segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Caminhadas com o Gilberto



O Gilberto teve um AVC, disse-me a Glória pelo WhatsApp.

Conheci-o numa caminhada, em 2007, organizada pelo Fernando Vilarinho, aos moinhos e castros de Esposende. Ele fez o convite para aparecer com a minha irmã numa caminhada que iria organizar com um pequeno grupo do Porto.   

Fomos ao Gerês umas semanas mais tarde. O grupo era ele,  a Glória, a Ana e a Manuela. A partir daí começamos a fazer caminhadas juntos com alguma regularidade. O grupo foi crescendo, os amigos levaram outros amigos e apareceram pessoas que se conheceram nas caminhadas e tornaram-se novos amigos. Ele era o nosso GPS, o nosso guia. Confiávamos nele, levou-nos a conhecer sítios maravilhosos no Gerês, fora dos trilhos mais comuns. 

Fizemos grandes caminhadas, passamos juntos momentos de convívio,  tainadas em casas de amigos que conhecemos através dele. Pessoas muito diferentes: professores, camionistas, artistas, estudantes (filhos de amigos que traziam outros amigos), desempregados,  viajantes de mota pela américa Latina;  tendo todos em comum o gosto pelas caminhas e o contacto com a natureza. O Gilberto juntava-se a grupos organizados, que o conheciam e respeitavam, e íamos com ele.  Convivemos com o pessoal de Fafe,  Famalicão, Barcelos; participamos nos eventos promovidos por associações de caminheiros – nos bons tempos em que  muitos grupos organizavam caminhadas, apoiadas pelos municípios locais. Fizemos caminhadas temáticas em Marco de Canaveses, Vizela, na Póvoa de Lanhoso sobre a Maria da Fonte. Fomos à  inauguração de trilhos.

Estabeleceram-se amizades mais profundas entre pessoas  do grupo,  que passaram a encontros no Porto, em restaurantes,  aniversários e concertos. Houve passagens de ano e encontros em Espanha e na serra da Estrela, em que se alugava casa na montanha e passavam-se os fins-de-semana a caminhar. O Gilberto estava quase sempre presente, unia as pessoas e  na maior parte das  vezes era ele que decidia onde se iria caminhar no fim de semana seguinte.

Passei dos melhores momentos da  minha vida nessas caminhadas, convivendo, fruindo a natureza, divertindo-me. Através dele conheci outras pessoas que se tornaram importantes de algum modo para mim.

Com o tempo,  as  amizades foram-se desvanecendo, as pessoas afastando-se, cada uma com a sua vida, adquirindo outros  interesses, mas mantendo os contactos e dando notícias esporadicamente.  Eu já não convivia da mesma forma: a partir de certa altura, ou me tornava  mais íntimo ou me afastava. Eu estava casado,  a minha esposa raramente participava nas caminhadas. Comecei a sentir algum tédio e repetitividade,  por falta de novos assuntos de  conversa e de razões mais entusiasmantes para continuar a caminhar com o grupo. 

Na última caminhada, o Gilberto não apareceu, convidaram-no mas não respondeu.  Tinha-se afastado alguns anos antes.  Eu seguia-o no FB, ele sempre a postar fotos das caminhadas que fazia. Não  respondeu a um comentário que uma vez lhe escrevi.

Foram catorze anos de caminhadas,  quase todas partilhadas por mim neste blog.  Tive sempre o cuidado de não colocar imagens das pessoas que estavam comigo, nem de referir  o nome delas. Não gosto de dizer os nomes das pessoas com quem estive, sempre salvaguardei a privacidade de cada um e a minha, mesmo nos momentos mais triviais.  Muitas vezes, coloquei as iniciais dos seus nomes,  ou trocava-os por outros e evitava falar delas, falava das paisagens, do clima, dos sítios e de indivíduos com quem nos cruzávamos, desconhecidos, e por essa razão não havia mal em nomeá-los educadamente. Eram anónimos.  







Sem comentários: