O jornalista Alberto Postiga conseguiu bilhete para o encontro literário com Salman Rushdie, no coliseu do Porto. Comprou um livro, nesse livro vinha um voucher que permitiu adquirir bilhete on-line para a sessão. Não teve dúvidas, era a sua prioridade, o evento a que mais queria assistir. Quais Prémios Nobel da literatura Olga Tokarczuk e László Kraszanahorkai, quais campeões de venda Margaret Atwood e Byung-Chul Han, quais escritores Portugueses Lídia Jorge e Valter Hugo Mãe! Ele queria ver Salman Rushdie, o homem que teve a vida a prémio, condenado à morte pelo Aiatola Khomeini, escondido anos a fio pela Scotland yard; o autor dos Versículos Satânicos.
Relataria o encontro no Blog
em que colabora sobre literatura e viagens “Livros e Destinos”. Havia tentado escrever em
jornais de grande circulação nacional: o Público, o Diário e o Jornal de
Notícias; em semanários: o Expresso, a
revista Sábado. Rejeitado por todos: “Falta de qualidade literária”,
“jornalista e escritor sem nome firmado
no mercado”. Escreveu uma carta ao Miguel Sousa Tavares, nunca obteve resposta.
Que desconsideração!
Alimentava a escrita nos tempos livres, que eram muitos,
vivia do subsídio de desemprego, não
tinha muito que fazer, exceto apresentar-se regularmente na Segurança Social.
Estacionou o carro no Via
Catarina, desceu pela rua Formosa. Uma imensa fila de pessoas alinhava-se ao
longo da berma: “É para o encontro com o Salman Rushdie?”, perguntou à última
pessoa da fila: “É, sim.”
- Por que motivo estão a entrar
pelas traseiras do coliseu?
- Não estão a entrar pelas
traseiras, a fila começa na entrada principal da rua Passos Manuel.
- O quê?! Quer dizer que a fila
contorna a praça dos Poveiros, vem pela rua da Alegria e desce a rua Formosa?
- É isso mesmo!
- Uauu!!!
Muitas pessoas levavam livro na mão, jovens ofereciam o jornal do evento. Duas carrinhas de policia fechavam a rua de Passos Manuel com a praça dos Poveiros. Ele esteve uma hora na fila, que bifurcava nos degraus do coliseu. Fez-se a primeira triagem: leitura dos QR Codes pelos seguranças; depois, uma segunda triagem, mais demorada: passagem pelos detetores de metais, tal e qual o Check-in nos aeroportos. “Incrível! Tudo por causa de uma só pessoa, de um escritor …que estrela POP!”, pensou. Subiu à galeria. De lá de cima, viu o coliseu repleto com 3000 pessoas. Acontecimento raro e único, merecedor de uma fotografia para a posteridade, como aquela da primeira sessão de um filme 3D nos Estados Unidos.
Por motivos de segurança, estavam proibidas as fotografias, ninguém à sua volta tinha o telemóvel na mão. A audiência portava-se bem e cumpria as regras. Ele, obviamente, faria o mesmo.
Chegou na hora certa, de ouvir a apresentação do moderador, o
homem-livro, Alberto Manguel.
A partir deste ponto, transcrevo
a entrevista que o jornalista Alberto
Postiga colocou no Blog “Livros e Destinos”. São as palavras dele, adaptadas e
resumidas do que ouviu na conversa realizada ao longo de uma hora.
Alberto Manguel (AM) entrevista
Salman Rushdie (SR) em Inglês no coliseu do Porto, com tradução simultânea para
português no painel sobre o palco, com a ajuda da Inteligência Artificial.
AM fala inglês fluentemente, bem
articulado e percetível. Veste fato branco, usa o típico chapéu de abas, com que é sempre
visto, metido na cabeça. Refere que, provavelmente, o festival Babell tornou-se
no maior festival de literatura da
europa.
AM: Demos as boas-vindas ao
nosso convidado, Salman Rushdie (grande
ovação do público, em pé).
Entra SR no palco, caminha
lentamente, ligeiramente encurvado. Fato escuro, pala a cobrir o olho direito. Senta-se
ao lado de AM. Uma mesinha entre eles com uma garrafa de água.
AM: Fale-nos da Índia e
dos seus primeiros anos.
SR: Nasci em Bombaim, era
uma cidade muito tolerante, não tinha ainda as tensões sociais de atualmente. É
a cidade do cinema, de Bollywood. Os jornais da cidade tinham 4 paginas
de notícias e vinte páginas sobre os atores de Bollywood (risos na
plateia). Era proibido dar beijos na televisão, havia uma série de códigos. Por
exemplo, se um ator queria beijar uma mulher dava um beijo na manga do vestido,
ela depois beijava a mesma manga. Era um
beijo indireto (risos). Nasci no período da independência da Índia, havia uma
anedota que se contava na minha família: os ingleses fugiram 8 dias antes de eu
nascer.
AM: Pode-nos falar da
relação com o seu pai…
SR: Não gosto de falar disso,
já tive acontecimentos traumáticos que cheguem na minha vida … posso dizer que,
inicialmente, quando éramos crianças
muito pequenas, eu e as minhas irmãs, ele era muito carinhoso connosco, tinha
jeito para nós. Mais tarde, tudo mudou, ele tinha um problema com o álcool. O meu pai ensinou-me
a interpretar As Mil e uma Noites. Não há um único tapete voador nas histórias,
é uma mentira; têm muito sexo e
violência, não são para crianças. No entanto, no ocidente, tornaram-se conhecidas como histórias infantis.
AM: Fale-nos do seu
primeiro livro… um conto, creio que inspirado no “Feiticeiro de Oz”, e das suas
primeiras influências.
SR: Quando escrevi o meu
primeiro conto tinha 10 anos, não se lhe deve dar muito crédito (risos na plateia)… nele, invento um arco-íris em que falo do início
desse arco-íris na cidade de Bombaim; ao contrário do feiticeiro de Oz, em que
a história acontece por cima do arco-íris: over the rainbow. Devido à
relação com o meu pai, escrever foi uma forma de criar o meu feiticeiro. Os
adultos não me inspiravam confiança, no “Feiticeiro de Oz” é uma criança, uma
menina, que se torna forte e vence. No fim do conto, o feiticeiro derrete-se, como
se crescesse para baixo, e Dorothy torna-se gigante em relação a ele.
AM: Quais foram as suas
referências na literatura?
SR: Na adolescência fui
para um colégio em Inglaterra, aprendi latim, tenho pena de não ter aprendido
grego. Li as “Metamorfoses”, de Ovídeo. Na minha obra há muitas personagens que se
metamorfoseiam, são uma influência até
kafka.
E Shakespeare, o maior escritor
de sempre de língua inglesa. Pergunto-me, se ele, no seu tempo, tinha noção de ser o melhor de sempre a
escrever em Inglês. Gosto de pensar que sim: há uma cena deliciosa no filme Shakespeare
In Love, em que ele escreve com a pena no caderno, levanta a cabeça para a
amada e diz: “Saiu mesmo bem!”
AM: Você também pensa isso
quando escreve?
SR: Sim! (risos). Escrever é um processo doloroso e complexo.
Mas, simultaneamente, o mais recompensador de todos. O escritor não é um
Frankenstein, não recebe pedaços de outros cérebros, tem de se colocar no
cérebro de personagens criadas por ele.
Não é fácil, eu repito-me muitas
vezes sem dar conta.
Uma vez, um tradutor dinamarquês ligou, disse-me: na
página 126 do livro a sua personagem diz isto; na página 237 do mesmo livro,
outra personagem diz exatamente a mesma coisa. Esclareça-me.
Eu não fazia ideia de ter
repetido frases. Disse-lhe, para não
ficar mal, que era intencional (risos na plateia).
AM: Você referiu que a
realidade é mais forte do que a ficção…
SR: A ficção permite-me
misturar tempos e personagens; por exemplo, na minha obra “A Feiticeira de
Florença”, juntei a India do século XIV
e Florença do século XV, quando estava
no seu apogeu. Nas pesquisas que fiz, descobri que,
apesar da distância física entre os territórios, havia aspetos muito
parecidos entre ambos. Uma personagem
florentina do romance nunca se poderia
ter cruzado com uma indiana do século XIV,
viveu 100 anos antes; no entanto, elas
cruzam-se. É o poder da ficção. Na altura, havia o império Otomano entre Florença
e a India; na Transilvânia, ocupada
pelos otomanos, vivia uma personagem
chamada Vlad Szepes, ficou conhecida na história pelas suas malvadezas, chamaram-lhe
demónio, dracul. Também a coloco no
romance.
AM: Faz alterações aos
seus textos, nas edições posteriores?
SR: Não, um livro morre
quando acabo de o escrever. Passa a ser dos leitores, não tenho o direito de
alterar o que chegou a eles antes disso. Conheço o caso de um escritor que fez
alterações nos versos de um poema nas versões posteriores. Ficou pior,
alterou-lhe o significado.
AM: No livro “Faca” você
entrevista o homem que o tentou assassinar, pode-nos falar disso…
SR: Achei que devia
escrever sobre esse acontecimento, tentar perceber por que motivo alguém com um
cadastro criminal limpo, sem nunca cometer um crime, integrado na sociedade, um
jovem de 24 anos nascido em New Jersey, resolve matar uma pessoa com uma faca …pensei
ir entrevistá-lo à cadeia, a minha mulher demoveu-me. O que iria acontecer? Valeria a pena? Estaria
arrependido? Conclui que não valia a pena, um dos capítulos do livro é uma
entrevista que lhe faço: é ficção, uma tentativa minha de esclarecer os seus
motivos, de dar vida complexa ao homem que me tentou matar. Os críticos
disseram que era a melhor parte do livro; outros dois críticos referiram ser a
pior. Conclusão: não gosto de críticos (risos na plateia).
Em “À Espera de Godot”, as personagens
insultam-se, gritam umas para as outras em crescendo, até chegarem à última
palavra, a mais intensa de todas, a mais abjeta que se pode chamar a alguém:
CRÍTICO.
AM: Escrita e política
misturam-se?
Não é obrigatório misturarem-se,
gosto de falar das emoções, da humanidade, sem contextualizar a situação
política das personagens. Há exemplos na literatura: Jane Austen é
contemporânea das guerras napoleónicas, foi um acontecimento colossal no seu
tempo, era impossível ser-lhe indiferente; contudo, em todos os seus livros não
há uma única referência aos acontecimentos cataclísmicos que estavam a ocorrer
na europa, a não ser para escrever sobre
os fatos elegantes dos soldadinhos nos bailes de gala (risos na plateia).
Quando era miúdo, um grande poeta indiano amigo da minha tia, irmã da minha mãe - sentei-me no colo dele - escrevia poemas de
amor, apreciados e reconhecidos por todos;
mais tarde, começou a escrever
poemas políticos, sobre a partição da
India e o surgimento do Paquistão, acontecimentos muito violentos. Foi ameaçado
de morte. Como sabiam que éramos amigos,
foram a nossa casa à procura dele, a minha tia tinha-o escondido num
fundo falso debaixo do tapete: “o que vêm cá vocês fazer? não têm vergonha de
ameaçar uma mulher sozinha?”, respondeu-lhes. Não o encontraram. Também falo de
tapetes que escondem fundos falsos num dos meus romances.
AM: Estamos a encerrar o
nosso encontro, uma última pergunta: qual a sua relação com a morte?
SR: Bem, já tive a minha
quota parte de proximidade com ela (risos na plateia)… mas prefiro não a
conhecer (aplausos).
AM: Muito obrigado,
Salman.
SR (em Português, com
sotaque inglês): Viva o Porto!
Grande ovação de pé. Fim da
entrevista de uma hora. Passou rápido.
A voz off de Rui Couceiro, comissário
do Babell, soou na sala pelo microfone:
“Não haverá sessão de autógrafos.
O autor assinou previamente 200 exemplares, colocados no átrio da entrada. Quem estiver
interessado pode tentar adquiri-los, se
ainda estiverem disponíveis”.
E aqui termina o texto colocado no Blog “Livros e Destinos”.
Alberto Postiga saiu sozinho do coliseu com
esperança de encontrar algum conhecido, não viu ninguém. Centenas de caras e de
pessoas anónimas regressavam a casa na noite avançada de domingo, no dia seguinte começariam a nova semana de
trabalho. Ele estava sem trabalho e uma
solidão desconfortável afligia-o, teria de regressar a casa o quanto antes para
escrever as suas impressões e a entrevista, iludindo o tempo e o vazio.
Passou pela entrada da garagem do
Coliseu na rua Formosa, viu seguranças e polícias a fazer a vigilância
aos veículos de alta cilindrada estacionados ao fundo do corredor. Estariam
à espera de Salman Rushdie? Talvez Salman Rushdie esteja prestes a sair, aguardo por ele para lhe pedir um
autógrafo?, pensou.



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