O Miradouro está lá em cima,
distante, entre as rochas isoladas e austeras. Os dois amantes caminham em
direção a ele sobre as lajes polidas de granito. Pequenos riachos escorrem das fragas, formam charcos musgosos. São
Pedro o Velho: uma plataforma circular elevando-se no cimo do morro mais alto
da serra. Dali tem-se uma panorâmica de 360º sobre as serras da Arada e da Freita,
a ria de Aveiro, as aldeias de Cabaços, Castanheira, Albergaria-da-Serra e o Merujal;
o vale de Arouca estendendo-se desde Provesende;
e os parques eólicos que desfeiam o horizonte e o artificializaram com a
intervenção humana. Apesar disso, ainda ouvem o chamamento do pastor imitando balidos, reunindo o rebanho e as ovelhas tresmalhadas
que berram e saltitam ágeis: “As Cabras,
essas putas”, como lhes chamava Eugénio de Andrade com carinho.
Sentem-se parte do mundo e da
civilização, por eles correm histórias de imensas pessoas. Se fossem pastores, chegariam a casa, abririam a garrafa de vinho tinto, lascariam o
presunto pousado na mesa, talvez acendessem a lareira e ouviriam o crepitar do fogo,
enquanto os lobos uivavam nas serras. Leriam histórias de Camilo Castelo Branco à luz da vela e
fariam amor ao pé do lume.
Pouco falam entre si. Passam mais
tempo a consultar o telemóvel e os indicadores do smartwatch do que a apreciar
a paisagem. Ligam o Bluetooth para registar na aplicação as métricas diárias e terem a certeza de que cumprem os objetivos definidos pela máquina. Sem darem por isso, perdem o controlo de si: são vigiados insidiosamente e silenciosamente 24 horas por dia, até a duração do sono é registado por ela.
Ouve-se um beep, uma mensagem colorida aparece no visor do
relógio: atingiu 10000 passos. Os amantes alegram-se, a pequena caminhada valeu a pena, os objetivos do dia
foram cumpridos.



