O Gilberto teve um AVC, disse-me a Glória pelo WhatsApp.
Conheci-o numa caminhada, em 2007, organizada pelo Fernando
Vilarinho, aos moinhos e castros de Esposende. Ele fez o convite para aparecer com a minha irmã numa caminhada que iria organizar com um pequeno grupo do
Porto.
Fomos ao Gerês umas semanas mais tarde. O grupo era ele, a Glória, a Ana e a Manuela. A partir daí começamos a fazer caminhadas juntos com alguma regularidade. O grupo foi crescendo, os amigos levaram outros amigos e apareceram pessoas que se conheceram nas caminhadas e tornaram-se novos amigos. Ele era o nosso GPS, o nosso guia. Confiávamos nele, levou-nos a conhecer sítios maravilhosos no Gerês, fora dos trilhos mais comuns.
Fizemos grandes caminhadas, passamos juntos momentos de
convívio, tainadas em casas de amigos
que conhecemos através dele. Pessoas muito diferentes: professores,
camionistas, artistas, estudantes (filhos de amigos que traziam outros amigos),
desempregados, viajantes de mota pela américa Latina; tendo todos
em comum o gosto pelas caminhas e o contacto com a natureza. O Gilberto juntava-se a grupos organizados, que o conheciam e respeitavam, e íamos com
ele. Convivemos com o pessoal de Fafe, Famalicão, Barcelos; participamos nos
eventos promovidos por associações de caminheiros – nos bons tempos em que muitos grupos organizavam caminhadas, apoiadas
pelos municípios locais. Fizemos caminhadas temáticas em Marco de Canaveses, Vizela,
na Póvoa de Lanhoso sobre a Maria da Fonte. Fomos à inauguração de trilhos.
Estabeleceram-se amizades mais profundas entre pessoas do grupo, que passaram a encontros no Porto, em
restaurantes, aniversários
e concertos. Houve passagens de ano e encontros em Espanha e na serra da
Estrela, em que se alugava casa na montanha e passavam-se os fins-de-semana a
caminhar. O Gilberto estava quase sempre presente, unia as pessoas e na maior parte das vezes era ele que decidia onde se iria
caminhar no fim de semana seguinte.
Passei dos melhores momentos da minha vida nessas caminhadas, convivendo,
fruindo a natureza, divertindo-me. Através dele conheci outras pessoas que se
tornaram importantes de algum modo para mim.
Com o tempo, as amizades foram-se desvanecendo, as pessoas
afastando-se, cada uma com a sua vida, adquirindo
outros interesses, mas mantendo os contactos e dando notícias esporadicamente. Eu já
não convivia da mesma forma: a partir de certa altura, ou me tornava mais íntimo ou me
afastava. Eu estava casado, a minha esposa raramente participava nas caminhadas. Comecei a sentir algum tédio e repetitividade,
por falta de novos assuntos de conversa e de razões
mais entusiasmantes para continuar a caminhar com o grupo.
Na última caminhada, o
Gilberto não apareceu, convidaram-no mas não respondeu. Tinha-se afastado alguns anos antes. Eu seguia-o no FB, ele sempre a postar fotos
das caminhadas que fazia. Não respondeu
a um comentário que uma vez lhe escrevi.
Foram catorze anos de caminhadas, quase todas partilhadas por mim neste blog. Tive
sempre o cuidado de não colocar imagens das pessoas que estavam comigo, nem de
referir o nome delas. Não gosto de dizer
os nomes das pessoas com quem estive, sempre salvaguardei a privacidade de cada
um e a minha, mesmo nos momentos mais triviais. Muitas vezes, coloquei as iniciais dos seus
nomes, ou trocava-os por outros e evitava
falar delas, falava das paisagens, do clima, dos sítios e de indivíduos com
quem nos cruzávamos, desconhecidos, e por essa razão não havia mal em nomeá-los
educadamente. Eram anónimos.



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