segunda-feira, 12 de outubro de 2009

PR3 Fafe – À Descoberta de Aboim


Percurso circular com 15 km de extensão. Local de partida: Largo da Igreja, na Freguesia de Aboim – Fafe.

Grau de dificuldade: médio

O percurso encontra-se bem sinalizado e percorre caminhos rurais em espaços maioritariamente abertos e com pouca sombra. Por esta razão a melhor época para fazer o percurso talvez seja o Outono e a Primavera, quando o Sol não é tão forte.
São visíveis as serras do Gerês, a Norte, da Cabreira, a Este e a do Alvão a Sudeste.


As formações graníticas são comuns ao longo de todo o percurso, assim como a arquitectura tradicional das casas rurais e dos espigueiros, construídos maioritariamente nesta rocha.
Aconselho uma paragem no café de Aboim, cujo dono é uma pessoa muito prestável e que poderá dar informações úteis sobre o percurso, assim como os habitantes da freguesia.
Aos Domingos, para Visitar o Moinho de Vento e o Museu deve-se contactar a Junta de Freguesia.






Flor do açafrãoTritão



sábado, 29 de agosto de 2009

Rota do Senhor dos Mártires


O PR1 de Alcácer do Sal, A Rota do Senhor dos Mártires, está bem sinalizado do princípio ao fim, é considerado fácil, tem 13 Km de extensão em circulo e está bem descrito, com a indicação dos pontos mais importantes do trajecto, no folheto de divulgação do percurso. Facilmente adquirido em qualquer hotel, posto de turismo ou museu de Alcácer.

A cidade tem uma história que remonta a 5000 anos atrás, até à Idade do Ferro. Foi um importante centro Romano de nome Salatia com cunhagem de moeda, povoado Visigótico, cidade Muçulmana e importante centro medieval. Aqui nasceu Pedro Nunes, um dos mais importantes Matemáticos Portugueses, inventor do Nónio e casou D. Manuel I com a rainha D. Maria de Castela.
É possível, na cripta arqueológica do castelo, observar toda a estratificação histórica desde a Idade do Ferro até ao século XIX nos diferentes tipos de construções que se foram sobrepondo, desde os locais de culto mais primitivos, até aos balneários, muros e cisternas árabes e nos diferentes objectos desenterrados: porcelanas, estatuetas de guerreiros em ferro, bustos e aras romanas, lucernas árabes, crucifixos e relicários medievais. Todos contam um pouco da história riquíssima desta cidade.

A visita é gratuita e culturalmente muito enriquecedora.

Não vou descrever o percurso pedestre. Como disse, ele está bem descrito no folheto e quem estiver interessado também é possível via internet aceder ao mesmo em

http://www.cm-alcacerdosal.pt/PT/Visitar/percursospedestres/Paginas/RotadoSenhordosMartires.aspx

Vou apenas referir e reflectir sobre duas situações que podem acontecer a quem caminha por determinadas zonas.

Primeiro: Cães.

Pode surgir um mais agressivo e pregar-nos um susto.

Junto da Igreja do Senhor dos Mártires, um cão aproximou-se de mim e seguiu-me alguns metros. Era de compleição média e já impunha algum respeito, comecei a ficar nervoso. Não eram festinhas que ele queria. Sei distinguir um cão mais dócil e quando quer brincadeira. Este não ladrava mas também não abanava o rabo nem as orelhas, estava fixo farejando-me a uma certa distância, intrigado.
Não havia mais nada nas redondezas a não ser a Igreja. Se por algum motivo ele decidisse morder-me, apanhar-me-ia completamente desprevenido. Quis enxotá-lo mas puderia ser interpretado como uma atitude agressiva, o que seria pior naquele momento. Por isso, fui andando e ele sem me largar. Olhava para trás, o que está errado porque denuncia nervosismo, e ele cada vez mais desconfiado, pressentindo o meu medo.

Não aconteceu nada, o bicho acabou por retroceder e eu segui o caminho. Contudo, fiquei nervoso e apreensivo e não voltei a usufruir do prazer de caminhar porque ia com estes pensamentos e por causa do que veio a acontecer mais adiante, mas lá chegarei.

Outros cães apareceram a ladrar-me, mas felizmente estavam dentro de casa e os que não estavam eram pequenos e não assustavam, só arreliavam.

Estava sozinho e pode haver situações em que subitamente se fica muito vulnerável. Foi um pouco isso que senti. Não tinha sequer um bastão que poderia servir de dissuasor ou como defesa, numa situação mais extrema. Ouvi falar nuns apitos que têm uma frequência só detectada pelos canídeos e que os deixa meios atrofiados quando os ouvem. Um instrumento destes também pode dar jeito.
Resumindo, não tinha nada útil para defesa contra ataques de cães.

Segundo: Caça.

Pelo que sei os dias oficiais para caça são as Quintas-Feiras e os Domingos, por isso é muito aconselhável evitar estes dias para a realização de percursos pedestres em épocas de caça e que atravessem as zonas estabelecidas para o efeito.

Realizei o percurso numa Segunda-Feira, por isso digo:

Das duas uma: Ou a informação que tenho sobre os dias de caça não está totalmente correcta ou então alguém andava a caçar ilegalmente.

Comecei a ouvir tiros esporádicos ao longe. Quando caminhava entre os arrozais ouço um disparo muito próximo. Assusto-me, claro! E dou um berro para me fazer ouvir e para que se saiba que alguém caminha ali perto. Não ouço nem vejo ninguém.

Alguém anda escondido entre os arrozais e os canaviais a atirar aos patos.

Estou num estradão de terra, devo estar fora do trajecto dos disparos. Imagino que o caçador só disparará para onde os patos se escondem, nos arrozais e juncos.
E se uma bala cruza o caminho onde me encontro na direcção do arrozal do outro lado?

Mais um tiro muito próximo. Dou um berro ainda maior e desta vez tenho que falar: - Hee, anda aqui gente a caminhar… – Não me ocorreu mais nada. Fica-se meio apalermado sem saber o que dizer.

Não há resposta, novamente o silêncio total. Naturalmente devo estar a ser observado pelo caçador que não se quer denunciar ou espantar a caça.
Sinto-me muito desconfortável naquele momento, com tiros muito próximos de mim.

Apetece-me dizer muito alto para acabar com os tiros enquanto eu ali estiver e explicar que estou a fazer uma simples caminhada, que não tenho nada a ver com aquilo, para parar de me assustar.

Ajo com prudência. O melhor é ficar calado para não enervar o indivíduo que deve precisar de concentração para acertar nos animais, ou ainda acerta em mim por desleixo ou intencionalmente porque fiz muito barulho e espantei a caça.
Resigno-me e vou caminhando calado, não tenho outra alternativa. Tento manter um ar calmo e natural mas faço um passo mais ligeiro.

E se me confunde com um pato?

Tenho uma boina axadrezada, t-shirt e calças claras.

E se afinal não for um caçador mas um psicopata que se quer divertir à minha custa?

Tento não ter um ar aflitivo, caso esteja a ser observado.

Vejo uma tabuleta vermelha e branca que diz Zona Municipal de Caça. É Segunda-Feira, não deveria haver caça, julgo eu.

Finalmente começam a aparecer algumas herdades e casas. Não pode haver caça próximo das habitações. Começo a descomprimir.

Estou agora mais determinado e, em certo ponto, furioso. Pode aparecer um cão a mostrar-me os dentes e a rosnar que sou capaz de lhe atirar uma pedra ao focinho.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Tapada de Mafra


Existe desde 1747 por ordem do Rei D. João V que, no seguimento de construção do Palácio-Convento de Mafra, quis ter um local para refúgio da corte e abastecimento de lenha.
São mais de 11 000 hectares, a maior extensão de terreno murado em Portugal, tutelados, em parte, pelo Ministério da Agricultura para o aproveitamento dos diversos recursos da tapada.
Um deles é a caça que teve a sua época áurea nos reinados dos Reis D. Luís e D. Carlos. Outros são os percursos pedestres temáticos, os passeios em BTT, a cavalo, em charrette, foto-orientação, visitas em comboio articulado e turismo de habitação.
Existem 3 percursos pedestres sinalizados por cores: verde, amarelo e azul. Os primeiros com 7,5 km de extensão e o último com 4 Km.
Escolhi o percurso verde, centrado na fauna. Observei gamos e javalis a deambular livremente junto da recepção, as expectativas eram por isso elevadas para ver muitos outros animais.
O caminho está bem delineado por um estradão em terra batida e sinalizado com setas verdes numeradas de 1 a 21. A cada número corresponde uma explicação no guia do percurso.
Desloco-me sem observar os animais, vejo vestígios, excrementos e pegadas de gamo. Uma ave de rapina plana sobre o vale e ouço um ruído vindo dos arbustos. É um gamo que se camufla na vegetação.
Passo no cercado dos lobos e não os vejo, circundo-o silenciosamente e nada. Tento esmiuçar todos os recantos possíveis, existe uma zona mais densa no meio. Deve ser ali que fazem as tocas e estão escondidos.
No cercado ao lado estão veados, estes sim, bem visíveis. Distinguem-se dos gamos pela maior corpulência e penugem menos sarapintada.
Próximo do estradão vejo finalmente um conjunto de gamos e javalis. Aproximo-me. Pela primeira vez estou muito próximo de javalis em liberdade.
Qual será a reacção deles à minha aproximação?
Os gamos são os primeiros a pressentir-me e afastam-se, os javalis continuam a focinhar no mato. São fêmeas com crias. Decido não aproximar-me mais e manter-me a uma distância de segurança. As mães com crias podem ser perigosas. Tiro uma fotografia.

Um incêndio devastou a tapada em 2003 e muitas áreas estão a ser reflorestadas com espécies autóctones. A única que sobreviveu em grande número ao incêndio foi o sobreiro que resiste ao fogo por causa da cortiça.

O caminho é agradável, absolutamente seguro, com sombra e acessível. Está sempre bem delimitado e com explicações através dos vários painéis.

Para mais informações sobre a Tapada, o contacto da portaria é o número 261 814 240 e o website http://www.tapadademafra.pt/

terça-feira, 21 de julho de 2009

As Aldeias das Margens do Rio Vizela


O concelho de Fafe tem 53 000 habitantes numa área de 219 Km2, o que dá uma densidade populacional de 246 hab/Km2, sensivelmente o dobro da média nacional. O que não surpreende porque estamos no Minho, uma região que sempre se distinguiu pela elevada concentração populacional.
Sempre ouvi dizer que do Norte do país partiram para a emigração milhares de Portugueses, muitos seriam daqui destas paragens. Agora, no verão, começam-se a ver muitas matrículas Francesas e algumas Espanholas pelas aldeias.

Surpreende como estes lugares irrigados, de clima ameno, com muitos pastos para o gado e potencialidades para desenvolver diversos tipos de cultura tenham sentido por diversos períodos dificuldades em fixar as pessoas.

Actualmente, são poucos os que ficam para trabalhar na agricultura, deixou de estar incutido na mentalidade a vontade de trabalhar nos campos. Muitos foram educados para tirar um curso e ganhar o mais possível, implicitamente a agricultura é vista como coisa antiquada dos velhotes das aldeias.

E a indústria próxima, do Vale do Ave, está em declínio acentuado contribuindo novamente para o aumento da emigração.

Restam os serviços. Por que não apostar na fixação das pessoas através dos serviços?

Quanto maior for o número de pessoas a viver nestes locais e a receber um salário, maior será o número de potenciais consumidores do que se produz localmente e de frequentadores do comércio local, contribuindo para que os vizinhos tenham maiores possibilidades de trabalho e de segurança económica.

Ao consumir produtos obtidos próximos de casa, está-se a contribuir para um ambiente mais sustentável porque haverão menos gastos de energia com os transportes.

É necessário que hajam políticas acertadas e vontade de o fazer.

A criação de percursos pedestres concelhios é uma das melhores formas de trazer pessoas às aldeias, de dinamizar o comércio local e, principalmente, de contribuir para um desenvolvimento sustentável, em que se respeitam as paisagens e as tradições.
Essa é a maior riqueza que pode haver para mostrar, que é o que torna cada local único e distinto dos restantes.


Os festivais de pedestrianismo contribuem para divulgar o que de melhor há em cada em destes sítios, que são as paisagens locais, sempre diferentes consoante a região, a história, a cultura, as pessoas…

No Concelho de Fafe existem 10 percursos pedestres marcados pelos Restauradores da Granja e realiza-se o Festival Montes Longos, que dá a possibilidade aos participantes de percorrerem um desses percursos.

Felizmente há cada vez mais gente à procura desse contacto físico e emocional com a natureza, os lugares e os outros.


Para mim, foi mais um momento de alegria e de encontro com os amigos que já não via há dois meses. Companheiros de algumas das mais bonitas caminhadas que fiz até hoje, não só pela beleza desses sítios, mas também por, simplesmente, estar com eles.

Realizamos o PR2 de Fafe, As Aldeia das Margens do Rio Vizela, um percurso circular de 15 km, adequado ao tempo de calor, com muita sombra e água e um nível de dificuldade médio.

O início foi no Largo da Igreja de Lagoa. Seguimos por um caminho bem definido debaixo de uma vegetação frondosa em direcção à Ponte de Pereirola e Pedraído, a primeira povoação do trajecto.
Em alguns pontos torna-se visível o recorte das serras circundantes com uma vegetação rasteira, as aldeias nas encostas e os enormes blocos de granito de configurações arredondadas. Os espigueiros, as eiras, os prados rodeados de árvores, o rio Vizela e os ribeiritos, dão um aspecto bucólico ao trajecto.

Nas aldeias encontram-se vendedoras de fruta e da doçaria típica. Comprei, para conhecer, o Pão-de-ló de Fornelos, os Cigarros Doces, a uma senhora que me garantiu que não me arrependeria, e uns tremoços.

Paramos para lanchar num prado na margem do Vizela, um sítio convidativo para uma soneca deitado na erva à sombra dos amieiros. Tivemos que seguir o ritmo dos restantes caminheiros, não havia tempo para contemplações ou dormidas breves, havia que chegar ao fim por volta das duas e meia. Todos os participantes nos diferentes trajectos reunir-se-iam em Aboim para a confraternização final.

Ao passar nas aldeias encontramos vários fontanários públicos em que soube tão bem reabastecermo-nos de água e refrescarmo-nos. Estávamos na hora de maior calor e o terreno na parte final era mais aberto e exposto ao sol.

Este trajecto tem predominantemente amieiros e choupos, junto do rio, e carvalhos. Ainda não foi invadido pelas árvores exóticas, estranhas a este ambiente, que destroem a paisagem e empobrecem os solos.

Chegado a Lagoa lavei os pés no tanque do largo, tinha-os cheios de pó do último troço, em estradão de terra.

Seguimos todos para o largo da igreja em Aboim, de onde se desfruta de uma admirável panorâmica do maciço do Gerês ao longe.
Reencontramos o restante pessoal dos Restauradores da Granja, sempre simpático, bem-disposto e divertido.
Depois da confraternização e almoço final, com direito a recordações da organização, fomos à barragem da Queimadela para um mergulho. O Domingo não ajudou. Estava apinhada de gente e mudamos de ideias, decidimos parar num café no regresso a casa.

Mais um dia de convívio saudável e feliz que estava a terminar. No café, outros momentos de boa disposição e conversa com projectos para novas caminhadas e novas descobertas.
Para já, que as férias se aproximam, cada um seguirá a sua vida, os seus passeios em família ou com os amigos, as suas deambulações de verão. Mas o reencontro está prometido para o regresso em Setembro, com vontade de voltar a Fafe e de trilhar outras serras.

A Câmara de Fafe e os Restauradores da Granja estão de parabéns por mais uma organização do Festival de Pedestrianismo Montes Longos. Que continuem, como até hoje, a divulgar o património e ambiente local com este espírito saudável e de respeito pelas tradições.



sábado, 18 de julho de 2009

Vislumbres de Espinho


O Museu Municipal de Espinho foi inaugurado há poucas semanas na antiga fábrica de conservas Brandão Gomes,  recuperada para receber o espólio histórico da cidade e da fábrica.
É um espaço com um interior amplo,  de  dois pisos e corredores largos. No primeiro piso está exposta a história da antiga fábrica desde a  fundação, no fim do século XIX, até à falência e encerramento em 1985; a secção dedicada à Arte da Xávega e um espaço para as exposições temporárias, virado a poente, com uma soberba vista para o mar e para a chaminé que resta da fábrica.  Neste momento alberga  uma exposição de escultura.
No piso superior está a decorrer uma exposição temporária de fotografia – Litorais, até 31 de Agosto.

Este foi o final de um caminho iniciado em Grijó. Duas horas depois encontrava-me em Espinho a fotografar os barcos de pesca artesanal.
Esclareci algumas dúvidas no museu. Não fazia ideia que no seu interior encontraria a História da arte da Xávega e dos pescadores de Espinho. Foi uma surpresa agradável, documentada com muitos textos e fotografias fantásticas.

A Arte da Xávega é um sistema de pesca artesanal de arrasto. O barco era rebocado do mar pelos bois, prática que ainda vigorava nos anos setenta do século passado, sendo os animais gradualmente substituídos pelos tractores.


Os barcos têm uma origem muito antiga que remonta ao Médio Oriente e foram possivelmente introduzidos pelos Fenícios.

Outra secção do museu retrata a vida das famílias vareiras, documentada em textos, fotografia e filmes.


O multimédia é uma constante. Há vários monitores a partir dos quais podemos, interactivamente, aceder à diversa informação dispersa pelo museu.

Quanto às conservas, é apresentada de forma  muito detalhada a evolução da fábrica e das condições sociais dos  trabalhadores.  São mostrados vários objectos e documentos relacionados com a história das conservas em Portugal. O mais curioso para mim foram os cartazes e o design das embalagens.

O museu ainda não funciona a 100 porcento, falta a loja de merchandising que abrirá brevemente e os espaços pedagógicos do piso superior, que pareceram encerrados ainda.

No fim da visita foi-me indicada a Biblioteca Municipal de Espinho que possui as fotografias originais expostas no Museu. Não existem à venda em postal, mas podem ser acedidas através do site http://www.cm-espinho.pt/, uma delas é a que se vê no início desta mensagem.

A caminho de Espinho passei pelas freguesias de Guetim e Anta. O costume: povoamento disperso, densamente habitado, e os vestígios de um passado rural que quase já não existe.
Espigueiros, quintas e bancos de pedra na entrada das casas mais antigas para os momentos de descanso e tagarelice com os vizinhos, que hoje já não têm utilidade porque perdeu-se o hábito de tagarelar tranquilamente ao fim do dia, sem pressas, sem televisão, talvez com um copinho de tinto na mão nas noites quentes de verão, as mulheres a coscuvilhar com a vizinha enquanto os homens trabalhavam nos campos... Misturadas com estes vestígios do passado  há as urbanizações e algumas  vivendas aparatosas que foram surgindo no meio desta paisagem rural, por vezes desenquadradas e feias,   sem qualquer ordenamento e previsões de habitabilidade. Resultado: muitas casas e apartamentos novos por vender, enquanto que as habitações tradicionais,  mais bonitas e elegantes, muitas delas obviamente a necessitar de restauração, estão devolutas e aos poucos vão desaparecendo e com elas a memória do nosso passado.  

Contudo, houve algumas surpresas. Em Grijó passei numa rua com o nome de Quinta Amarela. Sabia que existe uma Rua da Quinta Amarela no Porto, não em Grijó. Nesta rua há uma casa senhorial muito bonita, a Quinta de Nossa Senhora da Conceição, propriedade privada que possui no interior uma capelinha, visível da rua.


Em Espinho vejo do outro lado da rua uma colega de Conselho de turma, chamo-a e ficamos ali a palrar no passeio. Pensamos em fazer um almoço na próxima semana com os outros elementos da equipa pedagógica, em jeito de despedida das reuniões e das inúmeras dores de cabeça causadas pela nossa turma de alunos.

No número 277 da rua 19 fica a casa onde viveu o escritor Manuel Laranjeira. Uma figura que conviveu com Miguel de Unamuno, o escritor e filósofo Espanhol que escreveu um livro intitulado Viagem a Portugal, no qual  considerou o povo Português depressivo e dado a suicídios, exemplificando com os casos abundantes na história recente da época: finais do século dezanove, princípios do século vinte: Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Soares dos Reis,...
Manuel Laranjeira explicou  a Miguel de Unamuno a razões desse estado de alma colectivo e do seu próprio espírito depressivo.
Numa outra correspondência com Amadeu de Souza-Cardoso, Manuel Laranjeira mostrou-se muito céptico da vida e descrente das possibilidades de sentir alegria verdadeira, mesmo perante a possibilidade de visitar o amigo em Paris. Ele próprio também se suicidou, aos  34 anos.

No mar, sempre o vento. É raro o dia de Verão em que não há vento junto ao mar,  a famosa Nortada, comum nos dias quentes e que torna a presença na praia desagradável. O mar: frio e bravo, característico desta costa Atlântica, que continua a sustentar muitas famílias de pescadores e abundante de sardinhas, vendidas antigamente  nas latas de Conserva Brandão e Gomes.
Grijó: casa rural

Detalhe do batente

Espinho em dia de nortada

O mar bravo 
Os barcos da Xávega. Este formato existe há centenas de anos. A única modificação foi a introdução de motor
Pormenor das proas
Uma da tarde: Bairro dos pescadores
Azulejos numa casa de Espinho
Museu Municipal de Espinho (antiga fábrica de conservas Brandão Gomes)



Produtos comercializados pela fábrica


domingo, 21 de junho de 2009

De Covêlo de Paivó até Drave


Este percurso foi a união de dois PR de Arouca, o 13 e o 14, com início em Covêlo de Paivó, seguindo as marcas do PR13 até Regoufe e continuação pelo PR 14 até Drave, a Aldeia Mágica. O regresso foi feito pelo mesmo trilho no sentido inverso.
O total desta junção é de 17 Km, o que com o imenso calor que se sentiu sempre, a pouca sombra de partes do trajecto, as subidas acentuadas e demoradas, algumas com muitas pedras soltas, foi obra!
Logo na saída de Covêlo tomamos uma subida demorada que nos obrigou a algumas paragens prematuras para comer, descansar e principalmente beber água.
O rio Paivó, que nos acompanhava lá em baixo, ia-nos seduzindo com o sussurro e o brilho transparente da sua água para dar um mergulho. Talvez em Regoufe fosse possível, saberia tão bem! Estávamos já bastante transpirados.
Só em Drave - disse-nos um senhor - Aqui a água da ribeira está suja com os dejectos dos animais domésticos.
Quando passo nesta aldeia e noutras de Arouca há sempre um cheiro característico a bosta e urina de vaca e de cabra. Estes animais deambulam pachorrentamente por aqui a caminho dos currais ou das encostas da serra. Também se vêem umas galinhas que vão depenicando o que encontram e uns cachorritos.
O chão da aldeia está coberto por uma camada ressequida de bosta que já faz parte da própria pavimentação, de tão encrostada que está. É quase impossível caminhar nestas ruelas e não calcá-la.
Estas aldeias que parecem primitivas e com um modo de vida básico baseado no auto-sustento são mais ecológicas e sustentáveis do que muitas outras, ditas civilizadas. Os habitantes produzem muito do que consomem e ainda usam os carros de bois para recolher as medas de erva e lavrar os campos. Em covêlo cruzamo-nos com um boi que puxava uma carroça cheia de erva.

Na saída de Regoufe o trilho é íngreme e tem muito cascalho solto, aumentando as probabilidades de escorregar e romper as sapatilhas. No fim da subida vêem-se os aerogeradores da serra da Arada e vira-se à esquerda para Drave.

As cabras são as rainhas desta serra, andam por aqui às centenas e vemo-las nas margens do rio e no cume dos montes. Um dia uma pastora disse-me que são comunitárias, pertencem à aldeia e há sempre alguém que as vigia.

O calor aperta e o ritmo da marcha continua lento, obrigando-nos a parar algumas vezes. Ouvimos mais nitidamente os sons que nos chegam da serra: os chocalhos e balir distante das cabras mistura-se com o canto das aves e das cigarras nos pinheiros bravos e a reptação das cobras e sardões a esconderem-se nos arbustos.

Finalmente, vê-se Drave ao longe, a aldeia mítica e abandonada. Um estreito caminho de xisto conduz-nos entre murinhos e carvalhos frondosos até lá.

Procuramos um local mais apropriado para estender as toalhas e descansar nas margens do rio. Encontrámos uma poça larga e funda de água transparente com uma pequena cascata, o melhor sítio possível para nos refrescarmos, descansar e almoçar.

Vimos apenas um casal que acampava na margem. Tínhamos este local idílico todo só para nós.

Após o merecido descanso e de um passeio pelas ruas da aldeia tivemos que encher as garrafas com água para o regresso a Regoufe, arriscariamo-nos a ter uma desidratação com o calor que estava. Confiámos na pureza da ribeira e até hoje não me senti mal depois de beber litro e meio dessa água.

Em Regoufe, aproveitamos para parar no café, o único da aldeia, um velho tasco cheio de moscas e com um poster de uma mulher em roupas minúsculas transparentes. Um velhito simpático meteu conversa connosco e enquanto lá estivemos passou o tempo a falar da vida dele.
Fiquei a saber que Regoufe conta actualmente com 50 habitantes mas que já teve 3 000 no tempo em que as minas de volfrâmio eram exploradas pelos Ingleses. A grande maioria dos trabalhadores era de outros pontos do país e alguns deles estrangeiros.
É curioso que durante a Segunda Guerra Mundial as minas de Rio de Frades, a poucos quilómetros daqui, eram exploradas pelos Alemães. Os inimigos que se combatiam ferozmente nos palcos da guerra, encontravam-se muito próximos nestas terras de Arouca extraindo o precioso metal utilizado para endurecer as carapaças dos seus tanques.
Será que eles se cruzavam e conviviam uns com os outros aqui nestas aldeias fazendo de conta que não se passava nada lá fora ou ignoravam-se mutuamente? Ou será que nunca se cruzaram, o que é pouco provável em meios muito pequenos como estes nos seis anos que durou a guerra?
O que é certo é que a neutralidade e diplomacia (com muita perspicácia talvez) de Portugal permitiu que se exportasse este minério para os diferentes beligerantes.




segunda-feira, 15 de junho de 2009

Rota do Xisto


Entende-se perfeitamente por que razão é chamada a Rota do Xisto. As casas construídas com esta rocha são muito comuns em Canelas e na aldeia de Vilarinho, algumas foram recentemente recuperadas respeitando-se a arquitectura tradicional o que denota o bom gosto dos proprietários.
Nas pedreiras de ardósia foram descobertos fósseis de animais marinhos com 460 milhões de anos. Numa antiga pedreira está hoje instalado o Centro de Interpretação Geológica de Canelas (CIGC).

O percurso é bastante irregular e variado e tem troços comuns com a Grande Rota de Arouca.

Iniciei o caminho em Canelas e segui o sentido dos ponteiros do relógio em direcção ao rio Paiva. A primeira dificuldade surgiu: aqui o trilho é apertado e pouco definido, está rodeado de mato o que dificulta a visualização das marcas. Contudo este troço é de uma beleza invulgar devido à intensa vegetação das margens, ao rio que corre do lado esquerdo encaixado nas rochas e à passagem pela cascata do ribeiro da Estreitinha.
O tempo muito abafado causou um cansaço maior, pouco comum para quem estava ainda no início de uma caminhada de 16 quilómetros.
Chegado ao Vau vi uma pequena praia fluvial, interessante para dar um mergulho numa próxima oportunidade.
Cruzei-me com um casal de Galegos e a filha que estavam a fazer este PR no sentido inverso. Trocamos algumas palavras e informações e seguimos adiante.

Tinha pela minha frente uma subida íngreme até às minas do Pereiro. Os Romanos exploravam ouro nesta serra, os túneis são um resquício desses tempos e dessa riqueza. No CIGC existe uma rocha que tem as marcas das rodas dos carros Romanos que faziam a ligação entre Arouca e Alvarenga, o que é mais uma evidência da importância destes locais para esse povo.

A subida continuou até ao Cabeço do Pereiro e depois para o miradouro da cascata das Aguieiras, onde passei por outra dificuldade e perigo. Não vi a seta que indicava o miradouro, vi apenas as marcas e estava convencido que o trilho continuava por ali. À minha frente deparei-me com um precipício enorme com mais de cem metros de altura, o rio Paiva, a cascata e Alvarenga do outro lado. Uma local fantástico mas sem continuação.
O meu instinto fez-me voltar para trás e vi a placa que indicava o miradouro, era apenas um desvio para observar aquela panorâmica, e reencontrei as marcas no sentido que eu queria.

À entrada de Vilarinho existe uma ardósia que refere a existência desta povoação no ano de 883 “numa venda feita por Balterio e esposa Ogenia a vários entre os quais kartemiro e mulher Astrilli”.
Foi com gosto que vi algumas vivendas bonitas recuperadas em xisto dando um toque delicado à terra.
Novamente uma subida, agora até ao CIGC, por um estradão de terra entre pinheiros bravos e carqueja.
É curioso! Ouço a minha respiração cansada e os meus passos e, quando de repente resolvo parar, descubro que estou no meio de um silêncio incrível. Observo o horizonte interminável de montanha e ao longe um ponto mais elevado, a serra de Montemuro talvez.
Retomo a caminhada, uma subida que nunca mais acaba, e vejo outros caminheiros. Um deles cumprimenta-me, eram novamente os Galegos que estavam a chegar ao local de partida. Que coincidência! Como este percurso é circular, cruzamo-nos duas vezes. Apenas um Português e três Galegos num Domingo a trilhar estas serranias de Arouca.

Do Centro de Interpretação até à estrada nacional 326 é sempre a descer, passo novamente entre algumas vivendas de xisto recuperadas com bom gosto e termino o meu percurso, próximo do edifício da Junta de Freguesia de Canelas.
No regresso paro no CIGC e visito o museu dos fósseis. Os mais comuns são de trilobites, animais marinhos antepassados das lagostas e crustáceos que possuíam três carapaças distintas, daí o nome tri – lobite, e que tinham a capacidade de se enroscarem, como fazem os actuais bichos-de-conta, quando se sentiam ameaçados.
Há 460 milhões de anos muitos destes locais estavam submersos pelo mar. Existia um supercontinente chamado Gondwana e os movimentos tectónicos que originaram os futuros continentes emergiram muitos vestígios desses animais que se preservaram graças à sedimentação e pressão das rochas sobre as suas carapaças, ficando as marcas fósseis do seu exosqueleto.
No primeiro sábado de cada mês o CIGC disponibiliza uma visita guiada pelos geossítios da pedreira envolvente. Um local muito interessante dominado pelo escuro laminado do xisto e com uma vertente marcadamente pedagógica e cultural.
Canelas




Rio PaivaCascata do ribeiro da Estreitinha

Mina

Miradouro da cascata das Aguieiras

VilarinhoTroço Romano

Centro de Interpretação Geológica de Canelas