sábado, 27 de junho de 2026

Apúlia

 


L: Pois é meu caro, não sei por que insistes em cansares-te desnecessariamente. Sempre que tens uma folga no teu precioso tempo, nessa vida que levas tão intensa, em vez de aproveitares para descansar, fruir as horas despreocupadamente, deixar que elas te surpreendam, continuas a planificar tudo ao milímetro, a fazer da vida um plano rígido.  Ela é mais forte do que tu e impossível de controlar.

J: Não tem nada a ver com isso, simplesmente preciso de estar permanentemente em ação,  desgastar-me, transpirar muito,  para esquecer  os problemas. Só dessa forma consigo entrar num estado que diria de transe, em modo de velocidade de cruzeiro, como os aviões. Aí esqueço tudo e relaxo verdadeiramente. Tenho de organizar  as minhas saídas, sentir-me seguro, passear por trilhos definidos  em zonas habitadas para, se me acontecer algum imprevisto ou sofrer algum acidente, ter apoio imediato. Não tenho a tua tranquilidade inata, o teu saber estar e otimismo. Não me sinto bem em qualquer lado, como tu. Gosto de estar sozinho e de testar os meus limites, mas de forma controlada e em ambientes familiares.

Hoje, como imaginas, planifiquei a minha caminhada. Consultei a internet, escolhi um trilho fácil em Esposende, descarreguei o folheto PDF para o telemóvel, consultei o site Trilhos e Caminhadas com as avaliações do percurso, segui em direção à Apúlia.

Nem sempre o que parece é: ao contrário das avaliações, que referiam  trilho bem sinalizado e fácil, cheguei a um ponto em que as silvas densas tapavam o caminho e engoliam o painel interpretativo junto à torre de vigia. Foi impossível continuar em frente. Logo de seguida, enquanto ia pelo caminho rural em direção à estrada que liga ao centro da Apúlia uma cobra saiu das ervas da berma, atravessou a terra  arenosa serpenteando velozmente à minha frente. Apanhei um susto. Fiquei imóvel, fascinado, a ver as escamas reluzentes do dorso esverdeado desaparecerem do outro lado do caminho. Como as cobras nos perturbam! É incrível este medo ancestral e repulsa inata que sentimos por elas: talvez uma cobra-rateira, a avaliar  pelo comprimento e grossura do dorso. Segui pela terra empoeirada entre campos de milho transgénico até encontrar a estrada para o centro da vila.

Não foi nada entusiasmante este pequeno trilho. Felizmente, desta vez não ia sozinho, valeu-me a preciosa companhia de Sara que foi conversando comigo,  conseguindo acompanhar a minha passada mais vigorosa e acelerada.

L: Concordo contigo, gosto de outro tipo de atividades, não tenho a tua necessidade de desgaste físico. A mim basta-me estar na praia a fruir o sol e a delicadeza da areia,   estar com pessoas, no cinema, em casa, a ler livros, ou mesmo a dar aulas e em reuniões chatas; todas as experiências servem para, como se diz pomposamente, cultivar o espírito. Não acredito em subterfúgios como a atividade física para melhorar a autoestima, basta observar o mundo, as pessoas, meditar, que lentamente a transformação acontece.  Uma transformação mais profunda do que qualquer outra, que provoca mudança interior,  sem exigências, estando presente no momento, ganhando consciência de nós próprios.

Enquanto caminhavam, visitei o Museu do Sargaço, vi reproduções em grandes telas de fotografias de Artur Pastor a António Meneres que representam a vida dos sargaceiros.  Não havia mais ninguém, além de mim e do rececionista. Sentei-me no banco da sala silenciosa a observar as imagens, acredito que estar ali sentado alguns minutos sem mais ninguém deve ter um efeito em mim mais  tranquilizador do que qualquer caminhada e atividade física que tu faças.






Sem comentários: