domingo, 27 de janeiro de 2013

Matem-nos devagarinho, por favor


Entregamo-nos submissos nas vossas mãos, ó políticos


Vós que fazeis o que bem vos apetece

Que decidem tudo por nós

Não temos decisão

Nada fazemos para mudar

Só nos resta confiar em vós, ó políticos

Não nos matem de repente

Sim, deixem-nos morrer, mas devagarinho

Já que nada decidimos

Já que temos a espinha dorsal partida

Já que estamos desunidos

Neste momento em que alegremente nos encaminham para o matadouro

E não reagimos

Só nos resta confiar em vós, ó políticos

Nas vossas palavras sábias sobre as virtudes dos mercados

Nos vossos desígnios grandiosos para o futuro da nação

No nosso futuro brilhante e glorioso se nos entregarmos a vocês

Matem-nos devagarinho, por favor

Sabemos que estamos perdidos porque nada fazemos

Quando todos devíamos sair de casa

Ir para a rua gritar

reagir

lutar

Nós, merecemos-vos, ó políticos

Merecemos as vossas mentiras

Merecemos a vossa incompetência

Merecemos o vosso sorriso cínico na tv

E toda a comunicação social que vos limpa

Que nos invade a casa a toda a hora

Porque não desligamos essa porcaria

E nos confunde

O país ruma sem sentido

Não há reação

Só nos resta confiar em vós, ó políticos

E esperar que algum de vós se condoa

Tenha uma alma caridosa

De nós, a caminho do matadouro

Vamos acreditar em vós, ó políticos

Vamos torcer para que não sejam tão maus assim

Já que não somos capazes de mais nada

Logo à noite temos o futebol na tv

A casa dos segredos

O oráculo da nação às oito horas na tvi

Os porcos que morreram na auto –estrada

Os milhares de professores que estiveram na manifestação

Os muitos mais que não foram, que ficaram por casa

A dizer que vai ficar tudo na mesma

Que não vale a pena

O povo está vencido

A espinha dorsal partida

Viram-se reformados a lutar por nós

Mas os que não são velhos, onde estão?

Ainda nos resta o futebol

E a televisão que nos acompanha na solidão cada vez maior da nação

Estamos perdidos,

Não lutamos, não reagimos

Desunidos

A olhar para o umbigo

Só nos resta confiar em vós, ó políticos

Não nos matem, por favor

Ou então matem-nos devagarinho

Sem darmos conta

Como vocês tão bem sabem fazer

Quem dá conta emigra

Emigra

O desígnio talvez seja esvaziar a população

E deixar os mercados ocupar livremente a nação

Só ficam os velhos

O povo mata-se a si próprio

Sem esperança

Que morra a nação

No brilho glamoroso dos mercados

E nos sorrisos lavados dos políticos que aparecem a toda a hora na televisão.