sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Da Figueirinha ao Portinho da Arrábida


Para quem vem de carro a estrada é de sentido único da Figueirinha ao Portinho, entre as 9.00 e as 18.00h. Portanto, quem vai ao Portinho não pode voltar para trás, antes dessa hora.
Indo a pé pode-se caminhar no sentido que bem se entender, desviar o rumo e improvisar à sua vontade com um grau de liberdade impossível num carro.
São centenas de carros estacionados nas bermas da estrada entre estas praias, por isso tentei desviar-me o mais possível do asfalto e caminhar pela areia.
Li descrições do Portinho nas crónicas que o João Benard da Costa fazia no jornal Público e sempre ouvi referirem-se a Sebastião da Gama como o poeta da Arrábida. «Pelo sonho é que vamos».
Tenho que conhecer alguma coisa daqui. Parto da Figueirinha apinhada de gente que vem de Setúbal. Sortudos por terem uma praia tão bela ao pé de casa!
Noto logo algumas diferenças em relação ao Norte: o azul do mar é mais intenso, a água mais translúcida, o areal mais branco. Há mais luminosidade no céu.
O estuário do Sado e o mar fundem-se numa harmonia de imenso azul. Há uma língua de areia que se estende quase até Tróia, na outra margem (do rio ou do mar?).
Alguns vultos caminham parecendo suspensos na água e há barcos de recreio ancorados ali.
Regresso à estrada, passo por um túnel num passadiço lateral em madeira. Do meu lado esquerdo tenho o mar e pinheiros bravos que protegem a encosta e, do lado direito, a Serra da Arrábida com os seus picos e vegetação rasteira.
Desço para a praia dos Galapos e caminho junto à água, passo numa zona rochosa e chego a outra praia. Não sei se continua a ser a mesma, visto que há continuidade entre as duas e estão encostadas uma à outra. Aqui há mais reentrâncias rochosas e pequenos abrigos, ideais para mergulhos. Não descubro continuação. Tenho que subir e seguir em frente pela estrada. Passo entre a vegetação rasteira que cobre o acesso a esta praia. Há vários caminhos de terra, podia entreter-me algum tempo por aqui a calcorreá-los.
As cigarras cantam intensamente e sinto um cheiro familiar a camarinhas. Estas são pretas, tipo groselhas. Não me atrevo a prová-las. As comestíveis são brancas.
Chego à estrada. Continua a haver carros e mais carros estacionados nas bermas. Um pouco mais à frente começo novamente a descer para o mar e visito a Estação Arqueológica de Creiro.
Aqui existiu um centro de salga do peixe no tempo dos Romanos. Recordo Tivoli, perto de Roma. São muito modestas estas ruínas comparadas com as outras, contudo o calor, o cântico das cigarras e a sensação de estar numa ambiência mediterrânica são muito idênticas.
Vê-se o mar ao fundo entre os pinheiros. Será que os trabalhadores da salga teriam tempo para apreciar esta beleza paisagística? Quais os conceitos estéticos da época?

No areal, vou até ao fim. Tenho dúvidas se já cheguei ao Portinho, aqui não há praia , só um minúsculo cais sobre a brita. Talvez por isso se chame «Portinho». A praia estende-se antes de chegar aqui, no Creiro. Isto, afinal, é só uma extremidade dessa praia. Uma escola de mergulho, meia dúzia de casas bonitas e um ou dois restaurantes.

Regresso disposto a ir mergulhando nas praias mais bonitas. Fiz o reconhecimento dos lugares e adquiri a noção da distância e da demora. Foi fácil, em duas horas, com calma e parando cheguei aqui, agora posso mergulhar mais à vontade. Tenho muito tempo.

Vejo algumas pessoas a seguir em frente depois do areal do Creiro. Resolvo descobrir o que há mais além, passo por rochas, tendo que caminhar algumas vezes dentro de água. Como há outros a fazer o mesmo, sigo até onde puder. Chego a um areal fino e branco, de água translúcida com uma ilhota em frente. Conto as pessoas, quinze comigo.
Um sítio excelente. Estendo a toalha. À água é límpida mas fria. Entro até ter água pelo pescoço e vejo nitidamente a ponta dos meus pés.
Demoro-me a dar alguns mergulhos e estendido na toalha. Tenho que regressar para experimentar mais mergulhos noutras praias e porque a maré está a subir.
Já não é tão fácil passar entre as rochas, agora a água chega-me à cintura. Mais uma hora e teria que nadar e molhar a mochila e a máquina digital. Estragaria tudo.

Volto a passar na estação arqueológica e sigo para a praia dos Galapos pelos caminhos de terra entre os arbustos. Há vários, não sei bem qual deles é o correcto. Vou andando na direcção do mar e dou de caras com outra praia não vigiada. A água é de um verde transparente, a verem-se as rochas junto às encostas que a abrigam. Tem pouca gente. Demoro-me aqui com mais um banho e no regresso tento memorizar o caminho de terra correcto para amanhã trazer as minhas queridas companheiras e fazer-lhes uma agradável surpresa.


Na praia da Figueirinha reencontro-as e digo que esta praia é boa, mas que amanhã vamos para outra com menos gente e muito bonita também.

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