Descíamos o estradão de terra e ouvíamos
o rebanho no fundo da encosta. Os cães de fila, pressentindo a aproximação de
estranhos, destacaram-se das ovelhas e começaram a ladrar ameaçadoramente. Intuitivamente,
tomámos uma atitude defensiva: agrupámo-nos, seis homens, alguns bastões de caminhada e mãos para pegar em
pedras e lançá-las contra eles. Seguimos em frente, estava fora de questão voltar para trás. Os
cães correram na nossa direção a ladrar, a saltar, farejando os humanos que se
aproximavam do seu rebanho, com o instinto protetor à flor …do pelo.
Eu fiquei atrás do grupo,
acobardado. Os homens da frente, mais possantes do que eu, assumiram o risco.
- Olá lindos! – disseram eles. Acocoraram-se
e deram as mãos a cheirar.
Nisto, os cães começaram a
rebolar no chão, a pedir mimos, a saltar para as costas dos colegas, dando-lhes
lambidelas e a dar ao rabo com a língua de fora, de contentamento. Felizes por
encontrar quem lhes desse festinhas. Vieram reconhecer os outros elementos do grupo,
farejaram-lhes as mãos e encostaram desavergonhadamente
o dorso nas suas ancas, pedindo mais mimos. Andaram no nosso meio a saltitar enquanto
caminhávamos e nos aproximávamos do rebanho. Demos-lhes água do garrafão de 5
litros.
Tirámos fotografias, a eles e às
cabras. Enquanto filmava os animais um
dos cães olhou-me curioso: julgaria ele que o telemóvel – um objeto estranho –
era uma ameaça ao rebanho? Morder-me-ia a mão? Afinal, só queria mais umas
festinhas.
Da mesma forma que subitamente se
envolveram connosco, também, com a mesma rapidez, deixaram de nos seguir assim
que ultrapassámos as cabras.
Tínhamos falado, ao longo do
trilho, de sustos apanhados em caminhadas. Um deles envolvia cães:
- Uma vez, uma matilha cercou-me,
querendo-me morder. Como eram cãezitos
pequenos, tentei pontapeá-los e eles afastaram-se.
- Comigo foram bois. Eu estava sozinho
na serra da Freita, o trilho era estreito e não tinha mais por onde ir. Eles pastavam
à minha frente, por isso tive de voltar para trás.
A caminhada havia começado na
aldeia de Mafômedes, concelho de Baião. Vinte e cinco quilómetros pela cumeeira
do Marão, quase sempre por caminhos de estradão de terra, encostas despidas e
aerogeradores. Um trilho agreste, seco e difícil, com subidas muito acentuadas em
que o batimento cardíaco andou próximo das 180 pulsações por minuto. E nem
estava muito calor, o que teria sido demasiado violento. Tudo isto foi compensado,
no entanto, pelas vistas desafogadas de
Trás-os-Montes e do Douro Litoral, que víamos
ora de um lado da encosta, ora do outro; pelas redondezas da ermida da Senhora
da Serra - o ponto mais alto do Marão, 1416 metros de altitude -, onde
encontrámos resquícios de uma floresta tradicional de pinheiros; e pelos vales verdejantes que vimos encaixados no sopé da montanha.
No fim, apesar da fadiga, ficou a alegria de ter conhecido mais uma
serra de Portugal e de ter chegado ao fim. Houve momentos em que pensei que não ia conseguir, algo que nunca
me aconteceu, mas, como se costuma dizer, há sempre uma primeira vez para tudo.
Felizmente, ainda não foi esta a primeira vez. Descobri que há uma estrada para a Senhora da
Serra e que é possível lá chegar de carro. Talvez numa próxima faça isso.
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| Aldeia de Mafômedes, Baião |
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| Senhora da Serra |


















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