Passei aqui há cerca de vinte e cinco anos. Uma amiga fazia vilegiaturas nas Caldas da Felgueira, costumávamos, depois dos tratamentos, dar passeios de carro pelas redondezas. Procurávamos sítios com praias fluviais para ir a banhos, conhecemos Sangemil e Alcafache. Para mim, a explorar a região pela primeira vez, cada local era uma descoberta interessante. Agradavam-me as vilas antigas, penduradas nas margens de riachos verdejantes, com as suas pequenas igrejas românicas e vestígios centenários - geralmente pontes de origem romana a ligar as duas margens do rio. Localidadezinhas simpáticas, de comércio e hotelaria sazonal, recebiam visitas graças às propriedades medicinais das suas águas. As casas e as fachadas mantinham um porte garboso e cuidado para dar guarida aos visitantes.
Regressei e confesso que já não sinto o mesmo encanto, a desilusão começa a fazer parte deste país. Em vinte e cinco anos, nada evoluiu: houve sempre uma inércia atávica que impediu o desenvolvimento económico.
Não sei quais foram as causas, sei que a população diminuiu em muitos concelhos do interior - em quase todos -, fecharam serviços públicos e houve dinheiro investido, fundos europeus, que não se traduziram no bem-estar e desenvolvimento social do país.
Ver fachadas degradadas, marasmo, património histórico, cultural e social com potencial para criar riqueza totalmente desvalorizado, é entristecedor.
No entanto, o encanto das oliveiras e sobreiros nas bermas da estrada, os campos e pomares cultivados, o som das cigarras nas horas do calor, a arquitetura tradicional, não desapareceram. O que causa maior dó: apesar de todas as contrariedades, o interior resiste e continua com motivos de interesse.
As termas ficam num edifício de cores claras, linhas modernas e retangulares, parecidas com uma clínica, mas mais acolhedoras, semi escondidas na margem do rio Dão. O hotel de três estrelas já teve melhores dias. A fachada nostálgica de um velho hotel de charme, de portas e janelas partidas, lembra quem passa na rua que houve outro tempo com mais pessoas e animação nas termas. Alcafache parece mais sonolenta e parada do que nunca.
Estendemo-nos no pequeno areal, na extremidade da sombra que sobrava de uma tileira exuberante. Encostaram-se a nós, de pé, três senhoras com um carrinho de bebé sujo e enferrujado, lá dentro uma criança minúscula de poucos dias. Vinham com elas alguns homens em calções de ganga. As mulheres entraram vestidas na água, as camisolas e as calças molhadas colaram-se ao corpo, realçando os membros maciços e as barrigas obesas. Eram ciganas.
Dei umas braçadas na água castanha e tépida do rio.
Estendi-me no areal e vi chegar um jovem casal com uma cadelinha arraçada de Labrador que, pouco depois, entrou e passeou com ela na água, dando-a a beber, fazendo-lhe festinhas e sacudindo o pelo. Eu tinha o corpo molhado, fiquei com a impressão de que estava a cheirar a cão. Encostei o braço ao nariz, cheirei-me discretamente. Continuei a sentir o cheiro no corpo. Talvez estivesse sugestionado pelo que estava a observar e fosse apenas o aroma normal da água doce misturada com a poeira do areal. Achei uma falta de higiene e de consideração dos donos da cadela para com as pessoas na praia - um local pequeno frequentado por algumas dezenas de banhistas - andarem a passeá-la na água. A praia não era vigiada, por isso não vi qualquer proibição; e como as outras pessoas continuavam dentro da água como se nada fosse, alheias à presença do animal, aceitei o facto e não liguei mais ao assunto. Continuei a ler o meu livro.
De repente, gerou-se uma algazarra entre o grupo cigano e o casal. O motivo teve a ver com os ciganos terem entrado com o bebé na água e fazerem uma observação ao casal por andarem a banhar a cadela ao pé da criança. Às ciganas juntaram-se outras que no entanto surgiram de outros pontos do areal: umas oito, gesticulando nervosamente, quase a agredir a mulher: "Nós não somos cães, veja lá como nos trata. Respeite-nos!". A não cigana punha-se de frente para elas, inchando o peito, levantando os punhos: "Eu não tenho medo, vocês pensam que podem fazer o que querem mas não fazem." O companheiro punha água na fervura, afastava-a, segurava-a. Convencia-a a calar-se. Ela não desistia, dizia-lhes vocês isto, vocês aquilo. Os ciganos ouviam o modo discriminatório e insolente como estavam a ser tratados: quando se é insultado tem-se tendência a reagir em conformidade e eles não eram nenhum Jesus Cristo. Tornaram-se mais agressivos. Os homens defendiam a honra das suas mulheres e da comunidade, ameaçavam bater no casal. Um deles, talvez o chefe, mais assisado, punha-se à frente dos companheiros impedindo a agressão. Chegou o segurança. Meteu-se no meio do conflito, falou com ele, chamou a mulher à parte, pareceu-me que lhe dizia: "Por favor, não arranje confusão, afaste-se daqui e leve a cadela." Ela não ficou convencida, fintou o segurança, voltou a aproximar-se das ciganas, ameaçadora e a rir: "Eu não tenho medo de vocês,...". Pensei que ia haver zaragata, que ia ver mulheres a arrancar os cabelos e a pontapear na areia outra mulher. O chefe cigano e o segurança conseguiram evitar o pior, mas o ambiente azedou bastante. As outras pessoas observavam, só outro homem, não cigano, se aproximou e tentou ajudar o segurança a mediar o conflito.
A mulher teve muita sorte, estava em minoria, foi insolente e provocadora, podia-lhe ter corrido mal. O chefe foi decisivo a persuadir a comunidade a conter-se. Na minha opinião, nada disto teria acontecido se a outra mulher não se tivesse exaltado com os ciganos e tivesse demonstrado mais bom senso e paciência. Não sei se as ciganas lhe disseram mais alguma coisa e se foram intencionalmente ofensivas, mas do que vi, a mulher provocou-as desnecessariamente e demonstrou ser preconceituosa: ”Vocês!". Além do mais, não devia andar com a cadela na água, pelo menos enquanto houvesse banhistas.
Fomos ao café e a notícia da zaragata já lá tinha chegado. Dizia o dono: "Eu já vi de tudo. Um dia chegou-me uma cliente com um cão ao colo, comprou um gelado, ela dava uma lambidela e o cão dava outra." Saiu detrás do balcão, foi à esplanada levar duas cervejas, quando regressou concluiu: "Há gente que trata os animais melhor do que as pessoas."
Chegaram três carrinhas da GNR com todo o aparato. A comunidade cigana havia-se juntado debaixo do arco da ponte, junto da torneira de água quente da nascente e falava com os agentes. No areal viam-se mais pessoas a passear os cães.

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