sábado, 29 de agosto de 2009

Vereda dos Brescos



O percurso inicia-se junto à entrada do Parque de Campismo da Lagoa de Santo André.
Segue junto à rede do parque e continua por uma estrada de sobreiros e pinheiros bravos até ao Centro de Interpretação de Paio, do Instituto de conservação da Natureza (ICN).
A partir daqui há duas opções: ir pela direita por um trilho parcialmente coincidente com um percurso marcado pelo ICN, O Percurso da Casa do Peixe, junto da lagoa, ou seguir em frente pela aldeia dos Brescos.
Optei por esta última hipótese. Nesta aldeia pode-se observar um forno comunitário e, mais à frente, o trilho vira à direita passando numa pequena ponte de cimento.
A marcha é dificultada pelo piso arenoso, comum na maioria do trajecto, levantando também muito pó.
De seguida atravessa-se uma zona de pinheiros bravos com extracção de resina e de sobreiros descortiçados. Há muitas pinhas dispersas no chão e agulhas dos pinheiros, o moliço, como é conhecido em algumas zonas do Norte.
O caminho bifurca na localidade de Foros da Quinta. Aqui não vi a sinalização correspondente e vejo-me obrigado a consultar o mapa, vou pela direita. Não me enganei, mais à frente voltam a aparecer as marcas do percurso.
Novamente uma zona muito arborizada de pinheiros mansos e de sobreiros e um estradão arenoso a emperrar a minha marcha.
Cruzo a estrada nacional que liga Santo André a Sines. Uma placa indica Zona de Acesso Restrito e deixo de ver a sinalização. Penso que se existe um mapa com a sinalização do percurso é porque devo poder continuar, não penso noutra coisa senão seguir em frente.
Há muitos minutos que deixei de ver os sinais e oriento-me exclusivamente pelo mapa. Vou em direcção à lagoa que sei que está à minha frente, embora ainda não a vislumbre. Chego a uma Estação Ornitológica, do Monte Outeirão, não vejo ninguém, apenas um carro e um jeep do ICN. Silêncio à minha volta. É uma boa altura para pedir um esclarecimento qualquer porque começo-me a sentir meio desorientado.
Continuo na direcção da lagoa. Ultrapasso uma vedação e mais à frente há uma cabana de madeira que me parece abandonada, sigo por ali porque é o único trilho definido. Chego a uns juncos, aparentemente não há continuação, o trilho torna-se mais incerto entre as zonas lamacentas dos juncais e das ervas altas. Não faço ideia por onde seguir e volto para trás até à estação ornitológica a ver se encontro alguém que me ajude.
Felizmente encontro um indivíduo que me esclarece que aquela zona é de acesso restrito, só pessoas ligadas ao ICN podem deambular por ali para observar aves e fazer trabalho científico. Uma das actividades da estação é a anilhagem das aves. A parte do trilho que atravessa aquela zona foi marcada sem a permissão do Instituto.
Talvez seja por isso que deixei de ver as marcações.
Sou informado amavelmente de como sair dali e volto a retomar o mesmo sentido até uma nora onde o trilho se torna novamente mais definido. Mais à frente o trajecto torna-se coincidente com a marcação do percurso da Casa do Peixe.
A Zona de Protecção Especial das Lagoas de Santo André e da Sancha é um espelho de água separado do oceano por uma duna. Nos invernos, o cordão dunar rompe-se e dá-se a renovação da massa de água e o repovoamento com alguma fauna piscícola, o que permite a conservação da biodiversidade.
Inúmeras espécies de aves nidificam nos canaviais, turfeiras e zonas húmidas envolventes: patos, tartaranhões, garças e cegonhas, entre muitas outras. Os diferentes graus de salinidade da água originam uma convivência de muitas espécies adaptadas a diferentes regimes alimentares.
Aves minúsculas depenicam ao longe na lama dos charcos, pequenos pontos brancos no horizonte, e, ao meu lado, quatro gralhas assustam-se e voam subitamente da erva alta, uma-a-uma como os aviões à espera da descolagem.

Chego finalmente ao Monte do Paio, a partir daqui repito o percurso, no sentido inverso, até ao parque de campismo. Estou empoeirado, é Agosto e está muito calor.

A vereda dos Brescos é o PR1 do Concelho de Santiago do Cacém. São onze quilómetros em sentido circular de baixo grau de dificuldade, com a inconveniência de se passar numa zona protegida sem marcação, ou então fui eu que vi mal, e sem a permissão do ICN.

No regresso à Galé decido procurar um barbeiro, há muitos dias que ando fora de casa sem fazer a barba e começo a ter mau aspecto.

Em Melides dizem-me para ir até às bombas de gasolina que ali ao lado há uma senhor que faz barba, é o único nas redondezas.

O Senhor M. é muito idoso e treme um pouco, fico indeciso. Já que ali estou não quero fazer a desfeita. Ainda me pergunta se tenho a certeza se quero fazer a barba, fico mais indeciso ainda. Mostro um ar natural e digo que Sim.
Não quero parecer indelicado e dar a entender que recuso a barba devido à idade do senhor.
-Faça-me a barba com muito cuidado. Detesto fazer a barba, não trouxe a máquina para a aparar - Ainda me pergunta se prefiro aparar a barba com a máquina, também tem uma no salão.
Já que ali estou, vou até ao fim. Cheguei com a ideia de fazer a barba com lâmina e, apesar de tudo me dissuadir, digo resoluto:
- Com lâmina! – Mas vou avisando – É uma barba difícil…
- Não há problema. Faz-se devagarinho, com calma.
O Sr. M. tem 91 anos, é barbeiro há 70, sempre em Melides.
Vai cortando muito devagarinho, sinto-lhe a mão a tremer mas não me corta a pele uma única vez.
- O senhor tem uma barba terrível!
No fim mostra-me um espelho para eu ver a minha cara de mais perto. Há alguns tufos de pêlo debaixo do nariz, no pescoço e na cara.
- Sr. M, corte aqui.
- Sim, sem pressa…
-E aqui, e aqui.
Volta-me a mostrar o espelho. Continuo com o tufo debaixo do nariz
- Este é difícil, em casa também me custa muito cortá-lo. É preciso enfiar a lâmina quase dentro do nariz. - Digo para amenizar a situação.
O Sr. M. corta devagarinho, passa a lâmina nos mesmos sítios mas não me corta.

- Obrigado Sr. M. Você deve ser o barbeiro mais velho de Portugal.
- Já estive para ir à SIC – Diz com orgulho.
- Ainda está a tempo!

Mais tarde, no parque de campismo, reparam que ainda tenho alguns pêlos dispersos pela cara – Paciência.
O parque tem acesso directo para o mar. Vou imediatamente para a água e dou um mergulho. Limpo as poeiras e o suor entranhado no corpo e refresco cara da sensação desagradável de desprotecção.
Finalmente o mar, a ondulação suave da praia da galé.

Arriba Fóssil da Praia da Galé

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