sábado, 17 de outubro de 2026

Praça D. João I

     

O homem não se calava. Não sei como tinha fôlego para estar sempre a matraquear, incansável e iracundo, todo o tempo em que esteve ao meu lado. Tinha aspeto de reformado, cabelo grisalho, cara redonda e lisa. Ao início, parecia apenas manifestar um entusiasmo natural pelo que se passava no centro da Praça D. João I, como todas as outras pessoas à sua volta. Depois, percebi que não era só entusiasmo. Havia qualquer coisa naquele homem que não batia certo.

— Vinte e cinco de Abril sempre, fascismo nunca mais! — gritou, fazendo coro com o amontoado de gente que observava a praça do cimo do muro.

— Mostrem-lhes, caralho, que não têm medo! Montem as tendas, muitas tendas, foda-se! É bem feito! Mostrem aos filhos da puta como se faz, para eles perceberem que o povo unido jamais será vencido. Fascistas de merda! — gritava, cá de cima, ao meu lado, dirigindo-se aos manifestantes que montavam as tendas.

Depois de montadas as tendas, organizou-se a assembleia popular. O homenzinho ia comentando o que se passava e virava-se frequentemente para mim, à procura de uma deixa, de alguém que lhe desse razão. Mantive-me calado, ignorando-o ostensivamente. Ele não desistia: ora falava para mim e para as pessoas encostadas a nós, ora gritava para a praça.

— É o que dá votar na AD e no Chega. A Câmara do Porto tinha dois vereadores do PCP e um do Bloco de Esquerda, agora não tem nenhum! É o que dá votar nesses partidos fascistas. A AD vai coligar-se com o Chega, vocês vão ver! Aproveitem, amigos, que isto é informação gratuita: basta mais um vereador e a direita fica com a maioria na Câmara do Porto.

Há mais de cinquenta anos que luto contra o fascismo. Sou do Porto, nota-se pelo meu sotaque, de Campanhã. Não acredita? — perguntou, tirando um documento da carteira e mostrando-o ao desconhecido a seu lado. — Nunca tinha visto esta praça cheia de jovens a protestar como hoje. É histórico! Finalmente, a juventude levantou-se.

O PS não é de confiança. Andou sempre a ziguezaguear e agora fodeu-se e fodeu o país! Filhos da puta!

Andou a fazer farinha de pau. Também era um merdolas aquele gajo do PS que estava na Câmara. Ai, como é que ele se chamava... Foda-se! A minha cabeça já não é o que era. Um gajo de barba, conheço-o bem, vive ali para os lados da Rua do Heroísmo.

Fui praça da Marinha. A Marinha é a única instituição que tem praças. Hoje,  quem vai para a Marinha não inspira confiança nenhuma. Tenham cuidado com a Marinha: se houver uma revolução, não contem com eles. Nunca vos ajudarão. Já não é como no meu tempo.

Sei o que é a guerra. Estive em Angola. Ninguém sabe,  ninguém sabe o que isso é. Por isso, fico nervoso quando ouço dizer que a polícia deu bastonadas à juventude. Os polícias de hoje nunca foram à guerra. Deviam ir à guerra, filhos da puta, para saberem o que é levar bastonadas!

Mas podem estar descansados, meus amigos, que hoje eles não vos vão bater! Estão aqui quarenta mil pessoas...

— Três mil — corrigiu um jovem que o ouviu.

— Eles têm medo, não se vão meter convosco! São uns cobardolas de merda. Bem, nem todos. Também há bons polícias. Só se metem convosco quando não há ninguém a ver. Cobardolas de merda!

Deviam estar aqui os Superdragões. Onde é que eles estão? Se calhar, estão infiltrados! Se fosse futebol, isto estava cheio de gente. Vinham todos para a rua.

«O futebol é o ópio do povo», já dizia o Rui Reininho. O Porto está cheio de filósofos, caralho!

Duas miúdas chegaram à praça e colocaram-se ao lado dele, a observar a multidão. Julgando que seriam estudantes, o homem mudou o rumo da conversa.

— Estudantes? Muito bem. Deviam vir todos para a rua, em vez de andarem por aí a fazer praxes, bêbados. Eu sei bem o que se passa. Este ano, na Queima, foram violadas quatro alunas. Bêbados! Venham para aqui. Estendam as vossas capas na praça, apoiem estes manifestantes, isso é que era!

As duas miúdas afastaram-se, assustadas.

— Ai, fogem de mim?! Não precisam, não vos faço mal.

Eu sei bem o que as mulheres sofrem. Vejo todas as noites mulheres negras, africanas, a sair das cozinhas dos restaurantes. Coitadinhas! A ganhar seis euros à hora. Guineenses, cabo-verdianas, santomenses. Vejo-as à noite, cansadas, à espera do autocarro para a Maia. Seis euros à hora, onde é que já se viu?

Sabe-se lá o que mais lhes fazem os patrões! Raparigas novitas, completamente desprotegidas, sem apoio, sem documentos, à mercê do patrão. Sabe-se lá o que mais lhes fazem os patrões!

A cabeça começava a doer-me, de tanto ouvir o matraquear constante daquela voz nos meus tímpanos. Afastei-me dele. Fui arejar, ver os cartazes espalhados pelos muros altos da praça, ouvir os discursos inflamados da assembleia popular. Iam continuar acampados, pelo menos até quinta-feira. Não tinham medo. Iam continuar a lutar. Iam exigir a demissão do presidente da Câmara do Porto e que ele viesse ao acampamento conversar com eles. Não seriam eles a ir à Câmara, o presidente é que tinha de vir!

Centenas de outros jovens formavam um semicírculo, sentados em frente ao microfone. Pelo entusiasmo de todos, parecia que iam conquistar o mundo, que a luta, apesar de difícil, seria ganha. Não iam desistir. Entre os discursos, levantavam os braços e gritavam motes pelo direito à habitação e contra a especulação imobiliária. Contra o fascismo. Pela greve geral ibérica de 11 de novembro. Em solidariedade com os acampados em Espanha e pela revolta dos estudantes em França.

No entanto, lentamente, o entusiasmo foi esmorecendo e o número de pessoas na praça diminuindo. A duzentos metros dali, nas ruas adjacentes de Sá da Bandeira, do Bolhão e de Santa Catarina, as esplanadas estavam cheias de turistas. Centenas de outros jovens, portugueses e estrangeiros, saíam para a noite, para os bares e restaurantes, alheios ao que se passava  na praça. Nessas ruas, o mundo continuava igual. Ali perto, no entanto, havia quem ia passar a noite sem o conforto de uma cama, pelo direito à habitação. Que acreditava numa vida mais justa e  lutava por isso.





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