sábado, 21 de fevereiro de 2026

São Pedro-o-Velho

 


O Miradouro está lá em cima, distante, entre as rochas isoladas e austeras. Os dois amantes caminham em direção a ele sobre as lajes polidas de granito. Pequenos riachos escorrem das fragas, formam charcos musgosos.  São Pedro o Velho: uma plataforma circular elevando-se no cimo do morro mais alto da serra. Dali tem-se uma panorâmica de 360º sobre as serras da Arada e da Freita, a ria de Aveiro, as aldeias de Cabaços, Castanheira, Albergaria-da-Serra e o Merujal; o  vale de Arouca estendendo-se desde Provesende; e os parques eólicos que desfeiam o horizonte e o artificializaram com a intervenção humana. Apesar disso, ainda ouvem o chamamento do pastor imitando  balidos,  reunindo o rebanho e as ovelhas tresmalhadas que berram e saltitam ágeis:  “As Cabras, essas putas”, como lhes chamava Eugénio de Andrade com carinho.

Sentem-se parte do mundo e da civilização, por eles correm histórias de imensas pessoas.  Se fossem pastores, chegariam a casa,  abririam a garrafa de vinho tinto, lascariam o presunto pousado na mesa, talvez acendessem a lareira e ouviriam o crepitar do fogo, enquanto os lobos uivavam nas serras. Leriam histórias  de Camilo Castelo Branco à luz da vela e fariam amor ao pé do lume.

Pouco falam entre si. Passam mais tempo a consultar o telemóvel e os indicadores do smartwatch do que a apreciar a paisagem. Ligam o Bluetooth  para registar na aplicação as métricas diárias e terem a certeza de que cumprem os objetivos definidos pela máquina. Sem darem por isso, perdem o controlo de si: são vigiados insidiosamente e silenciosamente 24 horas por dia,  até a duração do  sono é registado  por ela.  

Ouve-se um beep,  uma mensagem colorida aparece no visor do relógio: atingiu 10000 passos. Os amantes alegram-se, a pequena  caminhada valeu a pena, os objetivos do dia foram cumpridos.