terça-feira, 31 de março de 2020

A função exponencial do vírus


Estive fechado em casa muitos dias seguidos, perdi a conta. Fui ao Porto apenas para visitar uma pessoa amiga, que precisava de mantimentos. Falei com ela só pela janela e deixei-lhe alguma comida à porta da casa. No regresso, sem nunca sair do carro, passei na baixa. Senti um calafrio ao descer a avenida dos aliados: os hotéis, há um mês com pessoas a entrar e a sair, silenciosos.  As gruas,  que recuperavam as fachadas, paradas. Ninguém. Uma avenida morta. O Porto, sendo uma cidade cinzenta e estando o céu da mesma cor, mais lúgubre ainda.   É por uma boa causa, contudo. É necessário este sacrifício de todos. 


Este filme mostra uma parte da baixa, nesse dia.

Fui à farmácia comprar um frasco de álcool em gel – 100 ml -  e máscaras P1, descartáveis, que encomendei há três semanas. O frasco custou 7, 5€ e cada máscara 1,5€. Numa situação normal as máscaras custariam  20 cêntimos cada e o álcool, imagino que não chegaria a 2€. Grande exploração! Numa situação de crise há gente  sem pejo nenhum.
Regresso a pé a casa, não vejo quase ninguém. Quando vejo alguém ao longe fico mais apreensivo, desvio-me para o outro lado da rua. Situação muito estranha esta. Parece um filme de ficção científica: vejo os outros humanos como extra terrestres de quem não me posso aproximar, como  algo muito perigoso, portador de uma doença e de um vírus que me pode contagiar.  Em casa deixo a roupa e o calçado à entrada, lavo as mãos uma e outra vez.
O outro dia um arrumador que me conhece pediu-me boleia, eu fingi que não ia para o mesmo sítio, meti-me por uma estrada diferente para disfarçar. Tive medo de ser contagiado.  Ao ponto que isto chegou.
Tenho lido alguns artigos que abordam a questão económica, ambiental e social do vírus. Um dos mais pertinentes foi este: por Peter Cohen, no Counterpunch.





Tento passar a ideia com alguns gráficos introduzidos por mim, mas nada como ler o artigo original.

O COVID- 19 está a ter um crescimento exponencial, significando que o número de infetados e de mortos vai duplicando de x em x dias. Neste dia, 31 de março,  o número de  infetados em Portugal é  de 7540 pessoas, no dia 26 de março eram 3544. Houve uma duplicação de casos em aproximadamente cinco dias. Fonte (DGS).

A mesma função exponencial existe no crescimento económico mundial. O gráfico seguinte representa o crescimento exponencial do PIB em várias regiões do planeta, desde o início do século  XIX.




Fonte: (Ourworlindata)

O crescimento das emissões de gases com efeito de estufa para a atmosfera está associada ao crescimento económico. O gráfico seguinte representa o crescimento exponencial das emissões de CO2 .
Observe-se como a curva ascendente é coincidente com o crescimento económico registado a partir do início do século XX.



Um marco importante da história ambientalista foi a publicação do relatório - hoje muito esquecido, que deve ser valorizado e relembrado permanentemente -  “The Limits to Growth”,  no longínquo ano de 1972, há quase 50 anos. Desde essa altura que existem dados e estudos que dizem claramente que o planeta tem limites, que não é possível o crescimento económico sem a depleção  de recursos naturais.
A organização  Global Footprint Network,  mede a pegada ecológica do planeta, comparando os países do mundo entre si.    Verificamos que a partir da década de 70 do século passado o planeta começou a exceder o limite de recursos disponíveis, com os países mais economicamente desenvolvidos no topo dos que têm a maior pegada ecológica.
A capacidade de carga, ou a capacidade de um determinado ambiente se regenerar por si próprio mantendo os recursos e a produtividade,  é inversamente proporcional à pegada ecológica:  quanto maior a pegada ecológica menor é a capacidade de carga.
O que se verifica é que o dia em que o planeta atinge o limite da sua  capacidade de carga, que em inglês ficou conhecido pelo  Earth Overshoot Day, é cada vez mais cedo. Aqui fica bem usar uma expressão sobejamente conhecida:  “pedindo emprestado às gerações futuras”.
O problema é que um solo maduro pode demorar 1000 anos a se formar, um trecho de floresta tropical demora cada vez mais tempo a se regenerar após um incêndio, uma espécie que se extingue já não pode ser reposta afetando todas as outras dependentes dela. O planeta é cada vez  mais frágil devido à extração desenfreada de recursos para manter o crescimento económico.

O crescimento económico funciona numa lógica de Esquema de Ponzi acabando sempre por colapsar. Temos o exemplo do escândalo Madoff, que rebentou em 2008. O banqueiro criou um esquema financeiro em pirâmide de Ponzi, prometendo juros excecionais a quem investisse nas suas ações. De facto os juros eram pagos aos clientes mais antigos com o dinheiro/ investimento dos novos clientes, até que se descobriu que não havia dinheiro para todos. É matematicamente impossível manter um esquema ou pirâmide de Ponzi a funcionar.
O mesmo acontece no planeta com os recursos e com este tipo de economia extrativista e a estrutura social que ela mantem em funcionamento.
É curioso verificar que em apenas três semanas de quarentena, a poluição diminuiu imensamente na Europa e na China.
Traduzo diretamente do artigo o parágrafo que se segue:
“O COVID-19 alcançou em poucas semanas resultados que décadas de conferências e tratados intergovernamentais não conseguiram. O próprio fato do nosso sistema económico não conseguir suspender a sua atividade frenética por algumas semanas sem entrar em sinais visíveis de colapso  expõe-na  pelo que ela é: um vírus planetário mortal. Somos literalmente escolhidos entre a suposta "saúde" de nossa economia e a nossa própria saúde física, bem como a saúde do planeta que realmente sustenta nossa vida - e, ironicamente, essa tem sido a escolha real diante de nós o tempo todo.

O COVID-19 coloca-nos em contato direto com a lógica viral. Estamos a assistir  a uma explosão de  infectados. Vemos os Sistemas Nacionais de Saúde  ficarem completamente sobrecarregados pelo aumento repentino de pacientes. Vemos  medidas tardias, mas necessárias, para achatar a curva exponencial. Mas também assistimos à verdadeira natureza da nossa sociedade. Vemos  como os governos só suspendem as atividades lucrativas quando têm uma faca apontada ao pescoço.”

O autor é cru e direto: O Covid – 19 expôs a natureza do crescimento económico como a  maior fraude alguma vez perpetrada à humanidade.
Os exemplos abundam de como,  apesar de todos os mortos e da necessidade imperiosa de isolamento, muitos governos mantém a pulsão insana de continuar a alimentar o monstro do crescimento económico.
O caso mais relevante para nós,  Portugueses, são as palavras do ministro da economia Holandês, que entre uma tragédia no seu próprio país e outra bem maior em Itália, aborda a questão com uma frieza “absolutamente repugnante” (António Costa “dixit”).
Ou as afirmações  do presidente do Brasil (aqui) ou de Donald Trump (aqui).
A questão que coloco para concluir é:
quando tudo isto passar será que se voltará ao mesmo modelo económico sofrendo, a grande maioria das pessoas,  as amarguras de um crescimento económico que não se verificou, vivenciando índices elevados de desemprego, cortes salariais, muitas horas de trabalho mal pagas, para voltar a alimentar o ritmo frenético de um novo crescimento económico até chegar a próxima crise, alimentando este  ciclo que excluí cada vez mais.
Ou será uma oportunidade para reformular os nossos estilos de vida e este modelo económico e social que destrói o planeta ????

domingo, 22 de março de 2020


Argel, 1965

A  cidade é grande, cheia de luz, e desce sobre a baía em forma de anfiteatro. Para a percorrer anda-se sempre a descer ou a subir. Há ruas chiques à francesa e ruas árabes cheias de confusão. Há uma mistura mediterrânica de arquitetura, vestimenta e costumes. Tudo deslumbra, cheira, embriaga, cansa. Tudo chama a atenção, atrai, fascina, mas, ao mesmo tempo, inquieta. Quem estiver cansado pode sentar-se numa das várias centenas de cafés árabes ou franceses e comer num dos inúmeros bares ou restaurantes. Como o mar está perto, há uma abundância e riqueza infinita de peixes, mariscos, moluscos, búzios, calamares, polvos e sapateiras.
Lá em baixo, estendia-se o bairro portuário, e viam-se tascas de madeira que cheiravam a peixe, vinho e a café. Mas, sobretudo, a brisa trazia o cheiro suave e refrescante da maresia que acalmava.
Nunca antes tinha estado num lugar em que a natureza fosse tão aprazível para o homem. Havia tudo ao mesmo tempo: o sol e o vento fresco, o ar límpido e o mar cor de prata. Talvez porque tivesse lido muito sobre ele me parecera tão familiar. Nas suas ondas suaves havia paz, harmonia e algo como um convite para viajar e conhecer. Tinha vontade de embarcar com dois pescadores que naquele momento saíam do cais.”

Ryszard Kapuscinski, Andanças com Heródoto.

Por estar recluso em casa, certos textos me parecem mais intensos e belos como é o caso deste. Convidam a outras viagens, que não físicas, mas mentais, do meu quarto ou do banquinho de praia, a apanhar o sol da varanda.

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Sobre o assunto do momento:


traduzo livremente algumas frases e ideias do artigo Nature`s Revenge: climate change and COVID-19.
A pandemia do Coronavirus não é um acidente, é um aviso de que a natureza está farta das atividades ecocidas do homem. O planeta está a responder à destruição provocada por ele.
Se os chefes de estado se comprometerem a, nos próximos dez anos,  acabar com dependência dos seus países em  combustíveis fósseis, pesca excessiva, plásticos, desflorestação, pesticidas e agricultura industrializada, talvez haja uma reviravolta na direção a pandemias cada vez mais potentes, temperaturas mais elevadas e ao colapso do planeta.
Os peritos das nações unidas informam que a humanidade tem dez anos para evitar danos irreversíveis.
Os cientistas classificam  esta época como o Antropoceno. Os humanos transformaram a ciência e a tecnologia em armas de conquista, provocando calamidades, destruindo seres vivos, enchendo a terra de venenos, plásticos, petróleo e poluição. Não podemos continuar a matar e a levar à extinção animais e plantas selvagens e outras inumeráveis formas de vida sem uma violenta resposta.

Noutro artigo, o autor propõe imaginar que o coronavírus matará sete milhões de pessoas este ano. O número  seria um choque caso isso sucedesse, contudo este é o número de pessoas que todos os anos morre devido à poluição atmosférica.
Não é só a poluição atmosférica que mata: ondas de calor, furacões, secas e doenças que se agravam com as alterações climáticas e que não tem a atenção da comunicação social e dos políticos como está a ter esta pandemia.
A quarentena na China  causou uma redução drástica de gases com efeito de estufa, em apenas duas semanas reduziram-se as emissões em 100 milhões de toneladas de métricos cúbicos.
O coronavírus é uma oportunidade histórica para mudar hábitos, pequenos e grandes. As nossas atividades têm impacto, não só na nossa saúde pessoal como na dos nossos vizinhos e comunidade. O coronavírus é um assassino, mas podemos aprender muito com ele.


sábado, 7 de março de 2020

Rota das Laranjeiras, Sever do Vouga




Ponto de encontro no estacionamento do supermercado e partilha de boleia - cinco no mesmo carro - até à antiga estação ferroviária de Paradela, em Pessegueiro do Vouga, onde nos encontramos com o grupo de professores que veio em autocarro do Porto. 

Iniciamos a caminhada na estação e realizamos o percurso circular PR3 de Sever do Vouga - Rota das Laranjeiras. Todos os percursos de Sever do Vouga estão aqui.

Apesar da proliferação de eucaliptos nas encostas do vale,  são visíveis muitas árvores de fruto, laranjeiras que dão o nome ao percurso, riachos que desaguam no Vouga e inúmeros vestígios de velhas atividades e rituais cristãos: alminhas,  ermidas, espigueiros, campos ainda lavrados, antigas fábricas e casarões, hoje devolutos, que dão um aspeto bucólico e abandonado à paisagem. 

A linha ferroviária do Vouga está transformada numa ecovia. Alugam-se bicicletas no café da estação e será que é possível pedalar até Viseu, onde terminava a linha?

Os últimos quilómetros do percurso efetuam-se ao longo da ecovia, trajeto plano em terra batida, por vezes passando em locais com declive acentuado. A ponte ferroviária de Santiago com um aspeto imponente sobre o rio Vouga, lembrando a emoção que seria a viagem de Comboio pela antiga linha.
É inevitavel lembrar a carta cheia de humor que o meu avô escreveu à avó, quando namoravam ainda, datada de Folgosa, 26 de Junho de 1931. A avó iria com a prima Guida visitá-lo   uns dias mais tarde. O avô escreve:

"Vou-te dizendo que de Espinho sai para São Pedro do Sul um comboio às  6 horas e 47 minutos e outro à 1 hora e 20 minutos, sendo melhor vir no da manhã e assim sendo chegais a São Pedro do Sul ao meio dia. Depois dentro da estação estão as camionetas da C.ª Val Vouga muito grandes e com respetivo letreiro. Perguntais qual é a que vai para Castro Daire, entrais para dentro pela porta e quando o empregado vos vier fazer a cobrança,  pagais e não bufais. Eu à 1h e 20 m lá estou à espera da camioneta.
Deveis não esquecer uma boa merendola, porque a viagem é muito fatigante e chegais cá como mortas se não tomares as precauções, eu que o diga. Mas não comais tudo porque eu também quero.
 Importante:  há duas estações em São Pedro do Sul - a primeira é São Pedro Termas e a segunda é São Pedro do Sul. Não desçais nas termas. 

O avô  indica depois as estações a partir de Sarnada para irem calculando as distâncias até São Pedro do Sul

Itinerário completo  da linha do Vouga
A Ponte de Santiago sobre o Vouga

Bilhetes antigos de comboio

Ante de terminarmos na antiga estação de Paradela atravessamos dois túneis e logo depois observei do lado direito uma bela quinta de turismo rural, precisamente a " A Quinta dos Túneis", pareceu-me ter  um piscina infinita com uma excelente vista para todo o vale. 
Terminada a caminhada almoçamos no restaurante “O cortiço", imperou a vitela de Lafões à moda de Sever, assada no alguidar de barro. Restaurante moderno, com comida tradicional preparada à moda antiga. Logo a seguir descemos ao Museu Municipal de Sever de Vouga, onde está exposta a história do concelho através de artefactos construídos pelas populações que ocuparam o território, desde a pré história até à atual produção de mirtilos, de que é a capital nacional. No fim tivemos direito a um cálice de licor de mirtilo. 



Gostei mais do que estava à espera. Surpreendeu-me a riqueza histórica e a antiguidade dos vestígios encontrados neste território. A natureza diversificada, o rio Vouga e alguns enquadramentos paisagísticos muito interessantes. 

Melhor ainda foi a boa companhia, a oportunidade de relaxar a mente e o espírito. Encontrei um grupo de colegas de profissão, uns no ativo outros reformados, que se divertem organizando estas caminhadas.

Voltando à carta do avô e ao passado, imagino estes territórios bastante mais povoados do que hoje, em que o comboio era o único meio que aproximava o interior do litoral com alguma rapidez, apesar do desconforto. Hoje não há comboio e a sangria demográfica continua imparável. De acordo com a Wikipedia, Sever do Vouga tinha em 1930 aproximadamente a mesma população de 2011. 



Santa Filomena










domingo, 1 de março de 2020

Arco de D. Dinis, Vila Flor


domingo, 23 de fevereiro de 2020

Um dia em Miranda do Douro



Sou recebido no Centro para a Valorização do Burro de Miranda, em  Atenor, pela Cláudia, com uns fabulosos olhos azuis, que me indica o caminho até ao curral dos burros, onde nos espera o Emanuel, o nosso guia na  visita e no passeio de burro pelas redondezas. 
Mostra-nos a Quimera, uma burrinha que nasceu há pouco mais de uma semana, sempre em volta da mãe a tentar mamar. Outras burras comem fardos de palha de aveia. Passam 60% do tempo a comer. 
Num curral isolado está o único burro cobridor do centro, um "burro inteiro", os outros, castrados, estão separados em dois currais. Vamos buscar o Atenor, o primeiro a nascer na AEPGA, Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino, em 2005. Ficou com o nome da aldeia onde foi criada a Associação. 
Mostra-se muito teimoso. O Emanuel coloca-lhe  a Albarda e a sela no dorso, puxa o focinho com a corda e nada. Não há maneira de o demover. Arranca um ramo de carrasco e vai buscar uma ração especial para burros, dá-os a cheirar. O burro mastiga as folhas, move-se uns metros e volta a parar. Quer  mais comida. No entanto chega a Cláudia que o enxota por trás, mas o burro continua teimoso. 
Após alguma insistência,  entra finalmente em modo de passeio e realizamos o circuito de uma hora  pelas redondezas da aldeia. O Emanuel dá-nos muitas informações sobre os hábitos e a fisiologia dos animais, dá para perceber que gosta muito deles. Quer ir de burro até aos Picos de Europa. Trata-os com muito carinho. Cada um tem o seu feitio e o Atenor é um burro muito especial, dócil e comilão.
Regressamos ao centro e os restantes burros aproximam-se da cerca a observar-nos. O Atenor entra no seu curral, já sem a Albarda e a sela, e é imediatamente rodeado pelos restantes companheiros, como que a dar-lhe as boas vindas e a quererem receber notícias do passeio.
Ficamos enternecidos a observar  a cena na outra extremidade. Os burros dispersam-se e o Atenor  vem até nós, fica a olhar-nos alguns segundos, talvez a dizer Adeus. 
Por recomendação do Emanuel almoçamos em Sendim, na taberna da Moagem. O dono diz-nos que nos primeiros  Festivais Intercélticos serviam quatro mil pessoas. Hoje há menos gente devido à quantidade de festivais de Verão, que no entanto surgiram. 
Passamos pela Bemposta e dirigimo-nos para Lamoso, onde fizemos uma parte do  Percurso Pedestres PR MD6, até à Cascata da Faia da Água Alta. Um estreito caminho de  terra batida, com 1.4 km de comprimento, que nos conduziu entre carrascos e oliveiras ao longo de um pequeno riacho, afluente do rio Douro, até à queda de água. O percurso contorna a cascata por duas pontes de madeira e trilhos bem delimitados por vedações de madeira. Local muito aprazível e quase sem ninguém. O regresso, sempre a subir, foi bastante mais cansativo. 
Entrada do Centro de Valorização do Burro de Miranda

A Quimera


Igreja de Sendim


 Cascata da Faia da Água Alta 




Carrascos

Pombal característico da região 
A dona Sara é da Paradela, o ponto  mais oriental de Portugal continental. Quando visita a aldeia faz questão de falar exclusivamente em Mirandês, junto da lareira, contando histórias… 

Igreja da Misericórdia, Miranda do Douro

O rio Douro em Freixiosa









domingo, 15 de setembro de 2019

Festa da Senhora da Ajuda

A maior riqueza de Portugal são os  emigrantes. Todos os que saíram e voltaram mais conhecedores, do contacto com diferentes povos e culturas, fazem o país mais cosmopolita e aberto. Facilmente se encontra um português que fala pelo menos uma língua estrangeira - o castelhano não conta - que aprendeu no país onde viveu. Esse cosmopolitismo reflete-se na pátria, torna o povo mais receptivo aos outros, influencia a percepção que a família e os  amigos têm de países, sem nunca terem lá estado. 
O Português é bom em geografia. Não é qualquer povo que sabe onde fica Timor, ou Luanda. Milhares regressaram de África, após a independência das ex-colónias. Uma percentagem significativa da população nasceu noutro continente. Os filmes e séries televisivas  não são dobrados em Português, ouvem-se na língua original. O som e o sotaque de outras línguas é familiar. Quando o turista aborda o Português, logo ele começa a falar, ou a tentar falar, arranhando o melhor possível, a língua estrangeira. E se for desconhecida, gesticula bastante para melhor ser entendido. Procura uma língua comum. Tenta   qualquer idioma, menos o seu.
É elogiado por isso. Os turistas surpreendem-se com a fluência linguística e a facilidade de comunicar dos portugueses.

…… 

As festas de Verão estão a acabar. A Senhora da Ajuda celebra-se em vários sítios: Espinho, Eira, Santa Maria.
Não é tão sumptuosa como em Espinho. Não se fazem tapetes de flores de sal na rua, nem há milhares de pessoas a assistir à procissão. Apenas humildes centenas. De qualquer forma, foi muito interessante ver: a abrir, o grupo de tambores e percussão de lever, com as marjoretes adolescentes na frente do cortejo; depois, a Nossa Senhora da Graça, o Santo António, a Santa Rita e a Senhora da Ajuda, levados no altar aos ombros dos escuteiros e dos estudantes com traje académico do Minho. Aprumados e formais. Toaletes femininas domingueiras a assistir. Mães comovidas com os seus filhotes vestidos de anjinho a desfilar na procissão. 
O pálio trazido pelos confrades, de batina branca e debruns dourados. O senhor Pároco, debaixo dele, solenemente trajado, leva a cruz. Nas  alas, vão as candeias e os círios. A banda filarmónica do Loureiro, de São João de Ruivo, a marcar o compasso da procissão. Um magote de gente segue atrás, até à capelinha. A polícia desvia o trânsito. 
Os foguetes rebentam no céu, nas barbas da autoridade. Legalmente é proibido lançar foguetes devido ao risco de incêndio, mas ninguém cumpre a lei. Por precaução, o carro dos bombeiros está em prontidão no largo do coreto, não vá o diabo tecê-las. 
Em redor  dos dois coretos, quatro barraquinhas de comes-e-bebes, bijuterias e o palco onde vão atuar os "Irmãos Leais" - uma banda local, histórica e mítica, mais antiga do que os Xutos e Pontapés. Famosa por atuar de fato de casamento branco e  camisas pretas a contrastar, impecavelmente engomadas. Apareciam nas capas dos vinis dos anos oitenta e das cassetes vendidas nas feiras, jovens, elegantes, gel no cabelo, em pose de artistas. Não fiquei para ver. 
A verdadeira ermida da Senhora da Ajuda fica mais escondida, numa rua estreita com muros de granito e uma grande quinta abandonada.

O interior denota a influência do rococó brasileiro. O pequeno altar em talha dourada, a Santa reluzente numa expressividade barroca: Século XVIII, não há dúvida. 

Que bem que tocam!






domingo, 1 de setembro de 2019

Monsanto

Capela de Santa Maria do Castelo, Monsanto 

Jantamos no restaurante "Ó Serrano, magia da serra". O anfitrião, o senhor José Pinho, pede a atenção: aproxima-se da mesa de um casal espanhol de Bilbau e dedica-lhes, em castelhano, um poema de Pablo Neruda. Os clientes interrompem o jantar para ouvir. Aplaudem. Depois, "um pequeno poema  de um autor local", diz. Declama em Português, com ênfase. Apanho algumas partes:

 mulher
 corpo nu
 cabelo cintilante
 braço despido
 perna sedosa
 deusa
  amor
 cama

Aplausos. 
Pergunto quem é o autor. Responde com um sorriso e disfarçada humildade, "Sou eu".  
O menu tem um texto sobre a infância na freguesia de Melo, onde nasceu, do outro lado da serra, retirado do livro infantil, que escreveu:" Na Serra da Estrela - Uma história de pasmar". A mesma de Vergílio Ferreira. "Nunca na sua obra referiu a aldeia. Eu, pelo contrário, gosto muito de falar nela." 
Mais tarde, entra na sala com um cálice de licor de cereja, olha para mim, faz referência à minha calvície: "Aquele senhor calvo como eu."  Ri. Eu rio. Os outros clientes riem. Acha que tem piada. Faz um brinde e declama emocionado, "mais um poema meu".

Transcrevo  a ideia:

Andamos juntos amor
sempre nos conhecendo
vivendo e amando
com paciência 
ao fim de muitos anos
 com amor

O casal Espanhol, que já tinha acabado de jantar, sai rapidamente, antes de começar a ouvir o poema. 
Os outros clientes interrompem a refeição. Mais aplausos. 

A sua segunda esposa, bastante mais nova, a D. Idalina, trabalha no restaurante. Serve-nos uma sobremesa tradicional, feita por si: papas de carolo,  com farinha de milho. Deliciosas e fresquinhas. 

No pagamento, coloco algumas moedas na lata das gorjetas. "O senhor merece uma canção". Sai de trás do balcão, eleva o braço e a voz:

Obrigaaado
Obrigaaado
Muito Obrigaaado

As mulheres da cozinha - o senhor José Pinho é o único homem que trabalha no restaurante - observam  divertidas o patrão, bem mais velho do que elas. 




Monsanto

Estou nesta região de Portugal, Beira Baixa, distrito de Castelo Branco, pela primeira vez. Há muito que desejava visitar algumas  das suas aldeias históricas. 
Da região, conhecia apenas o folclore, presente em  canções de Zeca Afonso, nas recolhas de Michel Giacometti e nas adufeiras de Monsanto. 

Senhora do Almortão 
Virai olhos a castela
Não queirais ser Castelhana

A música tem um sentido épico e trágico.  Com a percussão do adufe, tocado por um grupo de senhoras de roupas escuras e lenço  na cabeça, fica grandiosa. 
Guerras de fronteira e violência entre os reinos de Portugal e Castela. Magias, sortilégios, medos.

Contudo, a única música que ouvi foi das gaitas de foles de um CD, no bar  celta "Lusitanicum". 
Em Monsanto, impera o silêncio. Exceptuando os ocasionais turistas que deambulam pelas ruelas - maioritariamente Castelhanos ! - há pouca gente na aldeia.
Nas ruínas do castelo, na hora de maior calor, até as cigarras estão caladas. 
Neste sítio, contempla-se o silêncio e o fluir do tempo.  
Torre do Relógio 




Capela de São Miguel





Idanha-a-Velha 

Quase ninguém, apenas dois velhos sentados no exterior da porta e uma senhora a quem compro piri - piri caseiro: "O Piri - piri do Zé".
 De resto, é o silêncio absoluto e um calor opressivo. Andar é cansativo. Talvez  as outras pessoas estejam a dormir a sesta. Caminho sem ver mais ninguém. 
As igrejas e as velhas ruínas  são relíquias de um passado importante, em que Idanha-a-Velha foi cidade Romana e Visigótica e  se chamou Egitânia. Hoje, são fantasmas a assombrar o presente, que me deixam perplexo e com muitas interrogações:
Como é possível ter todo este património e tão pouca gente aqui? 
Que reviravoltas históricas e sociais se deram para que hoje, Idanha-a-Velha, esteja assim, praticamente abandonada? 
Que país é este, que desconheço, e me ultrapassa completamente? 


Há uma praça de oliveiras, em  chão de xisto, e um chafariz com  relógio de sol, vazia na hora do calor. Experimento caminhar descalço sobre as Lajes quentes. 



Azinheira Velha






Penha Garcia

Surpresa. Por trás do Castelo, a paisagem muda radicalmente. O rio Pônsul corre no fundo de um vale abrupto, entre muros de xisto. Do alto, avisto a barragem e uma praia fluvial, a que não resisto. Desço pelo outro lado da vila e dou um mergulho. Um percurso pedestre, cruza  fósseis e moinhos. 
Vejo na estrada a saída para a aldeia de São Miguel da Acha. Recordo outro Beirão famoso, Eugénio Andrade e alguns versos seus: o canto das cigarras, o sol a pique sobre o branco da cal e as   cabras, "Essas grandes putas". 
Gruta da Lapa





Praia Fluvial do Pego, Penha Garcia