Vim enganado. Julgava que
encontraria alguma organização e limpeza como
na Europa. A ideia que temos de um país sem nunca lá ter estado é absolutamente
errada. Tendemos a construir uma ideia do mundo e da organização social baseada
na nossa experiência pessoal e pelo que é transmitido na televisão. Vemos imagens de África, sabemos que existe
mais pobreza e miséria, mas não imaginamos o quão caótico e sujo pode ser.
Vi a seleção do Senegal no
campeonato do mundo de futebol, uma boa equipa africana. Não sei por que razão
inconsciente, no meu íntimo devia haver um pensamento que dizia: se o país tem
uma equipa no campeonato do mundo deve ser relativamente organizado. Talvez
seja o mesmo efeito psicológico produzido por um anúncio televisivo em que aparece uma mulher bonita: se a mulher bonita compra o produto então ele deve ser bom. Nada
mais errado. Só a vivência entre as pessoas locais no coração
da cidade, fora dos resorts turísticos
que também existem aqui, permite conhecer
a fundo a verdadeira realidade do país.
Apesar da desordem, as pessoas seguem a sua
vida como em todo o lado: têm as suas
relações pessoais, famílias e amigos, trabalham,
celebram os dias especiais, vivem as suas rotinas, alegrias e tristezas, como todos os outros.
Mas
o contraste é chocante.
Como é possível esta desigualdade
tremenda de desenvolvimento e organização entre os países?
Na cidade, as estradas são montes de entulho, alcatrão velho,
esburacado, onde se acumularam milhares de poeiras trazidas pelos ventos do
Sahara. Estradas desniveladas, que devem ter sido planas, tornaram-se
amontoados irregulares de terra, que as pessoas foram empilhando nas bermas durante
a construção das suas casas.
Circulam pick ups, carrinhas, jeeps, motorizadas. Não há separadores, semáforos, passeios e linhas a delimitar as bermas e os sentidos da estrada. As mulheres caminham de trajes garridos, levando enormes sacos de plástico na cabeça, entre a desordem e o fumo dos canos dos escape, as buzinadelas e a poluição sonora. Passam crianças e idosos. Jovens ociosos deambulam pelas esquinas à procura de um biscate. Cães rafeiros esquálidos, de costelas salientes, farejam o lixo, também fazem parte da fisionomia da cidade.
Os sacos que as mulheres
transportam são depositados nas bermas e fazem-se feiras improvisadas, todos os
dias. Vende-se de tudo: comida,
bugigangas, roupa. Trocam-se e vendem-se telemóveis, expostos em cima de tábuas apoiadas nas latas colocadas nas extremidades.
As casas são barracos incompletos, sem reboco, por pintar, à espera que os filhos casem e construam uma nova divisão para a família. Rodeadas de lixo, sem esgotos, onde os detritos correm a céu aberto para a estrada.
Estou em casa da família Diop,
entendo-me com eles arranhando o Francês. Pensava que todos falavam Francês,
por ter sido uma colónia francesa. Outro erro. A língua que utilizam entre si é
o Wolof, uma língua com uma sonoridade estranha que adotou alguns vocábulos
franceses e ingleses, que capto quando falam entre si e acentua o meu isolamento. São
muçulmanos praticantes; a mãe, madame Mariam,
usa véu e um longo vestido colorido, de
algodão, que lhe tapam o corpo todo,
deixando-lhe apenas os olhos à mostra.
O Sr. Diop, o patriarca, veste
habitualmente camisa e calça escura, e em determinados momentos coloca um
chapéu curto, comum em África, que me lembro de ver em miúdo a ser usado por Mobutu Sesse Seko.
As filhas adolescentes vestem à ocidental, pintam as unhas, usam calças de ganga e tops, saem sozinhas e sei que a mais velha, Florence, fuma às escondidas. Embora observem o islamismo e eu veja frequentemente a mãe a rezar um terço de contas de madeira, talvez por influência de outras culturas e a costumes ancestrais, anteriores à introdução do islamismo, são uma família que eu considero tolerante.
As pessoas daqui são muito belas. As mulheres ondulantes e sensuais, com poucos recursos económicos sabem realçar os seus atributos físicos e a sua beleza. Usam pestanas postiças, alongam-nas evidenciando os seus olhos amendoados e a íris intensamente negra no leito branco; têm cabelos negros espessos e resinosos como piche e tons de pele delicados, do castanho ao preto ébano. Os homens são elegantes, elásticos e robustos sem serem desproporcionados.
Ada, a filha do meio, foi-me
mostrar o mar. Eu era o único branco que se via na rua, olhavam-me como um
objeto estranho, o que faria um branco com uma mulher negra na rua? Felizmente,
Ada era conhecida da vizinhança e a ela se juntaram uma série de miúdos
curiosos que nos seguiram até à praia. A gentileza que ela tinha para lidar com
os miúdos fazendo com que eles não me importunassem. Eu tinha idade para ser
seu pai, não podia haver nada entre nós e além do mais Ada estava noiva de
Omar, embora não gostasse dele, confidenciou-me. Eu iria regressar em breve ao
meu país, não havia problema em desabafar
comigo, acho que ela usou o pretexto de me levar a passear para contar coisas
que não contaria a mais ninguém. Talvez por eu ser estrangeiro, não falar a
língua deles e estar de saída, era como
um cofre em que podia depositar os seus segredos.
Levou-me pelo caminho que conhecia a visitar o porto de pesca e a ver os barcos. Era lá que se encontrava com
Suleiman, o homem de quem gostava. Naquela dia estava apreensiva, sabia que Ele
e um grupo de amigos estavam no mar alto a tentar chegar a Espanha, às ilhas Canárias, num barco
de fundo chato, um simples barquito com
um único motor, para fugir à miséria e começar uma vida nova na Europa.
A partir daquele dia começamos a
ir juntos, Ela para ter notícias de Suleiman e desabafar os seus segredos; Eu para
fugir da claustrofobia da cidade suja e caótica. O mar era o Atlântico, o mesmo
mar do meu país, as mesmas cores, o mesmo vento e ondulação. Ali sentia-me
perto de casa e pensava, todos os dias, no
momento de regressar.







.jpg)
.jpg)
.jpg)























