Coloquei o anúncio na sala dos
professores. Poucos se inscreveram. Dois desistiram. Ponto de encontro no
parque de estacionamento de um hipermercado com acesso fácil e rápido à
autoestrada.
Partilhamos boleia em dois
carros, ligamos o googlemaps, fomos em direção ao parque de merendas do Sabugueiro,
na freguesia de Aguada, Águeda. Há meses que não realizava um trilho de pequena
rota, gosto da simplificação e da organização dos trilhos em pequenas e grandes
rotas. É uma forma fácil de atrair pessoas para as caminhadas nas centenas dispersos pelo país, para todos os gostos e graus de
dificuldade. Desejei há alguns anos começar
a trilhar o maior número possível de circuitos e fazer a sua divulgação, um dos
motivos, senão o principal, pelos quais
comecei a escrever o blog.
Pesquisei previamente alguns
trilhos num sitio que desconhecia. Deixo aqui o link. Completo, interessante, com
imagens de satélite atualizadas do
terreno. Informação imprescindível atendendo a que muitas áreas do país arderam
recentemente, sendo importante saber se foram destruídas pelos
incêndios.
Os incêndios andaram próximos,
mas não queimaram qualquer palmo do trajeto. Podíamos fazê-lo apreciando as condições
ambientais normais da região. Além do mais é de
baixo grau de dificuldade, circular e de poucos quilómetros
de extensão – 6,6. Sendo a primeira caminhada do ano na escola convinha escolher
um acessível para atrair muitos colegas, mesmo assim não resultou.
O parque de merendas do Sabugueiro foi uma surpresa agradável. Encostado
ao centro da vila de Aguada, com algum comércio, o largo da igreja, vivendas e
pequenas urbanizações próximas. Ambiente tranquilo e pacato. À hora que
chegamos um numeroso grupo de pessoas preparava o picnic nas churrasqueiras de
cimento. Vimos o painel de início do trilho, seguimos o sentido recomendado.
Fomos por caminhos de terra
batida, traseiras de quintais, terrenos com
árvores de fruto e pequenas hortas artesanais, ao longo de levadas e riachos. Talvez por esta
razão o nome da freguesia – AGUADA - se
deva à grande quantidade de água na
região. Levadas e riachos que moviam as
mós dos moinhos de água que dão nome ao trajeto. De acordo com as placas informativas, foram
construídos no séc. XVI. Sofreram transformações várias ao longo dos tempos.
Hoje não passam de telheiros abandonados,
descaracterizados e invadidos pelas
silvas.
Alguns dos terrenos estavam
alagadiços, em dias de muita chuva partes do trilho devem-se tornar
intransitáveis.
As tábuas dos passadiços encontram-se partidas e soltas em vários locais, cheias de verdete e escorregadias, a necessitarem de uma reparação urgente. Em muitos pontos não se notava o trilho devido ao mato espesso que o ocupou, evidenciando pouca utilização pelos caminheiros e falta de manutenção da câmara.
A
sinalização é adequada, os sinais de PR indicam corretamente o trajeto a seguir, à exceção de um
local onde encontramos patos e gansos ao pé de uma levada. Ficamos sem saber
por onde seguir. Encontramos um casal
que tal como nós estava baralhado. O homem teve de consultar a trilha no Wikiloc.
Fomos ter à estrada, junto ao restaurante Vidal dos Leitões. Calhou bem. Íamos a meio do trajeto, era hora de
almoço e, sem nada previsto, surge-nos o
restaurante. Por sinal, um dos mais famosos e requintados da região. Serviu
leitão à comitiva da rainha Isabel II na visita que fez a Portugal em 1985. O
restaurante enviou o leitão confecionado para
o Castelo de São Jorge onde se realizou um banquete real. Foi tão apreciado que desde
então amigos da família real britânica quando estão de passagem pela
região encomendam leitão ao restaurante.
Não hesitamos, quase todos pediram o prato de leitão à Bairrada. Disse
quem o comeu que “estava muito bom”. Acompanhado
por vinho da casa, espumante tinto da Bairrada das caves Primavera. Momento de
bom convívio, risadas e boa disposição.
Saímos para realizar os últimos
quilómetros. Viramos à direita na estrada de terra batida,
encontramos a sinalização e a partir dali fizemos um caminho tranquilo entre
matos de eucaliptos, acácias e muitos
vestígios dos bosques originais de sobreiros e carvalhos. Caminhamos debaixo das
sombras frondosas da vegetação densa, novamente junto de levadas e riachos, pisamos folhas outonais dos carvalhos americanos e plátanos que cobriam a terra.
Apesar de algumas dificuldades de orientação, de alguns trechos alagadiços e enlameados, do cheiro a bafio das escadarias estreitas da fonte da Pipa, o trilho é curioso e interessante. Leva-nos a conhecer modos de vida diferentes dos urbanos, a observar uma ruralidade que persiste heroicamente nas pequenas hortas cultivadas que fomos vendo, nos animais domésticos que queriam a nossa companhia ou se assustavam com a nossa aproximação, nas árvores de fruto lembrando a prodigalidade da natureza. Encontramos obras enigmáticas, combinações de cores e materiais de belos efeitos estéticos, refúgio e aconchego.
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Início do trilho, junto ao parque de merendas do Sabugueiro |
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Escadarias da Fonte da Pipa |
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