sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Setúbal


Quando eu era miúdo o Bocage era uma personagem das anedotas que ouvia contar entre os meus colegas. Um palerma que resolvia muitas encrencas recorrendo aos mais ridículos e absurdos expedientes, sendo muitas vezes enganado pelos outros e o alvo predilecto de patifarias e travessuras, de quem todos se riam.
Até em algumas zonas do Brasil se contam anedotas do Bocage.
Esta imagem depreciativa não revela a grandiosidade e o talento do verdadeiro Bocage, cuja vida atribulada deu azo à invenção de muitas anedotas e ao exagero.
Teve muitos inimigos, foi preso pela inquisição e não suportava nenhum tipo de tirania. Questionava os fundamentos da Igreja e do Estado e a hipocrisia social, o que lhe saiu caro. Acusado pela inquisição de conduta imoral, esteve preso no Limoeiro e morreu miserável na casa de uma irmã em Lisboa.
Filho de um advogado e neto de um militar Francês que se havia estabelecido em Portugal. A mãe ensinou-lhe a língua do avô e assentou praça aos dezasseis anos, depois alistou-se na marinha e viajou pelas paragens do Império. Desertou e regressou a Lisboa.
Comparava-se a Camões na desventura mas não no talento. Ficou conhecido principalmente pelas rimas satíricas e eróticas. Uma de cariz biográfico reza assim:

Aqui dorme Bocage, o putanheiro
Passou vida folgada e milagrosa:
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro

Nasceu em Setúbal em 1765 e faleceu em 1805.

O Feriado municipal de Setúbal comemora-se na data de nascimento do Poeta.

Na casa de Bocage não há um único objecto que lhe tenha pertencido, apenas as paredes onde viveu até aos dezasseis anos e uma exposição sobre as suas sete musas: a Inspiração, a Dor, a Ironia, A Boémia, o Lirismo, a Revolta e o Erotismo.

Como morreu miserável e pobre, nada restou.

No piso superior está albergado o espólio do fotógrafo Américo Ribeiro. Mais de 140 000 negativos de pessoas, ofícios, tradições e algumas máquinas fotográficas que retrataram a região de Setúbal no segundo quartel do século passado.

Chego à cidade no autocarro vindo da praia da Figueirinha, sem mapa e sem nada planeado. Começo uma deambulação incerta a partir da Av. Luísa Todi, que será a minha referência para não me perder. Todas as ruas vão dar a Roma, diz o ditado. Aqui em Setúbal parece que todas as ruas vão dar à Av. Luísa Todi.
Sigo pelas ruas adjacentes e chego à Praça do Bocage. Percorro as ruelas estreitas e pedonais em calcário, entre casas de tons claros e outras mais vetustas, descubro becos e escadarias.
Há poucos declives, o relevo é suave e torna-se agradável caminhar com a brisa quente deste dia de Agosto.
Cheira constantemente a peixe assado. Quase todos os restaurantes têm um assador no exterior. O bairro das Fontainhas parece ser a zona a com maior densidade de restaurantes: há vários tipos de peixe assado, choco frito e a caldeirada Setubalense. As esplanadas estão bem compostas com pessoas a almoçar e algumas com filas à espera.
Encontro o Museu do Trabalho Michel Giacometti, só abre ao fim da tarde. Gosto da homenagem que fizeram a este etnomusicólogo, atribuindo-lhe o seu nome ao museu. Venho a saber que a temática da exposição não está relacionada com as recolhas musicais feitas por ele, mas com a indústria conserveira. Existiram em Setúbal, aproximadamente, cento e cinquenta fábricas conserveiras, hoje não há nenhuma.

É hora de almoço e a Casa do Corpo Santo, que alberga o Museu do Barroco, também está fechada. Entro na Casa do Bocage e surpreendo-me mais tarde com o Convento de Jesus.
Há mais de três horas que caminho sem parar. Procuro a Av. Luísa Todi e descubro outras avenidas no caminho. Está na hora de regressar à praia.
No autocarro aberto, número 723, tem-se uma panorâmica agradável do trajecto, encostado à serra da Arrábida, junto do rio Sado, que tem uma população de 25 golfinhos-roazes, em declínio, e Tróia na outra margem.
A praia de Albarquel, o Outão, a cimenteira da Secil e a Figueirinha. Cheguei.

Praça do Bocage

Convento de Jesus

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