L: Pois é meu caro, não sei por
que insistes em cansares-te desnecessariamente. Sempre que tens uma folga no
teu precioso tempo, nessa vida que levas tão intensa, em vez de aproveitares
para descansar, fruir as horas despreocupadamente, deixar que elas te
surpreendam, continuas a planificar tudo ao milímetro, a fazer da vida um plano
rígido. Ela é mais forte do que tu e impossível
de controlar.
J: Não tem nada a ver com isso,
simplesmente preciso de estar permanentemente em ação, desgastar-me, transpirar muito, para esquecer os problemas. Só dessa forma consigo entrar
num estado que diria de transe, em modo de velocidade de cruzeiro, como os
aviões. Aí esqueço tudo e relaxo verdadeiramente. Tenho de organizar as minhas saídas, sentir-me seguro, passear
por trilhos definidos em zonas habitadas
para, se me acontecer algum imprevisto ou sofrer algum acidente, ter apoio
imediato. Não tenho a tua tranquilidade inata, o teu saber estar e otimismo.
Não me sinto bem em qualquer lado, como tu. Gosto de estar sozinho e de testar
os meus limites, mas de forma controlada e em ambientes familiares.
Hoje, como imaginas, planifiquei
a minha caminhada. Consultei a internet, escolhi um trilho fácil em Esposende, descarreguei
o folheto PDF para o telemóvel, consultei o site Trilhos e Caminhadas com as avaliações
do percurso, segui em direção à Apúlia.
Nem sempre o que parece é: ao
contrário das avaliações, que referiam trilho bem sinalizado e fácil, cheguei a um
ponto em que as silvas densas tapavam o caminho e engoliam o painel interpretativo
junto à torre de vigia. Foi impossível continuar em frente. Logo de seguida,
enquanto ia pelo caminho rural em direção à estrada que liga ao centro da
Apúlia uma cobra saiu das ervas da berma, atravessou a terra arenosa serpenteando velozmente à minha frente.
Apanhei um susto. Fiquei imóvel, fascinado, a ver as escamas reluzentes do
dorso esverdeado desaparecerem do outro lado do caminho. Como as cobras nos
perturbam! É incrível este medo ancestral e repulsa inata que sentimos por elas:
talvez uma cobra-rateira, a avaliar pelo
comprimento e grossura do dorso. Segui pela terra empoeirada entre campos de
milho transgénico até encontrar a estrada para o centro da vila.
Não foi nada entusiasmante este
pequeno trilho. Felizmente, desta vez não ia sozinho, valeu-me a preciosa companhia
de Sara que foi conversando comigo,
conseguindo acompanhar a minha passada mais vigorosa e acelerada.
L: Concordo contigo, gosto de
outro tipo de atividades, não tenho a tua necessidade de desgaste físico. A mim
basta-me estar na praia a fruir o sol e a delicadeza da areia, estar com pessoas, no cinema, em casa, a ler
livros, ou mesmo a dar aulas e em reuniões chatas; todas as experiências servem
para, como se diz pomposamente, cultivar o espírito. Não acredito em
subterfúgios como a atividade física para melhorar a autoestima, basta observar
o mundo, as pessoas, meditar, que lentamente a transformação acontece. Uma transformação mais profunda do que
qualquer outra, que provoca mudança interior,
sem exigências, estando presente no momento, ganhando consciência de nós
próprios.
Enquanto caminhavam, visitei o
Museu do Sargaço, vi reproduções em grandes telas de fotografias de Artur
Pastor a António Meneres que representam a vida dos sargaceiros. Não havia mais ninguém, além de mim e do
rececionista. Sentei-me no banco da sala silenciosa a observar as imagens,
acredito que estar ali sentado alguns minutos sem mais ninguém deve ter um
efeito em mim mais tranquilizador do que
qualquer caminhada e atividade física que tu faças.

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