domingo, 28 de junho de 2026

Salman Rushdie no Porto


O jornalista Alberto Postiga conseguiu bilhete para o encontro literário com Salman Rushdie, no coliseu do Porto. Comprou um livro, nesse livro vinha um voucher que permitiu adquirir bilhete on-line para a sessão. Não teve dúvidas, era a sua prioridade, o evento a que mais queria assistir. Quais  Prémios Nobel da literatura Olga Tokarczuk e László Kraszanahorkai, quais campeões de venda Margaret Atwood e Byung-Chul Han, quais escritores Portugueses Lídia Jorge e Valter Hugo Mãe! Ele queria ver  Salman Rushdie, o homem que teve  a vida a prémio, condenado à morte  pelo Aiatola Khomeini,  escondido anos a fio pela Scotland yard;  o autor dos Versículos Satânicos.

Relataria o encontro  no  Blog em que colabora sobre literatura e viagens  “Livros e Destinos”. Havia tentado escrever em jornais de grande circulação nacional: o Público, o Diário e o Jornal de Notícias;  em semanários: o Expresso, a revista Sábado. Rejeitado por todos: “Falta de qualidade literária”, “jornalista e escritor  sem nome firmado no mercado”. Escreveu uma carta ao Miguel Sousa Tavares, nunca obteve resposta. Que desconsideração!

Alimentava  a escrita nos tempos livres, que eram muitos, vivia do subsídio de desemprego,  não tinha muito que fazer,   exceto  apresentar-se regularmente na Segurança Social.

Estacionou o carro no Via Catarina, desceu pela rua Formosa. Uma imensa fila de pessoas alinhava-se ao longo da berma: “É para o encontro com o Salman Rushdie?”, perguntou à última pessoa da fila: “É, sim.”

- Por que motivo estão a entrar pelas traseiras do coliseu?

- Não estão a entrar pelas traseiras, a fila começa na entrada principal da rua Passos Manuel.

- O quê?! Quer dizer que a fila contorna a praça dos Poveiros, vem pela rua da Alegria e desce a rua Formosa?

- É isso mesmo!

- Uauu!!!

Muitas pessoas levavam  livro na mão, jovens ofereciam o jornal  do evento.  Duas carrinhas de policia fechavam a rua de Passos Manuel com a praça dos Poveiros.  Ele esteve uma hora na fila,  que bifurcava nos degraus  do coliseu.  Fez-se a primeira triagem: leitura  dos QR Codes pelos seguranças; depois,  uma segunda triagem,  mais demorada:  passagem pelos detetores de metais, tal e qual o Check-in nos aeroportos. “Incrível! Tudo por causa de uma só pessoa, de um escritor …que estrela POP!”, pensou. Subiu à galeria. De lá de cima, viu o coliseu repleto com 3000 pessoas. Acontecimento raro e  único, merecedor de uma fotografia para a posteridade, como aquela da primeira sessão de um filme 3D nos Estados Unidos. 


Por motivos de segurança, estavam proibidas as fotografias, ninguém à sua volta tinha o telemóvel na mão.  A audiência portava-se bem e cumpria  as regras. Ele, obviamente, faria o mesmo.

Chegou na hora certa, de  ouvir a apresentação do moderador, o homem-livro, Alberto Manguel.

A partir deste ponto, transcrevo a entrevista  que o jornalista Alberto Postiga colocou no Blog “Livros e Destinos”. São as palavras dele, adaptadas e resumidas do que ouviu na conversa realizada ao longo de uma hora.

 

Alberto Manguel (AM) entrevista Salman Rushdie (SR) em Inglês no coliseu do Porto, com tradução simultânea para português no painel sobre o palco, com a ajuda da Inteligência Artificial.

AM fala inglês fluentemente, bem articulado e  percetível. Veste  fato branco,  usa o típico chapéu de abas, com que é sempre visto,  metido na cabeça.  Refere que, provavelmente, o festival Babell tornou-se no maior  festival de literatura da europa.

AM: Demos as boas-vindas ao nosso convidado,  Salman Rushdie (grande ovação do público, em pé).

Entra SR no palco, caminha lentamente, ligeiramente encurvado. Fato escuro, pala a cobrir o olho direito. Senta-se ao lado de AM. Uma mesinha entre eles com uma garrafa de água.

AM: Fale-nos da Índia e dos seus primeiros anos.

SR: Nasci em Bombaim, era uma cidade muito tolerante, não tinha ainda as tensões sociais de atualmente. É a cidade do cinema, de Bollywood. Os jornais da cidade tinham 4 paginas de notícias e vinte páginas sobre os atores de Bollywood (risos na plateia). Era proibido dar beijos na televisão, havia uma série de códigos. Por exemplo, se um ator queria beijar uma mulher dava um beijo na manga do vestido,  ela depois beijava a mesma manga. Era um beijo indireto (risos). Nasci no período da independência da Índia, havia uma anedota que se contava na minha família: os ingleses fugiram 8 dias antes de eu nascer.

AM: Pode-nos falar da relação com o seu pai…

SR: Não gosto de falar disso, já tive acontecimentos traumáticos que cheguem na minha vida … posso dizer que, inicialmente,  quando éramos crianças muito pequenas, eu e as minhas irmãs, ele era muito carinhoso connosco, tinha jeito para nós. Mais tarde, tudo mudou, ele tinha  um problema com o álcool. O meu pai ensinou-me a interpretar As Mil e uma Noites. Não há um único tapete voador nas histórias, é uma mentira;  têm muito sexo e violência, não são para crianças. No entanto, no ocidente,  tornaram-se conhecidas como histórias infantis.

AM: Fale-nos do seu primeiro livro… um conto, creio que inspirado no “Feiticeiro de Oz”, e das suas primeiras influências.

SR: Quando escrevi o meu primeiro conto tinha 10 anos, não se lhe deve dar muito crédito  (risos na plateia)… nele,   invento um arco-íris em que falo do início desse arco-íris na cidade de Bombaim; ao contrário do feiticeiro de Oz, em que a história acontece por cima do arco-íris: over the rainbow. Devido à relação com o meu pai, escrever foi uma forma de criar o meu feiticeiro. Os adultos não me inspiravam confiança, no “Feiticeiro de Oz” é uma criança, uma menina,  que se torna forte e vence.  No fim do conto, o feiticeiro derrete-se, como se crescesse para baixo, e Dorothy torna-se gigante em relação a ele.

AM: Quais foram as suas referências na literatura?

SR: Na adolescência fui para um colégio em Inglaterra, aprendi latim, tenho pena de não ter aprendido grego. Li as “Metamorfoses”,  de Ovídeo.  Na minha obra há muitas personagens que se metamorfoseiam,  são uma influência até kafka.

E Shakespeare, o maior escritor de sempre de língua inglesa. Pergunto-me, se ele,  no seu tempo,  tinha noção de ser o melhor de sempre a escrever em Inglês. Gosto de pensar que sim: há uma cena deliciosa no filme Shakespeare In Love, em que ele escreve com a pena no caderno, levanta a cabeça para a amada e diz: “Saiu mesmo bem!”

AM: Você também pensa isso quando escreve?

SR: Sim! (risos).  Escrever é um processo doloroso e complexo. Mas, simultaneamente, o mais recompensador de todos. O escritor não é um Frankenstein, não recebe pedaços de outros cérebros, tem de se colocar no cérebro de personagens criadas por ele.  Não é fácil, eu repito-me  muitas vezes sem dar conta.

Uma vez,  um tradutor dinamarquês ligou, disse-me: na página 126 do livro a sua personagem diz isto; na página 237 do mesmo livro, outra personagem diz exatamente a mesma coisa. Esclareça-me.

Eu não fazia ideia de ter repetido frases. Disse-lhe,  para não ficar mal, que era intencional (risos na plateia).

AM: Você referiu que a realidade é mais forte do que a ficção…

SR: A ficção permite-me misturar tempos e personagens; por exemplo, na minha obra “A Feiticeira de Florença”, juntei  a India do século XIV e  Florença do século XV, quando estava no seu apogeu. Nas pesquisas que fiz,  descobri que,  apesar da distância física entre os territórios, havia aspetos muito parecidos entre ambos.  Uma personagem florentina do romance  nunca se poderia ter cruzado com uma  indiana do século XIV, viveu 100 anos antes; no entanto,  elas cruzam-se. É o poder da ficção. Na altura, havia o império Otomano entre Florença e a India; na Transilvânia,  ocupada pelos otomanos,  vivia uma personagem chamada Vlad Szepes, ficou conhecida na história pelas suas malvadezas, chamaram-lhe demónio,  dracul. Também a coloco no romance.

AM: Faz alterações aos seus textos, nas edições posteriores?

SR: Não, um livro morre quando acabo de o escrever. Passa a ser dos leitores, não tenho o direito de alterar o que chegou a eles antes disso. Conheço o caso de um escritor que fez alterações nos versos de um poema nas versões posteriores. Ficou pior, alterou-lhe o significado.

AM: No livro “Faca” você entrevista o homem que o tentou assassinar, pode-nos falar disso…

SR: Achei que devia escrever sobre esse acontecimento, tentar perceber por que motivo alguém com um cadastro criminal limpo, sem nunca cometer um crime, integrado na sociedade, um jovem de 24 anos nascido em New Jersey, resolve matar uma pessoa com uma faca …pensei ir entrevistá-lo à cadeia, a minha mulher demoveu-me.  O que iria acontecer? Valeria a pena? Estaria arrependido? Conclui que não valia a pena, um dos capítulos do livro é uma entrevista que lhe faço: é ficção, uma tentativa minha de esclarecer os seus motivos, de dar vida complexa ao homem que me tentou matar. Os críticos disseram que era a melhor parte do livro; outros dois críticos referiram ser a pior. Conclusão: não gosto de críticos (risos na plateia).

Em  “À Espera de Godot”, as personagens insultam-se, gritam umas para as outras em crescendo, até chegarem à última palavra, a mais intensa de todas, a mais abjeta que se pode chamar a alguém: CRÍTICO.

AM: Escrita e política misturam-se?

Não é obrigatório misturarem-se, gosto de falar das emoções, da humanidade, sem contextualizar a situação política das personagens. Há exemplos na literatura: Jane Austen é contemporânea das guerras napoleónicas, foi um acontecimento colossal no seu tempo, era impossível ser-lhe indiferente; contudo, em todos os seus livros não há uma única referência aos acontecimentos cataclísmicos que estavam a ocorrer na europa,  a não ser para escrever sobre os fatos elegantes dos soldadinhos nos bailes de gala (risos na plateia).

Quando era miúdo,  um grande poeta indiano  amigo da minha tia, irmã da minha mãe -  sentei-me no colo dele - escrevia poemas de amor, apreciados e reconhecidos por todos;  mais tarde,  começou a escrever poemas políticos,  sobre a partição da India e o surgimento do Paquistão, acontecimentos muito violentos. Foi ameaçado de morte. Como sabiam que éramos amigos,  foram a nossa casa à procura dele, a minha tia tinha-o escondido num fundo falso debaixo do tapete: “o que vêm cá vocês fazer? não têm vergonha de ameaçar uma mulher sozinha?”, respondeu-lhes. Não o encontraram. Também falo de tapetes que escondem fundos falsos num dos meus romances.

AM: Estamos a encerrar o nosso encontro, uma última pergunta: qual a sua relação com a morte?

SR: Bem, já tive a minha quota parte de proximidade com ela (risos na plateia)… mas prefiro não a conhecer (aplausos).

AM: Muito obrigado, Salman.

SR (em Português, com sotaque inglês): Viva o Porto!

Grande ovação de pé. Fim da entrevista de uma hora. Passou rápido.

A voz off de Rui Couceiro, comissário do Babell, soou na sala pelo microfone:

“Não haverá sessão de autógrafos. O autor assinou previamente 200 exemplares,  colocados no átrio da entrada. Quem estiver interessado pode tentar adquiri-los,  se ainda estiverem disponíveis”.

E aqui termina  o texto colocado no Blog “Livros e Destinos”.

 Alberto Postiga saiu sozinho do coliseu com esperança de encontrar algum conhecido, não viu ninguém. Centenas de caras e de pessoas anónimas regressavam a casa na noite avançada de domingo,  no dia seguinte começariam a nova semana de trabalho.   Ele estava sem trabalho e uma solidão desconfortável afligia-o, teria de regressar a casa o quanto antes para escrever as suas impressões e a entrevista, iludindo o tempo e o vazio.

Passou pela entrada da garagem do Coliseu  na rua Formosa,  viu seguranças e polícias a fazer a vigilância aos veículos de alta cilindrada estacionados ao fundo do corredor. Estariam à espera de Salman Rushdie? Talvez Salman Rushdie esteja prestes  a sair, aguardo por ele para lhe pedir um autógrafo?, pensou.  




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