá como nos trata. Respeite-nos!". A não cigana punha-se de frente para elas, inchando o peito, levantando os punhos: "Eu não tenho medo, vocês pensam que podem fazer o que querem mas não fazem." O companheiro punha água na fervura, afastava-a, segurava-a. Convencia-a a calar-se. Ela não desistia, dizia-lhes vocês isto, vocês aquilo. Os ciganos ouviam o modo discriminatório e insolente como estavam a ser tratados: quando se é insultado tem-se tendência a reagir em conformidade e eles não eram nenhum Jesus Cristo. Tornaram-se mais agressivos. Os homens defendiam a honra das suas mulheres e da comunidade, ameaçavam bater no casal. Um deles, talvez o chefe, mais assisado, punha-se à frente dos companheiros impedindo a agressão. Chegou o segurança. Meteu-se no meio do conflito, falou com ele, chamou a mulher à parte, pareceu-me que lhe dizia: "Por favor, não arranje confusão, afaste-se daqui e leve a cadela." Ela não ficou convencida, fintou o segurança, voltou a aproximar-se das ciganas, ameaçadora e a rir: "Eu não tenho medo de vocês,...". Pensei que ia haver zaragata, que ia ver mulheres a arrancar os cabelos e a pontapear na areia outra mulher. O chefe cigano e o segurança conseguiram evitar o pior, mas o ambiente azedou bastante. As outras pessoas observavam, só outro homem, não cigano, se aproximou e tentou ajudar o segurança a mediar o conflito.
A mulher teve muita sorte, estava em minoria, foi insolente e provocadora, podia-lhe ter corrido mal. O chefe foi decisivo a persuadir a comunidade a conter-se. Na minha opinião, nada disto teria acontecido se a outra mulher não se tivesse exaltado com os ciganos e tivesse demonstrado mais bom senso e paciência. Não sei se as ciganas lhe disseram mais alguma coisa e se foram intencionalmente ofensivas, mas do que vi, a mulher provocou-as desnecessariamente e demonstrou ser preconceituosa: ”Vocês!". Além do mais, não devia andar com a cadela na água, pelo menos enquanto houvesse banhistas.
Fomos ao café e a notícia da zaragata já lá tinha chegado. Dizia o dono: "Eu já vi de tudo. Um dia chegou-me uma cliente com um cão ao colo, comprou um gelado, ela dava uma lambidela e o cão dava outra." Saiu detrás do balcão, foi à esplanada levar duas cervejas, quando regressou concluiu: "Há gente que trata os animais melhor do que as pessoas."
Chegaram três carrinhas da GNR com todo o aparato. A comunidade cigana havia-se juntado debaixo do arco da ponte, junto da torneira de água quente da nascente e falava com os agentes. No areal viam-se mais pessoas a passear os cães.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Ançã

Vi o cartaz na piscina a agradecer os visitantes e assim fiquei a saber que o concelho também foi afetado pela tempestade Kristin. Os bombeiros de Cantanhede andaram ocupados a remover árvores derrubadas e a apoiar populações afetadas. Fiquei satisfeito por, inadvertidamente, estar a apoiar o turismo na região, dando o meu modesto contributo para a sua recuperação económica com a minha visita. Talvez este verão ainda visite outros locais do centro.

Ançã é um nome familiar: terra natal do intelectual e resistente anti-fascista português, Jaime Cortesão. Combatente na primeira guerra mundial, envolvido nas campanhas de escolarização promovidas pelos governos republicanos e no levantamento do Porto, de 1929, o Reviralho. Lutou na guerra civil Espanhola. Viveu muitos anos exilado no Brasil, onde foi professor universitário. Investigador, historiador, escritor e médico.
E também pela famosa pedra de calcário branco, a rocha utilizada na construção de inúmeras estruturas arquitetónicas, de textura e claridade únicas, que conferem a muitos dos nossos monumentos as cores alvas e luminosas que os caracterizam.
A importância económica de Ançã foi reconhecida no estatuto administrativo de Concelho, atribuído na idade média, atestado pelo pelourinho no centro da vila.
Testemunho dessa antiguidade e passado eloquente são as ruas estreitas, os edifícios sumptuosos da nobreza, a pequena praça da igreja matriz e os rendilhados de calcário que se vão observando ao percorrer as suas ruas.
Encontrei um colega de escola que costuma passar o verão em Ançã, conhecido pelo seu pessimismo e por contrariar com argumentos sombrios o que dizíamos, mesmo que verosímeis e lógicos. Tendia sempre a denegrir o lado bom das coisas. Estava-lhe no sangue. Parece que não mudou nada, pois só me falou dos aspetos negativos de Ançã:
"É uma vila tuga como muitas outras, o património histórico totalmente desvalorizado e desbaratado. Viste as paredes a cair e os palácios abandonados? Se fosse outro país, estaria tudo conservado. É triste, mas é a realidade. Gastam o dinheiro em estádios de futebol, o euro 2004, em obras faraónicas, agora vem aí o TGV... ah, e não te esqueças que também vamos organizar o mundial de futebol de 2030, somos um país despesista, o que é importante para o dia a dia das pessoas, a qualidade e a habitabilidade do sítio onde se vive não interessa. E os carros? Conseguiste estacionar? Carros por todo o lado, em cima dos passeios, a preencher qualquer beco e lugar. Já estive em países em que não se via um único carro nos lugares históricos, o acesso estava vedado. Aqui, queres tirar fotografias e não consegues porque só tens carros à frente.
Um país que ignora o património e a memória não tem futuro. Ançã não evoluiu nos últimos trinta anos. Está tudo igual ou pior. Parou no tempo. Recebemos milhões de euros de fundos europeus, não vejo melhorias em nada. As escolas, os hospitais, o urbanismo, a natureza, a floresta, está tudo pior. Não se planifica nada neste país. É uma tristeza e uma vergonha."
Foi mais ou menos este o teor do que me foi dizendo, atabalhoadamente.
Conforme o que ele dizia em relação ao país e a Ançã, digo eu em relação a ele: continua igual ou pior.
A passagem dos anos fez as suas marcas: estava gordo, a cara sulcada por rugas mais profundas, os gestos eram nervosos e agitados, do canto do lábio saía-lhe uma baba branca. Metia pena vê - lo falar. Pensei se ele não se teria tornado num alienado.
Convidei-o a dar um mergulho nas águas cristalinas e frias da piscina natural. "Não quero mostrar as minhas banhas." Foi com esta frase triste, reveladora da sua personalidade complexada, que se descartou. Dei o mergulho, depois fiz uma pequena caminhada pelo centro da vila. Não sei se Ançã está pior ou igual, sei que transparece uma tranquilidade e beleza decadente, que lhe dão um charme próprio. Fiquei com vontade de voltar.