domingo, 8 de março de 2026

Miradouro de São Bento das Pêras

As primeiras flores despontavam dos ramos das cerejeiras despidas, pequenas pétalas brancas luminosas a anunciar a proximidade da nova estação. Da janela do quarto via a vida a acontecer, os verdilhões saltitantes nos ramos escondiam-se debaixo das folhas da laranjeira, pessoas  caminhavam no passadiço ao longo do riacho por trás do quintal. Gente, Vida em ação.

O coto doía-lhe particularmente nessa manhã.  O fisioterapeuta disse-lhe  que ela continuaria a ter dores na zona amputada, dores reais, como se o resto da perna ainda existisse: - Merda de vida!

Lembra-se da manhã fatídica em que saiu para dar um passeio de mota, e de mais nada do que se passou a seguir. Acordou do coma induzido na cama do hospital,  desconhecia o seu estado. Isaura, a sua melhor amiga, e um médico  estavam de pé ao seu lado. A amiga falou delicadamente, fez perguntas, contou como tudo aconteceu: Como te sentes? Lembraste de alguma coisa?

O condutor bêbado passou no sinal  vermelho, embateu na mota e fugiu. Houve testemunhas que o denunciaram, foi apanhado pela polícia.

O médico disse que perdeu muito sangue, o pé esquerdo ficou esmagado sob o peso da mota e da força do embate, fizeram duas cirurgias de urgência para estancar os vasos sanguíneos, extrair os tecidos e a carne tumefacta, ponderaram fazer transplantes de outras partes do corpo para a zona afetada, mas a fíbula e o pé tiveram de ser amputados. Não havia alternativa. Ela continuaria a ter uma vida normal, faria sessões de fisioterapia  para aprender a caminhar com a prótese que lhe ia ser colocada…

Foi então que pela primeira vez olhou para aquela parte do corpo, envolta em ligaduras, apoiada em duas correntes que a elevavam alguns centímetros acima do colchão. Estava demasiado cansada e sedada para reagir e fazer perguntas, chorar ou sentir raiva. Tudo parecia um sonho, irreal, como se não fosse ela que ali estava, antes outra pessoa e um corpo que não era o seu.   

Com o tempo, foi-lhe crescendo uma  raiva contra a vida e o azar que teve.  Pensou muitas vezes no pior, antes disso tinha de se vingar do  raio do bêbado, fazer-lhe, no mínimo, o que ele lhe fez.  Atolava-se no pélago dos dilemas que lhe surgiam: viver sem raiva,  superar  as feridas físicas e emocionais que lhe ficaram marcadas no corpo e na alma ou viver permanentemente em estado de revolta, alimentando-se dessa fúria?

Era-lhe útil a revolta.

Delineou  um plano de vida, procurou força e inspiração nos livros, nas vidas diferentes da sua, emocionantes e destemidas.

Anotou no seu caderno mais algumas frases.

Deitámo-nos juntos na noite ilegal trespassados por faíscas de prata.

Frases escritas no caderno de capa azul claro, estranhas e portentosas, que traduziam a violência do mundo, apaziguando o seu sofrimento. Copiadas dos livros que lia, versos curtos e palavras que a comoviam pela força e surpresa das combinações, como se fossem suas, algo que ela considerava não ter talento para fazer. 

O sibilar dos azorragues nas espáduas tumefactas.

Questionou-se se havia alguma relação conceptual entre as teorias Hindus de transmigração das almas, a Cristã de “Ressurreição” e a metempsicose.

Prolegómenos da formação do mundo.

Certos conceitos religiosos davam-lhe ânimo, imaginava-se uma alma viajando por muitos corpos e épocas. Talvez o acidente lhe tenha dado uma missão nesta vida: a vingança!

Enfiou a prótese no coto da perna esquerda, saiu com a bengala pela porta do quintal. Caminhou umas centenas de metros com muito esforço pelo passadiço de madeira até ao jardim municipal, sentou-se no banco a ver as pessoas a passear, a usufruir a tarde de sol, os cachorrinhos levados pela trela, a arfar de contentamento encostados aos donos. Esperou por Isaura, foram de carro ao santuário de São Bento das Pêras, viu a paisagem de lá de cima. O vento frio sacudia-lhe o pescoço, protegeu-se com o cachecol de lã. O tempo estava suspenso, enquanto a vida noutros lados decorria frenética.








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