sábado, 21 de fevereiro de 2026

São Pedro-o-Velho

 


O Miradouro está lá em cima, distante, entre as rochas isoladas e austeras. Os dois amantes caminham em direção a ele sobre as lajes polidas de granito. Pequenos riachos escorrem das fragas, formam charcos musgosos.  São Pedro o Velho: uma plataforma circular elevando-se no cimo do morro mais alto da serra. Dali tem-se uma panorâmica de 360º sobre as serras da Arada e da Freita, a ria de Aveiro, as aldeias de Cabaços, Castanheira, Albergaria-da-Serra e o Merujal; o  vale de Arouca estendendo-se desde Provesende; e os parques eólicos que desfeiam o horizonte e o artificializaram com a intervenção humana. Apesar disso, ainda ouvem o chamamento do pastor imitando  balidos,  reunindo o rebanho e as ovelhas tresmalhadas que berram e saltitam ágeis:  “As Cabras, essas putas”, como lhes chamava Eugénio de Andrade com carinho.

Sentem-se parte do mundo e da civilização, por eles correm histórias de imensas pessoas.  Se fossem pastores, chegariam a casa,  abririam a garrafa de vinho tinto, lascariam o presunto pousado na mesa, talvez acendessem a lareira e ouviriam o crepitar do fogo, enquanto os lobos uivavam nas serras. Leriam histórias  de Camilo Castelo Branco à luz da vela e fariam amor ao pé do lume.

Pouco falam entre si. Passam mais tempo a consultar o telemóvel e os indicadores do smartwatch do que a apreciar a paisagem. Ligam o Bluetooth  para registar na aplicação as métricas diárias e terem a certeza de que cumprem os objetivos definidos pela máquina. Sem darem por isso, perdem o controlo de si: são vigiados insidiosamente e silenciosamente 24 horas por dia,  até a duração do  sono é registado  por ela.  

Ouve-se um beep,  uma mensagem colorida aparece no visor do relógio: atingiu 10000 passos. Os amantes alegram-se, a pequena  caminhada valeu a pena, os objetivos do dia foram cumpridos.






segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Caminhadas com o Gilberto



O Gilberto teve um AVC, disse-me a Glória pelo WhatsApp.

Conheci-o numa caminhada, em 2007, organizada pelo Fernando Vilarinho, aos moinhos e castros de Esposende. Convidou-me para me juntar a ele numa  caminhada que iria organizar mais tarde com umas amigas do Porto.   

Fomos ao Gerês, aos Prados da Messe - foi a primeira vez que ouvi falar nesse nome, das tantas vezes que depois iria ali passar.  O grupo era ele,  a Glória, a Ana e a Manuela. A partir daí começamos a fazer caminhadas juntos com alguma regularidade. O grupo foi crescendo, os amigos levaram outros amigos,  apareceram pessoas que se conheceram nas caminhadas e tornaram-se novos amigos. Ele era o nosso "GPS", a alcunha que carinhosamente lhe demos pois ninguém melhor do que ele conhecia os meandros da serra, os seus lugares mais recônditos, lagoas e trilhos inacessíveis só pisados por pastores. Ele era o nosso guia. Confiávamos nele, levou-nos a sítios maravilhosos,  improvisando trajetos e atalhos  para chegar a lugares impensáveis  num só dia. 

O Gilberto juntava-se a grupos organizados e íamos com ele. Convivemos com o pessoal de Fafe,  Famalicão, Barcelos; participamos nos eventos promovidos pelas associações locais de caminheiros – nos bons velhos tempos em que  se organizavam caminhadas, apoiadas pelos municípios -  em Marco de Canaveses, Vizela; Póvoa de Lanhoso, sobre a Maria da Fonte. Inaugurámos trilhos. 

Estabeleceram-se amizades mais profundas entre pessoas  do grupo,  que passaram a encontros no Porto, em restaurantes,  aniversários e concertos. Houve passagens de ano e caminhadas em Espanha e na serra da Estrela, alugaram-se casas na montanha e passaram-se fins-de-semana a caminhar. O Gilberto estava sempre presente, unia as pessoas e  era nele que depositávamos a decisão de escolher o destino do fim de semana seguinte.

Com o tempo,  as  amizades foram-se desvanecendo, as pessoas afastando-se, cada uma com a sua vida, adquirindo novos interesses, mas mantendo os contatos e dando notícias.  Eu já não convivia da mesma forma: a partir de certa altura, ou me tornava  mais íntimo ou me afastava. Eu estava casado,  a minha esposa raramente participava nas caminhadas. Comecei a sentir algum tédio e repetitividade,  por falta de novos assuntos de  conversa e de razões mais entusiasmantes para continuar a caminhar com o grupo. 

Na última caminhada, o Gilberto não apareceu, convidaram-no mas não respondeu.  Tinha-se afastado alguns anos antes.  Eu seguia-o no FB, postava fotos das caminhadas que fazia. Não  respondeu a um comentário que  escrevi. 

Foram quinze anos de caminhadas,  muitas partilhadas por mim neste blog.  Tive sempre o cuidado de não colocar imagens das pessoas que estavam comigo, nem de referir  o nome delas. Não gosto de dizer os nomes das pessoas com quem estive, sempre salvaguardei a privacidade de cada um e a minha, mesmo nos momentos mais triviais.  Muitas vezes, coloquei as iniciais dos seus nomes,  ou trocava-os por outros e evitava falar delas, falava das paisagens, do clima, dos sítios e de indivíduos com quem nos cruzávamos, desconhecidos, e por essa razão não havia mal em nomeá-los, educadamente. Eram anónimos.  







domingo, 4 de janeiro de 2026

Neve

 


Lamento desiludir-vos meus amigos venezuelanos, mas o Trump não vai trazer-vos a liberdade e a democracia.  Ele ordenou o sequestro do vosso presidente, Nicolas Maduro, para mais facilmente chantagear os restantes dirigentes do regime chavista: não pretende enviar tropas para a Venezuela, o que lhe traria mais impopularidade nos Estados Unidos, pretende simplesmente aceder às imensas reservas petrolíferas do vosso país.  Assim, fica em posição de força para ditar as suas ordens a quem substituir Nicolas Maduro.

O sequestro e julgamento do presidente servirá como exemplo para quem teimar em lhe fazer frente. Os lideres americanos são bullies e agora possuem  um brinquedo para chantagear e meter medo a quem não se submeter à sua vontade. São os líderes do mundo: querem, podem e mandam, não precisam de obedecer ao direito internacional.

Portanto, meus amigos, podem dizer adeus à esperança que colocaram na deposição do presidente. Das duas uma: a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, não se rende a Donald Trump e o velho regime continua intacto, tornando-se porventura mais repressivo; ou a cúpula de dirigentes aceita as exigências dos Estados Unidos em troca da sua continuação no poder. De uma forma ou de outra, o povo venezuelano continuará na miséria sem beneficiar das imensas riquezas do país nem da liberdade para escolher democraticamente os seus lideres políticos.  

Maicon não gostou da análise política do seu amigo português. Tem-se falado muito da Venezuela por estes dias nas redes sociais e na imprensa: é fácil falar de um  país estrangeiro, opinar de barriga cheia sem nunca lá ter vivido e sentido  as agruras quotidianas da esmagadora maioria dos seus habitantes, vendo as notícias ao longe sentadinhos no sofá, a beber um chocolate quente como se estivessem a assistir a um espetáculo qualquer. Ele nasceu na Venezuela, sente os acontecimentos de uma forma totalmente diferente:  com intensidade e preocupação pela  família e amigos que lá deixou. Veio para Portugal, a terra dos  pais, para fugir da incerteza económica, da pauperização permanente das condições de vida, da insegurança causada pelo chavismo que arruinou a empresa do pai, tão arduamente construída por ele ao longo de toda uma vida.

Readquiriu  esperança numa mudança para melhor, a situação era insustentável. Fica irritado com  comentários,  augúrios tão sombrios e idiotices sobre a Venezuela, mesmo que vindas dos seus amigos.  Odeia  ver os apelos nas redes sociais às concentrações  contra a “agressão imperialista norte-americana a um país soberano”. Não tem vergonha de o dizer: apoia a intervenção americana, foi a melhor notícia que lhe chegou da Venezuela nos últimos anos.  Não lhe interessa o “Direito Internacional” e tretas do género. Não havia outra hipótese para remover  aqueles bandidos.

Quando era pequeno foi com os irmãos e os pais ver a neve nas montanhas de Mérida. “A única região da Venezuela onde existe neve”, disse-lhes o pai.

Não sabia o que era neve, só a tinha visto na televisão, nos filmes americanos que passavam no Natal, e do que os  pais lhes contavam de quando eram miúdos em Portugal, antes de emigrarem para a Venezuela: “talvez não acreditem, meus filhos, mas aqui neste clima tropical podemos ver neve se subirmos ao pico Bolívar”. Foram de carro, demoraram muitas horas desde as planícies em redor do lago Maracaíbo, onde viviam,  até chegarem à cordilheira Andina. Lembra-se do pai lhe ter dito que foi um ano particularmente frio nas montanhas do norte da Venezuela e que não era habitual haver neve naquelas  altitudes mais baixas. Ele e os irmãos saíram do carro e, como todas as crianças, fizeram bolas, deslizaram metidos nos sacos de serapilheira que iam na mala e fizeram tropelias. Foi um dia inesquecível. Passaram a noite num pequeno hotel e regressaram a casa no dia seguinte, a descer várias horas de carro até ao mar, passando por climas que mudavam com a altitude. Tempos felizes num país incrível!

Nunca mais viu neve até hoje.  

Em homenagem aos tempos de mudança,  hasteou a bandeira tricolor  do seu país na traseira do carro, como fazem os portugueses quando joga a seleção nacional de futebol   e, nostálgico com as  suas memórias, rumou a um dos poucos sítios de Portugal  onde se pode ver neve: a serra da Estrela. Os amigos portugueses não acreditaram que a última vez, e única,  que viu neve foi  na Venezuela.

- Neve na Venezuela?! Estás a gozar connosco!

Ignorantes, é o que são. Devem pensar que na Venezuela só existem praias tropicais e bananeiras! Não imaginam a beleza e a diversidade do país.

Partiu em direção à Covilhã  e dali subiu à serra. Viu a placa na estrada, junto à pousada, indicava 800 metros de altitude. Mais à frente, viu outra placa: 1200 metros de altitude. Cruzou-se com muitos carros que desciam da Torre; alguns com pedaços de neve agarrados no tejadilho e bonecos de gelo esculpidos no capô. Um deles trazia a bandeira da Venezuela sobre o tablier. Que alegria, compatriotas! Buzinou, abriu o vidro, fez o V de vitória com a mão esquerda, gritou para os ocupantes: Viva Venezuela! Libertad! Libertad! Responderam da mesma forma, eufóricos:  Libertad! Libertad!

1500 metros: famílias e  crianças fora dos carros a mexer nos primeiros pedaços de neve na berma da estrada. A nostalgia da viagem aos Andes, perto de Mérida, pesou-lhe na alma.  Regressaria à Venezuela, tinha de ser!

1700 metros: engarrafamento. Uma longa fila de carros estendia-se pela estrada até à curva que contornava mais uma encosta da serra.

O carro parava e avançava devagar. A esposa abriu a porta, saiu para esticar as pernas, apanhou um pedaço de neve e trouxe-o para dentro do carro. Passou-o ao marido, pacientemente sentado ao volante, acelerando e parando, acelerando e parando. Acariciou a neve com os dedos, maravilhou-se com o pedaço branco na sua mão. Contemplou-o até sentir o frio queimar a pele.

Seguiram no para arranca até à Torre. Estava assim há quase uma hora – já não bastam os engarrafamentos para o trabalho durante a semana, tinha agora de apanhar outro ao fim-de-semana no passeio à serra da Estrela!

Estacionou o carro, caminharam sobre o manto branco que cobria o  planalto superior. A esposa, num gesto maroto, atirou-lhe uma pedra de neve contra o corpo:

- Aaaa… isso não se faz! Queres guerra? Vais ter guerra! – Correram ambos a apanhar mais neve, cada um para seu lado.  Atiraram bolas um contra o outro. 

- Sua malandra!

- Seu medricas, não me acertas.

Do manto branco despontavam rochas, sentinelas silenciosas observando os humanos minúsculos a brincar. Os faróis do carro iluminavam a berma, a luz refletia-se por trás do rail de separação. O círculo de luz fluorescente recortava-se nos tufos de erva perdidos no tapete de neve, como um rendilhado num fino tecido de noiva. Maicon sentiu a pureza da infância encher-lhe a alma, um laivo de esperança num mundo melhor e no regresso à Venezuela renasceu em si.






sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Rua dos Chouriços

 


Bom, Dia Caros Senhores

 

Venho por este meio comunicar a insegurança que como peão sinto nas estradas em redor da minha residência em Eirães,  Vila Nova da Cortiça, nomeadamente na rua dos Chouriços, rua das Oliveiras,  rua da Estrela e rua da Belavista.

Vivo aqui desde criança, as estradas eram em paralelos e sempre ansiamos por melhores arruamentos  e alcatroados. Finalmente as obras foram feitas.  Alcatroaram-se e alargaram-se estradas, os passeios foram estreitados. As entradas nas casas ficaram  mais expostas aos carros, não se fizeram lombas, nem se colocaram sinais de trânsito ou passadeiras para reduzir a velocidade. Ruas da largura de estradas nacionais atravessam zonas residenciais onde circulam jovens estudantes a caminho das paragens de autocarro, ou idosos sem carta, porque quem tem carta de condução raramente  caminha nestas estradas, procura outros sítios para o fazer. Os arruamentos foram “melhorados” a pensar nos automóveis e não nos peões.

A coexistência entre peões e viaturas é perigosa. Os carros circulam permanentemente muito acima do limite de velocidade, há curvas,  desníveis,  cruzamentos largos,  rápidos e desalinhados,  que contribuem   para a perigosidade da estrada e  aumentam os riscos para peões e ciclistas.

Não se atenuou a possibilidade de erro humano, as estradas como estão amplificam o perigo das falhas humanas.

Como morador e cidadão que paga impostos, que conduz e caminha por estas estradas, sinto que devia ter outras garantias de segurança na minha rua e nas circundantes. Não tenho.

Já enviei cartas para a Câmara Municipal, falei pessoalmente com o anterior presidente da Junta de Freguesia,  a sugerir passadeiras, lombas, sinalização e alterações nos perfis das estrada para melhorar a segurança. Não houve qualquer modificação até hoje.

Parece que estamos condenados a ficar cada vez mais confinados e cercados por estradas perigosas onde sair de casa a pé é um risco. Os arruamentos urbanos deviam ser feitos a pensar que caminhar em segurança significa melhorar a Qualidade de Vida.

Mas as prioridades e mentalidades estão invertidas, privilegia-se o uso do carro, constroem-se estradas largas e rápidas dentro das localidades, erros crassos que desumanizam  as nossas freguesias, destroem a fruição que se devia ter ao caminhar em sítios onde ainda permanece uma certa ruralidade e memória de tempos ligados ao trabalho na terra,   mantendo  os nossos índices de sinistralidade muito elevados: algo que nos devia embaraçar como país (PRP). 

Mais de metade das mortes  dão-se em arruamentos urbanos (ANSR).

É um paradoxo: é mais seguro caminhar nas cidades  do que nas periferias. O  excesso de transito citadino, o maior número de passadeiras e de semáforos, causa lentidão na circulação; enquanto que  nas periferias urbanas,  apesar de haver menos automóveis,  estes circulam  mais velozmente e a sinalização e o perfil das estradas carecem dos necessários instrumentos de segurança.

Peço-vos que, na vossa qualidade de organismo de  Prevenção Rodoviária,  aconselhem  a  Câmara Municipal - um dos concelhos mais prestigiados do país, onde a segurança nas estradas pode contribuir decisivamente para a melhoria dos índices nacionais -  e a Junta de Freguesia, a fazerem as necessárias melhorias nos seus arruamentos.  Ou que os vossos técnicos se desloquem a estas ruas, sintam eles próprios o desconforto que eu sinto ao caminhar nelas, elaborem os respetivos relatórios de segurança e encaminhem-nos para quem tem o dever de fazer ruas seguras.

Despeço-me com os meus melhores cumprimentos e os desejos de um ano de 2026 com melhorias significativas na sinistralidade rodoviária.