sábado, 5 de fevereiro de 2022

Trekking na Serra de Francia

 

Peña de Francia

O nosso trilho começou na estrada alcatroada de acesso ao santuário, onde a camioneta nos deixou. Partimos de madrugada de Braga, Porto e Mangualde, locais em que  foi parando e recolhendo os caminheiros para este fim de semana de muitas expetativas, com duas caminhadas: uma  na Peña de Francia e outra no Vale de Batuecas.

Metemo-nos pelo trilho  íngreme de terra e fizemos três quilómetros sempre a subir até ao maciço rochoso da Peña de Francia,   imponente lá no alto. Dos miradouros víamos a paisagem em redor, a meseta Ibérica e o maciço montanhoso da serra de Bejar,  que a atravessa nesta região de Espanha.  Caminhamos entre pinheiros mansos, só as nossas conversas pontuais  interrompiam a silêncio da serra.   O momento era de adaptação ao início do trilho e de encantamento com o que estava à nossa volta.  Como em poucas horas tudo muda: a paisagem, a língua, a cultura, as pessoas com quem conversamos. Dois grifos planam sobre nós, as pinhas e as agulhas dos pinheiros estão caídas no solo, algumas rochas soltas obrigam-nos a ter cuidado e a ver onde pousamos os pés.

A caminhada continua e vamos metendo conversa uns com os outros: alguns caminheiros são habituais nestas saídas da Borealis e já se conhecem, outros é a primeira vez, como é o meu caso. Vão-se tirando algumas fotografias. Peço para me fotografarem com o fundo da vasta planície: um sorriso, uma de perfil, outra  em cima da rocha.

No santuário,  o Pedro, um dos guias,  explica a história do local.

A lenda conta que o santuário foi construído no local onde um pastor teve a visão da Virgem Negra, numa pequena gruta a que se chega, descendo por um túnel apertado e de teto baixo, inclinando o corpo para não bater com a cabeça nas paredes. Claustrofóbico e despojado, apenas com uma simples estatueta da virgem, muito diferente de outros locais de culto mais ostensivos, como Fátima.   É o santuário mariano situado a maior altitude no planeta, acima dos 1700 metros. 

O topónimo Francia, muito comum na província de Salamanca, deriva dos colonos franceses que a vieram ocupar após a reconquista Cristã no século XI, assim como muitos apelidos que hoje existem na região.  

O relógio de sol foi construído sobre o rochedo e escavaram-se três túneis com acesso aos miradouros:  apesar de grandioso, passa despercebido ao mais incauto dos turistas,  ninguém espera encontrar um relógio com estas dimensões. Facilmente pode ser confundido com outro tipo de monumento.

Almoçamos no alpendre do santuário, abrigados nos muros do vento frio e cortante que fazia, a temperatura devia estar próxima dos zero graus.

Iniciamos a descida de 12 quilómetros até à aldeia de Monsagro, por um trilho de terra e rochas soltas, novamente com muitos pinheiros mansos e pinhas no chão. É nítido o contraste entre as encostas cobertas de vegetação e os cumes despidos. Uma estrada serpenteia a serra numa encosta vazia, dando a ilusão que atravessa o deserto.   O ar é puro, o céu cristalino, a visibilidade de muitos quilómetros. Passamos numa carvoeira – um montículo vegetal que ia ardendo lentamente e  fazendo carvão. Chegamos ao rio Agadan, afluente do Águeda que desagua em Barca D´Alva e é uma  fronteira física entre Portugal e Espanha, no distrito da Guarda. Ao longo da margem, a vegetação muda, torna-se mais densa e cambiam as espécies: os líquenes cobrem os troncos de carrascos e de velhos vidoeiros despidos, ouve-se o rumorejar prazeroso do rio. As águas translúcidas correm pelas rochas, pequenos passadiços  de madeira ajudam-nos a atravessá-lo.  Paz. Sossego. Tranquilidade. Por fim, uma derradeira subida a exigir um esforço extra para terminar o caminho em Monsagro, onde o autocarro nos aguardava para  levar à aldeia de La Alberca,  onde pernoitaremos no hotel Doña Teresa.  A minha companheira dos últimos quilómetros  queixa-se das dificuldade e de como cada metro pode custar a passar quando se está cansado e com dores nas pernas. Digo para a animar que quanto maior o esforço maior a recompensa e o prazer de terminar.

Monsagro é uma aldeia onde  não se vê ninguém,  contudo tem um museu dedicado aos fósseis de trilobites,  muito comuns na zona. Tão comuns que começaram a ser usados como decoração nas paredes das casas. Uma excentricidade única.

Regressamos a La Alberca, um pueblo típico com tradições culturais muito fortes. Tem os trajes tradicionais mais bonitos de Espanha, um pouco como as nossas Vianesas, mas mais escuros e pesados, devido ao clima mais frio e agreste, também com ouro a revesti-los. É tradição leiloar um porco no dia de Santo António, que passeia livremente pela aldeia e é alimentado por todos até ao Dia de Santo Antão, a 17 de janeiro, dia em que é morto e oferecido às famílias mais pobres. A estátua do marrano é testemunha desta veneração imemorial pelos suínos. O fabrico de enchidos é uma indústria importante na região. veem-se imensos porcos a focinhar debaixo dos sobreiros nas propriedades ao longo das estradas principais.

Jantamos no centro, na Cafeteria/ Restaurante El Encuentro,  momento descontraído de  convívio.  Ouviram-se histórias de aventuras, vividas com humor e saudosismo pela equipa da Borealis e pelos caminheiros que se juntaram a eles em destinos mais ou menos exóticos, que sabem bem recordar.

















Icnofósseis de trilobites na parede de uma casa. Monsagro





La Alberca

La Alberca

La Alberca


domingo, 2 de janeiro de 2022

Valongo

 

Estrada Nacional 15



Deixamos o carro no parque de estacionamento das Azenhas.  Revisitei alguns locais que fiz na saída de Campo do FAPAS, ao parque das Serras do Porto. Descemos lá abaixo às margens do rio Ferreira e visitamos a fraga do Castelo,  um  rochedo de 50 metros de altura, onde se faz escalada.  Descida ingreme a exigir  cuidado, colocando os pés devagar nas lajes de ardósia para não escorregar. Moinhos abandonados na margem  e um caudal muito forte que em algumas zonas formava remoinhos. O cheiro desagradável que exalava do rio,  juntamente com a humidade e o bafio,  por ser um sítio escondido e com sombra, não nos deu vontade de ficar ali mais tempo. Um painel informativo diz que aqui se tomavam banhos, imagino que sim, este sítio, sem a poluição da água, teria sido um local espetacular para isso, mas agora não, nem pensar. A pele ganharia pruridos e outras doenças, o cheiro a químicos diz tudo.

Seguimos até ao parque da cidade de  Valongo pelo PR2,  ao longo da margem do rio Simão,    e regressamos pelo mesmo trilho ao estacionamento. Outros  trilhos sinalizados cruzam-se com este, estradões de terra seguem para outros pontos  da serra e em direção a Couce, em Gondomar. Com mais tempo  e vagar há  aqui,  ao pé do Porto,  a oportunidade de explorar a história de Valongo de uma forma desportiva e saudável, caminhando, lendo as informações nos painéis dispersos pelos trilhos e visitar os locais museológicos relacionados com a exploração mineira, o ouro dos romanos e o fabrico do pão, uma forte tradição de Valongo.

Passamos no centro da cidade, vistamos o agrupamento de escolas de Valongo,  Vallis Longus, relembramos outro tempo. Deambulamos um pouco pela estrada nacional 15, observando a quantidade de casas cuja fachada é em azulejo, fomos ao parque centenário e petiscamos na tasca do mesmo nome. A fábrica das famosas bolachas Paupério é a três minutos a pé daqui, mas está fechada. Nesta mesma praça fica a Oficina do pão, da regueifa e dos biscoitos de Valongo.

Digo isto sem qualquer conhecimento, reproduzindo apenas o que ouvi de quem sabe, correndo o risco de omitir informação importante e errar outra: a tradição do pão de Valongo está relacionada com os colonos romanos que vinham explorar o ouro, era necessário alimentá-los e plantar cereais, daí o nome da localidade de Campo.  A tradição ficou e séculos mais tarde ficaram famosas as padeiras de Valongo que iam vender pão ao Porto.

Há pouca gente na rua, os altifalantes emitem músicas de natal americanas, uma enorme esfera iluminada com luzes brilhantes está no centro de uma das praças, as outras têm mais luzes  e enfeites. Acho completamente desfasado este tipo de iluminação e de música, não é culpa de Valongo, é assim em todo o lado nesta época do ano.  Faz-se assim e não se pensa  mais nisso.  Na minha opinião não se perdia nada em desligar os altifalantes e  substituir a música gravada, quase toda anglo-saxónica, por algo mais tradicional.  Nesta zona é tradição Cantar as Janeiras, porque não colocar grupos locais a cantá-las e fazer um presépio?  









sábado, 13 de novembro de 2021

Moinhos de Jancido



O GPS levou-nos para o parque de merendas de Covelo, no rio Sousa, Gondomar. Não vimos ninguém do grupo. Telefonamos à Isabel Fernandes que confirmou não ser ali o ponto de encontro. 

Os velhotes na tasca disseram-nos haver outro parque de merendas junto ao centro de saúde de Foz do Sousa, um dos senhores estava de  saída e ofereceu-se para  seguirmos atrás do seu carro. 

O melhor GPS, por vezes, é entrar nas tascas, meter conversa, e logo adquirem-se informações preciosas do lugar e, como foi o caso, mais ajuda ainda levando - nos ao próprio lugar. 

Ao chegar vimos a Isabel ao telemóvel a dar orientações a outros colegas que estavam ainda mais perdidos do que nós. 

Começamos o percurso junto à Ponte de Travassos, onde o rio Ferreira desagua no Sousa. É evidente a eutrofização da água. Vastas camadas de jacintos cobrem a superfície, há um cheiro esquisito, garrafas de plástico e lixo indiferenciado estão parados no açude da velha ponte que antigamente ligava as localidades Gondomarenses de Gens e Foz do Sousa. Apesar do aspeto estagnado e sujo da água, um homem sentado no tabuleiro  vai pescando com a cana de pesca pequenos peixinhos. Diz que num bom dia chega a apanhar 50. 

Seguimos junto ao rio até à estação elevatória, construída no século XIX pelos franceses da companie national des eaux. É um magnífico exemplar da arquitectura industrial que se encontra abandonado, mantem, no entanto, a fachada em bom estado. Foi inaugurado em 1882 e serviu para abastecer de água a cidade do Porto, substituindo e complementando os processos habituais, nomeadamente as nascentes da Arca D' Água. Depois de captada neste local era elevada até Jovim, de onde seguia em condutas até ao Porto. Era proibido construir sobre as condutas, a atual avenida Mário Soares foi construída sobre uma rua chamada da Conduta. Do outro lado da margem caminhamos alguns minutos  por uma via de terra batida sem declive e sempre com a mesma largura, foi a antiga  linha  de caminho de ferro que serviu para transportar carvão de Midões até ao rio Douro, de onde seguia por barco para todo o mundo. Foi  explorada por uma  firma inglesa, a "Hastings & Tait". 

O Sr. António Gonçalves decidiu em 2016, com mais quatro amigos, começar a recuperação dos moinhos de Jancido. Estava tudo coberto de silvas e degradado. Tem sido um trabalho árduo  de voluntariado e muita disponibilidade pessoal. Aos sábados à tarde vêm recuperar os moinhos, limpar a terra, abrir trilhos, replantar plantas autóctones (bordos, choupos, medronheiros, loureiros,...) - já plantaram 1400 árvores. Sem fins lucrativos, sem se constituírem como coletividade para evitar burocracias, recorrem diretamente à ajuda dos particulares que quiserem contribuir. Todos os moinhos e terrenos são propriedade particular. Por insistência do António Gonçalves e do seu grupo a câmara municipal de Gondomar introduziu o primeiro percurso de pequena rota homologado no concelho - o PR1 GDM Linha de Midões - que segue junto ao rio Sousa e passa nos moinhos.

Depois da ponte de Longras, o grupo do António acompanhado das esposas e de outros amigos, confraternizava à volta de uma mesa, depois de mais um sábado de trabalho a desbastar o mato e a recuperar mais um moinho, o nono, desta linha de água que segue até ao Sousa. Um dos amigos, o Paulo Ferreira, realizou o documentário "O silêncio dos moinhos" que brevemente passará na SIC. 





















 

sábado, 6 de novembro de 2021

Parque das Serras do Porto


A ideia surgiu em 1973 por intermédio de dois arquitectos que planearam um modelo urbanístico envolvendo e integrando os concelhos da zona metropolitana do Porto, como ocorreu na  véspera do 25 de Abril, o projeto perdeu-se com a mudança política. 

Em 2016 os concelhos de Valongo, Gondomar e Paredes decidiram criar um gabinete conjunto e discutir de que forma poderiam valorizar o  património natural comum, nomeadamente as serras  que partilham entre si. 

Houve discussões e assembleias municipais participativas que reuniram grupos e interesses antagónicos. O resultado foi a criação do Parque das Serras do Porto, um nome que mais facilmente projeta para o exterior a nova  associação com sede no centro de Valongo. Poderia ser o nome de um dos três concelhos, contudo os outros não aceitariam a designação e assim ficou o nome da mais importante  cidade da região. 

É um caso raro de sucesso na coordenação intermunicipal. Estão a ser traçados percursos pedestres, replantadas árvores autóctones, substituindo os eucaliptos que ocupam as encostas, investindo na divulgação do rico património local. 

O interior da Serra de Valongo está repleto de túneis escavados pelos romanos para extrair o ouro dos filões  de quartzo. Há muita história e património para descobrir. 

O professor José Fernandes foi-nos mostrando mapas antigos e recentes da região, contando histórias e curiosidades sobre a geografia e o povo. As terras xistosas  são mais pobres e inférteis do que as graníticas, por este motivo estas serras, que se estendem até Arouca, sempre foram pouco povoadas, em contraste com o Minho.

 A aldeia de Couce é um exemplo de abandono e esquecimento: próxima  de São Pedro da Cova, dentro do concelho de Gondomar, perdida na serra e com maus acessos, no entanto geograficamente mais próxima de Valongo. Os seus 16 habitantes consideram-se valonguenses. Foi um povoado oficina romano, construído para alojar os artífices que trabalhavam nas atividades associadas à exploração mineira, provavelmente uma lavaria - onde se lavavam os resíduos retirados da mina. 

Nos séculos XVIII e XIX explorou-se volfrâmio e antimónio. As pedreiras de Valongo são famosas pelas suas lajes únicas de xisto com as quais se fabricaram as melhores mesas de bilhar do mundo. Debaixo do tecido verde era colocada uma laje que permitia melhor suavidade  no contacto com a bola e  deslocamento sobre a mesa.

As águas rumorosas e velozes  do rio  Ferreira são enganadoras, a espuma que se vê deve-se ao mau funcionamento da ETAR de Campo, incapaz de limpar devidamente as águas residuais, devolvendo-as  poluídas e mal cheirosas.