sexta-feira, 10 de julho de 2009

Do Porto a Espinho (com alguma utopia)


Nos Aliados encontram-se expostos até 19 de Setembro, dia em que serão leiloados, 100 manequins.
Estes bonecos significam, de acordo com o projecto da exposição, a utopia de transformar o Homem num ser total de liberdade e de sonho, um ser incluso e sem qualquer segregação.

Transcrevo uma parte do folheto que me foi entregue:

“Há no Homem duas perspectivas de vida: o que se submete a uma necessidade contra a qual nada pode e o que procura a fonte original que está na base da liberdade Humana. É esta segunda perspectiva que leva à busca do Homem Total.”

Esta é uma iniciativa do Espaço T, uma instituição que desenvolveu este projecto e cujo lucro reverterá a seu favor.

Vale a pena visitar esta “utopia” de seres únicos, individuais e livres.

Foi um bom mote para iniciar a minha deambulação do Porto até Espinho.

Não tenho limite de tempo, estou inteiramente por minha conta e sem compromissos, não levo mochila, vou discretamente com algum dinheiro no bolso, a máquina digital, o telemóvel e uma roupa leve de Verão. Podia muito bem passar por um qualquer transeunte na Rua de Santa Catarina a caminho de uma loja ou do trabalho. Ninguém poderá imaginar que me preparo para fazer 20 quilómetros a pé até Espinho, ainda bem. O único indício poderão ser apenas as sapatilhas em Gore-Tex.

Passo na livraria Leitura para levantar um livro que encomendei on-line. Estaria disponível em 48-72 horas. Como nunca mais recebia a confirmação para efectuar o levantamento resolvi passar por lá. Ainda não o tinham e já passou mais de uma semana desde a encomenda – Mais um ou dois dias. Para estar atento ao meu correio electrónico – Disseram-me.

Aproximava-se a hora do almoço e comida vegetariana, naquela zona, além do Larica que serve umas francesinhas fabulosas, que eu conheça, só o “Piolho”. Vou para este último e escolho um hambúrguer à base de cogumelos.
Reparo nas placas que foram sendo colocadas nas paredes pelos grupos de estudantes que aqui passaram muito tempo em convívio e estudo. Estudo. É o que dizem algumas. Embora me faça alguma confusão perceber como é possível estudar num café abarrotado de gente e sempre com ruído.
O “Piolho” só fecha três horas por dia, entre as quatro e as sete da manhã. Aqui passam todo o tipo de pessoas, desde os idosos para o seu cafezinho e ler o jornal comprado no quiosque da entrada, até aos estudantes e turistas que começam a lotar por completo o interior e a esplanada a partir da noite.
Uma das placas refere-se aos 100 anos do Âncora Douro, o nome oficial do “Piolho”, comemorados em Junho último.

Sigo o caminho pelo Campo dos Mártires da Pátria, onde ficava a antiga porta do Olival que era uma das entradas na cidade medieval e a Cadeia da Relação, onde agora funciona o Centro Português de Fotografia.
Nesta parte situava-se o bairro Judeu, onde hoje passa a Rua de São Bento da Vitória com o seu mosteiro do mesmo nome e a igreja de Nossa Senhora da Vitória.


Uma placa no muro do mosteiro relembra-nos que aqui foi o bairro Judaico:

“Em memória dos Judeus Portugueses vítimas do infame Decreto de 1496 que só lhes deu a opção à conversão forçada ou à morte.”

Uma das panorâmicas mais interessantes que se usufrui da cidade é no pequeno jardim abandonado ao fim desta rua, de onde se avista Gaia, os telhados da Ribeira e a porta poente da sé.

Mais em baixo, já no início da Rua Nova da Alfândega, resolvo entrar na igreja de São Francisco. Para mim um dos monumentos mais bonitos da cidade. Por 3€ pode-se ver a Igreja, as Catacumbas e a Casa do Despacho da Venerável Ordem Terceira, a entidade que tutela este conjunto patrimonial.

Os primeiros Franciscanos chegaram ao Porto no século XIII onde, após várias vicissitudes com o clero local, acabaram por fundar um pequeno convento, regendo-se pela simplicidade e o desprendimento dos bens terrenos, de acordo com a vida do seu fundador, São Francisco de Assis.

O que se observa pouco tem a ver com a pobreza Franciscana. O interior da igreja é revestido a talha dourada com capelinhas laterais, retábulos e um magnífico altar-mor em madeira policromada e santos esculpidos.

Antigamente, existia o hábito frequente de assegurar “um lugar no céu” a troco de oferendas ao clero. Estes frades tiveram o mérito de caírem no goto de algumas famílias nobres da cidade que escolheram a igreja para o panteão das suas famílias e que, assim, foram enriquecendo o espólio, a decoração e o espaço do convento inicial, através das suas inúmeras doações.

Os Franceses, na segunda invasão, transformaram o convento num estábulo e, nas guerras liberais, o exército do Rei D. Pedro IV, maçónico e liberal, expulsou os frades, contrários à sua ideologia.

Com a implantação definitiva do liberalismo em Portugal, o mosteiro acabaria por ser doado pelo estado à Associação Comercial Portuense, que transformou uma das suas alas no actual Palácio da Bolsa.

O Museu de São Francisco é tutelado pela Venerável Ordem Terceira. Nas catacumbas estão os jazigos dos benfeitores da ordem sepultados até 1866, em conformidade com a as Leis Sanitárias de Costa Cabral que proibiram o enterro dentro das igrejas e que muita agitação social provocou em Portugal, principalmente no Norte mais católico e conservador. A guerrilha da Maria da Fonte foi um episódio desse período.


Depois desta visita continuei sempre junto ao rio até ao pequeno cais de Lordelo do Ouro, mais ou menos em frente ao Bairro do Aleixo, onde por um 1€ apanhei o Flor do Gás para a Afurada.
É uma pequena lancha com capacidade para 20 passageiros com uma parte coberta e um pequeno deck. Vim sentado cá fora, encostado à grade, sentindo a brisa do Atlântico a poucas centenas de metros.


A Afurada é uma terra de pescadores e é um dos poucos sítios em toda a marginal de Gaia que mantém a tipicidade do passado, a par da Aguda, outro local piscatório. Em ambos ainda se podem observar as pequenas embarcações artesanais ancoradas no cais, os velhos a remendar as redes, as mulheres em avental e os homens nas esplanadas das tascas sentados a conversar e a beber. As mulheres não se misturam, mantêm-se em grupos à parte.
Junto da entrada de um restaurante, um fulano assa umas sardinhas cá fora. Estou mesmo em terra de pescadores! Agrada-me o fumo e o cheiro da sardinha.

Vou em direcção ao Cabedelo, a última parte da marginal a ser remodelada. Agora é possível ir sempre por uma via pedonal desde o Centro Histórico até Espinho.
Junto à foz do rio Douro decido descalçar-me e entrar pela enorme língua de areia que separa uma parte do rio do oceano. É um local muito ventoso. Apesar disso vêem-se algumas pessoas a fazer praia abrigadas junto de alguns rochedos e nos tapa-ventos. Este enorme areal é uma Reserva Ornitológica. De acordo com as placas explicativas que existem, nele podem ser observados várias espécies de aves, entre as quais alguns tipos de garças, gaivotas e maçaricos.

Deixei a margem do rio e, agora, vou junto ao mar desde Lavadores até à Granja, a última praia antes de Espinho. Pelo meio paro no Santuário de Nossa Senhora da Pedra em Gulpilhares.
Esta capelinha impressiona pela sua localização, construída em cima de um rochedo, entre as ondas que batem à sua volta e a areia que a une à terra.
É um local de culto Cristão e de outros menos conformes à doutrina Católica, no qual se encontram frequentemente velinhas a arder cá fora, restos de cera e objectos para promessas, bruxarias e mau-olhado.

Antes do Cristianismo se ter implantado, este era já um local dedicado a cultos pagãos e, pelos vistos, continua a ser uma referência para rituais e misticismos exotéricos, independentemente da religião que actualmente se professa.

A Câmara Municipal de Gaia orgulha-se dos seus quinze quilómetros de praias com bandeiras azuis, o maior número de bandeiras por concelho em Portugal. Infelizmente, quase toda a sua linha de costa sofreu os efeitos da construção maciça de apartamentos e vivendas, são poucos os espaços em que não há uma construção qualquer recente. Apenas a aguda vai resistindo com os seus pescadores à descaracterização do litoral e a Granja ainda mantém algumas das suas antigas casas de férias das famílias ricas do Porto que vinham de comboio passar aqui o verão. Diz-se que o rei D. Carlos tinha cá uma amante.
Um evento que mostra como a Granja era “chique”, foi a assinatura de um tratado político, o Pacto da Granja, entre duas facções esquerdistas do século XIX, originando um dos mais importantes partidos políticos do fim da monarquia, o Partido Progressista.


Há muitos bares ao longo da costa construídos provisoriamente para o verão. São quase todos iguais, muda o nome mas o género mantém-se. Sempre com a música de fundo, o mesmo tipo de serviço e refeições, o mesmo aspecto esterilizado e uniforme, tipo Centro Comercial. Gostaria de encontrar apenas um sem música, nem que seja velho e badalhoco, mas onde seja possível estar sentado a ouvir simplesmente o mar sem a impertinência da modernice.


Chego a Espinho derreado e mal-humorado, talvez o fino que bebi num desses bares me tenha deixado assim.
Cadeia da Relação (agora o Centro Português de Fotografia)


Lado Poente da Sé do Porto

Igreja de São Francisco


Ponte da Arrábida



Afurada

Cabedelo (Reserva Ornitológica)

Nossa Senhora da Pedra

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