Afinal, existe um baloiço com
vista sobre o rio Douro. O que não valem umas placas nas estradas, colocadas no
sítio certo, visíveis aos automóveis que passam!
Subimos a vereda despida,
rodeados de alguns eucaliptos queimados, de sobreiros que resistiram ao último
incêndio e de medronheiros – essa árvore maravilhosa que desponta viçosa depois
dos fogos. Como não gostar destas árvores mediterrânicas e resistentes, que
quebram a monotonia da terra queimada?
Do miradouro ao baloiço é um
tirinho de 440 metros, por uma ladeira
despida e íngreme, com muito cascalho e arestas cortantes de xisto. Sempre com
o imponente rio Douro como cenário e as suas encostas verdejantes a descerem até rasarem a água, da mesma cor.
Não ficamos por ali: o passeio seguiu
pelas margens do Douro até Alpendorada e
Matos – com a interrupção do almoço na Ponte da Pedra. Continuamos depois,
seguindo a Rota do Românico. Paramos no mosteiro de Vila Boa do Bispo.
Encontramos o largo vazio e o
mosteiro fechado. À nossa volta,
silêncio. A casa antiga e senhorial, de fachada solarenga, estava de janelas abertas deixando o sol
tépido da tarde entrar. A
sombra dos sobreiros estendia-se sobre a ruela e os muros de granito desciam até à margem do rio
Tâmega.
Foi quando a Joana começou a desabafar,
igual a si própria.
- É o que dá investir em estádios
de futebol e autoestradas, depois, estes sítios, maravilhosos e espetaculares, ficam vazios e abandonados. Não se investiu
na recuperação do património. Repara bem! É um mosteiro românico, tem jazigos
medievais, uma longa história, interesse
arquitetónico e cultural, e está fechado num sábado à tarde. Podia haver um museu, hotel e esplanadas nestes palacetes e não vês ninguém. É um
abandono. Só estamos nós os dois aqui.
- Não faz mal estarmos só nós os
dois, até gosto assim …– rodeei-lhe a anca com o braço e beijei-a suavemente nos
lábios.
Sentámo-nos nos degraus do coreto. Joana
continuou indiferente às minhas carícias. Passou a falar de futebol, parecia uma
mistura de Mafalda, do Quino, e de comentadora desportiva, tipo Matilde Fidalgo:
- É um país triste. Estou farta de ouvir que o Cristiano Ronaldo é um
símbolo de Portugal. Cambada de idiotas, como o futebol ilude um povo! O que interessa
isso? É um ídolo passageiro. Não ouço ninguém falar que temos de recuperar o
património, dar-lhe vida, habitá-lo. Fartas-te de ver casas tradicionais
devolutas, estradas romanas esquecidas, pontes
e igrejas centenárias a cair aos bocados… Isso sim, são símbolos de Portugal, fazem parte da nossa história, são memórias de outras épocas e que, se recuperados e
valorizados, fariam de Portugal um país bem
mais bonito e interessante. Podíamos ser como a Suíça, mas contentámo-nos em
ser medíocres.
Eu olhava para ela, desligado do
que dizia. Estava concentrado nos seus pequenos lábios, que se moviam nervosos. Enquanto falava, abria e fechava as pálpebras dos olhos com a
cara fixa na fachada do mosteiro, do outro lado do terreiro. Como fica sexy
quando se enerva! Voltei a cingi-la nos braços;
voltou a ignorar-me, compenetrada que estava no seu discurso.
Levantámo-nos, entramos no carro e fizemos a última visita do dia, ao Santuário do Menino Jesus de Praga.
- Se o santuário fica em Marco de Canaveses, por que motivo
se chama do menino jesus de Praga? – perguntei, desviando o assunto do futebol
e do que deve ser considerado ou não um símbolo nacional.
Joana não me soube responder. Ela é definitivamente mais
entendida em futebol e história de Portugal do que em religião. Entrámos para
ver o interior.
- Que altar original! Aquele deve ser o menino jesus de Praga
– disse eu, apontado para a estatueta de um menino com uma bata branca.
- Pois é, pois é… - respondeu Joana, mais entusiasmada e já esquecida das misérias
do país. – Lembro-me de uma tia minha que foi a Praga e ofereceu à minha mãe
uma miniatura de um santinho igualzinho àquele.
Três fiéis rezavam ajoelhados de frente para o altar. A decoração sóbria do
interior e o silêncio austero da nave tornavam o local mais circunspeto e rigoroso, contrastando com
a inocência que o Menino Jesus de Praga
transmitia.
Arrepiei-me ao pensar que, sob a quietude da igreja, se perpetraram muitos abusos contra vítimas indefesas. Uma instituição
poderosa em que se entrava em silêncio e de onde se saia subjugado a um poder estranho e
discricionário, onde não havia alegria.
Um padre vindo da sacristia sentou-se discretamente no
confessionário. Um dos fiéis levantou-se do genuflexório e ajoelhou-se junto
dele. O confessor fez uma oração e começou a ouvir a sua confissão. As vozes
ciciadas faziam eco e ouvia-se o que diziam. Se eu fosse um ser perverso teria
ficado a escutar, deleitado, a confissão
de um homem e a doutrinação do sacerdote.
Mas saímos imediatamente. Respirámos a
atmosfera descongestionada e livre do exterior.
Voltei a cingir Joana nos meus braços.
















