terça-feira, 11 de agosto de 2026

Ançã

Vi o cartaz na piscina a agradecer os visitantes e assim fiquei a saber que o concelho também foi afetado pela tempestade Kristin. Os bombeiros de Cantanhede andaram ocupados a remover árvores derrubadas e a apoiar populações afetadas. Fiquei satisfeito por, inadvertidamente, estar a apoiar o turismo na região, dando o meu modesto contributo para a sua recuperação económica com a minha visita. Talvez este verão ainda visite outros locais do centro.

Ançã é um nome familiar: terra natal do intelectual e resistente anti-fascista português, Jaime Cortesão. Combatente na primeira guerra mundial, envolvido nas campanhas de escolarização promovidas pelos governos republicanos e no levantamento do Porto, de 1929, o Reviralho. Lutou na guerra civil Espanhola. Viveu muitos anos exilado no Brasil, onde foi professor universitário. Investigador, historiador, escritor e médico.
E também pela famosa pedra de calcário branco, a rocha utilizada na construção de inúmeras estruturas arquitetónicas, de textura e claridade únicas, que conferem a muitos dos nossos monumentos as cores alvas e luminosas que os caracterizam.
A importância económica de Ançã foi reconhecida no estatuto administrativo de Concelho, atribuído na idade média, atestado pelo pelourinho no centro da vila.
Testemunho dessa antiguidade e passado eloquente são as ruas estreitas, os edifícios sumptuosos da nobreza, a pequena praça da igreja matriz e os rendilhados de calcário que se vão observando ao percorrer as suas ruas.
Encontrei um colega de escola que costuma passar o verão em Ançã, conhecido pelo seu pessimismo e por contrariar com argumentos sombrios o que dizíamos, mesmo que verosímeis e lógicos. Tendia sempre a denegrir o lado bom das coisas. Estava-lhe no sangue. Parece que não mudou nada, pois só me falou dos aspetos negativos de Ançã:
"É uma vila tuga como muitas outras, o património histórico totalmente desvalorizado e desbaratado. Viste as paredes a cair e os palácios abandonados? Se fosse outro país, estaria tudo conservado. É triste, mas é a realidade. Gastam o dinheiro em estádios de futebol, o euro 2004, em obras faraónicas, agora vem aí o TGV... ah, e não te esqueças que também vamos organizar o mundial de futebol de 2030, somos um país despesista, o que é importante para o dia a dia das pessoas, a qualidade e a habitabilidade do sítio onde se vive não interessa. E os carros? Conseguiste estacionar? Carros por todo o lado, em cima dos passeios, a preencher qualquer beco e lugar. Já estive em países em que não se via um único carro nos lugares históricos, o acesso estava vedado. Aqui, queres tirar fotografias e não consegues porque só tens carros à frente.
Um país que ignora o património e a memória não tem futuro. Ançã não evoluiu nos últimos trinta anos. Está tudo igual ou pior. Parou no tempo. Recebemos milhões de euros de fundos europeus, não vejo melhorias em nada. As escolas, os hospitais, o urbanismo, a natureza, a floresta, está tudo pior. Não se planifica nada neste país. É uma tristeza e uma vergonha."
Foi mais ou menos este o teor do que me foi dizendo, atabalhoadamente.
Conforme ele dizia em relação ao país e a Ançã, digo eu em relação a ele: continua igual ou pior.
A passagem dos anos fez as suas marcas: estava gordo, a cara sulcada por rugas mais profundas, os gestos eram nervosos e agitados, do canto do lábio saía-lhe uma baba branca. Metia pena vê - lo falar. Pensei se ele não se teria tornado num alienado.
Convidei-o a dar um mergulho nas águas cristalinas e frias da piscina natural. "Não quero mostrar as minhas banhas." Foi com esta frase triste, reveladora da sua personalidade complexada, que se descartou. Dei o mergulho, depois fiz uma pequena caminhada pelo centro da vila. Não sei se Ançã está pior ou igual, sei que transparece uma tranquilidade e beleza decadente, que lhe dão um charme próprio. Fiquei com vontade de voltar.






















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