sábado, 21 de março de 2026

Serra da Boneca

 


A ermida de São Pedro é um local isolado, rodeado de eucaliptos queimados e  de uma tasca num  pequeno barraco, onde param  clientes ocasionais  que ali chegam de carro para beber um copo de verde tinto da região e conversar com o taberneiro, o Sr. Isaltino. 

Joana ficou sentada no carro,  enquanto o companheiro foi perguntar às duas únicas pessoas que lá estavam  o caminho para o baloiço da Boneca.  O GPS do carro estava baralhado, não lhes dava o local exato. Há algum tempo que vinham subindo a serra sem encontrar qualquer sinal e desvio com indicações precisas. As  fotografias que viram na internet,   de um baloiço pendurado no alto da serra com vistas deslumbrantes para cumes montanhosos estendendo-se indefinidamente  no horizonte, e a curva do rio no fundo do vale,  eram muito apelativas; devia haver placas, indicações para lá chegar. Estranhavam ainda não terem visto nada.

Os homens na tasca interrompiam-se atabalhoadamente,  gesticulando,  querendo ambos ser solícitos com o visitante que passou por eles no carro desportivo de alta cilindrada, cem porcento elétrico – um carrão ! –, e uma loira de óculos escuros ao seu lado,  explicando onde se tinha perdido e o caminho que devia retomar para lá chegar.  O companheiro escutava-os, complacente: “Como são diferentes de mim estes sujeitos!” Vestiam calças cardadas, camisas sujas de nódoas de terra ressequida e botas gastas; ambos com o seu copo de tinto em cima do balcão, já meio tocados pelo vinho, em contraste com o jovem moreno e alto, de cabelo negro ondulado, elegantemente vestido de calças de ganga e casaco de cabedal por cima de uma T-shirt branca a dizer “Calvin Klein”, que polidamente  se havia dirigido a eles.

Desceram a estrada atrás do camião que ia despejar o lixo no aterro próximo. Joana fez um ar de nojo: - Querido, não consegues ultrapassar o camião? Incomoda-me ver aquela betoneira a revolver o lixo mesmo à nossa frente …e o cheiro, meu Deus!

- Tem paciência, minha querida, devemos estar a chegar ao desvio …

Foi com alívio que encontraram o estradão de cascalho que os levaria às eólicas e ao baloiço. Tal como os senhores lhe disseram a estrada estava em más condições, mas  um carro como o dele não teria problemas.  

Subiram os últimos metros a pé, pelas encostas xistosas, agrestes, varridas pelo vento. Rebentos de eucalipto nasciam vigorosos dos troncos queimados. Atravessaram a cancela com o  aviso  “Proibido”. O silvo metálico do vento soprava nas gigantescas pás das hélices, lembrando o som do carro elétrico ao arrancar. Viram o rio a correr numa curva apertada no fundo das encostas, uma imagem igual à das fotografias que viram na net. Caminharam com cuidado, desviaram-se  das arestas cortantes  das rochas, não encontraram o baloiço.

  - A empresa que explora o parque deve-o ter retirado, provavelmente...  - disse Joana.

Do outro lado da encosta, via-se o aterro. Um bando denso de gaivotas sobrevoava a pilha de lixo que se elevava da estrada.   

 - Que horror!! Já que não há baloiço vou colher flores.

Joana fez um  bouquet de pequenas flores amarelas e lilases que despontavam da terra, dando alguma cor à monotonia do lugar. Combinariam bem com o tapete  persa,  comprado há alguns anos numa loja do Arrábida.  

- Esse  tapete agora vale muito dinheiro, faríamos um bom negócio se o vendêssemos. Neste momento, é quase impossível importar bens do Irão devido ao bloqueio do estreito de Ormuz – observou  o companheiro. - Ouviste a notícia do indivíduo americano, amigo do presidente, que comprou ações de companhias petrolíferas horas antes do ataque?

- Ouvi, querido. Isso é que foi perspicácia!

- Ou apenas informação privilegiada, fazem-se grandes negócios quando se sabe antecipadamente o que vai acontecer no mercado – disse ele, habituado investir o seu dinheiro em ações, ETFs e fundos – As ações  valorizaram exponencialmente após o ataque….

- A guerra é uma grande oportunidade de negócio, as ações de armamento e petróleo estão em alta. Bravo Ambrósio! – concluiu Joana, tocando provocadora no ombro do companheiro com a sua  mão delicada e amaciada pelo creme de alfazema que comprou em Paris a semana passada. Uma brincadeira que repetiam frequentemente, inspirados  num velho anúncio publicitário:

- Ambrósio, hoje apetece-me algo doce. 

- Senhora, tomei a liberdade de escolher Ferrero Rocher.

Riam sempre que a faziam. Usavam palavras obscenas e alusões sexuais. Havia cumplicidade entre eles. Joana insinuava-se, subia o vestido de algodão até às coxas, mostrava as pernas bem torneadas. O jogo excitava-os.

Seguiram pela EN 108 até à pousada do palácio do Freixo. Premiram  o botão debaixo do volante para abrir o tejadilho do carro.  Ele pôs os óculos escuros “Ray-Ban” para se proteger do sol que se punha sobre o Atlântico e lhe encadeava a vista. Levava o braço esquerdo com o cotovelo dobrado, apoiado na janela. Guiava com uma mão, devagar, olhando o rio, fruindo o prazer da condução, o autorrádio ligado na SMOOTH FM;  a mão direita tateava  suavemente  os contornos nus  das pernas de Joana. A vida corria bem. O banho de espuma quente com flutes de champagne e bombons de chocolate, a massagem Tailandesa no spa privativo da suite,  aguardavam por eles.  

- Ambrósio, hoje apetece-me algo…









domingo, 8 de março de 2026

Miradouro de São Bento das Pêras

As primeiras flores despontavam dos ramos das cerejeiras despidas, pequenas pétalas brancas luminosas a anunciar a proximidade da nova estação. Da janela do quarto via a vida a acontecer, os verdilhões saltitantes nos ramos escondiam-se debaixo das folhas da laranjeira, pessoas  caminhavam no passadiço ao longo do riacho por trás do quintal. Gente, Vida em ação.

O coto doía-lhe particularmente nessa manhã.  O fisioterapeuta disse-lhe  que ela continuaria a ter dores na zona amputada, dores reais, como se o resto da perna ainda existisse: - Merda de vida!

Lembra-se da manhã fatídica em que saiu para dar um passeio de mota, e de mais nada do que se passou a seguir. Acordou do coma induzido na cama do hospital,  desconhecia o seu estado. Isaura, a sua melhor amiga, e um médico  estavam de pé ao seu lado. A amiga falou delicadamente, fez perguntas, contou como tudo aconteceu: Como te sentes? Lembraste de alguma coisa?

O condutor bêbado passou no sinal  vermelho, embateu na mota e fugiu. Houve testemunhas que o denunciaram, foi apanhado pela polícia.

O médico disse que perdeu muito sangue, o pé esquerdo ficou esmagado sob o peso da mota e da força do embate, fizeram duas cirurgias de urgência para estancar os vasos sanguíneos, extrair os tecidos e a carne tumefacta, ponderaram fazer transplantes de outras partes do corpo para a zona afetada, mas a fíbula e o pé tiveram de ser amputados. Não havia alternativa. Ela continuaria a ter uma vida normal, faria sessões de fisioterapia  para aprender a caminhar com a prótese que lhe ia ser colocada…

Foi então que pela primeira vez olhou para aquela parte do corpo, envolta em ligaduras, apoiada em duas correntes que a elevavam alguns centímetros acima do colchão. Estava demasiado cansada e sedada para reagir e fazer perguntas, chorar ou sentir raiva. Tudo parecia um sonho, irreal, como se não fosse ela que ali estava, antes outra pessoa e um corpo que não era o seu.   

Com o tempo, foi-lhe crescendo uma  raiva contra a vida e o azar que teve.  Pensou muitas vezes no pior, antes disso tinha de se vingar do  raio do bêbado, fazer-lhe, no mínimo, o que ele lhe fez.  Atolava-se no pélago dos dilemas que lhe surgiam: viver sem raiva,  superar  as feridas físicas e emocionais que lhe ficaram marcadas no corpo e na alma ou viver permanentemente em estado de revolta, alimentando-se dessa fúria?

Era-lhe útil a revolta.

Delineou  um plano de vida, procurou força e inspiração nos livros, nas vidas diferentes da sua, emocionantes e destemidas.

Anotou no seu caderno mais algumas frases.

Deitámo-nos juntos na noite ilegal trespassados por faíscas de prata.

Frases escritas no caderno de capa azul claro, estranhas e portentosas, que traduziam a violência do mundo, apaziguando o seu sofrimento. Copiadas dos livros que lia, versos curtos e palavras que a comoviam pela força e surpresa das combinações, como se fossem suas, algo que ela considerava não ter talento para fazer. 

O sibilar dos azorragues nas espáduas tumefactas.

Questionou-se se havia alguma relação conceptual entre as teorias Hindus de transmigração das almas, a Cristã de “Ressurreição” e a metempsicose.

Prolegómenos da formação do mundo.

Certos conceitos religiosos davam-lhe ânimo, imaginava-se uma alma viajando por muitos corpos e épocas. Talvez o acidente lhe tenha dado uma missão nesta vida: a vingança!

Enfiou a prótese no coto da perna esquerda, saiu com a bengala pela porta do quintal. Caminhou umas centenas de metros com muito esforço pelo passadiço de madeira até ao jardim municipal, sentou-se no banco a ver as pessoas a passear, a usufruir a tarde de sol, os cachorrinhos levados pela trela, a arfar de contentamento encostados aos donos. Esperou por Isaura, foram de carro ao santuário de São Bento das Pêras, viu a paisagem de lá de cima. O vento frio sacudia-lhe o pescoço, protegeu-se com o cachecol de lã. O tempo estava suspenso, enquanto a vida noutros lados decorria frenética.








sábado, 21 de fevereiro de 2026

São Pedro-o-Velho

 


O Miradouro está lá em cima, distante, entre as rochas isoladas e austeras. Os dois amantes caminham em direção a ele sobre as lajes polidas de granito. Pequenos riachos escorrem das fragas, formam charcos musgosos.  São Pedro o Velho: uma plataforma circular elevando-se no cimo do morro mais alto da serra. Dali tem-se uma panorâmica de 360º sobre as serras da Arada e da Freita, a ria de Aveiro, as aldeias de Cabaços, Castanheira, Albergaria-da-Serra e o Merujal; o  vale de Arouca estendendo-se desde Provesende; e os parques eólicos que desfeiam o horizonte e o artificializaram com a intervenção humana. Apesar disso, ainda ouvem o chamamento do pastor imitando  balidos,  reunindo o rebanho e as ovelhas tresmalhadas que berram e saltitam ágeis:  “As Cabras, essas putas”, como lhes chamava Eugénio de Andrade com carinho.

Sentem-se parte do mundo e da civilização, por eles correm histórias de imensas pessoas.  Se fossem pastores, chegariam a casa,  abririam a garrafa de vinho tinto, lascariam o presunto pousado na mesa, acenderiam  a lareira e ouviriam o crepitar do fogo, enquanto os lobos uivavam nas serras. Leriam histórias  de Camilo Castelo Branco à luz da vela e fariam amor ao pé do lume.

Pouco falam entre si. Passam mais tempo a consultar o telemóvel e os indicadores do smartwatch do que a apreciar a paisagem. Ligam o Bluetooth  para registar na aplicação as métricas diárias e terem a certeza de que cumprem os objetivos definidos pela máquina. Sem darem por isso, perdem o controlo de si: são vigiados insidiosamente e silenciosamente 24 horas por dia,  até a duração do  sono é registado  por ela.  

Ouve-se um beep,  uma mensagem colorida aparece no visor do relógio: atingiu 10000 passos. Os amantes alegram-se, a pequena  caminhada valeu a pena, os objetivos do dia foram cumpridos.






domingo, 4 de janeiro de 2026

Neve

 


Lamento desiludir-vos meus amigos venezuelanos, mas o Trump não vai trazer-vos a liberdade e a democracia.  Ele ordenou o sequestro do vosso presidente, Nicolas Maduro, para mais facilmente chantagear os restantes dirigentes do regime chavista: não pretende enviar tropas para a Venezuela, o que lhe traria mais impopularidade nos Estados Unidos, pretende simplesmente aceder às imensas reservas petrolíferas do vosso país.  Assim, fica em posição de força para ditar as suas ordens a quem substituir Nicolas Maduro.

O sequestro e julgamento do presidente servirá como exemplo para quem teimar em lhe fazer frente. Os lideres americanos são bullies e agora possuem  um brinquedo para chantagear e meter medo a quem não se submeter à sua vontade. São os líderes do mundo: querem, podem e mandam, não precisam de obedecer ao direito internacional.

Portanto, meus amigos, podem dizer adeus à esperança que colocaram na deposição do presidente. Das duas uma: a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, não se rende a Donald Trump e o velho regime continua intacto, tornando-se porventura mais repressivo; ou a cúpula de dirigentes aceita as exigências dos Estados Unidos em troca da sua continuação no poder. De uma forma ou de outra, o povo venezuelano continuará na miséria sem beneficiar das imensas riquezas do país nem da liberdade para escolher democraticamente os seus lideres políticos.  

Maicon não gostou da análise política do seu amigo português. Tem-se falado muito da Venezuela por estes dias nas redes sociais e na imprensa: é fácil falar de um  país estrangeiro, opinar de barriga cheia sem nunca lá ter vivido e sentido  as agruras quotidianas da esmagadora maioria dos seus habitantes, vendo as notícias ao longe sentadinhos no sofá, a beber um chocolate quente como se estivessem a assistir a um espetáculo qualquer. Ele nasceu na Venezuela, sente os acontecimentos de uma forma totalmente diferente:  com intensidade e preocupação pela  família e amigos que lá deixou. Veio para Portugal, a terra dos  pais, para fugir da incerteza económica, da pauperização permanente das condições de vida, da insegurança causada pelo chavismo que arruinou a empresa do pai, tão arduamente construída por ele ao longo de toda uma vida.

Readquiriu  esperança numa mudança para melhor, a situação era insustentável. Fica irritado com  comentários,  augúrios tão sombrios e idiotices sobre a Venezuela, mesmo que vindas dos seus amigos.  Odeia  ver os apelos nas redes sociais às concentrações  contra a “agressão imperialista norte-americana a um país soberano”. Não tem vergonha de o dizer: apoia a intervenção americana, foi a melhor notícia que lhe chegou da Venezuela nos últimos anos.  Não lhe interessa o “Direito Internacional” e tretas do género. Não havia outra hipótese para remover  aqueles bandidos.

Quando era pequeno foi com os irmãos e os pais ver a neve nas montanhas de Mérida. “A única região da Venezuela onde existe neve”, disse-lhes o pai.

Não sabia o que era neve, só a tinha visto na televisão, nos filmes americanos que passavam no Natal, e do que os  pais lhes contavam de quando eram miúdos em Portugal, antes de emigrarem para a Venezuela: “talvez não acreditem, meus filhos, mas aqui neste clima tropical podemos ver neve se subirmos ao pico Bolívar”. Foram de carro, demoraram muitas horas desde as planícies em redor do lago Maracaíbo, onde viviam,  até chegarem à cordilheira Andina. Lembra-se do pai lhe ter dito que foi um ano particularmente frio nas montanhas do norte da Venezuela e que não era habitual haver neve naquelas  altitudes mais baixas. Ele e os irmãos saíram do carro e, como todas as crianças, fizeram bolas, deslizaram metidos nos sacos de serapilheira que iam na mala e fizeram tropelias. Foi um dia inesquecível. Passaram a noite num pequeno hotel e regressaram a casa no dia seguinte, a descer várias horas de carro até ao mar, passando por climas que mudavam com a altitude. Tempos felizes num país incrível!

Nunca mais viu neve até hoje.  

Em homenagem aos tempos de mudança,  hasteou a bandeira tricolor  do seu país na traseira do carro, como fazem os portugueses quando joga a seleção nacional de futebol   e, nostálgico com as  suas memórias, rumou a um dos poucos sítios de Portugal  onde se pode ver neve: a serra da Estrela. Os amigos portugueses não acreditaram que a última vez, e única,  que viu neve foi  na Venezuela.

- Neve na Venezuela?! Estás a gozar connosco!

Ignorantes, é o que são. Devem pensar que na Venezuela só existem praias tropicais e bananeiras! Não imaginam a beleza e a diversidade do país.

Partiu em direção à Covilhã  e dali subiu à serra. Viu a placa na estrada, junto à pousada, indicava 800 metros de altitude. Mais à frente, viu outra placa: 1200 metros de altitude. Cruzou-se com muitos carros que desciam da Torre; alguns com pedaços de neve agarrados no tejadilho e bonecos de gelo esculpidos no capô. Um deles trazia a bandeira da Venezuela sobre o tablier. Que alegria, compatriotas! Buzinou, abriu o vidro, fez o V de vitória com a mão esquerda, gritou para os ocupantes: Viva Venezuela! Libertad! Libertad! Responderam da mesma forma, eufóricos:  Libertad! Libertad!

1500 metros: famílias e  crianças fora dos carros a mexer nos primeiros pedaços de neve na berma da estrada. A nostalgia da viagem aos Andes, perto de Mérida, pesou-lhe na alma.  Regressaria à Venezuela, tinha de ser!

1700 metros: engarrafamento. Uma longa fila de carros estendia-se pela estrada até à curva que contornava mais uma encosta da serra.

O carro parava e avançava devagar. A esposa abriu a porta, saiu para esticar as pernas, apanhou um pedaço de neve e trouxe-o para dentro do carro. Passou-o ao marido, pacientemente sentado ao volante, acelerando e parando, acelerando e parando. Acariciou a neve com os dedos, maravilhou-se com o pedaço branco na sua mão. Contemplou-o até sentir o frio queimar a pele.

Seguiram no para arranca até à Torre. Estava assim há quase uma hora – já não bastam os engarrafamentos para o trabalho durante a semana, tinha agora de apanhar outro ao fim-de-semana no passeio à serra da Estrela!

Estacionou o carro, caminharam sobre o manto branco que cobria o  planalto superior. A esposa, num gesto maroto, atirou-lhe uma pedra de neve contra o corpo:

- Aaaa… isso não se faz! Queres guerra? Vais ter guerra! – Correram ambos a apanhar mais neve, cada um para seu lado.  Atiraram bolas um contra o outro. 

- Sua malandra!

- Seu medricas, não me acertas.

Do manto branco despontavam rochas, sentinelas silenciosas observando os humanos minúsculos a brincar. Os faróis do carro iluminavam a berma, a luz refletia-se por trás do rail de separação. O círculo de luz fluorescente recortava-se nos tufos de erva perdidos no tapete de neve, como um rendilhado num fino tecido de noiva. Maicon sentiu a pureza da infância encher-lhe a alma, um laivo de esperança num mundo melhor e no regresso à Venezuela renasceu em si.






sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Rua dos Chouriços

 


Bom, Dia Caros Senhores

 

Venho por este meio comunicar a insegurança que como peão sinto nas estradas em redor da minha residência em Eirães,  Vila Nova da Cortiça, nomeadamente na rua dos Chouriços, rua das Oliveiras,  rua da Estrela e rua da Belavista.

Vivo aqui desde criança, as estradas eram em paralelos e sempre ansiamos por melhores arruamentos  e alcatroados. Finalmente as obras foram feitas.  Alcatroaram-se e alargaram-se estradas, os passeios foram estreitados. As entradas nas casas ficaram  mais expostas aos carros, não se fizeram lombas, nem se colocaram sinais de trânsito ou passadeiras para reduzir a velocidade. Ruas da largura de estradas nacionais atravessam zonas residenciais onde circulam jovens estudantes a caminho das paragens de autocarro, ou idosos sem carta, porque quem tem carta de condução raramente  caminha nestas estradas, procura outros sítios para o fazer. Os arruamentos foram “melhorados” a pensar nos automóveis e não nos peões.

A coexistência entre peões e viaturas é perigosa. Os carros circulam permanentemente muito acima do limite de velocidade, há curvas,  desníveis,  cruzamentos largos,  rápidos e desalinhados,  que contribuem   para a perigosidade da estrada e  aumentam os riscos para peões e ciclistas.

Não se atenuou a possibilidade de erro humano, as estradas como estão amplificam o perigo das falhas humanas.

Como morador e cidadão que paga impostos, que conduz e caminha por estas estradas, sinto que devia ter outras garantias de segurança na minha rua e nas circundantes. Não tenho.

Já enviei cartas para a Câmara Municipal, falei pessoalmente com o anterior presidente da Junta de Freguesia,  a sugerir passadeiras, lombas, sinalização e alterações nos perfis das estrada para melhorar a segurança. Não houve qualquer modificação até hoje.

Parece que estamos condenados a ficar cada vez mais confinados e cercados por estradas perigosas onde sair de casa a pé é um risco. Os arruamentos urbanos deviam ser feitos a pensar que caminhar em segurança significa melhorar a Qualidade de Vida.

Mas as prioridades e mentalidades estão invertidas, privilegia-se o uso do carro, constroem-se estradas largas e rápidas dentro das localidades, erros crassos que desumanizam  as nossas freguesias, destroem a fruição que se devia ter ao caminhar em sítios onde ainda permanece uma certa ruralidade e memória de tempos ligados ao trabalho na terra,   mantendo  os nossos índices de sinistralidade muito elevados: algo que nos devia embaraçar como país (PRP). 

Mais de metade das mortes  dão-se em arruamentos urbanos (ANSR).

É um paradoxo: é mais seguro caminhar nas cidades  do que nas periferias. O  excesso de transito citadino, o maior número de passadeiras e de semáforos, causa lentidão na circulação; enquanto que  nas periferias urbanas,  apesar de haver menos automóveis,  estes circulam  mais velozmente e a sinalização e o perfil das estradas carecem dos necessários instrumentos de segurança.

Peço-vos que, na vossa qualidade de organismo de  Prevenção Rodoviária,  aconselhem  a  Câmara Municipal - um dos concelhos mais prestigiados do país, onde a segurança nas estradas pode contribuir decisivamente para a melhoria dos índices nacionais -  e a Junta de Freguesia, a fazerem as necessárias melhorias nos seus arruamentos.  Ou que os vossos técnicos se desloquem a estas ruas, sintam eles próprios o desconforto que eu sinto ao caminhar nelas, elaborem os respetivos relatórios de segurança e encaminhem-nos para quem tem o dever de fazer ruas seguras.

Despeço-me com os meus melhores cumprimentos e os desejos de um ano de 2026 com melhorias significativas na sinistralidade rodoviária.





domingo, 7 de dezembro de 2025

Alpedrinha

 


Fomos entrando no picadeiro real, palácio do século XVIII  adquirido pela câmara municipal do Fundão. Não imaginávamos o que iriamos ver: ninguém na receção, apenas vozes de pessoas a conversar e uma música estranha,  que vinham detrás da cortina preta que tapava a entrada numa sala lateral.

Subimos as escadas de granito e fomos dar a uma sala escura com vários chocalhos pendurados do teto. Na parede um filme a preto-e-branco de cabras a pastar nos montes, montagem multissensorial que nos remeteu de imediato para a cultura local e a pastorícia. Chocalhamos as sinetas, envolvemo-nos no ambiente sonoro e nostálgico da natureza. Os sons e a luminosidade sombria produziram um efeito encantatório em nós, como se estivéssemos a viajar para um tempo primordial de ligação à terra.   

Alguém subiu as escadas.

- Estejam à vontade, é mesmo para chocalhar. Temos mais três salas:  uma para  interagirem  com o espaço e duas exposições.  

Pelos vidros largos das paredes  de uma das salas entrava luz natural e via-se o jardim do lado de fora. Obras coloridas  contrastavam  com as paredes brancas, tornando-as mais vibrantes e expressivas.

 E. atravessa as cortinas da porta lateral e volta para trás.

- parece que cheira a cabra …

Também atravesso as cortinas e entro numa sala escura onde estão duas cabras esculpidas em material plástico, e  pegadas desenhadas no chão. Uma referência óbvia à transumância.

Descemos à receção. O guia despedia-se do casal que visitava a sala da cortina preta.

- Agora posso mostrar-vos a última sala, mas primeiro explorem os círculos no mapa.

Colocamos as mãos sobre os círculos de um painel com a serra da Gardunha e Alpedrinha.  Saem sons de lobos, rebanhos,  passarinhos, do vento, da água,  de máquinas a trabalhar a terra e do fogo a consumir a serra. Uma parafernália de ruídos ouvidos por quem aqui viveu ao longo dos tempos.

Entramos na última sala. Cores berrantes, de formas indecifráveis e dinâmicas, espalham-se nas paredes.

- coloquem uma mão na terra do vaso e a outra na água dos jarros – as formas alteram-se, palavras e frases aparecem e desaparecem das paredes - a intenção é sentir a terra a produzir vibrações sonoras e coloridas.

Envolvem-nos  sons e luzes eletrónicas que criam um efeito hipnótico.

Despedimo-nos do guia, recomenda-nos almoçar no restaurante Degusta-me.

Passamos na fonte de D. João V. A água brota das bicas para dois tanques. Diz a lenda que a bica da esquerda  é para as mulheres solteiras,  a do meio para as casadas e a da esquerda para as bruxas.

Mais abaixo, o memorial aos mortos da primeira invasão Francesa em 1808. Crianças e famílias inteiras massacradas.

Somos recebidos pelo dono do restaurante. Portugal também é isto! Pequenos restaurantes que se descobrem em localidades bonitas, repletas de história, nas quais a gastronomia e as pessoas que a confecionam são em si mesmo uma parte da maravilha que é viajar pelo país. O Sr. Rui é um excelente cozinheiro e anfitrião, serviu-nos tiburnada de bacalhau, feita na hora, ainda com os aromas da batata a murro, do alho e das especiarias a fumegar no prato. Uma delícia! As sobremesas de pudim de pão e tigelada de requeijão fizeram jus ao prato principal, assim como as entradas de queijo da serra e compota de abóbora (tudo feito com ingredientes locais e da época). Espaço pequeno e acolhedor. Um daqueles sítios em que saímos reconfortados pelo que comemos e pelo tempo que passamos.




Obra de Daniela Guerreiro

Obra de Catarina Glam








sábado, 8 de novembro de 2025

Passadiço de Pindelo

 


Tenho como missão de vida ajudar o próximo e atenuar o seu sofrimento, tornar a vida dos outros mais alegre nestes tempos de servidão e medo.

Vivemos tempos sombrios, a dor alastra às famílias. Os pais envelhecem e morrem, amigos próximos adoecem jovens, ainda com muita vida pela frente.

Vidas cheias de obstáculos financeiros, orçamentos apertados, dívidas. Doenças e morte. Gente desamparada, deprimida e triste, sem saber para onde se virar,  impotente para seguir em frente.

Procuro Deus dentro de mim, Ele existe no meu íntimo à espera de ser encontrado, não é justo que perca a fé e o culpe das desgraças do mundo. Só tenho a agradecer Ele me dar a oportunidade de presenciar a vida a desenrolar-se à minha frente.

Devo encontrar alegria e alento na dor e fealdade, não desejar o mal de ninguém, mesmo a quem maltrata e odeia o seu semelhante. Se responder com rancor torno-me igual a quem odeia e perpetuo o ciclo de sofrimento e revolta das pessoas.

Devo estar acima da história e dos acontecimentos quotidianos que todos os dias nos abalam e entram pela casa adentro.

Os ramos de jasmim, o céu azul sobre mim, a chuva, o vento e o sol, os pássaros que voam existirão sempre. Mesmo das grades e das prisões que nos cercam podemos olhar para fora e ver  beleza em todo o lado. Devemos estar gratos por isso.

Como não me alegrar e não pensar em Deus?

Todas as noites oro, tenho plena consciência de mim, do meu papel e da minha vida dentro dos acontecimentos que fluem e não domino. Compreendo a dor dos Homens e  a minha, e aceito-a. Sinto-me grata por ser assim.

Adoro conversar com as pessoas, tornei-me muito perspicaz a ler a sua alma. Em poucos minutos compreendo toda a sua vida e dor e sinto uma enorme compaixão por elas. Elas sentem que eu as compreendo  e, sem eu nada dizer ou pedir, abrem-se comigo e contam o livro das suas vidas.

Apaixonei-me por muitos homens, mas nunca serei capaz de me casar e de me entregar a um só homem. Não existe nenhuma contradição entre procurar Deus incessantemente dentro de mim e amar mais do que um homem ao mesmo tempo. Neles encontro diferentes manifestações de Deus.

Sinto por S. uma enorme ternura, todos os dias penso nele e quando estamos juntos o nosso amor é casto e profundo.

Durmo no regaço de Han, por ele sinto um amor  físico e intenso, enterro-me nele com  uma alegria vibrante.  Em Amsterdão ando de bicicleta todos os dias, de cigarro na mão, viva e fremente, em direção ao consultório de S. e não sinto qualquer remorso por deixar Han sozinho nos meus outros lençóis.

Quando engravidei subi e desci escadas propositadamente para me estafar, bebi mezinhas e injetei água quente para dissolver a vida que crescia dentro de mim. Não quero ser mãe nem ficar impedida de buscar Deus. Necessito de disponibilidade emocional e tempo para ajudar as pessoas a ultrapassarem o seu sofrimento nestes dias sombrios, de estar ao seu lado descomprometidamente.

Estou em Portugal a convite do João. Ele hoje trouxe-me ao passadiço de Pindelo, ver cascatas, serra e rochas íngremes, que não vejo nos Países Baixos. Mostrei o  meu diário, disse:

- Estou a escrever um diário e mais tarde talvez escreva um grande romance no qual colocarei tudo o que se passa neste tempo e  que  considero importante dizer às pessoas. Ainda temos de aprender a lidar com todas as nossas possibilidades, sinto que tenho algo a dizer para tornar o mundo melhor e com menos sofrimento.

João folheou o caderno amarrotado de linhas azuis onde anoto os meus pensamentos, fui-lhe traduzindo do neerlandês algumas frases que considero mais felizes,  nas quais consegui representar com alguma fidelidade os meus pensamentos íntimos sobre Deus.

- Etty, pela maneira tão entusiasmada e profunda com que falas e escreves, talvez um dia venhas a ser conhecida pelo teu diário. Não necessitas de escrever um grande romance ou poemas, possuis  uma prosa  poética e bela.  O diário é rico, o pensamento e vida nele contida  desmesurados e vastos. Revelas grandeza ao  falar das profundezas da tua alma e ao mostrar o caminho espiritual que encetaste quando conheceste S.  O teu livro ficará na história como “O Diário de Etty Hillesum”, acredita em mim.

Caminhamos pelo passadiço observando as maravilhas de Deus e do Homem, neste breve intervalo de sossego que encontramos juntos, falando da centelha divina que existe em nós. De como nos cruzamos neste tempo, através de um livro. Demos as mãos e seguimos até à cascata da Pedra Má.




domingo, 12 de outubro de 2025

Amarante

 


Os meus bisavós emigraram do Oklahoma para a Califórnia em 1933. As terras deixaram de ser produtivas e os rendeiros não podiam pagar as rendas. A agricultura mecanizou-se, os tratores substituíram os homens. Milhares de famílias abandonaram as quintas rumo ao Oeste, à terra prometida da Califórnia.

Viajaram num camião carregado dos víveres mais essenciais - a  minha avó, os seus pais e irmãos. Contaram-me histórias épicas dessa viagem extenuante e acidentada, que ninguém queria fazer. Foram forçados a encetar o exilio  dentro do próprio país, como párias malditos e peçonhentos,   maltratados e violentados, expulsos das bermas das estradas nos acampamentos temporários que faziam junto de ribeiros, em tendas improvisadas com restos de cartões que encontravam nas lixeiras próximas,  e com as lonas que também  cobriam os camiões nas longas viagens pelos desertos e terras áridas do Arizona e do Novo México.

A Califórnia não foi a terra que almejavam, só lhes ofereceu  ira e revolta. Os empregos prometidos foram um engodo para milhares de deslocados – um estratagema para escravizar e pagar ninharias a famílias inteiras: quanto maior a  procura de emprego mais os patrões podiam chantagear os trabalhadores e baixar os salários. Milhares de hectares foram  intencionalmente mantidos improdutivos para criar escassez de cultivo, e pouca necessidade de mão-de-obra. Tempos miseráveis que a minha avó, Rosasharn, contava quando eu era criança.

Os meus bisavós foram vítimas da mecanização da agricultura, tornaram-se excedentários, ficaram à mercê dos bancos, endividaram-se e perderam as terras que cultivaram durante gerações. Quando emigraram para a Califórnia por falta de terra para cultivar,  continuaram sem condições para  uma vida digna: viveram em acampamentos temporários, as Hoovervilles, sempre à procura de trabalho para alimentar as muitas bocas que tinham a cargo, humilhados pelas autoridades locais e pejorativamente chamados de Okies pelos californianos, por serem do Oklahoma.

Veio a segunda guerra mundial, os Estados Unidos concentraram-se na industrialização e no fabrico de equipamento militar. Os meus avós arranjaram um emprego estável e depois, com a vitória, deu-se o baby boom. A geração do meu pai foi a dos baby boomers,  do crescimento económico, do pleno emprego e do consumismo que tornou a América famosa. Cresci numa bela vivenda ajardinada,  nos arredores de Sacramento.  Conheço, no entanto, o historial da minha família, os sacrifícios que os meus antepassados fizeram para fugir da miséria.

Deixei de reconhecer a América, tornou-se mais violenta e racista, e não gosto de Trump. As minhas amigas falaram-me de Portugal, apresentaram-me o país como uma espécie de Califórnia em miniatura: bom clima, praias, surf, tranquilidade – que deixei de ter na américa – e benefícios fiscais para estrangeiros. Depois de pesquisas aturadas na internet,  de muitas conversas e troca de emails com compatriotas e viver em Portugal, decidi mudar-me com a minha companheira.

Cheguei há um ano, gosto de estabelecer um paralelismo pessoal entre a história dos meus bisavós e a minha, realçando o contraste de vidas e oportunidades tão díspares. 

Pertenço ao grupo dos privilegiados. Levo uma vida  exultante contrariamente aos meus antepassados  – o  Karma encarregou-se de  equilibrar as forças cósmicas que pendem sobre a minha família, dando a mim o que retirou aos outros.   

Da mesma forma que na Califórnia se criou a escassez agrícola de forma intencional,  através do açambarcamento de milhares de hectares por uma minoria de grandes proprietários, em Portugal criou-se a  falta de habitação através do açambarcamento de quarteirões inteiros por grupos económicos e fundos de investimento,  destinados a hotéis, alojamentos locais e arrendamentos de luxo.

Vê-se muita construção, mas pouca gente a viver nela. Sou, neste aspeto, uma felizarda: eu e a minha companheira, além dos benefícios fiscais, conseguimos comprar alguns apartamentos e viver das rendas.

Pelo que li e observo, e do pouco que ainda conheço deste país, que me recebeu de braços abertos, julgo que em Portugal  há escassez de mão-de-obra, faltam trabalhadores em muitos setores.

Temos um exemplo na nossa casa: a empregada doméstica, Petra Von Kant, é filipina. Não conseguimos arranjar uma portuguesa. Disseram-nos que em Lisboa seria mais fácil, mas em Amarante só conseguimos a Petra por intermédio de uma amiga com contatos de trabalhadoras filipinas.

Vivemos em Amarante. Adoro a brejeirice da doçaria local!

Estes Portugueses são levados da breca! Não é que subverteram completamente a seriedade e o rigor religioso que se deve  a um homem  santo, muito acarinhado aqui na terra, e inventaram  um doce de forma fálica, dando-lhe o nome da sua parte íntima: Caralhinho de São Gonçalo?

Muito poderia dizer de Amarante, deixo algumas fotografias para as minhas amigas na América se roerem de inveja.

Esqueci-me de dizer que me chamo Joana, Joana Joad, em homenagem ao meu bisavô Tom Joad, que foi do Oklahoma para a Califórnia. A minha companheira chama-se Marlene e adotamos a Petra,  não só como empregada doméstica, mas também como nossa companheira. Somos muitos felizes as três! A Petra adaptou-se bem e aceitou as nossas condições, de corpo e alma. Os nossos papeis invertem-se frequentemente; nós, as patroas,  gostamos de fazer de empregadas e de ser subjugadas e humilhadas pela Petra, mas isso é outra história que não contarei aqui na internet.