As primeiras flores despontavam
dos ramos das cerejeiras despidas, pequenas pétalas brancas luminosas a anunciar a proximidade da nova estação. Da janela do quarto via a vida a acontecer, os verdilhões
saltitantes nos ramos escondiam-se debaixo das folhas da laranjeira, pessoas caminhavam no passadiço ao longo do riacho por trás do quintal. Gente, Vida em
ação.
O coto doía-lhe particularmente nessa
manhã. O fisioterapeuta disse-lhe que ela continuaria a ter dores na zona
amputada, dores reais, como se o resto da perna ainda existisse: - Merda de
vida!
Lembra-se da manhã fatídica em que saiu para dar um passeio de mota, e de mais nada do que se passou a seguir. Acordou do coma induzido na cama do hospital, desconhecia o seu estado. Isaura, a sua melhor amiga, e um médico estavam de pé ao seu lado. A amiga falou delicadamente, fez perguntas, contou como tudo aconteceu: Como te sentes? Lembraste de alguma coisa?
O condutor bêbado passou no sinal
vermelho, embateu na mota e fugiu. Houve
testemunhas que o denunciaram, foi apanhado pela polícia.
O médico disse que perdeu muito sangue, o
pé esquerdo ficou esmagado sob o peso da mota e da força do embate, fizeram duas cirurgias de urgência para estancar os vasos sanguíneos, extrair os
tecidos e a carne tumefacta, ponderaram fazer transplantes de outras partes do
corpo para a zona afetada, mas a fíbula e o pé tiveram de ser amputados. Não havia
alternativa. Ela continuaria a ter uma vida normal, faria sessões de
fisioterapia para aprender a caminhar com
a prótese que lhe ia ser colocada…
Foi então que pela primeira vez
olhou para aquela parte do corpo, envolta em ligaduras, apoiada em duas correntes
que a elevavam alguns centímetros acima do colchão. Estava demasiado cansada e
sedada para reagir e fazer perguntas, chorar ou sentir raiva. Tudo parecia
um sonho, irreal, como se não fosse ela que ali estava, antes outra pessoa e um
corpo que não era o seu.
Com o tempo, foi-lhe crescendo uma raiva contra a vida e o azar que teve. Pensou muitas vezes no pior, antes disso tinha
de se vingar do raio do bêbado, fazer-lhe, no mínimo, o que ele lhe fez. Atolava-se
no pélago dos dilemas que lhe surgiam: viver sem raiva, superar as feridas físicas e emocionais que lhe ficaram marcadas no corpo e na alma ou viver permanentemente em estado de revolta, alimentando-se dessa fúria?
Era-lhe útil a revolta.
Delineou um plano de vida, procurou força e inspiração nos livros, nas vidas diferentes da
sua, emocionantes e destemidas.
Anotou no seu caderno mais
algumas frases.
Deitámo-nos juntos na noite ilegal trespassados por faíscas de prata.
Frases escritas no caderno de capa azul claro, estranhas e portentosas, que traduziam a violência do mundo, apaziguando o seu sofrimento. Copiadas dos livros que lia, versos curtos e palavras que a comoviam pela força e surpresa das combinações, como se fossem suas, algo que ela considerava não ter talento para fazer.
O sibilar dos azorragues nas espáduas tumefactas.
Questionou-se se havia alguma relação conceptual entre as teorias Hindus de transmigração das almas, a Cristã de “Ressurreição” e a metempsicose.
Prolegómenos da formação do mundo.
Certos conceitos religiosos davam-lhe ânimo, imaginava-se uma alma viajando por muitos corpos e épocas. Talvez o acidente lhe tenha dado uma missão nesta vida: a vingança!
Enfiou a prótese no coto da perna
esquerda, saiu com a bengala pela porta do quintal. Caminhou umas centenas de
metros com muito esforço pelo passadiço de madeira até ao jardim municipal, sentou-se
no banco a ver as pessoas a passear, a usufruir a tarde de sol, os cachorrinhos
levados pela trela, a arfar de contentamento encostados aos donos. Esperou por
Isaura, foram de carro ao santuário de São Bento das Pêras, viu a paisagem de
lá de cima. O vento frio sacudia-lhe o pescoço, protegeu-se com o cachecol de
lã. O tempo estava suspenso, enquanto a vida noutros lados decorria frenética.







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